A Cura

34 Morto ou vivo?



O homem se virou de forma brusca e, sem emitir uma única palavra, lançou-se sobre Taehyung com uma força assustadora. O atirador foi pego completamente de surpresa e caiu de costas no chão, usando os braços para tentar manter aquela figura afastada. Foi então que percebeu os detalhes que, à distância, haviam passado despercebidos. Os olhos do velho estavam completamente esbranquiçados. Não havia distinção entre íris e esclera, apenas um branco leitoso cortado por vasos rompidos que deixavam pequenas manchas avermelhadas espalhadas pelo globo ocular. Um cheiro intenso de carne apodrecida escapava de seu corpo, tão forte que fazia o estômago revirar. Enquanto lutava para empurrá-lo, Taehyung acabou pressionando uma enorme ferida aberta no braço do homem. Parecia uma mordida profunda, que arrancara um pedaço inteiro da carne. Mesmo assim, ele não demonstrou qualquer reação. Não gritou, não recuou, nem sequer pareceu perceber que o ferimento existia.

Jungkook ergueu imediatamente a Magnum, mantendo a mira firme no agressor.

— Senhor, afaste-se! Ou eu atiro!

A voz firme ecoou pela rua vazia, mas o homem simplesmente ignorou o aviso.

Sem querer matá-lo de imediato, Jungkook abaixou a mira e disparou contra sua perna. O estampido cortou o silêncio, e a bala atravessou a coxa do desconhecido, arrancando um jorro de sangue e deixando um buraco enorme na carne. Ainda assim, ele não cambaleou, não gritou e nem diminuiu a intensidade do ataque. Continuou tentando alcançar Taehyung como se o disparo jamais tivesse acontecido.

— Senhor! Vou atirar para matar! Esse é o último aviso!

Desta vez, Jungkook apontou diretamente para o peito do homem. Esperou apenas um breve instante. Diante da ausência de qualquer reação, puxou o gatilho novamente. A bala atingiu o coração em cheio. O impacto fez o corpo recuar alguns centímetros, mas no segundo seguinte, a criatura voltou a avançar sobre Taehyung exatamente como antes, ignorando completamente um ferimento que deveria ser fatal.

— Meu Deus... que porra é essa? — murmurou Jungkook, incapaz de acreditar no que via.

— Inferno! — rosnou Taehyung entre os dentes, ainda lutando para manter o homem afastado. Num movimento rápido, sacou a pistola presa ao coldre e encostou o cano sob o queixo do agressor. O disparo ecoou e a bala atravessou a cabeça, destruindo completamente a parte superior do crânio. Só então o corpo perdeu toda a força, tombando pesadamente sobre o asfalto e permanecendo, enfim, imóvel.

Taehyung permaneceu sentado no chão por alguns minutos, incapaz de desviar os olhos do cadáver à sua frente. Sua respiração ainda estava acelerada, e o peito subia e descia rapidamente enquanto tentava compreender o que acabara de acontecer. Em anos de missões, já havia enfrentado criminosos, mercenários e soldados treinados, mas nunca algo que continuasse atacando depois de levar dois tiros fatais.

— O que... foi isso? — perguntou, voltando o olhar para Jungkook.

— Eu também não sei. — Jungkook mantinha a arma apontada para o corpo caído, certificando-se de que ele realmente não voltaria a se mover. — Mas eu acertei o coração dele... e isso não fez diferença nenhuma. Parece que estamos lidando com algo muito pior do que imaginávamos.

Taehyung respirou fundo algumas vezes, obrigando o próprio corpo a se acalmar. Jungkook então guardou a arma no coldre e estendeu a mão em sua direção. Depois de um breve instante, Taehyung segurou sua mão e se levantou com a ajuda dele.

— Valeu por salvar minha vida, meu dongsaeng.

— Seu dongsaeng? — Jungkook arqueou uma sobrancelha. — Já falei que você não é meu hyung. E não precisa agradecer. Agora você me deve uma.

— Nossa... — Taehyung soltou uma risada, sacudindo a cabeça. — Como você consegue ser tão sem graça? Pirralho chato do caralho.

Antes que Jungkook pudesse reclamar, Taehyung bagunçou seus cabelos de propósito. Jungkook imediatamente afastou sua mão com uma cara fechada.

— Para com isso.— Jungkook arrumou os cabelos — Precisamos avisar o Jin sobre o que rolou aqui. Eles não fazem ideia do que tá acontecendo nessa cidade.

— Concordo. — Taehyung levou a mão ao comunicador preso ao ouvido e ativou o canal. — Jin? Está me ouvindo?

— Oi, Tae. Como estão as coisas por aí?

— Estamos... bem. E... vivos.

Do outro lado da comunicação, Jin percebeu imediatamente a respiração irregular de Taehyung. Havia algo errado.

— O que aconteceu?

— Nós fomos atacados, Jin.

— Atacados? Pelos homens do Ivanov?

— Não... antes fosse. É muito pior do que isso. — Taehyung fechou os olhos por um instante e soltou um longo suspiro.

— Como assim "muito pior"?

— Fomos atacados por um civil. E... eu tive que matar aquele homem.

A última frase saiu pesada, quase engasgada. Mesmo sendo um soldado treinado, tirar a vida de um inocente nunca seria algo simples.

— Um civil? — Jin franziu a testa diante dos monitores. — Como assim, Tae?

— Eu não sei explicar. Tem alguma coisa muito errada acontecendo aqui. Aquele homem... ele não parecia humano. Estava completamente fora de si. Não dizia uma palavra, só tentava me atacar, como se quisesse arrancar um pedaço do meu pescoço com os dentes. — Taehyung passou a mão pela testa, tentando afastar da memória a imagem daquele rosto deformado avançando sobre ele. — E sabe o que é mais bizarro? Ele continuou me atacando mesmo quando levou um tiro no coração, Jin.

— Meu Deus... — murmurou Jin, ainda incrédulo. — Isso é... absurdo. Parece impossível. Mas… graças a Deus vocês estão bem. E o Jungkook?

— Está aqui do meu lado. Foi ele quem me salvou. Eu fui pego completamente de surpresa.

— Então redobrem a atenção, por favor. Não quero perder nenhum dos dois.

— Pode deixar. Vamos tomar mais cuidado.

— Continuem investigando. Precisamos descobrir o que realmente aconteceu nessa cidade. Esperem um instante...

— Certo.

Jin voltou toda a atenção para os computadores à sua frente. Seus dedos correram rapidamente pelo teclado enquanto alternava entre imagens e registros obtidos pelos sistemas de inteligência. Alguns segundos depois, sua expressão mudou completamente.

— Tae... acho que encontrei alguma coisa...

— O quê, Jin?

— O Dimitri sempre foi conhecido por desenvolver tratamentos experimentais para doenças terminais. Union só existe porque recebeu investimentos de grandes empresários, milionários e até do próprio governo russo... — Jin fez uma breve pausa, organizando os pensamentos. — Mas... e se esses experimentos nunca tiveram como objetivo apenas encontrar uma cura? E se Dimitri estiver desenvolvendo uma arma biológica? Se eu estiver certo, a situação é muito mais grave do que imaginávamos. O que ainda não consigo entender é... por que ele quer o Jimin?

— O Jimin foi paciente dele quando era criança. Foi o Ivanov quem curou o câncer que ele tinha.

— Eu sei. — Jin assentiu diante dos monitores. — Na época, os médicos diziam que ele teria apenas alguns meses de vida, mas, depois do tratamento de Dimitri, entrou completamente em remissão. Tae... e se tudo isso estiver ligado? E se Dimitri realmente criou algum tipo de vírus? Meu Deus... espero estar completamente errado, mas, pela forma como você descreveu aquele homem, existe a possibilidade de ele estar infectado por alguma coisa desenvolvida dentro daqueles laboratórios.

— Aquele homem tinha uma mordida enorme no braço. Parecia uma mordida humana... e ele simplesmente não sentia dor. Pelo jeito, não era o único. A cidade inteira parece estar contaminada. Tem corpos espalhados por todos os lados, alguns completamente mutilados. Isso aqui virou um cenário de guerra... ou pior.

As palavras de Taehyung fizeram Jin permanecer em silêncio por alguns segundos. Se aquela hipótese estivesse correta, Jimin encontrava-se preso bem no centro de um desastre biológico de proporções imprevisíveis.

— Encontrem o Jimin. — Sua voz saiu firme, apesar da preocupação evidente. — Vocês precisam sair dessa cidade o mais rápido possível.

— Vamos encontrar. — Taehyung respondeu, esforçando-se para transmitir uma confiança que nem ele sentia naquele momento. — Nós vamos trazê-lo de volta.

— Eu sei que vão. Vocês são dois dos melhores agentes que já vi trabalhar. Voltem para casa vivos... os três. Eu acredito em vocês.

— Obrigado, Jin. Vamos continuar a missão.

— Vou permanecer acompanhando tudo daqui. Assim que conseguir novas imagens ou coordenadas úteis, entro em contato imediatamente.

— Certo, Jin.

Taehyung encerrou a comunicação e desligou o ponto eletrônico.

— O que o Jin disse? — Jungkook perguntou, incapaz de esconder a ansiedade.

— Ele também ainda não sabe exatamente o que aconteceu aqui, mas levantou uma hipótese. Acha que tudo isso pode ter sido causado por algum tipo de vírus. Existe a possibilidade de Dimitri estar desenvolvendo uma arma biológica. Isso explicaria o comportamento daquele homem. E olha só... — Taehyung apontou discretamente para o cadáver estendido no asfalto. — Ele tinha uma mordida no braço. Talvez a infecção seja transmitida dessa forma. Se estivermos certos... não podemos ser mordidos de jeito nenhum.

— Também acho. — Jungkook voltou a encarar o corpo caído, o cenho franzido pela preocupação.

— Vamos, Jungkook. Precisamos encontrar Jimin.

Jungkook respirou fundo, tentando controlar a angústia que apertava seu peito.

— Meu Chim... eu só quero encontrá-lo logo.

— E nós vamos.

Taehyung voltou a empunhar o fuzil e retomou a caminhada, atento a qualquer ruído ou movimento suspeito. Entraram em outra rua, mas o cenário continuava praticamente o mesmo. Veículos abandonados e destruídos bloqueavam parte da pista, enquanto cadáveres permaneciam espalhados pelas calçadas e pelo asfalto, alguns em posições tão grotescas que era impossível imaginar o que havia acontecido ali. O silêncio era quase absoluto, apenas o vento soprava entre as construções. De repente, Taehyung parou bruscamente.

— Tá ouvindo isso? — sussurrou.

Jungkook interrompeu os passos imediatamente e inclinou levemente a cabeça, concentrando-se nos sons ao redor. Após alguns segundos fez um discreto sinal afirmativo.

Os dois passaram a avançar com muito mais cuidado. As armas permaneciam erguidas enquanto caminhavam lentamente em direção ao barulho, procurando não produzir nenhum ruído. Quanto mais se aproximavam, mais nítidos os sons se tornavam. Eram gritos. Alguém estava pedindo socorro. Depois de contornarem uma esquina, finalmente alcançaram uma pequena praça.

Os dois pararam ao mesmo tempo e apontaram as armas para o centro do local. Uma van branca estava estacionada bem no meio da praça. Sobre o teto do veículo, um rapaz tentava desesperadamente se manter vivo. Dezenas de criaturas ensanguentadas cercavam a van, esticando os braços na tentativa de alcançá-lo enquanto batiam violentamente contra a lataria.

— SAIAM DAQUI, SEUS DESGRAÇADOS! ME DEIXEM EM PAZ! — gritava Jeongin, golpeando sem parar as mãos que surgiam ao redor com um taco de beisebol.

Taehyung estreitou os olhos.

— Precisamos ajudá-lo.

Jungkook nem respondeu. Guardou a Magnum, puxou as duas cimitarras das costas e as segurou com firmeza.

— Vamos.