A Cura
3 Latente
Notas iniciais
P.O.V. Andrew
Lembrar de passagens da minha vida antes desse transtorno, já havia se tornado algo do meu cotidiano. Pegava-me a todo instante forçando a memória para relembrar cada momento passado com April. Nossos pais faleceram antes do esperado, eu ainda era um menino quando fiquei responsável pela minha irmã mais nova. Estávamos aguardando alguns dias a chegada de uma tia que iria tomar posse da nossa guarda, quando tudo aconteceu. Jurei vingança contra o autor desse meu martírio, Josh, meu primo. Desde muito novos, antes mesmo da ruivinha nascer, nós sempre competíamos por algo de extrema importância para duas crianças. Já havia constatado que ele não era apenas um garoto meramente comum como os outros não só por suas atitudes atípicas, como por sua forma ameaçadora de me tratar sempre que estávamos sozinhos, sem a supervisão de um adulto. Apesar de seus pais nunca terem notado o seu comportamento decerto suspeito de ser, o seu olhar jamais deixou de ter um brilho insano sempre que conseguia o seu principal objetivo; promover meu sofrimento e angústia.
Flashback on.
— Eu não acredito que você comprou, mãe! — ela segurava uma caixa embalada em um papel
vermelho com um laço customizando o presente que finalmente iria ganhar.
— É claro que comprei, Andrew querido! — meu ânimo estava a flor da pele ao deduzir que enfim iria ter as minhas tão desejadas figuras de ação dos super-heróis que tanto apreciava.
Em um movimento brusco, rapidamente tomei a lembrança de suas mãos enquanto fitava de relance sua expressão dominada pela mais genuína expectativa de ver um filho feliz e realizado.
— Woow, a semelhança com os filmes é idêntica! Olha o Homem-Aranha e o Hulk! Era exatamente o que eu queria, esse é o melhor aniversário de todos os tempos! Te amo, mamãe! — não podia mais conter tamanha felicidade, saltei em cima da minha heroína, posicionando minha cabeça em seu ombro e a enlacei em uma abraço apertado, mas com uma grande gratidão.
Em seguida, peguei os meus mais novos heróis e resolvi ir aproveitar o melhor dia do ano brincando no quintal, e fazendo as artes típicas de uma criança travessa e em fase de crescimento. O céu era azulado e a falta de nuvens denunciava que de forma alguma iria deixar alguém estragar aquele momento tão perfeito. A grama era de um forte verde musgo, e os frutos das mangueiras no quintal estavam de uma cor estonteante, embelezando ainda mais a paisagem tão formidável. Sentei no gramado desajeitadamente, criando cenários imaginativos para os meus brinquedos, quando subitamente senti uma presença atrás de mim. Decidi ignorar pelo mais forte instinto de me iludir, pensando ser algo sem relevância. Mas, infelizmente, sabia muito bem de quem se tratava, e que meu mundo encantado estava prestes a desmoronar.
— O que está fazendo, seu idiota? — Josh debochou com um sorriso sarcástico emoldurando seus lábios finos. — Você é patético! — em um intempestivo impulso, apropriou-se de meus bonecos e removeu as cabeças dos mesmos, arrancando um grito agoniado de minhas cordas.
Sua expressão era de um deleite doentio, parecia se satisfazer em me ver chorar de pura aflição. Após aquele ápice, tive a absoluta convicção da crueldade que antes eu desconfiava, mas agora não me restava mais dúvidas. Tinha consciência de que a minha vida não seria mais a mesma a partir daquele instante.
Flashback off
No dia da prática daquela maldita monstruosidade que acabou com a vida de April, eu soube que algo com um poder acima de nossa vãs filosofias havia se apossado do meu corpo e, principalmente, da minha mente. Agora modificado, pude perceber o real significado de abandono. Que ironia, não? O que eu mais temia aconteceu, transformei-me na pessoa que mais abomino no mundo. Ele se apoderou da minha felicidade, da minha inocência, da pessoa que eu mais amava e, por fim, da minha integridade. Desfigurou-me a alma e maculou minha virtude. Acabarei como o indivíduo repugnante que eu sou, sozinho, temido e amargurado.
Em uma drástica reviravolta, balancei minha cabeça espantando tais pensamentos incômodos e dolorosos. Teria que me concentrar no meu principal desígno: conquistar o meu doce anjo.
Sophia já havia mordido a isca e, aos poucos, a envolveria nos meus tão traiçoeiros encantos. Ela era de um gênero tímido e arisco, mas jamais até hoje uma das minhas vítimas não tinha se deixado seduzir pela luxúria ou o desejo que eu inevitavelmente provocava ao volver dos tempos que convivíamos.
Entretanto, ela tinha algo que me atraía de uma forma impressionantemente forte, parecia algum tipo de ligação que nos conectava. Embora, ela ser de uma aparência tão estranhamente familiar, eu estava extremamente eufórico com a ideia de poder fazer o que bem entendesse com aquela garotinha. Ela era pequena e franzina, de uma aparência frágil e delicada, o que me facilitaria muito quando fosse a hora certa. Veríamos se ela seria capaz de resistir as minhas investidas e não se render ao completo inevitável.
***
1 semana depois.
Eu e Sophia já havíamos construído uma forte confiança, o que era muito importante para o andamento dos meu planos. Nós sempre passávamos as horas vagas e os intervalos mantendo contato, seja virtualmente ou pessoalmente. Ela tinha a bondade dígna de uma criança com os sonhos ainda vívidos no coração, o que me proporcionava a mais pura das delícias. Era completamente diferente dos mundanos que já tinha tido o prazer (ou desprazer) de conviver e exaurir com suas motivações. O último indivíduo que assassinei sem o mínimo de piedade foi uma jovem no hospício. Apesar de ser meses de idade mais nova, não deixei me comover por sua inexperiência. Era confuso o estágio em que me encontrava, tanto que cometi um deslize tão fatal quanto deixar que desmascarassem-me. Essa passagem serviu como lição para o meu descuido imonótono. A menina havia presenciado um crime que teria decorrido no local. O causador seria nada mais nada menos que o tédio que se instalara em mim no dia do fatídico "acidente", acarretando um acesso de êxtase ao liquidar um guarda desaforado e executor de ameaças mal cumpridas aborrecentes. E isso decorreu o restiço de rastros imprudentes por minha parte. Sem saída, ou melhores opções, a esfaqueei com o uso de luvas, livrando-me das provas de extrema importância, enterrando juntamente a ela, meus segredos tão sombriamente sórdidos.
Flashback on
A cada passo que eu dava, a jovem recuava um até o momento de ser impedida por uma parede atrás de si. Sua expressão era de puro pavor, seu olhar denunciava o terror em me ver tão próximo a ela. O pânico estava estampado naquela bela face, o que alimentava a minha ânsia desenfreada de testemunhar o caos. Afinal, ela tinha consciência que chegara sua hora.
— Por favor, deixe-me em paz! Eu juro ficar quieta quanto ao que você fez, não conto a ninguém, moço! Por piedade, não faça algo que se arrependa depois, eu imploro! — se ajoelhara com lágrimas escorrendo por seu rosto, tendo ainda uma esperança inútil como forma de sustentação.
As súplicas eram saborosamente inebriantes. Regojizo-me até hoje com os sonoros pedidos da pirralha, ao me lembrar dessa cena tão marcante e aprazível.
Deslizei a ponta afiada da adaga em seu pescoço pressionando levemente, provocando um pequeno corte. Já podia sentir a lascívia percorrer minhas veias, fazendo meu membro pulsar pela forte excitação momentânea. Ela emitiu um gemido de dor inaudível, incitando uma sensação maravilhosa, mas ao mesmo tempo macabra no meu interior. O sangue escorria como uma singela cascata escarlate. Podia sentir o aroma de medo que ela exalava, fazendo-me degustar do seu sofrimento.
— Você foi uma garotinha muito má, Emily. — sussurrei em seu ouvido, mordendo o lóbulo de sua orelha, iniciando uma risada gutural que a fez estremecer sobre meus braços — E sabe o que acontece com quem não dança conforme a minha música? — perguntei sarcástico, notando o lento balançar de cabeça, indicando um negação — Eles não sobram para contar história! — em um único e irrevogável ato, atravessei a arma branca em seu coração, observando seu corpo desfalecer sobre o chão, como num manto de perdição. Sua pulsação estava fraca, e sua respiração entrecortada em meio aos últimos suspiros vitais, agonizando por tamanha dor que sentia. Um imperceptível, porém, ardiloso sorriso de satisfação surgiu em meus lábios. Como todos os que foram infelizes ao cruzar meu caminho, Emily foi mais uma dos que não suportaram ao desgosto de me conhecer, e sucumbiu ao tão sublime descanso.
Flashback off
Felizmente, nada mais me preocupava, pois a única dor antes tão agonizante, já não era tão difícil de lidar, tendo em vista que já havia me habituado a conviver em minha antiga morada sem me relembrar a todo instante de tudo o que passei. Em uma reação colateral já esperada, era costantemente atormentado por demônios perversos do meu passado, como o ódio que encorajava-me a manter o exímio desejo de vingança contra Josh, corroendo-me por inteiro.
— Refletindo? — Sophia me indagou com uma curiosidade exacerbada, despertando-me dos meus antigos e vagos devaneios.
— Sim, mas nada que seja merecedor de sua utilidade, sweetheart. O que carrega em suas mãos? — ela segurava algo o qual estava impossibilitado de ver em razão da sua má posição.
— Oh, é um livro. Aprecio muito as irmãs Brontë por obra de seus contos mirabolantes e criativos. Além de ter uma linguagem menos usada e informal, é claro.
— Interessante, docinho. Agora compreendo seu modo um tanto peculiar de se portar. — seu contrangimento era nítido ao reparar na mansidão de minha voz, transparecendo uma falsa amabilidade e gentileza. Era tão dissimulado quanto uma serpente maliciosa e sagaz, o que era até para mim, de uma frieza surpreendente.
***
Percorria com passadas largas o caminho da minha casa, imaginando como seria se tudo não houvesse passado de um sonho e nada do que supunha ter acontecido, de fato, tivesse acontecido. Talvez minha existência não faria tanto sentido, e algumas decisões teria tomado trajetos diferenciados das que ainda refletiam por uma ambição desgovernada.
Com a cabeça preenchida pelas mais pérvidas inquietações, dirigi-me a porta principal, tendo uma surpresa ao encontrar um misterioso bilhete escrito por letras de uso antigo, em frente a entrada, aparentando ter sido feita com uma provável máquina de escrever estando certamente em desuso.
"Não se iluda ao pensar que ela é apenas uma adolescente comum, meu caro. Ainda descobrirá muitas confidências encobertas por pessoas do seu passado. O imaginável irá se tornar o mais hediondo inimaginável.
De alguém disposto a ajudar,
Mr. T"
Perplexo com os inusitados dizeres do intrigante recado, acomodei o mesmo no bolso de minha jaqueta para investigar posteriormente.
Sobrepus meus trajes em meus aposentos, vestindo algo mais confortável. Após um longo tempo de análise, fadigado aos extremos, entornei em um cálice uma dose da minha bebida predileta a qual jamais ousou me deixar na mão em fases lamentavelmente ruins da minha vida, Punch*. Precipitei-me em pressupor minha vitória antecipadamente, algo demasiado estranho nesse enígma não se encaixava de forma alguma.
Talvez, alguém soubesse além do necessário sobre Sophia. Não tinha uma forma específica de idealizar ou reconhecer o sujeito que teria concretizado essa ousadia. A única pista seria a caligrafia incomum da escrita em extinção. Repentinamente, em uma maldita distração, o coquetel espalhara-se pela cédula que continha o aviso tão imoralmente descabido, originando uma total exasperação que invadiu o meu peito. Agora, não havia como solucionar quem seria o indesvendável responsável por tal circunstância.
Doravante, iria me empenhar para esclarecer a incógnita fundada por esse desconhecido. Seja essa pessoa uma ameaça ou não, teria que dar um basta nessa condição. Se não fosse por meu interesse, seria por minha tão temida honra.
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