O silêncio da noite no quarto real foi, pela primeira vez em meses, preenchido por uma paz frágil. Robert estava deitado, encarando o teto na penumbra, quando sentiu o movimento ao seu lado. Analis, perdida no sono profundo e sem as guardas que o estado de vigília lhe impunha, aproximou-se em busca de calor. Ela se aninhou no peito dele, as mãos pequenas agarrando-se à sua túnica de dormir, como se buscasse um porto seguro em meio a um oceano de pesadelos.

​Robert congelou, o coração disparando. Ele não ousou se mexer, temendo que qualquer gesto pudesse quebrar o encanto. Ele apenas sorriu, um sorriso triste e genuíno, sentindo o cheiro de flores e das cerejas do mato que ainda emanava da pele dela. Com uma delicadeza infinita, ele levou a mão aos cabelos loiros de Analis, alisando as mechas com as pontas dos dedos. Naquele momento, ele não era o Rei que a sequestrara; era apenas o homem que a amava e que rezava para que o amanhecer demorasse a chegar.

​No entanto, a luz da manhã trouxe consigo a realidade e a ausência.

​Analis despertou com o calor do sol tocando seu rosto. Ao tatear o lado da cama, encontrou o lugar vazio, mas ainda morno. Na mesinha de cabeceira, um banquete matinal a esperava: pães frescos, mel e uma generosa porção das cerejas rosadas que ela tanto gostava. Ao lado da bacia de prata, um bilhete escrito com a letra firme, porém levemente trêmula, de Robert:

​"Não quis acordá-la. Senti um aperto estranho no peito e uma fraqueza que não pude ignorar. Fui buscar o auxílio da curandeira na orla da floresta, pois os médicos da corte só sabem de sangrias e teorias. Coma as frutas. Voltarei logo."

​Analis sentiu uma pontada de ansiedade que não esperava. Ela comeu as cerejas de forma mecânica, andando de um lado para o outro no quarto. A raiva que sentia dele parecia ter sido substituída por uma preocupação sufocante. Por que a curandeira da floresta? O que ele não estava contando?

​As horas se arrastaram como séculos. Ela olhava pela janela a cada cinco minutos, o peso do ventre dificultando seus passos inquietos. O palácio parecia mais vazio sem a presença imponente de Robert.

​Finalmente, o som de vozes abafadas e passos pesados ecoou no corredor. Analis abriu a porta abruptamente e seu coração despencou.

​Robert estava sendo carregado por dois guardas da elite. Seu rosto, antes corado pelo sol, estava pálido como mármore, e o suor frio brilhava em sua testa. Ele mal conseguia manter os olhos abertos.

​— Majestade! — Analis exclamou, a voz falhando.

​Os guardas o conduziram até a imensa cama de carvalho e o deitaram com dificuldade. Robert soltou um gemido baixo quando sua cabeça tocou o travesseiro. Ele tentou focar o olhar em Analis, esboçando um meio sorriso que era mais uma careta de dor.

​— Eu disse... que voltaria — sussurrou ele, a voz rouca, antes de fechar os olhos em uma exaustão profunda.

​Analis correu para o lado dele, esquecendo-se de todas as brigas, da coroa e da prisão. Ela pegou a mão dele — que estava gélida — e olhou para os guardas com um desespero que não conseguia mais esconder.