A Coroa e o Coração

7 O Ocaso do Coração




​O sol se puzera atrás das torres do Palácio de Verão, tingindo o céu de um roxo fúnebre. O som que anunciava o retorno do exército não era o de trombetas vitoriosas, mas o bater lento e compassado de um único tambor, abafado pela poeira da estrada. Os portões de ferro se abriram pesadamente, e a multidão de súditos, que esperava para comemorar, silenciou ao ver o estado dos homens que entravam.

​Analis estava no topo da escadaria desde o amanhecer. Ao avistar a silhueta do Rei Robert à frente da tropa, ela não conseguiu mais se conter. Rompendo o protocolo, a princesa desceu os degraus de mármore correndo, seus pés leves quase não tocando o chão, o vestido claro esvoaçando como uma bandeira de esperança.

​— Majestade! — gritou ela, a voz cheia de uma alegria ansiosa enquanto alcançava o pátio. — Vocês voltaram! Onde ele está? Onde está o meu Drake?

​O Rei Robert parou o cavalo. Seus ombros estavam curvados, e a armadura, antes brilhante, estava coberta de fuligem e do sangue seco de seu próprio filho. Ele desceu do animal com movimentos lentos, como se cada osso de seu corpo pesasse uma tonelada. Ele não olhou para ela de imediato.

​Analis parou a poucos metros dele, o sorriso começando a murchar conforme notava o silêncio mortal que envolvia os soldados.

​— Majestade... — ela repetiu, a voz agora num sussurro trêmulo. — Por que o senhor não responde? Onde está o príncipe? Ele... ele ficou para trás para organizar as tropas?

​Robert finalmente levantou o rosto. Seus olhos estavam vermelhos, devastados por lágrimas que pareciam não ter fim. Ele caminhou até Analis e segurou as mãos dela, que estavam geladas.

​— Analis... minha querida filha — a voz dele falhou, quebrando-se ao meio. — A guerra foi vencida... mas o preço... o preço foi a nossa alma.

​— Não... — Analis balançou a cabeça, tentando se soltar do toque dele como se pudesse fugir da verdade. — Não diga isso. Ele me prometeu. Ele disse que voltaria antes das tulipas!

​— Ele cumpriu a promessa, Analis — disse o Rei, com o rosto banhado em novas lágrimas. — Ele está voltando para casa.

​Robert fez um sinal lento com a mão para a retaguarda. Quatro soldados da guarda pessoal de Drake avançaram, carregando uma maca de madeira coberta pelo estandarte real dos Países Baixos — o leão dourado sobre o fundo azul.

​O mundo de Analis parou. O som do pátio desapareceu, restando apenas o ruído dos passos dos soldados sobre o cascalho. Quando eles pousaram a maca no centro do pátio, o Rei, com as mãos trêmulas, puxou uma parte do tecido.

​Lá estava ele. Drake parecia apenas dormir, a expressão serena que ele tinha na cabana da floresta ainda gravada em seu rosto pálido. Mas seu peito não subia nem descia. Sobre o seu coração, o lenço de seda que Analis lhe dera estava agora endurecido e escuro, completamente tinto de sangue.

​— DRAKE! NÃO! — o grito de Analis rasgou o ar, um som tão carregado de agonia que fez os soldados mais veteranos baixarem a cabeça.

​Ela se atirou sobre o corpo dele, agarrando-se à armadura fria, escondendo o rosto no pescoço do marido como se pudesse aquecê-lo com seu próprio calor.

​— Acorda! Por favor, meu amor, acorda! — ela soluçava, o desespero tomando conta de cada fibra de seu ser. — Você prometeu! Você disse que voltaríamos para a cabana! Drake, abra os olhos!

​Analis beijava o rosto gélido de Drake, suas lágrimas lavando a poeira da guerra das bochechas dele. Ela o abraçava com tanta força que parecia querer fundir sua vida à dele, recusando-se a deixá-lo partir para o mundo das sombras. O Rei Robert caiu de joelhos ao lado dela, abraçando a nora e o corpo do filho, enquanto os gritos de dor da princesa ecoavam pelas paredes de pedra do palácio, marcando o fim de uma era de felicidade e o início de um inverno eterno no coração do reino.