Em uma manhã de uma segunda-feira chuvosa, Lola ouviu o despertador e pulou da cama.

Na sala da casa, ela se deparou com o pai sentado no sofá, lendo jornal e tomando uma caneca de café.

– Bom dia.

– Ora, que milagre! Eu nem precisei jogar um balde d'água para te acordar como na outra vez.

– Sarcasmo a essa hora, não. Por favor! — disse Lola enquanto se sentava na mesa e enchia uma xícara lilás de café-com-leite.

– Não vai trabalhar hoje, pai?

– Vou para o escritório de advocacia mais tarde.

– Entendi...

– Se arrume pois te levarei ao colégio.

Lola estava mastigando um biscoito amanteigado e quase se engasgou ao ouvir aquilo.

– Porque isso agora? Você não me leva ao colégio desde a sétima série do ensino fundamental.

– Resolvi que devo participar mais de sua vida. E como só vou trabalhar hoje mais tarde, tenho tempo suficiente para te levar ao colégio de carro.

– Que mico,pai! Espero que você não saia do carro e ninguém te veja.

– Querendo ou não, eu irei te levar.

Lola bufou e deu um suspiro longo.

– Ninguém merece! Depois de velha, no último ano do ensino médio, eu serei acompanhada pelo "papai". Que raiva!

– Pare de reclamar e vá se arrumar. Estarei esperando no carro.

******

Lúcio estacionou o carro bem em frente a entrada do colégio.

– Tenha uma boa aula.

– Tchau.

– Espere, pegue o guarda-chuva para não se molhar e acabar gripada.

– Valeu pai, mas lembre-se que não sou mais uma criança.

Lola abriu o guarda-chuva e bateu a porta do carro com força e deixou Lúcio sozinho e um pouco triste por ter sido tratado com frieza pela filha.

*******

O professor de biologia estava explicando o que era um gene e iria dar início às aulas de genética, quando foi surpreendido pela chegada do diretor Cezar na sala de aula.

– Posso atrapalhar a sua aula por um instante, professor?

– Claro, pode entrar.

O diretor deu passos curtos e pediu silêncio aos alunos que estavam conversando.

– Dolores, por favor, me acompanhe até a minha sala.

Ao ouvir chamar seu nome, Lola arregalou os olhos e levantou da mesa imediatamente, sem sem saber o que lhe aguardava.

Cezar e Lola foram andando, em silêncio até chegarem à sala do diretor.

A sala de Cezar era pequena, as paredes eram pintadas por uma cor creme, havia quadros, com ilustrações remetentes à época medieval, pendurados pela parede da sala. O lugar era mobiliado por duas cadeiras de madeira rústica e antiga, estofadas por uma almofada na cor mostarda. Havia uma mesa grande de madeira e a cadeira do diretor se postava encaixada na grande mesa. A cadeira do diretor era também de madeira e em seu encosto havia um detalhe, um desenho esculpido à mão e o estofado era da cor branca. Acima da mesa havia um telefone sem fio, um porta caneta, papeladas, uma luminária, uma pequena placa com o nome e sobrenome do diretor e havia também um porta retrato com uma fotografia em que Cezar aparecia na companhia de sua esposa, que era ruiva e deu sua filha Anna. A foto deveria ter sido tirada em uma das férias do diretor pois o cenário da imagem tinha um ar tropical. A foto supostamente fora tirada recentemente.

– Sente-se, por favor. — pediu Cezar, indicando com uma das mãos a cadeira para que Lola tomasse posse.

A menina obedeceu e sentou-se, quando Cezar percebeu que ela estava acomodada deu início a conversa.

– Eu quero ser breve e claro com a senhorita.

– O que houve, senhor?

– Eu é que lhe pergunto... Porquê faltou às últimas aulas da detenção?

Lola engoliu em seco e apertou um dos braços da cadeira em que estava sentada.

– Eu me esqueci completamente. Meu pai viajou e eu perdi a noção das coisas. Sem ele por perto, para pegar no meu pé, eu acabo me esquecendo de tudo.

– Ah, não me diga! Se esqueceu?... — o diretor levou à mão às têmporas para se acalmar — E não é só isso...

Lola se remexeu na cadeira e sentiu seu estômago se embrulhar.

– A professora Miranda, por ser uma excelente profissional, foi a primeira a lançar as notas...

– Eu fui mal na prova dela? — interrompeu a menina.

– Usar a palavra "mal" seria um grande pleonasmo, senhorita. Uma prova valendo dez pontos, você adquiriu apenas dois pontos e meio. O que você tem a me dizer sobre isso?

– Eu confesso que não tinha estudado para essa prova...

– Sem desculpas banais, por favor.

Lola abriu a boca para tentar se defender mas foi interrompida pelo diretor, que fazia um sinal com o dedo para que ela se calasse.

– Não é somente essas duas coisas que me aflinge. Outros professores também estão reclamando de seu comportamento e falta de interesse nas aulas. Certo alunos como você, me faz pensar sobre o porquê de ainda freqüentarem este renomado colégio...

– O senhor vai me expulsar? — perguntou Lola aflita.

– Não. As coisas não funcionam deste jeito. Há forças maiores que dedidem o destino dos alunos deste colégio.

Lola soltou o ar que estava prendendo em forma de alívio.

– Mas não fique aliviada. Você só frenquetará as aulas, se seu pai ou algum responsável comparecer a este colégio ainda esta semana. Caso contrário ficará suspensa por um mês.

Lola levou as mãos ao cabelo e ficou preocupada ao pensar em como o seu pai reagiria ao saber daquilo tudo, afinal ela já havia aprontado o suficiente para tirará-lo dos eixos.

– Ele pode vir ainda hoje. Está livre pela manhã e só vai trabalhar à tarde.

– Excelente! Quanto antes nos encontrarmos melhor. Me dê o número do celular dele para que eu possa me comunicar e chamá-lo para comparecer à este colégio?

Lola ditou o número do celular de Lúcio e ficou aguardando a chegada do pai na sala do diretor enquanto roía as unhas de nervoso.

*****

Após o diretor ligar para o pau de Dolores em menos de meia hora Lúcio apareceu no colégio da filha.

Lúcio bateu na porta da sala do diretor e foi convidado a entrar.

– Com licença, diretor. Eu vim o mais rápido possível.

– Fico grato, mas antes sente-se, por favor.

Antes de se sentar, Lúcio olhou para Lola com ar de reprovação e sussurrou ao pé do ouvido da menina: " O que você aprontou dessa vez?"

O diretor pigarreou chamando a atenção de pai e filha.

– Aceita um copo d'água? Um café? — ofereceu Cezar ao pai de Lola.

– Não, senhor. Mas agradece a gentileza.

– Tudo bem. Então vamos direto ao assunto...

– Por favor, o quanto mais breve melhor.

– O senhor estava ciente de que sua filha não compareceu aos últimos dias de detenção?

Lúcio olhou para Lola e soltou um suspiro.

Lola por sua vez, abaixou a cabeça e pegou uma mecha fina de cabelo e começou a alisá-la com os dedos.

– Eu não sei mais o que fazer com essa menina. Já tirei o celular dela, já coloquei de castigo e não sei mais o que fazer!

– E não é só isso, senhor...

– Pode falar, diretor. Eu já nem sei mais o que esperar dessa garota.

– Ela vem se comportando mal nas aulas e vários professores vieram reclamar do comportamento dela para mim. E na prova de português ela obteve a pior nota da turma.

– E o que você tem a dizer sobre isso, Dolores? — perguntou o pai virando-se para a filha.

– Eu me esqueci completamente da detenção e confesso que não estudei para essa prova. Era surpresa também né.

– Não me venha com desculpas ! Ah, agora lembrei porquê você esqueceu de comparecer à detenção... Estava muito ocupada gastando meu dinheiro e indo à uma festa sem a minha permissão.

– Pai, você sabe que não foi bem assim...

– Cale-se! Não quero ouvir suas desculpas banais. Estou farto disso tudo! — esbravejou Lúcio.

– Por favor, acalme-se! E aqui não é lugar de discutir.

– Me desculpe, senhor Mazzochi. Essa garota me tira do sério e eu já nem sei mais o que fazer. Pelo visto terei que mandá-lá para um colégio interno.

– Devo lhe informar que se a sua filha não se comportar e não tirar notas boas, é melhor considerar tal comentário sobre o colégio interno.

– Porquê? O que o senhor está tentando me dizer com isto?

– Estou lhe advertendo pois se o senhor não der um jeito em sua filha, terei que expulsá-lá deste colégio.

– Me expulsar? — Lola arregalou os olhos.

– Fique tranquilo, senhor Mazzochi. Tomarei as devidas providências para que isto não venha acontecer.

– Confiareu em suas palavras.

– Pode ter total confiança pois quando me prorponho a resolver algo eu sempre consigo.

– Assim espero.

****

Após Lúcio conversar com o diretor, ele e sua filha caminharam pelo corredor do colégio.

– Dolores, você ouviu o diretor. Se você deslizar mais uma vez será expulsa. É isso o que você quer?

– Ele disse que não depende dele para que eu vá ser expulsa e eu teria que fazer algo muito grave...

– Menina, não brinque com a sorte! Pelo fvisto você está doida para ir para um colégio interno.

– É claro que não! Este é meu último ano neste colégio e aquele velho não vai estragar a minha vida.

– Olha como fala! Cadê o respeito? E para que ninguém venha a estragar sua vida, isto só depende de você!

– Sei disso e me esforçarei ao máximo. Mas o que mais me irrita é que ele não enxerga os defeitos dos outros alunos. Ele cisma comigo!

– Isso é coisa da sua cabeça. Manina de perseguição. — Lúcio balançou a cabeça.

– Ele e aquela loira aguada metida a dona do colégio, cismam comigo! E você diz isto porquê não está no meu lugar e não tem que engolir desaforo e conviver com aquela metida. Como eu detesto aquela loira de farmácia!

– Lola, fale baixo!

– Qualquer dia eu ainda estrangulou essa garota. — disse Lola mais para si mesma do que para o seu pai.

– Você não me ouviu? Fale baixo! Alguém pode ouvir! Você quer ser expulsa? É isso mesmo?

Lúcio levou as mãos aos ombros da filha.

– Me solta! — Lola deu um passo para trás tentando se desvencilhar dos braços do pai. Ao tentar escapar, ela se virou bruscamente e acabou esbarrando em alguém acidentalmente.

As pastas, bolsa e maleta que a pessoa carregava, caíram no chão devido o esbarrão.

Lola se abaixou para recolher as coisas que haviam caído. Ao pegar uma das pastas de couro da cor preta, a menina levantou a cabeça para entregar a pasta e acabou se deparando com um par de olhos verdes hipnotizantes que eram familiares.

– Perdão! Eu não quis...

– Ora, ora se não é ela mesma cruzando meu caminho novamente... — brincou a professora.

Só de ouvir a voz de Miranda, o seu coração começava a disparar.

Notas finais
Pessoal, eu criei uma página no facebook da minha fanfic. É só procurar pelo nome que conseguem achar. Lá pretendo postar curiosidades sobre os personagens e muito mais. Beijinhos e até o próximo capítulo!