A Cortesã
7 O Primeiro Retrato.
Notas iniciais
“A mulher estava vestida de púrpura e vermelho e adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas. Segurava um cálice de ouro, cheio de coisas repugnantes e da impureza da sua prostituição.” Apocalipse 17:4
James York passara mais uma noite em branco. Desde que Charlotte chegara a SouthinGale, lhe roubara o sono. A noite anterior tinha corrido tal como projetara, afinal Fitzadam foi previsível e como sempre correu a frente daquilo que achava ser a atenção do momento. Se a Cortesã fizesse exatamente o que lhe fora pedido, quem sabe se sua Lizzie não seria livre? O Duque rebolou na sua cama só para descobrir que Irina já não estava ali. Sequer reparara na sua ausência, afinal algo o incomodava firmemente. Um frio em seu peito e um aperto que não esperava sentir! Imaginar Charlie debaixo do corpo do Infante, a suspirar de paixão, o corroía com uma força avassaladora e não sabia o porquê.
— James? — Irina chamou por ele, acabara de entrar no quarto a fechar uma camisola de lã branca que usava. — Está tudo bem?
Ele pestanejou e percebeu que rasgara o lençol de algodão com as mãos. Meneou a cabeça afirmativamente contrariando a verdade.
— Para onde vais, minha amada? — Perguntou, como mandavam as regras. Cheio de um amor e afeto que agora lhe causavam certas dúvidas. Amada?
— Vou as compras com Maribelle, foi um prazer me aproximar da filha da Senhora Loretta, ontem no Sarau. — respondeu, sem se prolongar com o facto de James pouco a levar a eventos, e por nunca ter sido próxima de Maribelle, quando seus homens eram melhores amigos. Ela quis bufar de raiva por ser a única que ainda não se tinha casado, por ter de dormir com ele sem ser sua mulher, e sabia que a razão de não ter muitas amigas era porque as bocas falavam mal da sua pessoa por trás. Reteve-se, esboçou um sorriso e aproximou-se para beijá-lo na mão, em sinal de respeito. Seu irmão William, também a mataria sem hesitar caso soubesse que ela poderia de alguma forma comprometer o futuro matrimónio com o Duque de Mountbatten.
O jovem York observou sua noiva sair com um adeus deveras elaborado, e fechar a porta do quarto atrás de si. Ele desceu da cama ainda com a mesma sensação de desconforto e caminhou até ao armário onde estavam os seus pertences, abriu a mala com código e vasculhou entre objectos caros e preciosos até encontrar uma medalha de ouro, meio gasta e amolgada. Tinha o formato oval e cabia na palma de sua mão, o Duque abriu como uma tampa e prendeu a respiração a ver a imagem de Charlotte do lado esquerdo e a sua do lado direito.
“Ainda guardo o vosso Primeiro Retrato.” Pensou, e finalmente soltou um suspiro.
A Vivenda York
Um barulho sem fim preenchia a vivenda, vozes, gritos, risos, música, ordens, o cheiro a comida e a vinho, e tudo o que compunha uma festa. Era o dia esperado, o noivado do herdeiro York com a noiva desconhecida até então. As bocas dos empregados ouviram que o senhor York ia oferecer ao seu filho, uma vasta propriedade em Mountbatten, com terrenos gigantes, e um vilarejo. O lugar era antes um Ducado, pertencera a um Grão-Duque que declarara falência há já alguns anos, e para pagar as dívidas tivera que leiloar sua herança.
Charlotte estava no quarto com a senhora Ana que se contorcia de dores, e queria a todo custo participar da festa do seu filho.
— Por favor senhora, descanse um pouco. Depois poderá ir a festa mas tome os remédios primeiro. — pediu Charlotte num tom baixo, tentando segurá-la uma vez que Ana tentava a todo custo amarrar o seu espartilho sem sucesso, e irritada ela bateu na mão da empregada e o copo com remédios voou até a porta por onde o Senhor York acabava de entrar.
— Richard! — A senhora de York soltou-se dos braços da jovem, e atirou-se para os do marido, que a segurou com força impedindo-a de se encostar nele e a sacudiu. — Pelo amor de nossa senhora, rogo-vos que me deixes ver James fazer o pedido.
— Ana, deverás tomar os medicamentos e descansar. Não pretendo que estragues nada com vossa loucura. — Sibilou num sussurro frio, seus olhos estavam semicerrados e não tinham brilho. O senhor arrastou a mulher até a cama, obrigando-a a tomar os remédios sem que ela se debatesse, e em seguida olhou para Charlotte com um ar que a culpava pelo problema. — Dê-me as chaves do quarto.
Ela sentiu um arrepio ao entregar as chaves, seu coração batia com força e Richard York apagou os candeeiros, obrigou-a a sair e trancou a mulher sozinha. Em seguida guardou as chaves no seu bolso, e afastou-se sem olhar para trás.
Charlotte sentiu uma tristeza sem fim pela mulher infeliz, muito pouco a conhecia mas havia algo nela de bom que a inspirava. Desceu as escadas rapidamente para evitar os convidados que por ali perambulavam e foi em direção a copa a fim de ajudar os outros a servir a festa.
Um barulho vindo de uma sala ao lado chamou a sua atenção, ela espreitou e assustou-se com a luz que saiu de um objecto que um senhor carregava na mão. James virou-se para ver de onde viera o grito, e a empregada temeu a ira de seu pequeno patrão.
— Perdão, senhor. Perdão. — Ela pediu, sem saber sequer o que fazer. Queria justificar mas as palavras não saíam de seus lábios volumosos. Olhou para os pés, envergonhada, e um alívio percorreu-a por inteiro quando escutou James rir.
— Não te preocupes, Charlotte. — Ele chamou-lhe com um gesto para que ela entrasse na sala e fechasse a porta. — É uma máquina de fotografar.
Ela arregalou os olhos, afinal eram assim? Pensara que fosse algum objecto musical estragado, mas não disse isso em voz alta a fim de não passar por mais embaraçamentos. James pegou o seu braço, e ela sentiu um calor subir por seu corpo, os dois se olharam, e ele fez com que a jovem se sentasse na cadeira de veludo.
— O que..? — Charlotte, tal como o fotógrafo olhavam para ele com um ar confuso, como se aquilo fosse a coisa mais impossível do mundo. Assustada tentou se levantar mas o belo herdeiro insistiu para que ela continuasse sentada.
— Tire um retrato da bela menina que salvou a minha vida. O primeiro retrato!
A criada primeiro se assustou com a luz e o barulho, mas em seguida riu muito contagiando a todos em seu redor.
Ali, absorto em seus pensamentos e suas mágoas, James tentava encontrar a razão pela qual ela teria escolhido aquele caminho para sua vida. Com quantos homens ela teria se deitado desde então? Não teve sequer respeito pelo amor que um dia teriam compartilhado? Naquele mesmo ano, ele desfizera o noivado para estar com Charlotte. O destino não os teria ajudado.
O Duque fechou a medalha com força, pretendia guardá-la no fundo de seus pertences para nunca mais recordar.
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