A Cura

35 Vamos ao Shopping



— Tem pelo menos vinte daqueles mortos-vivos. — Taehyung avaliou rapidamente a quantidade de criaturas espalhadas ao redor da van.

— Então é melhor economizar munição. — Jungkook girou as duas cimitarras nas mãos, testando o peso das lâminas antes do combate.

— Também acho, mas não podemos facilitar. Eles são lentos, porém não morrem com facilidade. Pelo que vimos até agora, só caem de vez quando destruímos a cabeça.

— Relaxa, velhote. Eu sou bom nisso. — Jungkook respondeu com um leve sorriso de canto enquanto começava a caminhar na direção dos monstros.

— Velhote? — Taehyung repetiu indignado, falando sozinho por um instante. — Ei! Eu sou só uns quatro anos mais velho que você, seu pirralho.

Jungkook apenas deu de ombros e continuou avançando em direção à van. Os mortos-vivos estavam tão obcecados em alcançar Jeongin que sequer perceberam sua aproximação. Aproveitando a distração, Jungkook desferiu um golpe limpo e preciso. A lâmina atravessou o pescoço da criatura, e a cabeça rolou pelo asfalto antes que o corpo tombasse pesadamente no chão.

Jeongin se virou assustado ao ouvir o impacto do cadáver caindo. Só então percebeu que alguém havia chegado para ajudá-lo.

— S-SOCORRO! Por favor, me tira daqui! — gritou do alto da van, quase chorando, enquanto golpeava desesperadamente com o taco de beisebol as mãos que tentavam agarrar seus tornozelos.

— Nós vamos tirar você daí. — Jungkook respondeu sem desviar a atenção da luta. Em um movimento fluido, girou o corpo e decapitou mais duas criaturas que avançavam em sua direção.

— Nós? — Jeongin procurou ao redor e, alguns metros atrás de Jungkook, viu o reflexo metálico da mira de um rifle apontando para a praça. Seus olhos se arregalaram. — O Exército da Coreia do Sul veio nos resgatar?

— Mais ou menos. — Jungkook esquivou-se de um morto-vivo que tentou mordê-lo, arrancou-lhe os dois braços com um golpe cruzado e, antes que a criatura pudesse reagir, cravou uma das cimitarras através do olho até atingir o cérebro. O corpo desabou imediatamente. — Digamos que o exército, hoje, é composto por duas pessoas.

— Duas pessoas...? — murmurou Jeongin, sentindo um frio percorrer sua espinha. A pequena chama de esperança que havia surgido vacilou por um instante. Ele não sabia se aquilo era um milagre ou uma missão suicida.

A alguns metros de distância, Taehyung começou a disparar com precisão. Cada tiro encontrava a cabeça de um morto-vivo que tentavam cercar Jungkook. Um após o outro, eles tombavam antes mesmo de conseguirem alcançá-lo. Jungkook não olhou para trás, apenas estalou a língua, claramente incomodado por estar sendo "ajudado", e resmungou alguma coisa sobre não precisar que Taehyung o protegesse.

— É... duas pessoas. — respondeu Jungkook, limpando a lâmina de uma das cimitarras na roupa do último morto-vivo. — As duas pessoas mais fodas do mundo. Não precisa de mais ninguém para resgatar vocês. — Fez uma breve pausa e apontou discretamente com a cabeça para trás. — Mas não conta para aquele idiota que eu falei bem dele.

Jeongin acompanhou o gesto de Jungkook e olhou na direção do suposto "idiota". Poucos segundos depois, Taehyung surgiu caminhando tranquilamente entre os corpos caídos, carregando o pesado rifle de precisão apoiado no ombro e exibindo um sorriso simpático, como se não tivesse acabado de atravessar um pequeno campo de batalha.

— Então... achamos um sobrevivente? — perguntou, voltando a atenção para Jeongin.

— Pelo jeito sim. — Jungkook analisou rapidamente o rapaz de cima a baixo. — Parece ser um humano normal.

— Sim, eu sou um humano normal. — Jeongin respondeu enquanto se sentava na beirada do teto da van, respirando fundo para recuperar o fôlego. — Pelo menos até onde eu sei não virei um infectado.

— Infectado? — Taehyung arqueou as sobrancelhas, intrigado.

— Um zumbi. — Jungkook revirou os olhos.

— Morto-vivo, zumbi... tanto faz o nome. — Jeongin deu um suspiro cansado e olhou para os dois. — Vocês podem discutir isso depois? Primeiro, será que alguém pode me ajudar a descer daqui?

— Claro. Vem cá. — Taehyung aproximou-se da van, estendeu os braços e segurou Jeongin com firmeza pela cintura, ajudando-o a descer com segurança para o chão.

— Agora que você está salvo, pode nos explicar o que tá acontecendo aqui? O que são esses... humanos? — Jungkook perguntou, mantendo a expressão séria enquanto observava discretamente os arredores.

— Antes de qualquer coisa... — Jeongin limpou a mão no jaleco já manchado de sangue e a estendeu na direção dos dois. — Meu nome é Yang Jeongin. Eu fazia parte da equipe de pesquisadores do doutor Dimitri Ivanov. E vocês... quem são?

— Kim Taehyung. — Ele apertou a mão de Jeongin com firmeza. — Atirador de elite do Exército da Coreia do Sul e um dos agentes de confiança do presidente Park.

— Jeon Jungkook. — apresentou-se em seguida. — Segurança pessoal do presidente Park e guarda-costas do filho dele.

— Entendi... — Jeongin assentiu lentamente, olhando os dois com um pouco mais de atenção. — Então vocês realmente não são pouca coisa.

— Agora responde à minha pergunta. — Jungkook insistiu, sem esconder a impaciência. — O que tá acontecendo nesta cidade?

Jeongin respirou fundo antes de responder. Seu olhar percorreu lentamente a praça devastada, os corpos espalhados pelo chão e a fumaça que ainda se erguia ao longe.

— Nem sei por onde começar... — murmurou. — Mas acho que o cenário já explica parte da história. Como vocês podem ver, aconteceu um massacre em Union. Só que os responsáveis não foram soldados nem terroristas... foram os próprios moradores. Ou, pelo menos, o que restou deles. Essas pessoas sofreram alterações profundas no organismo...

— Alterações? — Jungkook interrompeu imediatamente, estreitando os olhos. — Alterações provocadas pelo quê?

Jeongin abaixou a cabeça por um instante antes de voltar a encará-los.

— Por engenharia genética.

Jungkook deu um passo à frente, o cenho completamente fechado.

— Engenharia genética? — Sua voz ficou ainda mais dura. — O que vocês fizeram com essas pessoas?

— Nós, não, senhor Jeon. Foi Dimitri. — Jeongin respondeu imediatamente, balançando a cabeça. — Eu fazia parte da equipe de pesquisadores, mas existia um segundo grupo de cientistas que trabalhava exclusivamente para ele. Era uma equipe secreta, com acesso aos laboratórios subterrâneos. Dimitri escondeu aquela operação durante anos. Ninguém sabia o que realmente acontecia lá embaixo. A única pessoa que chegou perto de descobrir foi um dos assistentes dele. O doutor Jung. Ele fugiu antes que pudesse ser silenciado... ou, pelo menos, é o que eu espero. Nunca mais tivemos notícias dele. Não sei se conseguiu se esconder ou se acabou morrendo. — Jeongin respirou fundo antes de continuar. — Quanto a essas pessoas, elas estão infectadas. O vírus mata o hospedeiro, mas, de alguma forma, reativa o corpo pouco tempo depois. Tecnicamente, elas morreram, só que continuam se movendo. Não existe consciência, não existe memória e nem qualquer traço de humanidade. São apenas corpos guiados por um instinto violento. Pelo que consegui observar, a única maneira de neutralizá-los é destruindo completamente o cérebro.

— Nós percebemos isso na prática. — Taehyung assentiu lentamente. — Mas como esse vírus se espalha?

— A primeira onda de contaminação aconteceu quando houve uma explosão nos laboratórios subterrâneos. Uma grande quantidade do agente infeccioso foi lançada e acabou sendo carregada pelo sistema de ventilação do complexo. Depois disso, a transmissão passou a acontecer principalmente pelas mordidas. O vírus entra diretamente na corrente sanguínea através da saliva dos infectados. Basta uma única mordida e a pessoa também será contaminada.

— Era o que eu imaginava... — murmurou Taehyung, voltando o olhar para os corpos espalhados pela praça. Um arrepio percorreu sua espinha ao imaginar quantas daquelas pessoas talvez ainda estivessem vivas quando receberam a primeira mordida, e quanto tempo levaram para perceber que não havia mais nenhuma chance de escapar daquele destino.

— Você disse que existem outros sobreviventes? — Jungkook perguntou enquanto guardava as cimitarras nas costas.

— Sim. Conseguimos reunir algumas pessoas e nos esconder em um lugar relativamente seguro. Temos água potável, comida estocada e conseguimos manter o local protegido até agora.

— Então ainda há sobreviventes... — Jungkook murmurou, sentindo uma pequena esperança nascer em meio àquele pesadelo. — Mas, se vocês têm um abrigo, o que está fazendo aqui sozinho? Onde está o resto do grupo? — perguntou, cruzando os braços.

— Eu saí para procurar medicamentos. Estamos precisando muito deles. Um dos nossos foi mordido e tivemos que amputar o braço dele antes que a infecção se espalhasse. Ainda não sabemos se isso realmente funciona, mas era a única chance que ele tinha. Vim buscar antibióticos, analgésicos e tudo o que pudesse ajudar. — Jeongin deu um sorriso sem graça. — Só espero que o meu noivo nunca descubra que eu saí sozinho, ele vai me matar, quer dizer, se os zumbis não fizerem isso antes.

— Doutor Yang... — Jungkook deu um passo à frente. — Você pode nos levar até esse abrigo? Estamos procurando uma pessoa. Existe a possibilidade de ela estar entre os sobreviventes.

— Claro. Sem problema. — Jeongin assentiu imediatamente. — Como essa pessoa se chama?

— Park Jimin.

— Park... Jimin? — Jeongin levou a mão ao queixo, tentando puxar aquela informação da memória. Fazia tantos anos que vivia isolado em Union que praticamente perdeu o contato com tudo o que acontecia fora da cidade. Depois de alguns segundos, balançou a cabeça negativamente. — Não conheço esse nome. Mas também não conheço todos que estão no abrigo. É possível que ele realmente esteja lá.

— Deus te ouça... — Jungkook abaixou a cabeça por um instante. — Eu só quero encontrar o meu Jimin.

— Seu? — Jeongin arqueou uma sobrancelha, olhando curioso para ele.

— Jimin é o namorado dele. — Taehyung respondeu com um sorrisinho.

— Ah... que fofo. — Jeongin abriu um sorriso sincero. — Então você atravessou meio mundo pra resgatar o amor da sua vida?

— Vocês dois podem parar de graça? — Jungkook respondeu tentando manter a pose séria, embora suas orelhas já estivessem vermelhas. — E sim... ele é o amor da minha vida. Agora chega de conversa fiada. Não temos tempo a perder.

— Certo, certo, senhor Jeon. Vamos.

— Me chama só de Jungkook.

— Combinado, Jungkook. E vocês podem me chamar de Innie. Já passamos da fase das formalidades. Afinal, vocês acabaram de salvar a minha vida. Então, obrigado. De verdade. — Jeongin sorriu, revelando as covinhas nas bochechas.

— Era o mínimo que podíamos fazer, Innie. — Taehyung respondeu devolvendo o sorriso. — Então... para onde exatamente estamos indo?

Jeongin lançou um último olhar para a cidade devastada, respirou fundo e apontou para o horizonte.

— Nós vamos para o shopping.