O barulho de caixas de papelão sendo abertas por estilete na sala de Lúcio podia-se ser ouvido da cozinha, onde ele e sua filha estavam saboreando um bolo de laranja.

— Pai, eu já disse que não quero festa de aniversário! — reclamava Lola.

— Minha filha, são seus 18 anos. É importante comemorar esta data.

— São dezoito anos e não quinze!! — Lola cruzou os braços.

— Amor, onde posso colocar minha coleção de anjinhos? — perguntou Michele que estava desempacotando seus pertences de sua antiga casa, onde morava sozinha, oriundas de caixas de papelão devidamente lacradas.

Lola levantou as sobrancelhas e trocou olhares com seu pai.

— Coleção de anjinhos, amor? — Lúcio franziu o cenho.

— É, amor. A coleção que herdei de minha avó.

Michele se aproximou deles com dois anjinhos em miniatura nas mãos.

— Pode colocar no meu escritório ou na sala.

— Na sala ficaria melhor, para todos verem.

Lola disse ''que brega'' com a boca sem pronunciar um som para o pai. Lúcio riu e balançou a cabeça pois também achou os anjos inapropriados para sua casa pois achava que não combinavam, mas aceitou de bom grado sem questionar a nova esposa.

— Então filha, já fiz a lista de convidados incluindo nossos parentes e os parentes de Michele, só falta incluir seus amigos.

— Espera aí, quer dizer que você vai convidar aquela mulher chata e arrogante daquele jantar desastroso? Vai convidar a família dela? — Michele estava atrás de Lola arrumando os anjinhos em uma prateleira na sala, e Lola indicou com a mão fechada, apenas exibindo o dedão, a presença de Michele.

— Eu ouvi! — disse Michele.

— Lola! — reclamou Lúcio.

— Tudo bem... me desculpe. Mas, a questão é que eu não quero festa! Isso é uma perca de tempo e de dinheiro.

— Mas Lola, não se faz 18 anos todo dia — disse Michele deixando seus anjos recém arrumados em uma prateleira e indo em busca de uma nova caixa de papelão para abrir.

— Não se fazem 18, nem 19,20 ou 30 todo dia!

Michele riu e balançou a cabeça.

— Mas querida, como você não teve festa de quinze anos, pois preferiu fazer uma viagem, acho que seria justo fazer uma festa de dezoito. Por favor, filha, me deixe ter o prazer de te ver comemorando esta data tão especial.

Lola revirou os olhos e bufou mas cedeu e concordou com o pai.

— Ok, tudo bem, mas só aceito para você parar de encher meu saco de uma vez!

— Eba! — comemorou todo feliz — Então, quais alunos de classe você vai chamar. A sala toda?

— A sala toda? Nem pensar! Tem gente que eu não gosto de ver a cara diariamente, imagina no dia do meu aniversário!

— Ok, mas me diga quais você quer convidar para eu poder anotar na lista.

Lúcio segurava uma caneta esferográfica azul na mão e um papel branco estava sob a mesa.

— Chamarei Sofia, Roberta, Alice, o nerd do Felipe...

Lúcio anotava os nomes citados.

— E o Erick? Se esqueceu dele?

Lola engoliu em seco ao ouvir o nome de seu ex amigo ser citado, mas para não ser questionada pelo pai sobre o desentendimento dos dois, ela assentiu e concordou em convidá-lo.

— É, pode colocar o nome dele.

Depois de Lola ter tido uns quinze nomes de alunos de seu colégio, Lúcio quase a fez engasgar com o café que ela estava tomando naquele momento.

— E a filha do diretor? Anna o nome dela, não é mesmo?

— Anna? Nem pensar! Detesto essa menina, pai!

— Mas filha, vocês não fizeram um trabalho juntas em outro dia?

— Fizemos pois fomos obrigadas. Não quero chamá-la.

— Mas seria uma desfeita não chamar a filha do diretor do colégio.

— Pai, eu serei obrigada a chamar essa naja para a minha festa?

— Ah, vamos, Lola. É só por umas horas e em respeito ao diretor e por todos os anos em que estudou no colégio, acho que seria ideal chamá-la.

Lola ficou pensativa.

— E além do mais, seria uma boa hora para mostrar que você é superior à ela, Lola. E eu faço questão de levar você no shopping e escolher um lindo vestido e passar um dia no salão de beleza, o que acha?

Lola olhou para o pai e viu que ele estava radiante com a ideia de ver sua filha e futura esposa juntas e à sós, então resolveu aceitar.

— Tudo bem, eu aceito. Então capricha na decoração da festa e no buffet para eu esfregar na cara dessa loira aguada de meia tigela.

Lúcio e Michele riram do que a menina disse mas logo o pai a corrigiu fazendo-a revirar os olhos como sempre fazia.

Era início de Outubro e o aniversário de Lola era no fim do mês, mas eles já estavam se programando e organizando toda a festa.