A Cura

39 Nos esgotos



Taehyung seguia pelos esgotos da cidade. Estava tudo muito escuro, e a única iluminação vinha de sua lanterna. Caminhava com a arma apontada para a frente, atento a qualquer movimento. Se encontrasse alguém por ali, obviamente não seria um humano comum. Afinal de contas, estava no meio dos esgotos.

Segundo as coordenadas passadas por Jin, precisava apenas seguir em frente até chegar a um espaço aberto. Depois, teria que atravessá-lo para alcançar uma porta que daria acesso aos laboratórios. Parecia fácil... parecia.

Ele continuou andando até avistar um estranho rato sem pele devorando outro rato. O roedor deformado avançou contra seus pés, mas Taehyung apenas o chutou para longe.

“O que aquele desgraçado fez com essa cidade?”, pensou.

Respirou fundo e continuou avançando pelos esgotos.

Finalmente chegou à área que Jin havia mencionado. Era um enorme espaço onde várias tubulações de esgoto se encontravam, formando uma grande piscina de água imunda, enquanto a passagem que precisava alcançar ficava do outro lado. Taehyung encarou aquilo com desgosto. Não tinha imaginado que precisaria atravessar aquele verdadeiro mar de merda e sabe-se lá mais o quê.

Olhou para todos os lados, procurando outra forma de atravessar, mas aquela era realmente a única opção. Tentou iluminar a água com a lanterna, porém ela era tão suja e turva que seria impossível enxergar o que havia lá dentro. Teria que criar coragem e entrar naquele imenso tanque sem fazer ideia do que poderia estar escondido sob a superfície. Olhou para a outra borda, onde precisava chegar. Ao menos conseguiria jogar sua mochila e suas armas para o outro lado. Guardou tudo da melhor forma possível dentro da mochila e a prendeu junto à arma. Arriscaria fazer a travessia levando apenas a faca consigo. Tomou impulso e arremessou suas coisas para o outro lado, vendo-as cair bem próximas à borda.

— Vamos lá — disse para si mesmo.

Estalou os dedos e se preparou para descer. Havia uma escada de ferro presa à parede, e foi por ela que começou a entrar no tanque. Não conseguiria descer segurando a faca, então precisou guardá-la e torcer para não precisar usá-la antes de chegar lá embaixo.

Quando chegou à metade da escada, a água suja e espessa já alcançava seus pés. Corajosamente, continuou descendo até mergulhar o corpo naquela imundície, sentindo o estômago revirar com o odor fétido. Quando seus pés finalmente tocaram o fundo, a água já batia em seu queixo. Taehyung mantinha a cabeça erguida a todo custo, tomando cuidado para que nem uma gota daquela água entrasse em sua boca.

Via restos de corpos boiando pela superfície, uma visão que tornava a travessia ainda mais repulsiva. Além da coloração esverdeada e turva, a água estava manchada de sangue em alguns pontos, formando rastros avermelhados que se misturavam lentamente à sujeira.

Taehyung só queria chegar o mais rápido possível ao outro lado. Avançava como conseguia, tentando manter o rosto longe daquela água imunda.

Sentiu alguma coisa passar entre suas pernas.

— Porra, porra, porra... São só peixes, só peixes fofinhos. Peixes como o Nemo, só isso!

Apressou o passo na tentativa de atravessar mais rápido, mas se locomover com quase todo o corpo submerso naquela água espessa era muito mais difícil do que parecia.

Novamente, alguma coisa passou por suas pernas. Taehyung tentou chutar o que quer que fosse, mas a criatura desviou, quase como se estivesse brincando com ele ao perceber seu desespero.

Pegou a faca e, mesmo debaixo d’água, preparou-se para atingir qualquer coisa que se aproximasse. A criatura passou novamente por suas pernas, mas, dessa vez, algo se enrolou em um de seus tornozelos. Taehyung se debateu, tentando chutá-la, porém sentiu o pé ser puxado para baixo com violência, fazendo-o mergulhar involuntariamente. A única coisa em que conseguiu pensar naquele instante foi em prender a respiração e manter a boca bem fechada.

A estranha criatura começou a sacudi-lo debaixo d’água, enquanto Taehyung tentava desesperadamente se libertar usando a faca, golpeando tudo o que conseguia alcançar. Sentia o corpo ser arrastado violentamente de um lado para o outro no meio daquela água suja, sem sequer conseguir enxergar contra o que estava lutando.

Foi então que Taehyung sentiu o corpo ser arrancado da água pelo pé. De repente, estava de cabeça para baixo, com um dos tornozelos preso em algo que o mantinha suspenso no ar. Ainda desnorteado, ergueu a cabeça como conseguiu e virou o rosto, finalmente enxergando com clareza o que o atacava. Tratava-se de um réptil, ou melhor, de algo que um dia talvez tivesse sido um réptil comum que vivia nos esgotos, mas aquela criatura obviamente havia sido geneticamente modificada. Seu tamanho anormal chegava a aproximadamente quatro metros de comprimento, e a pele escura apresentava tons esverdeados. Na cabeça monstruosa, dois olhos negros encaravam atentamente seu delicioso lanche. Presas afiadas, das quais escorria uma substância que parecia venenosa, projetavam-se para fora da boca, enquanto uma longa língua bífida se agitava entre elas.

Taehyung, ainda pendurado de cabeça para baixo, encarava aquilo incrédulo. Apertou a faca entre os dedos e tentou atingir a serpente a todo custo, mas não conseguia alcançar sua cabeça, e suas tentativas sequer pareciam incomodá-la.

Foi então que mudou de estratégia e cravou a faca na cauda do monstro, fazendo a criatura soltar um som estranho, provavelmente de dor. Ao perceber que aquilo estava surtindo efeito, Taehyung continuou atacando-a repetidas vezes. Já irritado com a resistência da própria refeição, o animal envolveu Taehyung com o restante do corpo, enrolando-se ao redor dele e apertando-o até deixá-lo completamente imóvel.

Taehyung sentia o corpo ser pressionado, apertado e esmagado cada vez mais pela serpente. Começava a ficar sem ar, como se seus pulmões fossem explodir dentro do peito. Tentava a todo custo se libertar, mas sua visão já começava a embaçar e o pouco de ar que conseguia puxar mal chegava aos pulmões. Estava prestes a perder a consciência quando uma flecha passou raspando por seu rosto e se cravou violentamente no olho do monstro. A criatura se contorceu de dor e afrouxou o corpo, arremessando Taehyung contra o chão.

Ele estava tonto, com a visão turva e mal conseguia se mover, mas ainda viu outras flechas atingirem o enorme monstro em pontos certeiros, até fazê-lo despencar morto dentro do tanque de esgoto.

Taehyung permaneceu caído no chão, deitado de barriga para baixo, sentindo a superfície gelada contra o rosto. Tentava recuperar o fôlego, mas seu peito doía a cada respiração. Manteve os olhos fixos no que acontecia à sua frente e, mesmo com a visão turva, percebeu alguém se aproximando. Tudo o que conseguia enxergar eram pés calçados com coturnos pretos avançando em sua direção. Não fazia ideia de quem era aquela pessoa, mas sabia que havia acabado de ser salvo. Sem forças sequer para erguer a cabeça e conhecer seu salvador, deixou que os olhos se fechassem e perdeu a consciência.

Yoongi estava em pé diante de Taehyung. Usava uma calça de couro preta justa ao corpo e coturnos da mesma cor, enquanto a camisa de seda vermelha contrastava com sua pele clara. Segurava uma besta nas mãos, mas também carregava uma metralhadora presa às costas.

Ele se agachou para observar Taehyung mais de perto e conferiu seus batimentos, respirando aliviado ao perceber que ainda estava vivo. Então, Yoongi sorriu.

— Acho que já nos conhecemos, senhor Kim Taehyung.

Notas finais
OLHA SÓ QUEM APARECEU! VENHA GATINHO E CUIDE DO TAEHY!