A Cura
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Notas iniciais
Andrew’s POV
Flashback on
— Venha Andrew! Vamos brincar! – dizia April, minha irmãzinha mais nova, puxando -me para perto de seus brinquedos. Como estava linda! Eu ria com sua ingenuidade e pureza.
Ela apanhava os brinquedos meio sem jeito com suas pequenas mãos e me dava com o intuito de pegar. Quando atrás dela vi uma figura que sinceramente não esperava ver.
— Josh!? – o medo de algo acontecer com April tomou conta de mim . Quando eu estava prestes a fazê-la sair de perto dele, já era tarde demais... Ele já a tinha pego. A mesma soltou um gritinho e fechou os olhos, os apertando como se estivesse em uma tortura.
— Não se atreva a fazer nada com ela! Solte-a! Agora! – eu disse, sentindo ódio pulsar em minhas veias. Josh simplesmente se pôs a rir. No momento em que vi o que o mesmo tinha em suas mãos, meus olhos se arregalaram e uma onda de puro pavor percorreu por todo o meu corpo, levando -me ao desespero.
— Por favor! Não faça nada com ela, eu imploro! – eu disse, já podendo sentir lágrimas quentes e grosseiras escorrerem disparadas para as minhas bochechas – mate-me no lugar dela!
— Time’s over! – ele disse sombrio, mas mesmo assim mantendo aquele sorriso doentio e de pura maldade em seu rosto. Então escutei o barulho ensurdecedor que tanto me assombrara em meus piores pesadelos. April caiu no chão. Seu crânio estava perfurado vazando sangue e seus olhos verdes que costumavam ser brilhantes e sonhadores, agora estavam vidrados.
Ela morrera.
Pus meu corpo de joelhos, aproximando-me de seu pequeno corpo, chorando descontroladamente, e beijei sua testa, ainda quente.
— Como você pôde fazer isso? Não sente nada? – eu disse, levantando-me aos poucos, e encarando profundamente nos olhos do mesmo, que aparentemente estavam frios, sem expressar qualquer tipo de sentimento bom, ou arrependimento. E subitamente surgiu o típico, sorriso de superioridade em seu rosto, despertando completa fúria em mim. Espalhando o restiço de amor e outros sentimentos normais que ainda teimavam permanecer em minham pessoa... sendo substituídos por um vazio que me corroía por dentro, transformando-me em uma pessoa completamente diferente. E na realidade não desejava essa mudança ao meu pior inimigo. Mas também temia que tivesse sido transformado em alguém como ele.. Uma pessoa sem um pingo de sensibilidade por dentro, psicopata, assassina, inerte à escrúpulos.
— Para dizer a verdade... não. – o assassino disse, se perdendo no olhar por alguns segundos e rapidamente voltando a me fitar – mas isso não importa agora. Chegou sua hora, meu caro Andrew! Mande lembranças à April! – dizendo o nome de minha amada irmã em uma voz afetada. Mirando a arma em minha direção, pressionando o gatilho com o seu dedo, fazendo o breu tomar por completo conta da minha visão. Sentia-me em paz, minha missão havia chegado ao fim, a satisfação se apossava da minha alma. Pude escutar sirenes fracamente sonoras ao longe, mas nada já me importava àquela altura. Enfim, a minha tão esperada morte. Afinal, minha vida não fazia mais sentido, sabendo que eu não tinha mais ninguém, estava sozinho... até em meu próprio fim.
Flashback off
— AAAAAAHHHHHHH- gritei, o mais alto que minhas cordas alcançaram. Tentando inutilmente me livrar das tristezas do passado. Em uma atitude mais do que defensiva, olhei em volta, à procura dele. Mas conseguia enxergar somente paredes brancas em minha frente. Reconheci de primeira o local que estava, me lembrando exatamente o que aconteceu desde aquele dia. Eu fora acusado como principal suspeito pelo assassinato de minha própria irmã. Tinha realmente estado com a arma em minhas mãos, resultando nos resíduos das marcas de minhas impressões. O tiro me acertara o estômago, e quando despertei, não havia indício algum que comprovava que Josh estivera, de fato, ali. No impulso de uma libertação tão sonhada, peguei a arma já livre das impressões do meu carrasco, e posicionei o calibre em minha boca, podendo almejar por breves instantes, o sono dos mais nobremente merecedores. Porém, não fora o momento certo para o tão anseado juízo final, pois a polícia pôs a chegar antes e me acusar, para completar a desgraça. Aquilo tudo não passara de um sonho infeliz. Mas as evidências que minha experiência havia sido aterrorizantemente real, não eram obras da minha mente tão conturbada, o pesadelo infelizmente não tinha acabado, e pelo o que via, não acabaria tão cedo. Pois simplesmente estava vivenciando-o.
Inesperadamente, uma mulher toda de branco entrou abruptamente no meu quarto, com um semblante preocupado, despertando-me de meus devaneios e me obrigando a voltar para a realidade.
— O que aconteceu??? Eu ouvi você gritar e...
— Nada de mais. Digamos que tive aqueles pesadelos novamente. – interrompi a mesma e encarei o teto, não dando tamanha relevância para essa forma de tratamento tão familiar e repugnada por mim há tempos.
— De novo?? Isso é grave. Talvez devíamos chamar o médico... – disse, sentando na cama inteiramente branca na qual combinava com o quarto e minha roupa.
— Ah, claro que sim! Porque na verdade, eu nunca passei de um doente, um “psicopata” não é? Isso é o que todos pensam ao meu respeito... – eu disse tentando não aparentar a podridão acoplada ao meu coração. Era cínico ao ponto das lágrimas escorrerem pela extensão da minha face, a maldade me consumia desesperadamente como um veneno fatal, deixando-me cada vez mais louco. Ela me observava com um olhar de pena, mas ao mesmo tempo maternal que tinha o poder de me transportar à época que meus pais consolavam-me quando estava receoso ou afogado em amargor.
— Eu sinto muito por isso tudo que esteja passando Andrew. Mas a notícia boa é que você vai ser liberado hoje. Poderá ir para casa, enfim! – sorriu, aparentemente feliz por mim.
— Ao menos uma notícia boa no dia.
— Daqui a pouco tempo o médico responsável por todos aqui virá te visitar para dar-lhe alta. E não se esqueça: tenha fé! – ela disse, antes de sair apressadamente do quarto.
Passadas algumas horas, em plena aflição, escutei os estalos da porta se abrir, e logo deparei com um homem de meia idade carregando uma prancheta em seus braços. Mas o que mais me assustou foi a expressão de dor que havia em suas feições. Talvez por cuidar de vários outros internados mais difíceis de lidar que eu.
— Bom dia senhor Andrew Evans.
— Bom dia.
— Vim notificá-lo de que poderá se retirar da clínica se achar que estiver pronto, é claro. Mas só será liberado sob as seguintes circunstâncias – deu uma breve pausa, meu estômago subitamente embrulhara, causando-me náuseas ao escutar o mesmo pronunciar a palavra “circunstâncias”, imaginando o que ele pretendia me mandar fazer — se frequentar uma escola, isso é certo, e tomar os devidos medicamentos indicados por mim.
— Que seja. Por mim tanto faz. Para ficar livre desse inferno eu faço tudo. – “tudo mesmo” pensei, não tendo coragem de encarar diretamente o médico.
— Então tudo bem. O senhor encontra-se isento dos cuidados médicos propostos por aqui. Esta é a lista dos medicamentos que deverá tomar. – deu o papel em minha mão, no qual velozmente guardei em minha mochila — Espero não te ver mais por aqui. Adeus. – virou as costas e saiu em passos largos, me deixando sozinho outra vez em completa dúvida se aquilo era real mesmo ou não se passava de mais algum de meus delírios.
Apressadamente coloquei tudo o que tinha dentro da mochila, na qual não pesou muito em minhas costas correspondente às poucas peças de roupas que continha dentro, e me direcionei à porta.
Puxei a alavanca da já conhecida entrada de ferro, na qual durante anos sonhei em destravá-la, e me pus para fora daquele maldito quarto. Andando em passos ligeiros em direção a tão desejada saída. Assim, nada me impediu de sentir a brisa daquela linda manhã de sol que há tempos não vivenciava.
Com a chave de meu carro em minha mão na qual tinham me dado na saída, avistei de longe o mesmo estacionado no outro lado da calçada. Atravessei e vi um automóvel sujo e empoeirado. Também, ele deveria estar ali durante todos os anos nos quais estive internado. Provavelmente me esperando... esperando minha liberdade. Entrei no banco do motorista e acomodei minha mochila no banco de carona. Coloquei o cinto, e dei partida, a caminho de minha antiga casa. Efetuei o caminho, que jamais me esqueceria, e parei em frente à mesma.
Observei minuciosamente cada detalhe da casa da casa na qual há tempos, não tinha o mínimo de contato. Em passos extremamente lentos, fui em direção à mesma, me fazendo ter a já esperada sensação de apreensão por minha parte. Mas era certo de que eu teria. Afinal, fora lá onde presenciei o brutal assassinato de April. Torturando-me internamente, tomei a chave de meu bolso, na qual, além de efetuar sua finalidade, que era destravar a entrada, também me levava de volta à todo aquele momento, no qual marcou e virou minha vida de avesso, junto também das únicas e solitárias lembranças boas de minha infância feliz, nas quais guardava como as mais preciosas em minha memória. Destranquei o mais rápido que pude, como um curativo a ser retirado.
O primeiro fenômeno do lugar tão conhecido, no qual fui obrigado a sentir, foi a familiar brisa gelada acarinhando o meu rosto. Tudo estava como eu lembrava... como eu deixei. Nada tinha mudado. As posições dos móveis eram as mesmas, os quadros eram os mesmos, o cheiro de lar, era o mesmo... tudo. A foto dos meu pais, foi a que mais me chamou atenção entre tantas outras. Segurei o porta retrato entre meus dedos visivelmente trêmulos, e visualizei a marcante cena dos dois juntos. Pareciam mais felizes do que nunca...
Deixei o sofrimento de lado e, tentando praticar o menor número de ruídos possível, subi silenciosamente a escada, na qual levava aos quartos do andar de cima. Em minha frente estava o de minha irmã.
Meu coração parou.
Simplesmente afundou em meu peito. Parecia estar sendo partido, literalmente. Ousei adentrá-lo. Então, fragmentos de imagens da morte de April vieram à todo vigor em minha cabeça. Meus joelhos, trêmulos, ameaçavam de ceder a qualquer instante, e assim os fizeram. Quando me dei conta, sem me dar tempo de pensar em algo, eu já estava estirado no chão de mármore de carrara, com meus olhos lacrimejando, e liberando milhões de lágrimas que rolavam até o mesmo, formando uma pequena poça abaixo de minha cabeça. Minha garganta, arranhada, e minha mente a mil por hora, insistia que eu gritasse. E assim foi feito. Soltando todo o ar contido em meus pulmões, gritei palavras sem sentido aparente, e todos os palavrões por mim conhecidos. Após um longo tempo, os gritos foram acalmando, até se tornarem suplicantes murmúrios de angústia e lamentação.
Posteriormente, o pranto cessou. E deu lugar a profunda amargura dentro de mim. Já recuperado, não completamente, é claro, levantei, saindo daquele torturante martírio, sem coragem de olhar pra trás. Teria que aprender a me acostumar com essa maldita dor, afinal, agora habitaria ali.
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