A Célula Do Problema
3 Capítulo II
Notas iniciais
Não havia muito movimento na rua, já eram dez horas. A chuva já havia parado algum tempo, e Isaac vinha caminhando da banca de jornal.
Na rua com calçada larga, ele viu um mendigo dormindo no chão, em um papelão, de bruços. Ao lado dele uma lata aberta. O conteúdo da lata brilhava. Eram moedas.
Sutilmente, notando que o mendigo dormia profundamente, passou a andar bem devagar e olhou para todos os lados. Ninguém estava andando por ali. Olhou para as casas: janelas fechadas.
Então passou a comparar a situação em que vivia com a do mendigo. “Eu vivo em um apartamento de Whitechapel e devo três meses de aluguel; se a dona perder a paciência e entrar com uma ação na Justiça contra mim, eu vou para onde? Para a rua. Por outro lado, o mendigo já vive na rua, e ele não tem que pagar aluguel pra dormir na calçada. Portanto, ele não se prejudicaria muito se perdesse umas cinco libras.”
Esse pensamento inescrupuloso o fez estremecer, mas não o pôde conter, temia pelo futuro. Rapidamente pôs a mão na lata e agarrou algumas moedas, colocou-as no bolso e continuou seu caminho como se absolutamente nada tivesse acontecido.
Depois de virar a esquina, puxou as moedas do bolso e contou: três de 20 pence, duas de 50 pence e uma moeda grande de 5 libras. “Não imagino como alguém pode ter dado cinco libras a um mendigo, só uma pessoa que tenha dinheiro de sobra.”, pensou ele. “Deixando esse detalhe de lado, tenho agora £6.10. Dá pra comprar um livro, ou óculos-escuros, ou dois almoços, ou um flask de whisky. Dá pra comprar passagens de trem pra França, pelo Canal da Mancha, claro. Não, estou bem aqui, vou comprar uma gravata, assim vou enganar os olhos daqueles burgueses desgraçados quanto à minha situação financeira. Não quero parecer um desesperado por emprego.”
Feito isso, tentou lembrar onde se localizava a loja de roupas mais próxima. Ficava na Commercial Road, a uns cinco quarteirôes. Era um trajeto que levava apenas cinco minutos. Lá, era uma via de maior tráfego, e enquanto andava via os carros.
Nunca tivera um carro, nem tinha carteira de habilitação. Seu pai tinha um carro, sim, um Fusca de 1969, com o qual ele ia para as reuniões do sindicato, e que mais de uma vez tinha resistido ao gás lacrimogêneo que a polícia usava contra os grevistas. Quando morreu, Isaac não tinha como pagar os impostos do carro, e o próprio Sindicato de Mineiros da Inglaterra comprou-o, mas mandaram para o ferro-velho depois que uma bala de borracha atingiu o motor. “Ótimo fim para o carro”, pensou ele.
Logo entrou na loja. Um vendedor que se poria a “ajudá-lo” foi repelido por ele. Não foi difícil achar a parte que tinha gravatas. Foi vendo pelo preço, era sempre melhor a mais barata. Seis libras, quatro libras... Uma de três libras. Era toda preta, mas de um tecido muito maleável. Pôs-a em volta do pescoço para ver se ficava bem. Tinha o tamanho ideal.
Com a gravata na mão, dirigiu-se ao caixa. Ficava exatamente do outro lado da loja. Deu o dinheiro à vendedora, que perguntou:
– Precisa que eu coloque em uma sacola, senhor?
– Não, não, vou levar no bolso – falou com seu habitual sarcasmo em relação à perguntas que ele julgava idiotas.
A vendedora não falou mais nada, apenas entregou-o a gravata e a nota fiscal. “Bem, essa não está para sarcasmo hoje”.
Com a gravata enchendo o bolso, ele andou para casa. Seu estômago começava a reclamar da fome. Subiu as escadas com pressa e bateu à porta do seu apartamento, o 201. Não houve resposta. Bateu de novo: nada. “Pra quê David saiu, se ele não faz nada mesmo?” Sentado no degrau, lembrou que estava com uma chave, e foi abrir a porta.
Prontamente percebeu por que não houve resposta. David não o havia percebido, estava escutando um disco dos Beatles, no último volume que a vitrola antiga herdada do pai permitia. Ele estava deitado no sofá, com os olhos fechados.
– David?
– Opa, nem escutei você chegando – sobressaltou-se. Que horas são?
– Onze horas. Da manhã, claro.
– Onde você foi que levou esse tempo todo?
– Fui ler o jornal. Achei um anúncio para emprego. Datilógrafo. Fica aqui perto, vou passar lá mais tarde. E comprei uma gravata.
David riu longamente.
– Uma gravata? Isso é algum tipo de brincadeira? Você, usando gravata?
– Qual o problema? – indagou Isaac entendo a situação, mas se forçando a ouvir a resposta.
– Bem, você só usa essas camisas pólo antigas e calça boca de sino da década de 1970. Não imagino essa combinação.
– Por mais estranho que seja, é melhor – respondeu sério — Dá uma boa impressão, e ainda mais, o empregador é um advogado. Indo com uma aparência séria há mais chance de ser contratado.
– Tá bom, faça o que você quiser. Já almoçou? Tem uma torta salgada já feita aí, cortesia da dona Anne.
– Não, não almocei... – ele congelou o andar, virando lentamente o rosto em direção ao irmão – Como é que é? Cortesia?
– É, convenci-a a fazer essa boa ação.
– O que você fez?! — Isaac ficou abismado.
– Para pessoas como ela, basta contar a sua história de vida e como chegou a essa situação. Ela chegou a ter uma reação emocional muito forte quando eu disse que nosso pai foi assassinado pela polícia em uma greve. Parece que aconteceu a mesma coisa com o irmão dela. Aí ela saiu sem lembrar que você devia três meses de aluguel, e ainda por cima deu metade de uma torta salgada.
Os dois desataram em risos e foram se sentar à mesa onde estava a bandeja com o vistoso prato. Cada um pegou o seu prato e se serviu, ainda sobrou um ótimo pedaço.
– Eu a conheço já há algum tempo, e não imaginei que fosse possível para ela.
– Às vezes, certas obras precisam de um crítico diferente.
Depois da refeição, Isaac deitou-se no sofá e David virou o disco.
– Onde você conseguiu esses discos mesmo, David?
– Foi há dez anos. Eu caminhava, sozinho, pelo centro da cidade e um dia encontrei um sebo de discos, Muito baratos. Naquela época eu tinha emprego e dinheiro. Comprei Beatles, Leonard Cohen, The Who, Bee Gees, Rolling Stones, e Violeta Parra. Todos estão aqui, bem guardados – apontou para uma gaveta da estante – mas não consigo mais encontrar o disco da Violeta Parra. Deve ter se perdido na mudança. Foi o único que comprei que não está mais aqui. “Oh, the wind, the wind is blowing...” — cantarolava junto ao Cohen que tocava na vitrola.
– É decerto muito estranho. Será que tem algum sebo de discos aqui por perto?
– Acho que deve ter lá na Batty Street. Não lembro, faz muito tempo que não ando por aqueles lados.
– Ótimo. – seu pensamento já foi fisgado: na primeira remuneração que recebesse do trabalho, compraria uns dois discos de Violeta Parra. Sabia que o irmão, mesmo tendo 39 anos, era tão anarquista quanto um adolescente italiano. Ele não procurava trabalho por isso.
Encostado no sofá, Isaac olhou para a pequena mesa de centro em frente a ele. Um livro grande que ele nunca havia visto. Pegou-o e olhou para a capa: Uma grande cordilheira, em perspectiva de paisagem. Em ótimas condições, um livro novo. O autor era Ernest Hemingway.
– Bem, que tipo de hábito você está desenvolvendo! “Por quem os sinos dobram”! Esse livro deve ter custado cinco libras, como você comprou isso? — perguntou Isaac perplexo.
– Não comprei. Esse livro é do John, o porteiro. Peguei emprestado com ele. Não, não vá se perguntar como um porteiro lê Hemingway. Como você nem sequer dá um “bom dia” para ele, não sabe que ele é um universitário. É costume ler esse tipo de livro lá.
– Primeiro: Não vejo como você pode estranhar um porteiro ler algo assim, já que você mesmo não lia a pouco tempo – disse ele sorrindo de lado – Mas de fato, vejo que há alguns ganhos em falar com esse tipo de gente.
– Penso que talvez, Isaac, você deva se tornar um pouco mais sociável.
– Então esqueça essa ideia, você não tem o hábito de pensar, e quando o faz, não obtém sucesso.
Os dois riram mais um pouco, no que Isaac perguntou:
– Você lavou o banheiro?
Com uma expressão um tanto aterrorizante, David acenou positivamente com a cabeça, enchendo sua resposta com alguns detalhes:
– Não me peça algo assim de novo, Isaac.
– Você também mora aqui, não é? Tinha que mostrar alguma utilidade!
- Argh...
Agora que já tinha certeza que podia usar o banheiro, Isaac se dirigiu ao mesmo onde decidiu tomar um banho. De fato David havia feito um bom trabalho, não parecia o mesmo ambiente que ele havia evitado pela manhã.
Notou imediatamente que a água estava sem pressão: Apenas um feixe de água caia do chuveiro.
Resmungou um pouco, mas mesmo com aquela pouca água, tomou seu banho.
“Seria muito bom ter uma banheira...”
Quando terminou, se enrolou na toalha e foi até o quarto. Passando na sala, observou David cantarolar enfaticamente enquanto fazia algumas expressões habituais.
Abriu a porta do seu quarto, e deu de cara com sua cama, sua máquina de escrever, a caneca de café velho e seu armário. Jogou a toalha em cima da cama e tratou de escolher uma roupa.
Dentro de seu armário ( sim, aquele que ele julgava ter cupins ) estavam algumas de suas roupas, visto que maioria estavam jogadas pela casa. “Ambientes caóticos promovem à inspiração”, pensou ele. Procurou a melhor que tinha e a vestiu, terminando seu visual com uma camisa de mangas compridas, calça e, claro, a gravata.
Não suportou ter que deixar a camisa por dentro. Afinal, a única coisa que importava para ela quanto à estética era...
– Agora está bom – disse ele, colocando o cabelo para trás.
Assim saiu Isaac, não tão fino e social como deveria estar, mas talvez para sua condição financeira atual, muito impressionante. Mesmo que fosse um dia de chuva, não tinha um sobretudo, então apenas pegou o guarda-chuva novamente, por segurança.
Quando chegou na porta de casa, David lhe desejou boa sorte, e ele acenou com a mão dizendo que voltaria em breve.
Desceu as escadas e recebeu um sorriso do porteiro. Lembrando-se do conselho de David, tentou dar um sorriso. Forçado.
Sua boca se movimentou mecanicamente e ele deu algo que julgava ser um sorriso.
“Forçar um sorriso... É difícil! Não adianta, sou horrível nisso.”
Saiu do prédio se perguntando onde estaria Anne naquela hora, conferiu o relógio para perceber que era meio-dia e vinte.
Parou de andar. Um fenômeno estava ocorrendo. Como diabos ele havia gasto mais de uma hora para se arrumar? Havia sido a torta? A conversa?! O banho?! Julgou que, sempre que se está ansioso para alguma coisa, o tempo passa mais rápido.
“ Espera um momento, não é bem assim. Quando você espera muito por algo, o tempo passa mais devagar. Acho que o correto seria dizer que, quando alguém está se arrumando para ir à algum lugar importante, o tempo passa mais rápido.”
Dirigiu-se à Myrdle Street, e no caminho, passou do lado oposto onde o mendigo que havia assaltado estava, virando apenas um pouco o rosto para vê-lo, apenas para perceber que ele não estava mais lá.
Perguntou-se onde ele teria ido e, suspirando, olhou para o céu: Mesmo que o jornal jurasse que choveria toda a semana, parecia que as nuvens estavam dando uma trégua para os humanos. O Sol aparecia, mesmo que só um pouco.
Depois de andar mais um pouco, Isaac chegou ao seu destino, e tratou de procurar a casa do “Burguês advogado”. Encontrou o endereço, uma casa bonita e grande.
Isaac bateu na porta da casa marrom com vigor, três vezes. Em um minuto uma voz empostada o perguntou:
– Quem é?
– Aqui é Isaac Bach, eu vim devido ao anúncio de trabalho como datilógrafo...
– Pois! É comigo mesmo que você quer falar. Clement Burnier em pessoa. Só um momento. Vou abrir a porta.
Escutou uma série de correntes girando e o barulho do tinir de metal. A porta se abriu e ele viu o advogado: um homem com uma barba preta, grande, similar à de certos soldados cubanos, usando óculos redondos. O que o surpreendeu foi que o homem estava apoiado em uma muleta. Só tinha uma perna. Então lembrou que Gerald falou que Burnier havia sofrido um acidente.
– Entre, jovem, pode entrar. Sente-se naquela cadeira ali – falou o advogado.
Obedeceu à ordem e andou até a cadeira. Burnier sentou-se de frente a ele, na mesa, com pouco esforço, apesar do seu problema.
– Pois bem. Introduza-se. Antecedentes? Carreira? Capacitações?
– Sou escritor. Lancei o livro “O Fruto do Dinheiro”, há dois anos. Desde então estou preparando uma nova obra – respirou – Apesar disso, o dinheiro está acabando, e achei melhor conseguir um trabalho, que não consuma muito tempo, para conseguir me manter bem financeiramente.
– Sendo escritor, deve ser ótimo datilógrafo. E conheço esse seu livro, e já o li, e achei muito bom. Li enquanto estive na União Soviética a trabalhos, ele foi lançado lá, você não sabia?
Isaac surpreendeu-se.
– Não, eu não fazia ideia, o editor nunca falou muito comigo.
– Pois é, o Mikhail Gorbachev em pessoa promoveu esse livro, mas isso não vem ao caso, no momento. O pagamento é de 300 libras por semana. Bom pra você?
– Bom não, ótimo. Eu sei que é datilografia, mas o trabalho específico que eu tenho que fazer?
– É o seguinte. Eu estou reorganizando meu arquivo. Sou advogado desde 1961. Tem muitos documentos importantes, alguns manuscritos, que eu preciso repassar. É um trabalho temporário, portanto, mas o arquivo é tão extenso que acho que levará um ano para você concluir. É uma boa remuneração. Só se preocupe em digitar, não se preocupe no que você ler. E a organização das pastas é comigo. Só digitar e nada mais, entende?
– Entendo perfeitamente. – ele afirmou com clareza.
– Agora, você me parece capacitado o suficiente. É um homem de bem. Venha aqui amanhã às dez horas da manhã para iniciar seu trabalho. Assine aqui, por favor – deu um documento que comprovava a contratação. E me dê sua carteira de trabalho para que eu assine.
Foi impressionante. Ele não imaginava que seria tão fácil conseguir aquele emprego. Agora sua carteira estava assinada, trabalharia no dia seguinte, e tudo ficaria bem. Pagaria o aluguel atrasado em três meses. Compraria discos. Suas contas não seriam mais pagas depois do vencimento. Podia ir ao cinema, ao teatro, à discoteca, raves. Tudo estava ali. Maravilhoso.
– Então, um bom dia para o senhor, Mr. Bach. Não esqueça, aqui, às dez horas da manhã – sorriu ao falar.
– Bom dia para o senhor também, Mr. Burnier.
A porta se fechou atrás dele. Sentiu vontade de rir e chorar de alegria. Não, a rua não era o lugar pra fazer isso. Melhor em casa. E foi andando.
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