A Cruzada Carmesim: Lágrimas de Sangue
8 Capítulo 7.
— Não acho que seja uma boa ideia, tio Citrius.
— Vai ser bom para você. Já está há muito tempo longe de tudo isso. Não sente saudades? — disse ele, com os olhos fixos na sobrinha, como se procurasse algo em seu rosto.
— Não, não sinto... — mentiu, desviando o olhar.
O homem soltou um riso suave, cheio de entendimento.
— Conheço você desde que nasceu. Sei quando não está sendo sincera. — Ele se ajeitou no assento. — Você amava estar em campo, amava dançar... e quebrar alguns ossos alheios, não é mesmo?
Um sorriso escapou-lhe antes que pudesse evitar. As memórias vieram como um borrão de cores e sons, de tempos em que ainda se sentia invencível.
— Há quanto tempo não a vejo dançar, nem mesmo cantar — continuou ele, pensativo. — As crianças adoravam te ouvir cantando pela janela com todo aquele entusiasmo.
A lembrança se transformou em um calor nostálgico em seu peito, mas logo a insegurança se instalou.
— E se acontecer de novo? Se eu falhar outra vez? — disse, a voz trêmula, quase um sussurro.
O homem a olhou com uma expressão serena e colocou uma mão firme sobre seu ombro.
— Não foi culpa sua. — Ele falava com uma certeza que ela mesma não conseguia encontrar. — Não deixe que o medo de falhar decida o seu caminho. Você é extremamente competente, e sabe disso. Agora... pense mais a respeito.
Ele se levantou, deixando-a sozinha com os próprios pensamentos que a envolviam como sombras.
Ela se jogou na cama, o olhar perdido nas ranhuras da madeira na mesa de cabeceira. Sentindo a familiaridade daquele objeto, estendeu o braço, abriu a gaveta e pegou uma delicada gargantilha com um pingente de jade.
Segurou-a nas mãos, fitando o verde profundo da pedra, quase como se pudesse ver além da superfície. A gargantilha de jade era uma das poucas lembranças de alguém que ela se recusava a esquecer. Era mais que um adorno: era um amuleto de empatia, de uma promessa de que não fora capaz de cumprir. Ao colocá-la no pescoço, sentiu um calor reconfortante, como um toque distante e familiar.
Com um suspiro profundo e os olhos marejados, levantou-se, agora decidida. Cada passo pelas escadas parecia ecoar seu anseio e temor. Os corredores estreitos amplificavam o som, como se a casa testemunhasse sua decisão.
Encontrou o tio na varanda, observando o céu tingido de laranja pelo pôr do sol.
— O senhor as guardou? — perguntou, parando ao lado dele, olhando na mesma direção, mas com o olhar distante.
Ele lançou lhe um sorriso leve e assentiu.
— Vou buscá-las.
Minutos depois, retornou, carregando uma pequena caixa de bronze com o brilho de algo esquecido, mas não perdido.
— Pensei que as tivesse devolvido, como pedi — disse ela, recebendo a caixa em mãos, a voz carregada de surpresa.
O homem apenas deu de ombros, com um sorriso de quem sempre soube o que estava fazendo.
— Achei que você poderia querer de volta algum dia. Parece que eu estava certo sobre isso.
A jovem a abriu , revelando adagas douradas, reluzentes e intactas como nos dias em que as usava. Seus cabos eram adornados com linhas curvas que pareciam dançar sob o metal. As lâminas, límpidas como espelhos, refletiam o resto de luz que se esvaía, como se guardassem um pedaço daquele pôr do sol.
— É melhor se apressar — disse ele, a voz suave mas firme, fazendo um afago no cabelo dela. — Ainda há coisas que você precisa arrumar, e vocês já partem amanhã.
Ela fechou a caixa, pressionando-a contra o peito, enquanto dava um longo e profundo suspiro.
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