A Cura
9 Capítulo 9 - A mansão assombrada.
Notas iniciais
Final do Capítulo 8: Victor está muito assustado. O homem negro também. Os outros dois estão mortos e jogados. Jogados como lixo.
Meia hora se passa e Victor chega à mansão de Diana. Com parte da roupa queimada, rosto sujo e sem o tênis direito, bate a campainha.
- Só pode ser o Victor. – Jordana se levanta. Ela abre a porta e se impressiona com o estado do seu marido. Prossegue. – Onde você estava? Porque está desse jeito?
- Posso entrar primeiro?
Ele entra ansioso. Repara que a casa está bem limpa e sente-se um pouco envergonhado por isso. Victor está completamente sujo, e sabe que todos perceberam isso. Decide manter-se calmo, pois, apesar do seu estado físico, o que tem a contar é mais importante. Após cumprimentar Alan e Diana, senta-se à mesa.
- Bom, como posso dizer... Eu fui demitido. É. Eu fui demitido.
- O quê? – Diz sua esposa.
- E eu quase morri. – Interrompe, impedindo uma discussão desnecessária.
Diana fica boquiaberta, deixando parte do arroz que estava mastigando cair. Alan se levanta da mesa. Como sempre, se surpreende. Afinal, sempre que pensa que estão livres, algo acontece. Ele diz:
- Como assim? Quase morreu?
- Um caminhão bateu no poste, que quase caiu em cima de mim. – Victor explica dizendo, lentamente, palavra por palavra, para que todos entendam. — Eu fiquei preso entre ele e o muro. Os fios se arrebentaram, o caminhão pegou fogo. Por sorte eu consegui escapar.
- Não tinha ninguém lá?
- O caminhoneiro desmaiou. Outros dois homens foram ajudar e, quando um viu que ia explodir, saiu. O outro não. Quando conseguiu tirar o caminhoneiro, o caminhão explodiu.
- Droga. Pensei que havia acabado.
- De novo? – Pergunta Diana.
Eles poderiam continuar falando, mas, de repente, um vento muito forte, similar ao que passou pela escola, entra pelas janelas da mansão. Muitas portas se batem. As pontas do pano da mesa de jantar são levantadas e as taças começam a cair e se quebrarem no chão. Todos se levantam e as luzes se apagam. A energia acaba e uma inicia uma forte tempestade. As roupas e os cabelos de todos balançam cinematograficamente.
- Eu acho que... – Diz Alan, com bastante dificuldade devido ao vento. – Precisamos salvar um por um para acabar com isso.
- Agora é a droga da vez de quem? – Grita Jordana.
- Quem morria depois do Victor? – Pergunta Alan.
- A torre explodia. Acho que era o Robert.
- Mas ele já morreu! – Grita. – Quem é o próximo?
O lugar está um caos. Quando Diana pensa em andar para trás, um enorme lustre pendurado no teto se solta e cai em seu corpo. Ela fica presa no chão. Os sentimentos de medo e pânico invadem sua mente de forma brusca junto a um caco de vidro, que atravessa rapidamente superfície de sua testa. O medo aumenta quando ela raciocina. O que ela mais temia pode agora se tornar realidade: o fato de Robert ter morrido em seu lugar pode ter sido apenas uma troca.
- Ai... Ai... Eu não estou sentido minha testa... Tira isso daí... – Geme sem forças.
- Eu preciso tirar esse lustre de cima de você! Merda, me ajuda Victor. – Diz Alan.
Alan puxa o caco de vidro preso lentamente. A atriz grita e chora ao mesmo tempo. O caco é maior do que o esperado, e junto a ele, um pedaço da pele se rasga. O sangue jorra. O vento não cessa e derruba duas garrafas de vinho seco em volta deles. No mesmo instante, Jordana, que estava do outro lado da gigante mesa de jantar, sente um cheiro forte de gás. Ele está vindo da cozinha. Está tudo dando errado. A morte parece ter plantado uma situação para matá-los.
- Gás...
Diana levanta levemente sua cabeça ensanguentada e diz baixinho:
- Lourdes.
Jordana, logo, corre para a cozinha. O cheiro se intensifica na medida em que chega. Pela porta, vê a cozinheira tranquila, prestes a acender uma boca do fogão.
- Lourdes, fecha esse gás.
- Que gás? Não estou sentindo cheiro nenhum.
Jordana, não pensando muito bem, apenas agindo impulsivamente, pega uma faca em cima de um móvel e, andando lentamente ao fogão e com raiva expressada em seu rosto, diz pausadamente.
- Apaga esse fogo. Agora.
- Saia daqui, sua negra esquisita. – Responde Lourdes inusitadamente.
- Jordana, volta! – Grita Alan.
Ela corre e se joga para fora da cozinha no exato momento em que a cozinheira acende uma boca. Em menos de um segundo, o fogo toma conta de toda a cozinha e objetos ao redor começam a incendiar. Sem tempo de dizer a última palavra, Lourdes grita até ser consumida pelas chamas. A visionária cai na sala de jantar e é arrastada dois metros pelo chão junto a outros objetos queimados. Levanta-se correndo e tropeçando pelo liso chão de porcelanato. O fogo a segue através da cortina, e encosta no vinho derramado, seguindo o líquido em uma linha que se finda em Diana.
Os homens conseguem retirar o lustre de cima da atriz. As chamas se aproximam rapidamente. Victor amarra um pedaço de pano em sua cabeça, impedindo que o sangue jorre ainda mais. No momento em que o fogo encostá-la-ia, Alan a levanta com força, e todos correm para a porta principal. Ansioso, Victor puxa a maçaneta para tentar abrir, mas ela se solta em sua mão. Arrombar é impossível. Eles têm pouco tempo.
- A porta está trancada. – Diz desesperadamente.
- Essa casa vai explodir! – Responde Alan.
No mesmo instante, Jordana pega uma cadeira próxima, corre em direção à janela e arremessa o objeto ao vidro, quebrando-o.
- Por aqui! – Diz.
- Você não é boba nada. – Diz Alan.
O volume da tempestade aumenta. Alan sai primeiro, com Diana no colo. Logo, Victor sai puxando mão de Jordana.
- Vamos, corram. – Grita Alan, correndo.
Nesse instante, o fogo se espalha pela maior parte da mansão. Eles correm pelo jardim, sujando os calçados de barro. A residência finalmente explode. Eles se jogam ao chão (Alan somente se agacha, para não machucar Diana) enquanto os destroços se espalham pelo imenso jardim meio às poças de água formadas pelo temporal. Eles estão totalmente descontrolados e abalados. Só levantam-se após ter a certeza de que mais nada explodirá.
- Victor, segura. – Diz Alan, entregando Diana para ele.
- Jordana, venha comigo.
Caminhando molhados e sujos, eles se aproximam dos destroços da mansão.
- É muito perigoso aqui. – Ela diz.
- Se eu sou o próximo, vou facilitar as coisas. Eu acho que entendi o jogo. O negócio é salvar todas as pessoas que sobreviveram ao acidente! Assim, a morte não conseguirá ter pego ninguém e estaremos salvos! Essa pilastra logo irá desabar, ou o fogo chegará até aqui. Eu vou ficar em frente a ela. Você irá empurrá-la. Vou ficar de olhos fechados.
- Como irei te salvar?
- Não será difícil. Preste bastante atenção. Quando perceber que a pilastra me esmagará, me puxe. No exato momento.
- Está bem. Vamos lá. Um, dois, três e...
Ela empurra a pilastra, que começa a cair em direção a Alan. Ele fecha os olhos e diz.
- Anda, me puxa, me puxa!
Ela obedece e puxa no exato momento em que seria esmagado, salvando-o. Ele suspira aliviado. Aguarda alguns segundos e diz:
- Agora você precisa ser salva, é a próxima.
- Não preciso.
- Como não?
- Eu não preciso.
- Como assim, não precisa? – Ele fecha a cara.
- Eu não morria na visão.
- Sério? Jordana! — Ele se alegra.
- Você fica feliz por isso, Alan?
- Mas é claro que sim, Jordana! Você é uma prima que eu amo muito. – Ele a abraça, então prossegue. – Nós impedimos a morte de todos! Nós vencemos!
— Sim, nós vencemos.
Nesse momento, enxerga Victor se aproximando com Diana no colo. Ele a entrega para Alan, que percebe que ela está acordada.
- Diana...
- Eu... – Ela interrompe. – Só estou com uns cortezinhos. Poderia desamarrar esse pano da minha testa?
- Claro. – Ele desamarra e então pergunta. – Você está bem?
- Se eu estou com você, eu estou bem.
Essas palavras serviram como o maior conforto que ele poderia receber nesse momento. Segurando ela no colo, ele a beija. Jordana e Victor ficam encantados com a cena. A tempestade para. As estrelas simplesmente aparecem. As nuvens desaparecem num instante, deixando o céu limpo e a noite tranquila, como se nada disso tivesse acontecido. Agora todos estão tranquilos.
- Diana, qual o problema com a sua cozinheira? – Pergunta Jordana.
- Ela perdeu o olfato.
- Ah sim... E é racista também. Pois é...
- Acho que agora sim estamos livres para viver nossas vidas. – Diz Victor.
- É... Estamos... – Diz Diana.
- Você quer que eu chame os bombeiros? – Pergunta Jordana.
- Não precisa...
- Então nos encontramos depois.
- Sim nos encontramos. – Diz Alan.
- Adeus Alan, Adeus Diana. – Diz Victor.
Eles vão, deixando o novo casal sozinho em frente à mansão queimada. Diana olha para sua casa, agora totalmente destruída. Ela parece olhar com pena, mas não com tristeza.
- Eu gostava daqui. – Conclui.
- Eu te cedo minha casa. – Diz Alan.
- Eu não tenho escolha... Na verdade tenho. Amanhã eu compro um apartamento duplex para nós dois. Medida provisória. – Ela força um sorriso, apesar de estar bastante chocada.
- Tudo bem. Agora sim, estamos todos bem. – Ele sorri.
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