A Coroa e o Coração

24 O Sopro do Inverno no Coração do Rei



​O quarto real, que antes parecia uma prisão de luxo, transformou-se em um santuário de vigília e apreensão. Os dois guardas que carregaram Robert retiraram-se em silêncio, deixando para trás um pergaminho rústico, amarrado com um cordão de cânhamo sujo de terra — o aviso da curandeira da floresta.

​Analis, com as mãos trêmulas, desenrolou o papel. As palavras eram poucas, mas pesadas como chumbo:

​"O coração que carrega o peso de um reino e de uma culpa que não lhe pertence está cansado de bater. O gelo do inverno entrou em seu peito, e a chama é fraca. Somente o calor de quem ele ama pode mantê-lo deste lado do véu. Se a paz não vier, ele partirá antes da primeira neve."

​Analis deixou o papel cair. Ela olhou para Robert, o homem que a enfrentara, que a amara e que a mantivera cativa, e viu apenas um ser humano frágil, lutando por cada respiração. A raiva que ela alimentara por meses pareceu evaporar, substituída por uma ternura desesperada que ela tentara negar a si mesma.

​— Robert... — sussurrou ela, sentando-se na borda da cama.

​Ela não chamou as aias. Com uma bacia de água morna e panos de linho fino, Analis começou a cuidar dele. Ela desamarrou a túnica dele com dedos ágeis, limpando o suor frio de seu peito e de sua testa com movimentos circulares e lentos. Cada toque era carregado de uma atenção que ela nunca permitira transparecer enquanto ele estava forte.

​Robert despertou brevemente, os olhos turvos encontrando o rosto de Analis iluminado pela luz suave das velas.

​— Você... ainda está aqui — murmurou ele, a voz tão fraca que ela precisou se inclinar para ouvir.

​— Shhh... não fale — pediu ela, passando um pano úmido em seus lábios ressecados. — Eu não vou a lugar nenhum.

​Durante toda a noite, Analis não pregou o olho. Apesar do peso de sua própria gravidez e do cansaço que lhe cobrava o corpo, ela permaneceu firme ao lado dele. Ela trocava as compressas, sussurrava palavras de encorajamento e, por várias vezes, pegava a mão gélida de Robert e a levava ao seu ventre, para que ele pudesse sentir o chute vigoroso do bebê.

​— Sinta, Robert — ela dizia, com a voz embargada. — Ele está aqui. Ele precisa de você. Eu... eu também preciso.

​Em um momento de delírio, Robert apertou a mão dela.

​— Perdoe-me, Analis... — ele balbuciou, as lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos fechados. — Por tudo... eu só queria... não estar sozinho na escuridão.

​Analis inclinou-se e depositou um beijo suave na testa dele, sentindo o calor da febre diminuir levemente sob seu toque.

​— Descanse agora, meu Rei — sussurrou ela, ajeitando as cobertas de arminho ao redor dele. — A floresta diz que você precisa de paz, e eu serei a sua paz esta noite.

​Ela pegou uma das cerejas rosadas que sobraram na bacia, esmagou-a levemente e passou o suco doce nos lábios dele, como se fosse um bálsino de vida. Pela primeira vez em muito tempo, o semblante de Robert relaxou. Ele não era mais o carcereiro, e ela não era mais a prisioneira; eram apenas duas almas feridas, unidas pela fragilidade da vida e pela promessa de um futuro que batia forte dentro de Analis.