Notas iniciais
Bem, primeiro pedir desculpas pelo Atraso. Tinha o capítulo preparado só faltava passar para o computador. Deixo um capítulo maior a pedido de Mrs Knwoles e para vos presentear o fim dele é muito fofo. Gostei de escrever. Então sem mais delongas, Boa leitura.

Era forte e vestia-se com ousadia,

Não se achava diferente e nem vazia.

Apenas uma mulher cheia de chama;

Do tipo que sofre, que luta, que ama...

– Soneto a uma prostitua

O barulho das arrumações da nova casa fizeram Charlie se levantar mais cedo do que pretendia, sentia-se estranha no novo quarto ainda por arrumar. Por alguns instantes desejou ir embora.

Edith tinha vindo logo pela manhã trazer o pequeno-almoço na cama e preparado a banheira com água quente para o banho. Charlie esfregara seu corpo com força, a esponja subia e descia com raiva. As lembranças do corpo de Fitzadam Price junto do seu, os gemidos, o suor, eram nítidas como um cristal. Não era como se já não estivesse habituada, inclusive perdera a conta de com quantos homens já dormira. Talvez fosse por ter estado algum tempo em refúgio ou por ter revisto James York.

Edith interrompeu seu banho com um ar curioso na entrada do quarto amplo. A prostituta tinha mudado sua forma vulgar de se vestir para poder trabalhar com Charlie.

— Perdão, Madame. Tem algumas visitas na sala de espera. — anunciou, e andou até uma das várias malas abertas a fim de encontrar um vestido apresentável que a bela mulher no banho pudesse usar.

A Cortesã saiu da banheira branca com bordas douradas, seus olhos escuros não escondiam a admiração pelo que ouvira. Enrolou seu corpo negro no robe branco de veludo que continha as letras iniciais da família real, bordadas a mão.

Até onde sabia, a sua única a amiga, a Marquesa de Rothandberg estava a tratar dos estatutos com o intendente do Infante. E achava que se tinha mudado há tão pouco tempo para receber visitas.

— Maribelle Gilleston e Irina Harris. — disse Edith com o habitual ar traquino como se acusasse a outra de saber alguma coisa e não querer contar.

Charlie conhecera Maribelle na noite em que Marie de Rothandberg a apresentara a sociedade, mas o nome de Irina desconhecia por completo.

— Pois bem. Sirva algo para as visitas se acomodarem, farei a minha presença dentro de instantes. — ordenou, analisando atentamente o vestido azul rendado que Edith escolhera para ela. Era longo e de mangas até ao cotovelo, com o forro apenas a cobrir a parte do corpo até aos joelhos.

Quando a prostituta do Queen and Kings saiu do quarto, Charlie se arrumou com afinco, sem deixar as joias que destacavam a beleza do seu corpo, e a maquilhagem que incluía o batom vermelho.

Trancou a porta e caminhou até uma mala de madeira que estava escondida entre os seus pertences, abriu devagar e tirou de lá um amontoado de papéis. Ali estavam as anotações perigosas que a fizeram deixar Paris em busca de proteção de alguém influente. Vários segredos se escondiam entre as letras emaranhadas, e um vazio apertou seu coração quando se lembrou de quem lhe ensinara a ler e escrever.

Desceu assim que terminou de esconder tudo bem fechado por baixo de sua cama. A casa que o Infante a tinha ofertado era majestosa, possuía um andar e soalho de madeira lustroso. Ainda havia caixas das mudanças espalhadas por vários cantos e panos brancos sobre os móveis.

As duas loiras conversavam num tom baixo, Maribelle parecia mais empolgada e a vontade do que a outra bonita mulher que deveria ser Irina. Charlie logo a reconheceu como a noiva do Duque de Mountbatten pois os vira juntos no sarau na noite passada. Seu semblante se fechou automaticamente, saudando-as de forma menos amistosa.

— Charlie Dumont. — Maribelle levantou num pulo com um sorriso sincero, diferente de Irina que deixou a xícara de chá lentamente antes de se levantar e olhar para a Cortesã com os mesmos ares que todas as mulheres de boa conduta a encaravam. — Conheça Irina, minha mais nova amiga e futura senhora York.

A Cortesã apenas acenou com a cabeça, sentando-se na poltrona em frente a mesinha que a separava do sofá vitoriano onde estavam as suas visitas, agora igualmente sentadas.

A pequena sala possuía quadros e objetos caros de sua posse. A sua primeira amiga que lhe ensinara a arte das cortesãs, também lhe aconselhara a distribuir seu dinheiro em obras e coisas de valor para não dar nas vistas e fugir a alguns impostos.

— Perdoe-nos a intromissão, sei que ainda não está devidamente instalada pelo que não tomaremos muito do vosso tempo. — Começou Maribelle, suas bochechas enrubesceram e olhou para a amiga em busca de apoio, o qual não encontrou. — Como sabe, sou casada com Adrian Gilleston faz um tempo, e… para ser sincera, ele já não procura o calor de meu corpo.

Os olhos azuis se entristeceram causando certo desconforto na sala. Maribelle olhou para os próprios pés enquanto escolhia as palavras certas para continuar.

— E Irina! Está noiva de James há anos sem que ele se digne a marcar a data do matrimónio. — Finalizou num tom que mostrava certo alívio por não ser a única numa situação desagradável.

Charlie arqueou as sobrancelhas, afinal não era a única ali a dormir com homens sem a bênção da igreja. Olhou para a noiva de James que estava visivelmente incomodada como se estivesse arrependida de ter ido ali se expor de tal forma para uma mulher da vida, embora não fosse nada que todos de Hampshire já não soubessem e comentassem.

— Acredito que somos todas mulheres e podemos compartilhar certos assuntos. — A jovem Gilleston tentou amenizar a tensão que se instalara na pequena sala e a vergonha que a cobria por inteiro. — Viemos aqui em busca de vossa ajuda.

A Cortesã só não riu de propósito por consideração a Maribelle, visto que a outra olhava para ela como se possuísse alguma doença contagiosa. Por um momento teve vontade de dizer que conhecera James York muito antes de ela sequer sonhar.

— Ainda não vejo em que lhes poderia ser útil, senhoritas. — Charlie tentou se manter séria e indiferente, mas algo em si a deixava impaciente e com os dedos inquietos a tamborilar o braço de sua poltrona.

— Gostaríamos de lhe pedir que partilhasse algumas de suas experiências connosco de forma a encontrarmos alguma solução para resgatarmos as nossas relações. — Cuspiu Maribelle de uma só vez, como se tivesse atirado uma bola presa em sua garganta.

— O James dorme comigo! — adiantou Irina, num tom de voz que deixava claro que não tinha o mesmo problema que a loira ao lado. — Eu… só queria que houvesse um encanto ainda maior.

Charlie desta vez não segurou o riso.

— Perdão. — Ajustou-se melhor a poltrona, era como se esta tivesse encolhido de repente. — Podem ter a certeza que não são as primeiras a requisitar algo do género. A questão é se isso seria mesmo a solução.

— A senhora transmite muito mais do que sexo. — Maribelle falou num ímpeto, e corou mais uma vez. — É charme, elegância. Deixa qualquer um arrebatado.

Dumont percebia bem o que a jovem queria dizer, na verdade já ajudara várias na mesma situação. A questão era como ajudar Irina a arrebatar James de vez? Seria verdade que não se ressentiria por isso?

— Não posso garantir o sucesso através de minhas experiências. Iria requerer esforços da vossa parte e empenho. A mulher vulgar é aquilo que o homem espera fora de sua casa, como um desejo oculto, por essa razão nenhum se casou comigo até hoje. — Ponderou, houve um caso em excepção! Um comandante pedira que abandonasse aquela vida para se casar com ele.

— Nunca é demais tentar. Acredito que isso nos trará alguma confiança sobre nós mesmas. — garantiu a filha da velha Powell, uma esperança parecia cobrir o seu olhar inquieto. Irina pareceu ceder por fim, ao confirmar com a cabeça.

— Pois bem. Teremos lições uma vez por semana, e os restantes dias terão que aplica-las sem questionar. — Cedeu por fim, num tom calmo e paciente, e soltou um suspiro ao ver os sorrisos escondidos nos rostos das jovens loiras. — A começar por hoje: Façam uma lista do que menos gostam em vocês e nos vossos companheiros. Tragam exatamente daqui a uma semana.

A senhora Gilleston agradeceu feliz e inclusive abraçou Charlie Dumont, diferente de Irina que parecia reticente. A Cortesã se questionou quantas mais passavam por situações iguais e não se pronunciavam, e a ficou na janela a observá-las partir acompanhadas por Edith.

–------------------------------------------------------------------------------

James aproveitara a manhã para fazer aquilo que mais gostava: Caçar. Suas armas tinham sido preparadas para atirar balas em pó e coloridas apenas para marcar os animais que acertava. William, o irmão de Irina não gostava, achava que era uma total perca de tempo pois achava que a caça era para matar e não pintar. Só o acompanhava pela necessidade de bajular o Duque.

Estavam na área da floresta que pertencia a Mountbatten, um espaço enorme e quase sem fim. O jovem York tinha o olho fechado, a arma apontada para uma gazela e o dedo no gatilho pronto para atirar.

— Aquela puta ultrapassou todos os recordes. Se enroscou ao Infante em tão pouco tempo, a sua vagina deve ser de se louvar! — Comentou num tom zombador. Estava parado ao lado com a arma para baixo e a cuspir caroços da fruta que comia.

James falhou o alvo que logo correu, e a bala colorida pintou a árvore ao lado. Revirou os olhos azuis sem esconder a irritação.

— Charlotte não é uma puta. — redarguiu sem pensar, e sentiu o fulminar dos olhos verdes do seu cunhado.

— Do modo que fala parece que a conhece! — Exclamou William sem esconder a desconfiança. — Com quantos já deve ter dormido por dinheiro? Deve possuir umas coxas roliças e a entrada acolhedora e bem apertada.

— Cale-se! — Desta vez foi o Duque que não escondeu o incómodo. Era normal falarem de mulheres apetecíveis de forma inapropriada, mas fosse lá o que Charlotte se tornara, ele não queria ouvir. Deixou cair a arma em cima do seu pé e chutou-a enquanto praguejava. Afastou-se em passos rápidos, deixando um William deveras desconfiado para trás, mas o senhor de York não se importou.

Havia lembranças que o perturbavam com maior força.

“ A caça sempre fora um exporte fiel da família York durante várias gerações. James tinha aprendido com o seu pai, e este por sua vez com o seu, e por aí em diante.

Nas últimas semanas em que ia caçar por trás da Vivenda York, coisas estranhas vinham acontecendo: Os animais já não apareciam presos nas armadilhas. Costumava sempre ir com o seu pai Richard ou quando este estava ocupado com seus deveres, levava Edmond, um rapaz negro e esbelto que trabalhava nos estábulos.

Naquele dia decidira ir sozinho, curioso demais para esperar que os seus habituais companheiros terminassem seus afazeres. Saiu sorrateiramente sem chamar atenção, e percorreu os trilhos já conhecidos num silêncio quase impossível, devido aos galhos e as folhas que volta e meia se prendiam em seu casaco ou partiam-se sobre seus pés.

— Shhh calma amigo, estou aqui para ajudar.

James ouviu uma voz, e se escondeu atrás de uma das várias árvores que se espalhavam por todo lado. Espreitou e viu a criada de sua mãe, Charlotte, ele desamarrava um pequeno coelho branco de uma das armadilhas feitas de corda, o nó apertado parecia dificultar um pouco.

— Aha! — Ele saiu de trás das árvores no momento em que Charlotte desprendeu o nó, e o coelho pulou de suas mãos livre e feliz desaparecendo entre os arbustos. — O que pensais que fazes?

— Senhor! — Com os olhos assustados levantou-se num salto, um medo veio se alojar no seu estômago. — Eu… Pobres animais, aqui presos e sozinhos.

— Tem interferido na nossa caça, isso não pode ser. — Quis gritar em alto e bom tom mas o olhar triste da criada o deixou sem forças. Respirou fundo. — São nossos troféus, percebe?

Aquele ar intimidado desapareceu no segundo seguinte, Charlotte o encarou friamente, e levantou o dedo.

— Uma coisa seria para se alimentar, mas caçar por puro gozo de exibir troféus é horrendo. Essas práticas não deveriam ser permitidas. — retorquiu de cenho franzido, e os lábios num bico, deixando o jovem York sem ação. Ele quis explicar que ela não entendia porque não praticava, a caça era muito mais do que aquilo, mas então compadeceu-se com a atitude demonstrada.

— Mulheres. — Revirou os olhos num ato habitual, e chiou.

— Deve existir uma forma de os caçar sem ter de matar aos milhares. — Exagerou, no entanto era daquela mesma forma que via. Um ato cruel e sem precedentes.

— E poderia a senhorita esperta me dizer qual?­ — Ergueu a sobrancelha num desafio típico, e em seguida sentou-se na relva velha de tanto ser pisada. Viu ela olhar para cima de forma pensativa como se lá tivesse uma resposta, e em seguida voltou o olhar para ele, sentado. O olhar foi tão puro que o fez sentir seu coração palpitar.

— Poderiam marca-los, uma arma com tinta. Assim saberiam qual já tinha sido “caçado.” — A solução que saiu da boca da jovem negra pareceu ridícula para o herdeiro dos York. Ele riu.

— Isso seria impossível, minha cara. — Garantiu entre gargalhadas.

Charlotte agachou-se até a sua altura, colocou o dedo indicador no seu nariz e bateu de leve, causando um espanto pelo atrevimento.

— Nada é impossível, senhor. Nada. — ripostou com certeza, e tirou a língua para fora numa atitude infantil e provocante.

— Atrevida! Se eu lhe apanhar, moça. — disse James num tom de brincadeira, e ela saiu a correr a rir enquanto o jovem vinha a sua trás. O lenço que escondia seus cabelos voou, revelando o tufo de cachos escuros.

Não demorou para o futuro Duque de Mountbatten apanhá-la e cair em cima de si. Rebolaram pela relva aos risos, e quando terminaram, Charlotte estava em cima dele.

Os risos cessaram naquele instante, quando James York ergueu o torso para beijar os lábios de Charlotte.”

Notas finais
couleurs* - Do Francês "Cores".