A Cruzada Carmesim: Lágrimas de Sangue
12 Capítulo 11.
O sol se erguia vagarosamente no horizonte, diluindo as cores da noite enquanto iluminava o céu azul, salpicado de singelas nuvens rosadas. O aconchegante frescor do orvalho da manhã proporcionava um clima agradável e ameno.
Uma leve brisa tocava suavemente o rosto de Hugo, agitando suavemente as ondulações de seus cabelos. O rapaz encontrava-se abaixado, observando a marca das chamas no chão, deixadas pelo disparo da Sentinela. O vento já havia se prontificado a varrer, para bem longe, o que quer que tenha sobrado da criatura.
Ele se levanta, olhando para o interior da estrutura. Além da porta, é possível observar Corina, deitada em uma das pranchas de madeira, com a Sentinela pairando acima da fogueira já apagada. Ele se aproxima da entrada, fechando a porta com cuidado para não acordar a jovem.
Hugo caminhava pelos arredores quando, entre os pomposos arbustos de oleandro que tingiam a paisagem com tons de rosa e branco, um som rítmico e suave de água corrente captou sua atenção, como um convite sussurrado pelo bosque. Ao seu redor, tudo parecia respirar com vida. Nas árvores, o canto das cigarras se mesclava ao dos pássaros, compondo uma sinfonia natural em que o bosque era o próprio maestro.
— Então aí está você — disse Hugo, ao finalmente localizar a origem do som.
Dante estava abaixado às margens do pequeno riacho, reabastecendo os cantis nas águas translúcidas.
— Bom dia pra você também. — Ele se levantou, virou-se para Hugo e lhe ofereceu o cantil. — Pela sua cara, parece que um certo alguém não teve uma boa noite de sono.
— Não mesmo — respondeu Hugo, recebendo o recipiente e levando-o à boca. — Fiquei pensando sobre ontem. Sobre a Helis… ainda estou um pouco irritado. Por que ela é tão inconsequente?
— Talvez seja uma tradição. Ela não é o primeiro integrante dessa família que vejo ter atitudes imprudentes. — Dante o olhou com um sorriso travesso.
— As únicas “atitudes imprudentes” das quais me recordo foram as que possibilitaram o senhor estar aqui hoje, são e salvo.
— Oh, meu grande e bravo herói, o que seria de mim sem você?! — Gesticulou Dante de forma irônica e teatral.
— Está passando muito tempo com a Helis… esse sarcasmo não combina com você — disse Hugo, contendo o riso.
— E então, vamos mesmo levá-la de volta?
— Sim. Isso vai nos atrasar um pouco, mas é o melhor a se fazer — respondeu o príncipe, fechando o cantil. — Assim ainda evitamos possíveis problemas futuros. Ela não é mais uma criança, e essas atitudes só reforçam o quanto ainda não está preparada para o mundo além do palácio.
— Não quero te dizer como deve lidar com sua irmã, mas mantê-la restrita ao palácio não me parece uma solução efetiva. Talvez ela apenas precise confrontar o mundo como ele é: belo, mas também cruel e impiedoso — disse Dante, com a voz calma, ajustando o colete.
— Você tem razão, ela precisa romper essa casca idealizada que a envolve… porém não nessas circunstâncias. — Hugo fez uma pausa, mudando o tom. — Mas, mudando de assunto, você ficou a noite inteira de vigia, não foi?
— Eu disse à Corina que ficaria no primeiro turno, mas tive receio de acordá-la. Ela estava dormindo tão tranquilamente… e eu também não estava cansado. — Dante deu de ombros.
— Não esperava nada diferente vindo de ti — disse Hugo, cruzando os braços. — E tenho a impressão de tê-lo visto sair em meio à noite.
— Só queria garantir que não fôssemos pegos de surpresa. Poderia haver mais daquelas criaturas, então resolvi dar uma volta ao redor, apenas por precaução.
— Aquelas portas possuem prata-luz em sua composição, que por sua vez repele esses demônios — disse Hugo, aproximando-se de Dante. — E, se por acaso eles realmente estivessem lá fora... você cuida de nós, mas quem cuida de você?
— Pelos vistos, você. — Dante lhe lançou um sorriso provocador. — Não é o que tem feito desde que nos conhecemos?
Hugo franziu a testa, desviando o olhar para o rio.
— Você vai acabar com cabelos brancos antes da hora, se continuar se preocupando tanto assim comigo.
Hugo arqueou uma sobrancelha, aproximando-se mais um passo.
— Então não me dê motivos — disse ele, dando um beijo rápido na bochecha de Dante antes de se afastar. — Vamos voltar, as meninas já devem estar de pé.
Dante se abaixa, recolhendo todos os cantis e acompanhando o príncipe a passos rápidos.
***
— Onde vocês estavam? Já ia partir para procurá-los — perguntou Corina, ajustando a trança do cabelo.
— Fui reabastecer nosso estoque de água — prontificou-se Dante a responder.
— E eu fui procurá-lo — completou Hugo.
— Hum... certo, está bem então — disse Corina, franzindo o cenho.
— Bom dia! — exclamou Helis, espreguiçando-se com um suspiro. — Nossa, os bancos da carruagem são mais desconfortáveis do que imaginei.
— Bom, na próxima vez podemos revezar: você dorme em uma daquelas pranchas de madeira, e eu fico na carruagem — debochou Corina.
— Muito gentil de sua parte, nobre amiga, mas prefiro poupá-la de acordar toda torta. Pode ser meio perigoso... na sua idade — retrucou Helis, com um sorriso travesso.
— Como é que é? — disse Corina, estreitando os olhos.
A jovem princesa apenas lhe lançou um beijo com a mão, em sinal de paz.
— Não esquenta com ela, Corina. Em algumas horas a Helis estará dormindo em sua cama macia — disse Hugo, lançando um olhar firme à irmã.
— Isso era pra me confortar de alguma forma? Porque não foi esse o efeito que me causou — respondeu Corina, cruzando os braços.
Helis se calou por um instante, com o sorriso travesso aos poucos se desfazendo.
— Então é isso... você vai mesmo me levar de volta? — perguntou Helis, sem encarar o irmão.
Hugo soltou um suspiro curto.
— Sim. E, se sairmos agora, talvez cheguemos antes que o sol se ponha por completo — disse Hugo, caminhando em direção ao recinto onde guardara a carruagem.
***
Hugo e Corina assumiram a guia dos cavalos de bronze, enquanto Helis e Dante acomodaram-se no interior.
— Bom… pode não ter sido a aventura que planejou, mas ao menos vai te render uma boa história para contar aos seus futuros netos — disse Dante, quebrando o silêncio.
— Não precisa tentar me animar — disse a jovem, olhando para a paisagem além da janela. — Fui muito ingênua em pensar que meu plano daria certo.
— De certo modo, ele meio que deu certo — disse Dante, inclinando-se um pouco mais para perto dela e baixando o tom de voz. — Você conseguiu se infiltrar na carruagem sem que ninguém percebesse, jantou ao redor de uma fogueira dentro de uma construção antiga e enfeitiçada, viu uma daquelas criaturas ser incinerada por uma Sentinela… Ao meu ver, parece uma boa aventura, principalmente para uma princesa e principiante.
A garota o olhou, ameaçando um sorriso contido, antes de trocar de lugar e se acomodar ao lado dele, recostando a cabeça em seu ombro.
— Obrigada…
— Não foi nada — disse ele, apoiando suavemente a cabeça sobre a dela.
Por alguns minutos, o som das rodas e o balanço da carruagem foram os únicos a preencher o ambiente.
— Então… quer ouvir uma piada? — perguntou Helis, de repente.
— Na verdade, não…
— Ok… — disse ela, mas com um pequeno sorriso nos lábios.
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