A Coroa e o Coração

8 O Adeus sob o Céu de Chumbo



​O dia do funeral amanheceu envolto em uma neblina densa, como se a própria natureza tivesse decidido vestir o luto pelo príncipe caído. O sino da grande catedral de Amsterdã batia de forma lenta e pesada, um som metálico que reverberava no peito de cada cidadão que se amontoava nas ruas, segurando tulipas brancas em sinal de respeito.

​Dentro da catedral, o silêncio era interrompido apenas pelo eco dos passos e pelo som abafado dos soluços. O caixão de Drake, feito do carvalho mais fino e adornado com o brasão real em ouro, repousava no centro do altar, cercado por centenas de velas que tremeluziam como estrelas distantes.

​Analis estava de pé, mas seu corpo parecia não pertencer mais a ela. Vestida inteiramente de preto, com um véu de renda fina escondendo parcialmente seu rosto pálido e inchado, ela parecia uma estátua de dor. Seus olhos, que antes brilhavam com a luz da Inglaterra e o amor de Drake, agora estavam opacos, fixos no caixão à sua frente.

​Ela cambaleou quando o coro começou o primeiro hino fúnebre. Seus joelhos fraquejaram, e o mundo girou em tons de cinza.

​Imediatamente, uma mão firme e calejada segurou seu braço. O Rei Robert, também vestido de negro, com a coroa pesando sobre sua cabeça como um fardo insuportável, não saiu do lado dela nem por um segundo. Ele a amparou, trazendo o corpo da nora para perto do seu, servindo de pilar para que ela não desabasse no chão de mármore frio.

​— Respire, minha filha... — sussurrou Robert, sua voz rouca de tanto chorar, mas carregada de uma força desesperada. — Eu estou aqui. Nós vamos passar por isso juntos.

​— Dói tanto, Majestade... — Analis murmurou, a voz quase sumindo entre as pregas do véu. — Parece que levaram o ar dos meus pulmões junto com ele.

​— Eu sei — respondeu o rei, apertando a mão dela com força. — Eu sinto o mesmo. Mas ele não gostaria de ver você cair. Por ele, Analis... fique de pé por ele.

​Durante toda a cerimônia, Robert foi a sombra protetora de Analis. Quando chegou o momento de caminhar até o caixão para a última despedida, ela travou. O medo de tocar a madeira fria e aceitar a finalidade da morte a paralisou. Robert, com paciência infinita, envolveu os ombros dela com o braço e caminhou passo a passo, dividindo o peso daquela caminhada impossível.

​Diante de Drake, Analis estendeu a mão trêmula e depositou sobre o caixão uma única flor: uma rosa branca da Inglaterra, entrelaçada com uma tulipa dos Países Baixos.

​— Eu te amarei em todas as vidas, meu príncipe — ela disse, num sussurro que só o rei e o silêncio de Deus puderam ouvir.

​Ao saírem da catedral, sob a chuva fina que começava a cair, Robert continuou a ampará-la enquanto desciam a escadaria. A multidão observava em silêncio absoluto o rei e a princesa, unidos pela maior das tragédias. Robert não era mais apenas o monarca vitorioso; ele era um pai que perdera o filho, cuidando da mulher que o filho mais amara.

​Naquela tarde, o reino enterrou sua esperança, mas nos corredores vazios do palácio, uma nova e triste união se formava entre o rei e a princesa, sobreviventes de um amor que a guerra não conseguiu apagar, apenas silenciar.