A Coroa e o Coração
20 A Noite das Correntes Invisíveis
A noite de núpcias não trouxe celebração, apenas o eco metálico dos portões se fechando e o peso insuportável da coroa de ouro que Robert depositara sobre a cabeça de Analis. O quarto real, outrora um símbolo de status, parecia agora uma câmara de tortura decorada com sedas e veludos.
Robert entrou nos aposentos reais exalando uma mistura de vinho e uma determinação sombria. Ele encontrou Analis de pé junto à janela, ainda vestindo o pesado traje da cerimônia, a silhueta marcada pela gravidez que agora era a razão de sua prisão. Quando ele fechou a porta e a tranca estalou, o som pareceu um tiro no silêncio do quarto.
— Saia daqui, Robert — disse ela, sem se virar. A voz dela estava gélida, desprovida de qualquer vestígio da doçura que um dia o encantara.
— Este é o meu quarto, Analis. E agora, por lei e por Deus, é o seu também — ele respondeu, aproximando-se com passos lentos. — Somos marido e mulher diante de todo o reino.
Quando ele estendeu a mão para tocar o ombro dela, Analis virou-se com a fúria de uma tempestade. Ela não recuou; ela avançou. Com as mãos pequenas, mas carregadas de um ódio acumulado, ela começou a bater no peito da túnica de Robert.
— Não toque em mim! — ela gritou, cada golpe sendo um desabafo de meses de dor. — Você me comprou com uma coroa! Você me roubou da minha floresta! Você usou o meu filho para me acorrentar a você!
Robert segurou os pulsos dela, tentando contê-la sem machucá-la, mas Analis lutava como se sua alma dependesse disso. Ela o empurrou, atingindo o rosto dele com as costas da mão, um estalo seco que deixou uma marca vermelha na pele do Rei.
— Você acha que esse anel no meu dedo te dá direito ao meu corpo? — ela sibilou, os olhos faiscando com lágrimas de puro desprezo. — Você me chamou de lixo, Robert. Você disse que se sentia sujo por me amar. O que mudou? O ouro na minha cabeça lavou o seu pecado ou apenas deu um nome legal à sua luxúria?
Robert recuou um passo, o rosto ardendo tanto pelo golpe quanto pelas palavras dela. A fúria dele começou a murchar, dando lugar a uma exaustão profunda que parecia vir dos seus ossos.
— Eu fiz isso para protegê-lo, Analis! — ele rugiu, mas a voz já não tinha a mesma força. — Para que ele não fosse um bastardo! Para que o nome dos Brooke não morresse com Drake!
— Não use o nome do seu filho para justificar a sua covardia! — rebateu ela, apontando para a cama. — Você se casou comigo porque não suporta a ideia de que eu pertença a mim mesma. Você quer possuir a mãe do herdeiro como possui uma terra conquistada. Mas olhe para mim, Robert... olhe bem. Você pode ter o meu título, pode ter o meu filho trancado nestas paredes, mas você nunca, jamais, terá a mulher que eu fui um dia.
Eles ficaram ali, ofegantes, separados por um abismo que nenhuma coroa poderia atravessar. O Rei olhou para a mulher que ele amava e percebeu, com uma clareza dolorosa, que ao forçar o casamento, ele havia matado a última faísca de carinho que ela sentia por ele. Ele não era um marido; era apenas um carcereiro.
Robert suspirou, um som que pareceu carregar todo o peso do reino. Ele desamarrou o manto real e o jogou sobre uma poltrona, sentindo-se subitamente velho e derrotado. Sem dizer mais uma palavra, ele caminhou até o lado oposto da imensa cama de carvalho e deitou-se, mantendo uma distância intransponível entre eles.
— Durma, Analis — disse ele, a voz abafada pelo travesseiro, sem olhar para ela. — Não vou tomá-la à força. Eu não sou o monstro que você pensa... embora eu saiba que hoje agi como um.
Analis permaneceu de pé por um longo tempo, observando as costas do homem que agora era seu esposo. O silêncio voltou a reinar, pesado e sufocante. Ela finalmente deitou-se na borda extrema da cama, de costas para ele, abraçando o próprio ventre. Naquela noite, a Rainha dos Países Baixos chorou em silêncio, percebendo que a cama real era o lugar mais solitário de todo o mundo.
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