A Cor Púrpura De Teus Cabelos
33 Advertência
Em uma manhã de uma segunda-feira chuvosa, Lola ouviu o despertador e pulou da cama.
Na sala da casa, ela se deparou com o pai sentado no sofá, lendo jornal e tomando uma caneca de café.
– Bom dia.
– Ora, que milagre! Eu nem precisei jogar um balde d'água para te acordar como na outra vez.
– Sarcasmo a essa hora, não. Por favor! — disse Lola enquanto se sentava na mesa e enchia uma xícara lilás de café-com-leite.
– Não vai trabalhar hoje, pai?
– Vou para o escritório de advocacia mais tarde.
– Entendi...
– Se arrume pois te levarei ao colégio.
Lola estava mastigando um biscoito amanteigado e quase se engasgou ao ouvir aquilo.
– Porque isso agora? Você não me leva ao colégio desde a sétima série do ensino fundamental.
– Resolvi que devo participar mais de sua vida. E como só vou trabalhar hoje mais tarde, tenho tempo suficiente para te levar ao colégio de carro.
– Que mico,pai! Espero que você não saia do carro e ninguém te veja.
– Querendo ou não, eu irei te levar.
Lola bufou e deu um suspiro longo.
– Ninguém merece! Depois de velha, no último ano do ensino médio, eu serei acompanhada pelo "papai". Que raiva!
– Pare de reclamar e vá se arrumar. Estarei esperando no carro.
******
Lúcio estacionou o carro bem em frente a entrada do colégio.
– Tenha uma boa aula.
– Tchau.
– Espere, pegue o guarda-chuva para não se molhar e acabar gripada.
– Valeu pai, mas lembre-se que não sou mais uma criança.
Lola abriu o guarda-chuva e bateu a porta do carro com força e deixou Lúcio sozinho e um pouco triste por ter sido tratado com frieza pela filha.
*******
O professor de biologia estava explicando o que era um gene e iria dar início às aulas de genética, quando foi surpreendido pela chegada do diretor Cezar na sala de aula.
– Posso atrapalhar a sua aula por um instante, professor?
– Claro, pode entrar.
O diretor deu passos curtos e pediu silêncio aos alunos que estavam conversando.
– Dolores, por favor, me acompanhe até a minha sala.
Ao ouvir chamar seu nome, Lola arregalou os olhos e levantou da mesa imediatamente, sem sem saber o que lhe aguardava.
Cezar e Lola foram andando, em silêncio até chegarem à sala do diretor.
A sala de Cezar era pequena, as paredes eram pintadas por uma cor creme, havia quadros, com ilustrações remetentes à época medieval, pendurados pela parede da sala. O lugar era mobiliado por duas cadeiras de madeira rústica e antiga, estofadas por uma almofada na cor mostarda. Havia uma mesa grande de madeira e a cadeira do diretor se postava encaixada na grande mesa. A cadeira do diretor era também de madeira e em seu encosto havia um detalhe, um desenho esculpido à mão e o estofado era da cor branca. Acima da mesa havia um telefone sem fio, um porta caneta, papeladas, uma luminária, uma pequena placa com o nome e sobrenome do diretor e havia também um porta retrato com uma fotografia em que Cezar aparecia na companhia de sua esposa, que era ruiva e deu sua filha Anna. A foto deveria ter sido tirada em uma das férias do diretor pois o cenário da imagem tinha um ar tropical. A foto supostamente fora tirada recentemente.
– Sente-se, por favor. — pediu Cezar, indicando com uma das mãos a cadeira para que Lola tomasse posse.
A menina obedeceu e sentou-se, quando Cezar percebeu que ela estava acomodada deu início a conversa.
– Eu quero ser breve e claro com a senhorita.
– O que houve, senhor?
– Eu é que lhe pergunto... Porquê faltou às últimas aulas da detenção?
Lola engoliu em seco e apertou um dos braços da cadeira em que estava sentada.
– Eu me esqueci completamente. Meu pai viajou e eu perdi a noção das coisas. Sem ele por perto, para pegar no meu pé, eu acabo me esquecendo de tudo.
– Ah, não me diga! Se esqueceu?... — o diretor levou à mão às têmporas para se acalmar — E não é só isso...
Lola se remexeu na cadeira e sentiu seu estômago se embrulhar.
– A professora Miranda, por ser uma excelente profissional, foi a primeira a lançar as notas...
– Eu fui mal na prova dela? — interrompeu a menina.
– Usar a palavra "mal" seria um grande pleonasmo, senhorita. Uma prova valendo dez pontos, você adquiriu apenas dois pontos e meio. O que você tem a me dizer sobre isso?
– Eu confesso que não tinha estudado para essa prova...
– Sem desculpas banais, por favor.
Lola abriu a boca para tentar se defender mas foi interrompida pelo diretor, que fazia um sinal com o dedo para que ela se calasse.
– Não é somente essas duas coisas que me aflinge. Outros professores também estão reclamando de seu comportamento e falta de interesse nas aulas. Certo alunos como você, me faz pensar sobre o porquê de ainda freqüentarem este renomado colégio...
– O senhor vai me expulsar? — perguntou Lola aflita.
– Não. As coisas não funcionam deste jeito. Há forças maiores que dedidem o destino dos alunos deste colégio.
Lola soltou o ar que estava prendendo em forma de alívio.
– Mas não fique aliviada. Você só frenquetará as aulas, se seu pai ou algum responsável comparecer a este colégio ainda esta semana. Caso contrário ficará suspensa por um mês.
Lola levou as mãos ao cabelo e ficou preocupada ao pensar em como o seu pai reagiria ao saber daquilo tudo, afinal ela já havia aprontado o suficiente para tirará-lo dos eixos.
– Ele pode vir ainda hoje. Está livre pela manhã e só vai trabalhar à tarde.
– Excelente! Quanto antes nos encontrarmos melhor. Me dê o número do celular dele para que eu possa me comunicar e chamá-lo para comparecer à este colégio?
Lola ditou o número do celular de Lúcio e ficou aguardando a chegada do pai na sala do diretor enquanto roía as unhas de nervoso.
*****
Após o diretor ligar para o pau de Dolores em menos de meia hora Lúcio apareceu no colégio da filha.
Lúcio bateu na porta da sala do diretor e foi convidado a entrar.
– Com licença, diretor. Eu vim o mais rápido possível.
– Fico grato, mas antes sente-se, por favor.
Antes de se sentar, Lúcio olhou para Lola com ar de reprovação e sussurrou ao pé do ouvido da menina: " O que você aprontou dessa vez?"
O diretor pigarreou chamando a atenção de pai e filha.
– Aceita um copo d'água? Um café? — ofereceu Cezar ao pai de Lola.
– Não, senhor. Mas agradece a gentileza.
– Tudo bem. Então vamos direto ao assunto...
– Por favor, o quanto mais breve melhor.
– O senhor estava ciente de que sua filha não compareceu aos últimos dias de detenção?
Lúcio olhou para Lola e soltou um suspiro.
Lola por sua vez, abaixou a cabeça e pegou uma mecha fina de cabelo e começou a alisá-la com os dedos.
– Eu não sei mais o que fazer com essa menina. Já tirei o celular dela, já coloquei de castigo e não sei mais o que fazer!
– E não é só isso, senhor...
– Pode falar, diretor. Eu já nem sei mais o que esperar dessa garota.
– Ela vem se comportando mal nas aulas e vários professores vieram reclamar do comportamento dela para mim. E na prova de português ela obteve a pior nota da turma.
– E o que você tem a dizer sobre isso, Dolores? — perguntou o pai virando-se para a filha.
– Eu me esqueci completamente da detenção e confesso que não estudei para essa prova. Era surpresa também né.
– Não me venha com desculpas ! Ah, agora lembrei porquê você esqueceu de comparecer à detenção... Estava muito ocupada gastando meu dinheiro e indo à uma festa sem a minha permissão.
– Pai, você sabe que não foi bem assim...
– Cale-se! Não quero ouvir suas desculpas banais. Estou farto disso tudo! — esbravejou Lúcio.
– Por favor, acalme-se! E aqui não é lugar de discutir.
– Me desculpe, senhor Mazzochi. Essa garota me tira do sério e eu já nem sei mais o que fazer. Pelo visto terei que mandá-lá para um colégio interno.
– Devo lhe informar que se a sua filha não se comportar e não tirar notas boas, é melhor considerar tal comentário sobre o colégio interno.
– Porquê? O que o senhor está tentando me dizer com isto?
– Estou lhe advertendo pois se o senhor não der um jeito em sua filha, terei que expulsá-lá deste colégio.
– Me expulsar? — Lola arregalou os olhos.
– Fique tranquilo, senhor Mazzochi. Tomarei as devidas providências para que isto não venha acontecer.
– Confiareu em suas palavras.
– Pode ter total confiança pois quando me prorponho a resolver algo eu sempre consigo.
– Assim espero.
****
Após Lúcio conversar com o diretor, ele e sua filha caminharam pelo corredor do colégio.
– Dolores, você ouviu o diretor. Se você deslizar mais uma vez será expulsa. É isso o que você quer?
– Ele disse que não depende dele para que eu vá ser expulsa e eu teria que fazer algo muito grave...
– Menina, não brinque com a sorte! Pelo fvisto você está doida para ir para um colégio interno.
– É claro que não! Este é meu último ano neste colégio e aquele velho não vai estragar a minha vida.
– Olha como fala! Cadê o respeito? E para que ninguém venha a estragar sua vida, isto só depende de você!
– Sei disso e me esforçarei ao máximo. Mas o que mais me irrita é que ele não enxerga os defeitos dos outros alunos. Ele cisma comigo!
– Isso é coisa da sua cabeça. Manina de perseguição. — Lúcio balançou a cabeça.
– Ele e aquela loira aguada metida a dona do colégio, cismam comigo! E você diz isto porquê não está no meu lugar e não tem que engolir desaforo e conviver com aquela metida. Como eu detesto aquela loira de farmácia!
– Lola, fale baixo!
– Qualquer dia eu ainda estrangulou essa garota. — disse Lola mais para si mesma do que para o seu pai.
– Você não me ouviu? Fale baixo! Alguém pode ouvir! Você quer ser expulsa? É isso mesmo?
Lúcio levou as mãos aos ombros da filha.
– Me solta! — Lola deu um passo para trás tentando se desvencilhar dos braços do pai. Ao tentar escapar, ela se virou bruscamente e acabou esbarrando em alguém acidentalmente.
As pastas, bolsa e maleta que a pessoa carregava, caíram no chão devido o esbarrão.
Lola se abaixou para recolher as coisas que haviam caído. Ao pegar uma das pastas de couro da cor preta, a menina levantou a cabeça para entregar a pasta e acabou se deparando com um par de olhos verdes hipnotizantes que eram familiares.
– Perdão! Eu não quis...
– Ora, ora se não é ela mesma cruzando meu caminho novamente... — brincou a professora.
Só de ouvir a voz de Miranda, o seu coração começava a disparar.
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