Depois de acabarem de tomar o café da manhã, Erick e Lola foram à caminho da escola mas antes os dois se despediram de Helena e Manoel e Lola agradeceu pela comida e pela hospitalidade do casal.

Na porta da casa de Erick, ele foi até à garagem e subiu em sua moto nova.

– Nossa, que linda!

– Eu queria te mostrá-la há um bom tempo...

Erick pegou dois capacetes e ergueu um deles em direção à sua amiga.

A menina recebeu o capacete e franziu o cenho em confusão.

– O quê? Você quer que eu vá para a escola com você nesta moto?

– Claro. Por quê o espanto?

– É que eu prefiro ir de bicicleta, sabe... Já estou acostumada. E além do mais, eu quero dar uma passada em casa para tomar uma ducha rápida e trocar de roupa antes de ir pro colégio.

– Deixa de besteira! Deixe sua bicicleta aqui em minha casa que depois eu a levo de volta para você. Podemos ir de moto pro colégio e passar na sua casa antes. Sem problemas.

– É que eu fico com medo de andar de moto. É perigoso e tal...

– Lola com medo? Eu não acredito que acabei de ouvir isso! — riu o menino- E aquele papo,no início do ano, em que você queria aproveitar o último ano do ensino médio para fazer coisas novas e se aventurar?

Lola lembrou da promessa que fez para si mesma em aproveitar cada momento deste último ano no ensino médio. E então resolveu ceder e fazer oque o amigo lhe propôs.

– OK, você venceu.

Erick conferiu no relógio e percebeu que havia quarenta minutos para os dois chegarem ao colégio.

Erick colocou o próprio capacete mas percebeu que sua amiga estava um pouco enrolada para pôr o dela.

– Quer que eu te ajude? — perguntou enquanto ria da situação.

– Quero sim!

Erick colocou o capacete em Lola e sentou na moto. Lola demorou alguns segundos para finalmente montar na moto. Sentou-se atrás de Erick mas não segurou em sua cintura.

Erick percebeu que a amiga não estava se segurando e disse:

– Se segura em mim, senão você vai cair.

Lola, um pouco relutante, estendeu as mãos, se aproximou junto ao corpo de Erick e envolveu as mãos na cintura do garoto.

Erick, percebendo a relutância de Lola ao entrar em contato corporal com ele resolveu mexer com a menina:

– O quê foi? Por acaso está com medo de mim? Segura com força.

– Não é isso, é que...

– Qual foi Lola!? Eu não mordo! Só se você pedir, é claro. — disparou o menino com tom de sarcasmo.

– Engraçadinho! — Lola segurou com força na cintura do amigo — Anda logo, antes que cheguemos atrasados.

Erick deu a partida na moto e então seguiu em direção à casa de Dolores.

******

A casa de Dolores não ficava distante da casa de Erick, então eles concluíram a trajetória em sete minutos.

Chegando na entrada da casa, Erick estacionou sua moto e os dois desceram dela enquanto retiravam os capacetes.

– Quer entrar e me esperar na sala, enquanto eu me apronto?

O menino pensou antes de responder ao convite e, devido às circunstâncias, achou melhor recusá-lo e esperá-la do lado de fora da casa.

– Eu te espero aqui.

– Tem certeza?

– Absoluta. E anda logo,pois você perdeu a aula ontem e se faltar de novo você estará ferrada! -lembrou o amigo.

– Verdade! Então me espere aqui. Juro que não vou demorar.

Lola pegou as chaves de casa, que estavam guardadas dentro do bolso interno do casaco e por fim abriu a porta e entrou em casa.

Erick esperou pacientemente por ela durante vinte minutos. Quando mal esperava, ele se surpreendeu quando a viu sair de casa já pronta para ir ao colégio.

Lola vestia uma blusa branca, regata com corte em "V", uma saia tipo colegial xadrez na cor vermelha e nos pés calçava uma londa bota de couro falso que ia até acima dos joelhos. O cabelo, ela optou por dedeixá-los soltos e ainda estavam úmidos devido ao banho recém tomado.

– Uau! — Erick estava tão surpreso que só conseguiu balbuciar uma onomatopéia.

– O quê foi? — Lola perguntou enquanto franzia o cenho.

– Até que para quem se arrumou em menos de meia hora, você está linda!

– Que isso! Obrigada! — agradeceu enquanto sentia suas bochechas corarem de vergonha, pois o amigo nunca antes tinha a elogiado desta maneira.

Erick entregou o capacete para ela.

– Sério. Você está muito linda.

Um silêncio constrangedor tomou conta da atmosfera daquele lugar.

– Bom — pigarreou Lola- Vamos então?

– Sim, claro.

Lola sentou-se na moto e o segurou novamente pela cintura.

– Aperte o cinto! — brincou Erick.

Então os dois, finalmente, foram para o colégio.

****

– Valeu pela carona, amigo! — agradeceu Lola.

– Que isso, nem precisa agradecer.

– Sério, você não tem ideia do quanto me fez bem em ter passado o dia com você ontem.

Lola sorriu e abraçou o amigo. Erick ficou surpreso pela demonstração de afeto repentino da menina — pois ela era uma pessoa "fria" com relação à afetos- mas, claro, resolveu retribuir o abraço.

– Você é o meu único amigo. Estava com saudades de passar um tempo com você. — desabafou Lola.

– Você também é a minha única amiga.

– Mas é diferente no seu caso, você têm seus amigos do colégio e em casa pode desabafar com os seus pais. Eu não tenho nada disso.

Erick pegou nas duas mãos dela e sorriu. Ele pensou em dizer algo para confortá-la, mas a menina o cortou e continuou seu desabafo.

– Ainda bem que eu tenho você para abrir meu coração. Se não fosse por você, eu estaria louca. Guardar tudo para si pode ser um grande erro. Quando dividimos nossos anseios com alguém, isso faz com que possamos nos sentir mais leve. Eu precisava desabafar com alguém e eu só tenho você para fazer isso. Ainda mais pelas coisas que estou passando ultimamente. Está tudo muito confuso. É estranho saber que nem eu mesma consigo me entender, e o pior, reconheço que só faço besteira. Como por exemplo, ter me enfurecido e jogado toda a comida italiana na cabeça de Michele, ter gritado com o meu pai sem necessidade e o pior, ter feito aquilo com... — a menina parou abruptamente de falar, se continuasse, tudo iria por água à baixo e seu segredo seria revelado. Quase pronunciou o nome de Miranda e se fizesse aquilo, não só a colocaria em apuros como poderia colocar sua amada em risco e exposta.

– Ter feito, o quê? — Erick perguntou desconfiado e curioso.

Lola arregalou os olhos e sentiu seu coração disparar.

– Nada, esquece... — tentou disfarçar enquanto passava a mão pelo cabelo em desespero. — Vamos para dentro do colégio. ...

Erick a pegou pelo braço antes que ela pudesse ter a chance de fugir dele.

– Você sabe que pode contar comigo pra tudo. Estou aqui para te ouvir e não para te julgar. — Erick largou o braço dela e acariciou a face da amiga com carinho. — Esqueceu que sou seu amigo?

Lola engoliu em seco e sabia que não tinha como fugir daquele situação. Agora que Erick tinha lhe posto na "parede", ela pensou rápido e conseguiu contornar a situação.

– Eu me refiro sobre aquilo que fizemos. Termos nos beijado foi um grande erro...

– Ah, aquilo... — Erick deu um suspiro ao lembrar sa situação. Apesar se amar Lola como mulher, prefiria não se arriscar a perder a amizade da menina e como ela não correspondia aos seus encantos, resolveu se contentar só com a amizade.

– Já está tudo resolvido. Eu sei que somos apenas amigos. Vou te respeitar como tal... fique tranquila. — Erick levou as mãos ao ombro da menina para tranquilizá-la.

– Eu sei, eu sei... — Lola suspirou de alívio por ter conseguido sair pela tangente.

PRIIIIIIIIM! Anunciou o sinal estridente. Os dois amigos seguiram em direção para dentro do colégio.

Andando pelo caminho, Lola se lembrou que era terça-feira,o que significava que teria aula de português logo no primeiro tempo. E oque significava, também, que teria aula com Miranda. E seria a primeira vez que as duas ficariam de cara a cara, depois do que havia acontecido entre elas. Só de pensar neste momento, em ter que encarar os belos olhos verdes de Miranda, Lola sentia seu coração disparar, suas mãos gelarem e sua garganta começar a secar.

Não precisava de muito para que Lola ficasse fora de eixo, somente em pensar em Miranda, conseguia mexer com suas estruturas.