A Cura

38 Crianças são adoráveis



Jungkook andava atentamente pela cidade sombria e escura. O cenário era de completa destruição, com carros batidos espalhados por todos os lados e corpos jogados ao chão, em sua grande maioria já devorados, tornando impossível imaginar que aqueles restos mortais um dia haviam pertencido a seres humanos.

Mas ele continuava seguindo em frente sem se impressionar com nada daquilo. Talvez uma pessoa comum entrasse em choque diante daquela cena, mas não ele. Afinal de contas, sua vida nunca havia sido fácil, nem mesmo quando era muito novo, e por isso nada daquilo era capaz de abalá-lo. A única coisa que o fazia entrar em desespero era saber que Jimin corria perigo.

Enquanto caminhava pelas ruas escuras e silenciosas da cidade, ouviu gritos e virou o rosto na direção de onde vinha o som. Pareciam gritos femininos, alguém pedindo socorro de forma desesperada.

Ele seguiu na direção da voz. O local parecia ser uma creche ou uma escola infantil. Estava tudo escuro, e não era possível enxergar nada lá dentro. O prédio tinha dois andares, era branco e possuía grandes janelas de vidro. Era fácil imaginar que, durante o dia, aquele fosse um ambiente claro e acolhedor. Vários desenhos de animais fofos decoravam os muros, enquanto as pilastras tinham o formato de lápis de cor. Em circunstâncias normais, seria um lugar encantador. Naquele momento, porém, cercado pela escuridão, por corpos espalhados e por humanos mortos devorando outros humanos, uma creche estava longe de parecer convidativa. Ainda assim, alguém estava lá dentro e precisava de ajuda.

Jungkook respirou fundo e seguiu em direção à escola. A porta de vidro da recepção estava quebrada, com vários cacos espalhados pelo chão, obrigando-o a pisar com cuidado. Acendeu a lanterna e observou tudo ao redor atentamente. O lugar estava completamente revirado, com papéis espalhados pelo chão, livros rasgados, mesas e cadeiras tombadas. A desordem era tão grande quanto a que havia encontrado do lado de fora. A diferença era que ali não havia corpos, apenas respingos e rastros de sangue.

Andou em silêncio pelo que um dia fora a recepção. Então ouviu passinhos vindos dos corredores.

— Olá? Tem alguém aí? — perguntou com a voz firme, procurando por quem havia pedido socorro momentos antes. Agora, porém, não ouvia mais nada.

Continuou caminhando com a arma em uma mão e a lanterna iluminando o caminho, seguindo na direção de onde os passos pareciam ter vindo. Logo avistou uma escada que levava ao segundo andar e apontou a luz para cima. Não conseguia enxergar nada com clareza, mas teve a impressão de que havia alguém ali. Subiu os degraus atento a qualquer barulho ou movimento.

— Olá? Vim ajudar. Tem alguém aí? — chamou enquanto avançava lentamente.

Chegando ao segundo andar, encontrou um longo corredor cercado por salas de aula, com brinquedos espalhados pelo chão. Muitos deles estavam manchados de sangue, e aquela visão fez Jungkook sentir um aperto no peito ao imaginar o que havia acontecido com as crianças que um dia ocuparam aquele lugar.

De repente, ouviu uma musiquinha baixa. Parecia vir daquelas caixinhas de música que tocavam melodias infantis de ninar. Um arrepio percorreu seu corpo por completo. Jungkook não costumava sentir medo de nada, mas havia algo naquela situação que o deixava profundamente inquieto.

Corajosamente, seguiu o som da melodia até chegar a uma pilha de destroços e pedaços de madeira que um dia haviam sido cadeiras e carteiras escolares. A musiquinha irritante e perturbadora continuava tocando sem parar. Ele começou a remover os escombros até finalmente encontrar a pequena caixinha de música responsável pela canção. No centro dela, uma bailarina girava graciosamente ao som da melodia. Jungkook desligou aquele som infernal e respirou aliviado ao perceber que não era nada além daquilo. Foi então que viu um pequeno vulto correr e entrar em uma das salas. Apesar da escuridão, teve certeza de que era uma criança.

— Oi, espere!

Jungkook apressou os passos para alcançá-la. Entrou na sala para onde a viu correr e iluminou o ambiente com a lanterna. À primeira vista, não parecia haver ninguém ali. Havia apenas uma barricada improvisada com mesas e cadeiras, como se alguém tivesse feito uma tentativa desesperada e inútil de se proteger.

Jungkook ouviu alguns sons vindos de trás da barricada de cadeiras. Parecia que alguém estava mastigando alguma coisa. Caminhou lentamente até o local e, quando apontou a lanterna para trás da barreira improvisada, sentiu o corpo inteiro estremecer.

Uma jovem estava estirada no chão. O jaleco que vestia indicava que era uma professora da escola. Jungkook encarou a cena horrorizado. Seu abdômen estava completamente aberto, e uma daquelas criaturinhas, que antes já foi uma criança, se alimentava de suas vísceras, arrancando pedaços com as duas mãos de forma faminta e voraz.

Jungkook permaneceu paralisado por alguns segundos diante daquela visão. Tentou recuperar o fôlego, respirando fundo enquanto o cheiro de carne podre invadia suas narinas. Balançou a cabeça, como se quisesse despertar daquele pesadelo. Não era hora de se desesperar. Precisava manter a cabeça fria para salvar Jimin.

Deu meia-volta e saiu daquela sala. A criaturinha sequer pareceu notar sua presença, completamente absorta em sua refeição.

Seguiu de volta para o corredor por onde havia vindo e parou no patamar da escada, observando atentamente a recepção lá embaixo. Teve a impressão de ver alguém circulando pelo térreo, mas a escuridão dificultava enxergar qualquer coisa. Apontou a lanterna para o local, iluminando melhor o ambiente, porém não encontrou ninguém. Pensou que talvez tudo não passasse de uma ilusão causada pelo cansaço.

Enquanto permanecia distraído olhando para baixo, foi pego de surpresa quando algo se pendurou em suas costas. Pelo tamanho e pelo peso, imaginou se tratar de uma criança. Tentou, a todo custo, arrancá-la de cima de si, mas logo vieram outras, e depois mais outras. As pequenas criaturas agarravam seu corpo, algumas prendendo-se às suas pernas. Exalavam um forte cheiro de carne podre, e Jungkook compreendeu, no mesmo instante, que aquelas já não eram crianças humanas.

À medida que mais delas se penduravam em seu corpo, ele recuava na desesperada tentativa de se livrar delas. Acabou esbarrando no corrimão e perdeu o equilíbrio, despencando até o térreo. Por sorte, as pequenas criaturas presas a ele amorteceram parte da queda. Mesmo com várias delas despedaçadas pelo impacto, continuavam avançando em sua direção, tentando mordê-lo.

Jungkook não queria atirar contra elas. Seu peito doía só de pensar naquilo. Dimitri era um verdadeiro monstro por ter cometido uma atrocidade como aquela.

Chutou algumas das pequenas criaturas para longe e, com dificuldade, conseguiu se levantar. Deixá-las naquela condição seria ainda mais cruel. Respirou fundo, sacou as duas espadas e, com golpes rápidos e precisos, pôs fim ao sofrimento de todas elas.

Saiu da escola mancando. Cair do segundo andar estava longe de ser algo fácil. Ao olhar para o braço, percebeu um caco de vidro cravado em sua pele. Parou por um instante e se sentou no chão para recuperar o fôlego. Respirou profundamente antes de puxar o vidro de uma só vez, soltando um gemido rouco de dor.

— Inferno, porra! — resmungou entre os dentes. Em seguida, abriu a mochila e pegou o pequeno kit de primeiros socorros que Jeongin havia lhe entregado. Não imaginava que precisaria usá-lo tão cedo.

Retirou o casaco, que já estava completamente rasgado e encharcado de sangue, depois rasgou a manga da blusa na altura do ferimento. Limpou o machucado com dificuldade, suportando a ardência, e então enfaixou o braço. Amarrou a bandagem usando a outra mão e a ajuda dos dentes, puxando o esparadrapo com a boca para prendê-lo com firmeza.

Levantou-se ainda cambaleando e jogou um pouco de água no rosto, sentindo-se um pouco mais desperto. Não podia perder mais tempo. Jimin estava em algum lugar no meio daquele caos, esperando por ele.

— Chim... eu tô chegando!

Notas finais
Dica de sobrevivência num apocalipse zumbi: passem longe de escolas e creches.