A Coroa e o Coração
21 O Gosto de Liberdade no Meio do Mato
A vida no palácio tornara-se um jogo de sombras. Analis movia-se pelos corredores como um espectro, evitando os olhos de Robert e fugindo de qualquer toque. O peso da coroa e do ventre pareciam sufocá-la, e as paredes de mármore eram agora as barras de sua prisão. No entanto, em uma tarde de mormaço, o instinto da mulher que vivera na floresta falou mais alto que o protocolo da rainha.
Ela escapou para os limites dos jardins reais, onde a vegetação se tornava densa e selvagem. Lá, entre as raízes de carvalhos centenários, ela avistou um arbusto carregado de pequenas frutinhas rosadas, brilhantes como joias silvestres. Eram cerejas do mato, doces e ácidas, as mesmas que ela colhia quando morava na cabana.
Sem se importar com o vestido de seda caríssima ou com a dignidade do cargo, Analis ajoelhou-se na terra úmida. Ela engatinhava entre os arbustos, colhendo as frutas com as mãos ávidas, levando-as à boca com um prazer quase infantil. Naquele momento, ela não era a Rainha dos Países Baixos; era apenas Analis, faminta por algo que não tivesse o gosto de dever ou de luto.
— Vejam só... a soberana de um império, caçando tesouros entre os espinhos.
A voz de Robert soou logo atrás dela, profunda e, desta vez, sem a dureza habitual. Analis congelou. Ela virou o rosto, uma mancha rosada de suco de fruta sujando o canto de seus lábios, o cabelo loiro preso em um galho.
Robert não estava com a armadura ou o manto. Ele a observava com um brilho divertido nos olhos, uma expressão que ela não via há uma eternidade. Ele soltou uma risada curta, genuína, que pareceu desarmar a tensão do ar por um segundo.
— Se o Conselho a visse agora, pensariam que o reino foi entregue a uma criatura da floresta — disse ele, aproximando-se e estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.
Analis ignorou a mão dele, tentando se levantar sozinha com a dificuldade que os sete meses de gravidez impunham. Robert, percebendo o esforço, envolveu a cintura dela com firmeza, ignorando o protesto mudo e colocando-a de pé com uma delicadeza que a surpreendeu.
— Vallon! — gritou Robert para o conselheiro que o seguia à distância. — Mande os servos colherem cada uma dessas frutas. Quero cestas cheias delas. A Rainha parece ter encontrado o único banquete que a agrada neste palácio.
Analis sentiu o rosto queimar de vergonha e raiva. Ela odiava o modo como ele tentava ser gentil agora, como se pudesse apagar o fato de tê-la arrastado para lá à força com um punhado de cerejas.
— Eu não preciso que você mande ninguém colher nada por mim, Robert — sibilou ela, limpando o vestido sujo de terra com as palmas das mãos. — O que eu queria era o silêncio da mata, não o seu deboche.
Ela deu as costas a ele, caminhando com toda a pressa que conseguia em direção aos seus aposentos, deixando-o parado no meio do mato com um sorriso que morria aos poucos no rosto.
Uma hora depois, Analis estava sentada em sua poltrona, encarando a lareira apagada, quando a porta se abriu. Robert entrou carregando pessoalmente uma bacia de prata transbordando com as frutinhas rosadas, lavadas e brilhando sob a luz da tarde.
Ele colocou a bacia na mesa ao lado dela e pegou uma, estendendo-a na direção dos lábios de Analis.
— Elas estão limpas agora — disse ele, a voz baixa, buscando o olhar dela. — Coma o quanto quiser. Se este é o único pedaço da sua cabana que eu posso te trazer, então que o palácio inteiro cheire a cerejas do mato hoje.
Analis olhou para as frutas e depois para o homem à sua frente. A raiva ainda estava lá, mas o gesto dele — o Rei, servindo-a como um criado — abriu uma pequena fresta na muralha de gelo que ela construíra.
Fale com o autor