A Cruzada Carmesim: Lágrimas de Sangue
13 Capítulo 12.
— Mamãe… quando vamos poder voltar para casa?
— Não deve demorar, querido… seu pai deve estar vindo nos buscar a qualquer momento — respondeu a mulher, apertando o filho contra o peito, enquanto aguardavam sentados no chão frio e úmido do calabouço.
As paredes e o piso, feitos de basalto negro, absorviam os já escassos feixes de luz que conseguiam atravessar as finas frestas da pesada porta de carvalho escuro.
Por todos os cantos daquele lugar mórbido, pessoas das mais diversas origens se amontoavam, moribundas: idosos, cortesãs, beberrões, crianças, pais e mães. Não havia segregação na miséria. Todas as faces estampavam as mesmas feições de angústia e desesperança, mal iluminadas pela trêmula claridade que insistia em sobreviver ali.
O silêncio foi bruscamente rompido quando o som suave de passos, vindos do longo corredor além da porta, despertou a inquietação dos cativos. Alguns cederam às lágrimas, encolhendo-se na esperança de não serem notados, embalados por súplicas e orações abafadas. O eco dos sapatos contra o piso intensificava-se, crescendo proporcionalmente ao pânico que inundava o calabouço.
Os passos cessaram.
A grande porta se abriu com um ranger seco.
Olhos escarlates percorreram o ambiente.
— Você. Venha comigo — ordenou a silhueta feminina, com uma voz calma, apontando para a jovem mãe e sua criança.
— Não … por favor … eu suplico…
A figura manteve-se calada, imune aos pedidos. Com um delicado movimento de mão, a mulher escolhida foi suspensa no ar. As veias de seu corpo dilataram-se grotescamente, arrancando-lhe um grito de dor enquanto era arrastada para fora do calabouço.
— Ma… mamãe… — chorou o pequenino, correndo em direção à porta.
No corredor iluminado por candelabros, revelava-se a figura tirana: uma mulher alta, de cabelos escuros, olhos pulsantes como sangue e pele pálida como as cinzas de um incêndio. Ela não demonstrou qualquer reação à presença do menino.
Ao fim do corredor, uma ampla sala se abria. Grandes janelas cobertas por cortinas espessas, desenhadas pela poeira e o tempo, tornavam o ambiente sufocante. No centro, correntes armadas com ganchos afiados pendiam do teto, posicionadas logo acima de um grande círculo ritualístico traçado em sangue fervente e cercado por outros menores. Em seus interiores, símbolos rúnicos reluziam entrelaçados, alimentados por pequenos corações ainda pulsantes. Condutores daquele ritual vil.
Uma criatura, alta e esguia, avançou até a mulher moribunda, seu corpo sustentado por uma postura rígida que lembrava a de uma bailarina detida no meio do movimento. Costuras visíveis cruzavam o pescoço e o tronco, unindo partes do corpo de forma irregular. O peito permanecia aberto, expondo um coração ainda pulsante entre os ossos.
Um vestido antigo envolvia-lhe o corpo: o corpete rasgado abraçava a cintura, enquanto a saia, gasta e irregular, caía em camadas desiguais ao redor das pernas. Dos ombros partiam dois braços longos, terminando em mãos grandes demais e com dedos pontiagudos, mais abaixo, rompendo a linha do vestido sob o corpete, projetavam-se outros dois membros, curvos e afiados como foices.
Ela ergueu a jovem, fincando-lhe a carne nos ganchos pendentes. O pequeno garoto correu em desespero ao encontro de sua mãe, mas foi contido por um dos braços do monstro.
— Não tive muita sorte hoje, então não me decepcione, querida — disse a mulher, acariciando o rosto da prisioneira. — Tão jovial… será uma pena.
A mulher fincou a unha no rosto da cativa, abrindo um corte profundo. O sangue escorreu por seu queixo e pingou no círculo logo abaixo, fazendo-o fervilhar.
— Aparentemente promissor. Já não era sem tempo — comentou, com um sorriso sádico e um brilho orgulhoso no olhar.
— Ma… mamãe… solta ela! — balbuciou o pequenino, entre soluços e lágrimas.
— Olha só, tão jovem e já tão valente. — disse a mulher, voltando seus olhos escarlates para o menino. Afastou-se da prisioneira e caminhou até ele. Ajoelhou-se à sua frente e, em um gesto delicado, secou-lhe as lágrimas com a mão.
— Homens valentes não devem chorar, pequenino. Além do mais, você pode acordar Dahaka… e ele tende a despertar com muita fome.
Em seguida, voltou-se para a criatura.
— Leve-o daqui. Acomode-o com os demais.
O monstro prontamente obedeceu, tomando o garoto em suas mãos hediondas e o levando rumo às escuras escadarias da ala inferior.
— Onde estávamos…? Ah, sim. — A mulher voltou-se para a jovem mãe. — Teremos um longo trabalho pela frente. Árduo… e recompensador. Você será uma das peças que possibilitará um novo e grandioso alvorecer. Deve se honrar por isso.
A jovem não tinha forças para responder. Restando-lhe apenas gemidos baixos e espasmos de dor.
— Comecemos, então.
Os olhos da mulher incandesceram em carmim. Suas mãos traçaram gestos rítmicos, como se invocassem algo de dentro da vítima. As veias do corpo da jovem dilatavam-se cada vez mais sob a pressão imposta, fazendo-as se romperem.
O sangue escoou lentamente de seus membros inferiores, roubando-lhes a cor e a vida. O grito de agonia ecoou pelo recinto. Seu corpo tornava-se pálido, quase translúcido, apenas o rosto ainda conservava vestígios de cor.
A mulher voltou sua atenção ao círculo logo abaixo e entoou palavras em uma língua há eras esquecida, indecifrável para alguns e maculada para outros. Os corações pulsavam ferozmente, enquanto um líquido negro e viscoso emergia do círculo e se infiltrava na jovem através das fissuras abertas em suas veias mutiladas.
Já não havia forças em seu corpo. Nenhum som saía de sua boca. Todo o seu ser fora tomado pela substância hedionda. As veias tornaram-se negras e os olhos opacos. Deles escorreu uma única lágrima, singela, que percorreu a bochecha e pingou do queixo diretamente no círculo.
Ele fervilhou. Os corações ao redor se contraíram e secaram em um único e poderoso espasmo.
Do centro do ritual, entre o líquido escuro, ergueu-se uma estrutura profana, semelhante a um lírio-aranha. De seu desabrochar emergiu uma gema cálida em forma de gota, irregular e cristalina, rubra como sangue seco e envelhecido: uma lágrima de sangue…
A mulher curvou-se e tomou a joia nas mãos, ignorando a queimadura que se formou em sua palma com o contato.
Ela sorriu.
— Você foi extremamente útil, minha querida. — Ela acariciou o rosto da jovem já sem vida.
— Hora de repor novamente os corações.
Ela se virou em direção às escadarias que desciam para a ala inferior e respirou fundo, como quem se prepara para continuar um trabalho necessário.
Da escuridão, ecoava o cantarolar de vozes infantis:
“Um, dois… seus passos posso escutar…”
“Um, dois… a dama está a chegar…”
“Um, dois… dela não vai esc…”
— Escapar… — completou a mulher, parando diante de uma cela.
Seus olhos escarlates perfuraram a escuridão, vasculhando o recinto.
— Venham.
A porta se abriu. Quatro jovens franzinos, de idades e estaturas distintas, ergueram-se em transe e caminharam ao encontro dela.
Ela os conduziu a uma outra sala, onde uma grande mesa de pedra ocupava o centro. O local estava sujo e impregnado pelo odor dos que outrora adentraram aquele fatídico lugar.
A imensa porta se fechou, e para quem estava além dela, apenas um som foi ofertado: ossos se partindo…
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