A Coroa e o Coração

10 O Punhal de Cristal



​O jardim real estava em plena floração, um mar de tulipas e jacintos que exalavam um perfume doce e melancólico. Analis caminhava com passos lentos, o vestido preto contrastando com a vivacidade das cores ao seu redor. Ela tentava, como prometera a Robert, respirar o ar que Drake tanto amava. No entanto, o silêncio do jardim parecia apenas amplificar o vazio em seu peito.

​Sua caminhada foi interrompida pela aproximação apressada de um mensageiro real. Ele trazia o selo de cera vermelha com a flor-de-lis e o leão: a marca da coroa britânica.

​— Uma mensagem urgente da Inglaterra, Alteza — disse o homem, curvando-se profundamente antes de entregar o pergaminho frio.

​Analis sentiu um lampejo de esperança. Talvez seu irmão, Elliot, estivesse enviando palavras de conforto, um convite para que ela passasse algum tempo em casa para curar suas feridas. Mas, conforme seus olhos percorriam as linhas caligrafadas com uma frieza cortante, o papel começou a tremer em suas mãos.

​A carta anunciava o nascimento do herdeiro de Elliot e da Rainha Marianne. Um menino. Um novo sucessor que consolidava o poder do irmão. Mas o parágrafo seguinte era um golpe direto no coração: sob o pretexto de que o casamento dela com Drake não gerara herdeiros e que a aliança com os Países Baixos agora era um "fardo político" após a guerra, a Inglaterra revogava seu título. Analis Lioncort não era mais considerada uma princesa britânica. Ela fora deserdada, exilada e descartada por seu próprio sangue.

​Sem fôlego, Analis correu pelos corredores do palácio, tropeçando em suas próprias saias, até invadir o gabinete do Rei Robert.

​— Robert! — ela gritou, a voz falhando enquanto as lágrimas inundavam sua visão.

​O rei levantou-se imediatamente, alarmado pela expressão de puro horror no rosto da nora. Analis estendeu a carta, mas antes que ele pudesse pegá-la, ela desabou em seus braços, soluçando tão violentamente que seu corpo inteiro sacudia.

​— Eles me jogaram fora... — ela gemia entre soluços desesperados. — Elliot... meu próprio irmão... ele me tirou tudo! Eu não sou mais nada, Robert! Eles me tiraram o nome, o título... eu não tenho mais casa para onde voltar!

​Robert leu a carta rapidamente, seus olhos faiscando de uma fúria real que Analis raramente vira. Ele a apertou contra o peito, deixando que as lágrimas dela molhassem seu manto.

​— Eles são covardes — rugiu o rei, sua voz vibrando de indignação. — Descartar a própria irmã no momento de sua maior dor por causa de um herdeiro e de política... é uma abominação!

​Analis soluçava de forma quase incontrolável, o som de seu coração quebrando novamente ecoando pela sala.

​— Eu sou uma ninguém agora... uma viúva sem pátria... — ela balbuciava, escondendo o rosto nas mãos.

​Robert segurou o rosto dela com firmeza, forçando-a a olhar nos olhos dele. Suas mãos eram o único porto seguro que restava no mundo.

​— Escute-me bem, Analis — disse ele, a voz agora carregada de uma autoridade inquestionável e um carinho profundo. — A Inglaterra pode ter tirado o seu título, mas eles não podem tirar quem você é. Para eles, você pode ser um peão político, mas para este Reino e para este Rei, você continua sendo a nossa Princesa. Você é a viúva do meu filho, a mulher que ele escolheu.

​Ele limpou uma lágrima do rosto dela com o polegar.

​— Você não está sozinha e nunca será descartada aqui. Se a Inglaterra fechou as portas para você, os Países Baixos são o seu lar eterno. Você não é uma ninguém, Analis. Você é minha filha por escolha, e eu protegerei o seu lugar nesta corte com cada gota do meu sangue.

​Analis continuou a chorar, mas o desespero absoluto começou a dar lugar a um sentimento de gratidão dilacerante. No momento em que seu próprio sangue a traiu, o pai de seu amado Drake a segurava com mais força do que nunca.