A Cruzada Carmesim: Lágrimas de Sangue
9 Capítulo 8.
— Eram estes os cavalinhos de bronze que precisava? — perguntou Dante, entregando-os a Hugo. Ele vestia, mais uma vez, sua habitual camisa vermelha, sobreposta por um colete escuro. As calças acinzentadas, combinadas com robustas botas de couro preto, concediam um ar imponente ao seu visual, com um toque de elegância.
O jovem príncipe Hugo, por sua vez, trajava uma camisa verde claro, de um tom fresco como folhas de manjericão recém-brotadas. As mangas ajustavam-se até os antebraços, enquanto a gola alta, bem abotoada, conferia um toque formal. Delicados bordados adornavam os ombros, e um colete marrom escuro de material resistente oferecia certa proteção. Suas mãos estavam cobertas por luvas escuras que deixavam os dedos livres, tornando seus movimentos ágeis. Ele completava a vestimenta com calças levemente justas e botas leves, prontas para enfrentar qualquer tipo de terreno.
— Mas… não seria melhor usar cavalos de verdade? — pontuou Dante, ajeitando seus cabelos levemente bagunçados pela brisa. — Mantê-los "funcionando" não vai exigir uma concentração e esforço constante?
— Não, não se preocupe com isso, eles estarão vinculados a mim de forma semi-autônoma, o que me poupará quase todo o trabalho — explicou Hugo. — Além disso, como são apenas objetos, não precisarão descansar ou se alimentar, o que nos permitirá cobrir distâncias maiores e ocupar o espaço dos suprimentos com coisas mais úteis.
O jovem afastou-se, posicionando os três pequenos cavalos um ao lado do outro. Seus olhos brilharam ao serem inundados por uma luz dourada intensa, emanada de suas próprias pupilas. Então, de seus lábios, sussurrou-se as palavras: HINC VITA!.
O ar ao redor se agitava, e o que antes eram simples brinquedos inertes, agora ganhavam vida sob um resplendor ambarino. A luz dourada envolvia os cavalos, que se transformavam diante dos olhos dos ali presentes, crescendo em tamanho e majestosidade, tornando-se imponentes potros de bronze. O som metálico de seus cascos ressoava como uma sinfonia mística, enquanto as rédeas de bronze que surgiam pareciam dançar ao vento.
Dois empregados, cujas expressões eram uma mistura de espanto e fascinação, aproximaram-se apressados. Eles se prontificaram a preparar os cavalos, afivelando as rédeas e ajustando os arreios com mãos trêmulas, tentando não deixar transparecer a surpresa que sentiam ao ver tais criaturas.
— Vejo que já estão preparados para a partida — disse o general, com sua voz firme, enquanto caminhava em direção aos dois rapazes.
Ao seu lado, caminhava uma jovem de postura imponente. Seus longos cabelos loiros, presos em uma trança lateral, refletiam suavemente a luz dourada do sol da manhã. Ela vestia uma blusa creme de mangas longas, que se alargavam graciosamente a partir dos cotovelos, com delicados detalhes dourados adornando os punhos e a gola. Sobre a blusa, um corpete de couro marrom escuro, ornamentado com costuras em bronze, ajustava-se perfeitamente ao seu porte, destacando sua silhueta firme.
Se projetando do corpete, uma saia curta feita de placas de couro marrom médio com um sutil padrão envelhecido, envolvia seu quadril. Por baixo dela, calças justas em um tom de bege escuro, moldavam-se às curvas de suas pernas e contrastavam com suas botas de cano alto feitas do mesmo material do corpete. Estas que, por sua vez, estavam firmemente presas aos joelhos, por fivelas prateadas. Nas laterais das mesmas, bainhas de couro serviam de abrigo para adagas douradas, cujas lâminas reluziam, exibindo tanto sua beleza quanto sua letalidade.
— Bom dia, meninos! — cumprimentou Corina, de forma animada, parando em frente à carruagem.
— Cori! — disse Hugo, envolvendo-a em um abraço caloroso. — Não achei que estava no reino. Quando o general mencionou que tinha alguém em mente para se juntar a nós, confesso que não esperava por você.
— E quem mais pensou que seria? Ilana? Creio que panificação não seja exatamente uma habilidade útil para esta viagem — respondeu ela, com um sorriso sarcástico, enquanto colocava sua bolsa no interior da carruagem. — Talvez, quando inventarem um canhão de centeio e cevada, ela seja convocada para a linha de frente.
Os dois riram juntos, com a leveza típica de uma amizade antiga. Um vínculo compartilhado por anos, envelhecido e esticado, mas nunca rompido.
— Acho que está tudo pronto. A carruagem e os cavalos já estão preparados. Só preciso entrar para me despedir. Não devo demorar — disse o príncipe, dirigindo-se ao palácio.
— Tenha cuidado — alertou o general, abraçando a sobrinha e dando-lhe um beijo de despedida em sua testa.
— Eu terei, tio — respondeu Corina, pressionando o rosto contra o peito de Citrius.
— Preciso ir. Tenho que supervisionar meus alunos. Cuide-se também, meu jovem — disse ele, voltando seu olhar para Dante antes de se retirar.
O rapaz apenas assentiu com a cabeça, em sinal de agradecimento.
— Então... você também foi convocado para essa viagem turística até essa cidadezinha esquecida por quase todo mundo? — brincou ela, quebrando o silêncio.
— Digamos que está mais para... chantageado. Isso, acho que essa é a palavra.
— Acho que entendo. Vamos esperar o Hugo à sombra daquela árvore. O sol está começando a me fazer suar — disse Corina, levando a mão à testa, a fim de proteger os olhos da luz.
— Eu até gosto. Acho esse calorzinho revigorante. Mas tudo bem — respondeu o rapaz, seguindo-a até a sombra.
***
— Que Camélia o acompanhe e o proteja de qualquer perigo, meu querido — disse a rainha, envolvendo-o em um abraço apertado.
— Ouvi dizer que é época de trolls. Melhor evitar as estradas que passam pela Floresta-Alta — comentou seu irmão, com um sorriso de canto. — Seria bom se voltasse inteiro, se possível.
— Eu também acharia ótimo — respondeu o príncipe, sorrindo, sabendo que aquele era o jeito do irmão de dizer "tome cuidado".
— Estou orgulhoso de sua iniciativa e determinação em ajudá-los — disse seu pai, pousando a mão firme em seu ombro. — Mas lembre-se: não se meta em riscos desnecessários.
— Faça uma boa viagem, irmão... — murmurou a jovem princesa, com um sorriso tímido e a voz retraída.
Hilius voltou o olhar para a irmã caçula, fitando-a por alguns instantes, surpreso com seu comportamento contido.
— Espero retornar o mais breve possível e, com sorte, trazendo excelentes notícias — disse Hugo, inclinando-se em uma reverência respeitosa. Em seguida, retirou-se do grande salão, deixando para trás os olhares carregados de afeto e preocupação de sua família.
Já diante das portas do palácio, Hugo avistou à distância Dante e Corina caminhando em sua direção.
— Até que enfim! — exclamou Corina, subindo agilmente na carruagem e se acomodando no assento do cocheiro. — Vamos, rapazes, o que estão esperando? Subam logo!
Sem hesitar, os dois se apressaram, sentando-se ao lado da jovem. Acima deles, pairava a Sentinela, imóvel e apagada, como se aguardasse apenas um simples comando para atacar.
— Então é isso. Prontos? — perguntou Corina, com um brilho de animação nos olhos enquanto segurava as rédeas dos cavalos de bronze. Com um leve comando, os cavalos se lançaram em um galope metálico, avançando em direção às fronteiras do reino e seguindo rumo ao que o destino lhes preparava.
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