A Cor Púrpura De Teus Cabelos
34 A Proposta
Miranda esboçava um sorriso nos lábios enquanto arrumava a bolsa e as outras coisas que haviam caído no chão.
– Miranda, não é mesmo? — Lúcio se aproximou da professora e ergueu a mão para cumprimentá-lá.
– Sim, senhor. — confirmou Miranda enquanto o cumprimentava com uma das mãos.
– Me chame de você. Não estou tão velho assim... — brincou Lúcio.
– Ah, claro. Mil perdões... — Miranda ficou com as bochechas coradas.
– Eu é que peço desculpas pela minha filha por ter derrubado suas coisas.
Lola os observava com os braços cruzados.
– Ela sabe que não fiz por mal, pai.
– Mesmo assim lhe peço desculpas novamente.
Lola revirou os olhos.
– Sem problemas. — tranquilizou a professora — Mas posso saber porquê a senhorita não está na sala de aula?
Quando Lola abria a boca para se explicar o pai dela a interrompeu.
– Fomos chamados à direção. Por mal comportamento,ausência na detenção e notas baixas. Mas vou colocá-lá na linha...
– Professora, é verdade que eu tirei nota baixa na sua matéria? — questionou a menina.
A professora soltou um longo suspiro antes de responder.
– Sim. É verdade...
O som estridente do sinal os interrompeu.
– Lola, você vai acabar perdendo a aula. Anda logo para a sala para não perder a próxima aula.
– É hora do intervalo. — avisou Miranda.
O rosto de Lúcio se iluminou e ele teve uma ideia.
– Bom, sendo assim, suponho que também seja a hora do seu intervalo, professora...
– Certamente.
– Aceitaria meu convite para lanchar comigo?
Lola abriu a boca incrédula no que estava vendo.
– Bom, eu não sei se deveria... Não posso demorar muito.
– Porquê não? Antes do sinal tocar novamente você estará de volta. Eu prometo. Não lhe tomarei muito tempo pois não quero atrapalhar suas aulas.
No momento em que Miranda iria responder se aceitava o convite, eles foram surpreendidos pela chegada de Erick.
– Lola! — ele gritou enquanto corria para se aproximar de todos — E aí, como foi com o diretor? Ele não vai te expulsar do colégio, né?
Ao ouvir a palavra "expulsão" os olhos de Miranda se arregalaram.
– Expulsão? — perguntou alarmada.
– É uma história muito longa, mas se aceitar meu convite eu poderia lhe contar. — declarou Lúcio.
– Então eu aceito.
– Então vamos?
Miranda balançou a cabeça confirmando.
– Até mais tarde, crianças!
– Tchau, professora! — Erick acenava com uma das mãos.
– Tchau! — despediu-se Lola.
– Juízo vocês dois! — adverteu Lúcio antes de ir embora com a professora.
*******
Lola e Erick ficaram olhando os dois saírem do colégio ainda sem entender a situação.
– Me explica isso direito, Lô!
– Meu pai é muito sem noção! Convidou a Miranda para sair.
– Tipo um encontro?
– Cruzes! Eu espero que não tenha sido com segundas intenções.
– Já imaginou se seu pai e Miranda namorassem? Acho que ela seria a única namorada de Lúcio que você toleraria.
– Está louco? Que nojo! E Miranda é casada, se esqueceu?
– É verdade mas eu estava só brincando. Não entendi porque ficou tão brava. Está com ciúmes?
– Ciúmes? Para de falar besteira, garoto. Venha! Vamos comer alguma coisa. Só assim para você fechar o bico e parar de falar besteira.
Lola tentou disfarçar mas por dentro não estava gostando nada do encontro repentino entre Lúcio e sua amada professora.
Erick sentia que sua amiga estava com ciúmes e ao tentar provocá-la , ele recordou da cena que havia presenciado no estacionamento do colégio no início do ano. O beijo entre Lola e Miranda não saía da cabeça do menino e nem a vontade de colocar a própria amiga " na parede" e a fazer confessar todos os seus segredos.
******
Miranda e Lúcio foram andando para a lanchonete pois era a próximo ao colégio.
Miranda deixou Lúcio escolher o local e se surpreendeu ao saber que iriam lanchar no mesmo local que ela havia levado Lola para tomar milk shake.
Se sentaram e Lúcio começou a ler o que havia no cardápio.
– Me parece que talvez eu tenha escolhido um local errado... — disse Lúcio enquanto ria.
– Porquê?
– As opções não são tão saudáveis, não sei se lhe agradaria...
– Fique tranquilo. Eu já vim neste local antes e há outras opções que não estão neste menu.
– Sério? Então a escolha pode ficar por sua conta pois eu não conheço este lugar.
O garçom chegou na mesa deles e Miranda escolheu algo leve: dois sanduíches naturais a base de ricota, cenoura e frango desfiado. E para beber escolheu dois sucos de laranja naturais.
– Bela escolha! — elogiou Lúcio.
Enquanto esperavam o pedido, a professora e o pai começaram a conversar.
– Vai me contar a história da "expulsão"? — perguntou Miranda.
– Lola está me dando muito trabalho e devido a seu comportamento o diretor me avisou que se ela não melhorar, poderia ser expulsa do colégio. Mas isto não depende só dele, graças à Deus.
– Eu já estava preocupada quando ouvi Erick falando em expulsão. Eu até estranhei pois conheço as regras e requisitos para expulsarem um aluno. E apesar de Lola ser um pouco problemática, não acho que seria expulsa por tão pouco. Afinal, ela não fez nada de tão grave.
– Um "pouco problemática"? Você está sendo gentil ao dizer isto. Eu nunca pensei que meu anjinho aprontaria tanto quando crescesse...
– Mas duvido que na sua adolescência você não tenha aprontado um pouquinho...
– Isso é verdade mas ela passa dos limites na maioria das vezes. Mas afinal, você está do meu lado ou do dela?
– Sou imparcial. Não estou do lado de ninguém. Mas não vou mentir e dizer que não dei trabalho aos meus pais.
– Eu também dei um pouco de trabalho, mas quando se é pai a coisa é diferente.
– Bom, deve ser mesmo apesar de que eu não sou mãe para reconhecer isto.
– Pois é... Lola estrapolou da última vez.
– Mas oque ela fez de tão grave?
Neste exato momento o garçom voltou com uma bandeja grande nas mãos com dois sanduíches e dois copos de sucos.
– Obrigada! — agradeceu Miranda.
– Obrigado! — Lúcio também agradeceu.
– Então, me diga o que ela fez de tão grave?
– Eu viajei e a deixei sozinha em casa. Eu cedi confiança à ela pois já está grande o suficiente para ficar sozinha. Ela simplesmente traiu minha confiança, usou o dinheiro que eu havia lhe deixado para caso de emergência e comprou roupa sem necessidade para ir à uma festa sem a minha permissão.
A professora Miranda ouvia tudo atentamente enquanto sugava o suco de laranja pelo canudo.
– Na minha volta eu tentei avisá-lá com antecedência mas ela ignorava as minhas ligações e eu cheguei sem saber o que me esperava...
– E o que lhe esperava?
– Ela estava dormindo com o Érick na minha cama. Eu fiquei decepcionado com ela. Na verdade, ainda estou. E para completar, recebo esta notícia do diretor. Eu realmente não sei mais o que fazer... Eu não sei onde errei!
Lúcio começou a transparecer sua tristeza e raiva.
– Acalme-se. — disse gentilmente Miranda.
– Eu queria saber onde errei. Sempre dei tudo para ela, nunca deixei faltar nada. Não entendo porque ela age desta maneira.
– Talvez seja apenas uma fase ou ela faz isso para chamar sua atenção.
– Pode ser mas não vejo motivos para ser desse jeito.
– Talvez ela ainda sinta falta da mãe...
– Realmente, ela sente falta da mãe, mas mesmo assim nada justifica... — Lúcio parou de falar por uns segundos — Como você sabe disto? Ela lhe contou?
– Sim. Nós conversamos sobre isto uma vez. Eu sinto muito! Perder uma mãe, tão nova, como ela perdeu realmente deve ter sido difícil.
– Ela desabafou com você?
Miranda ficou sem jeito. A professora se surpreendeu ao saber que ela era uma confidente para Lola e que talvez fosse a única.
– Ela me contou sobre tudo. Fiquei de coração partido.
– Eu me surpreendo pois els não conversa comigo sobre isso e até me preocupo pois só tem Erick como amigo.
– Ela deve sentir falta de uma figura materna na vida dela. Tem certos assuntos que são restritos de mãe para filha. Você entende, não é mesmo?
– Entendo mas eu já tentei arrumar alguém, não somente para ser minha companheira mas também para poder me ajudar na criação de Lola mas ela vive dizendo que não quer uma madrasta pois ela acha que substituiria o lugar da mãe.
– Se coloque no lugar dela, deve ser difícil ver alguém " ocupando" o lugar que era antes da mãe dela.
– Então você realmente está do lado dela?
– Não é isso, já lhe disse...
– Eu sei. Você é imparcial. — riu Lúcio.
– Exatamente... — sorriu Miranda.
O silêncio tomou conta da atmosfera enquanto ambos degustavam seus lanches.
– Sabe, eu fico feliz em saber que possa ajudá-lá de alguma maneira, por mais simples que seja.
– É sério. Nunca a vi gostar tanto de uma professora como você. Ainda mais professora! Ela geralmente arruma problemas e confusão com todos mas com você foi diferente.
Miranda quase se engasgou com o último pedaço do sanduíche que ela estava comendo.
Por dentro ela sabia que a relação entre ela e Lola não era apenas amizade. Tinha algo a mais e Lúcio mal sabia disso. Por dentro, Miranda se sentia culpada por estar cara a cara com o pai da aluna que ela havia se relacionado. Aquilo não era certo.
Quanto mais tentava se afastar de Lola, mais ela se aproximava. E o destino estava encarregado de fazer isto a todo instante. Como fez agora cruzando o caminho de Lúcio e Miranda. Parecia ironia do destino.
Miranda estava perdida em seus próprios pensamentos quando foi trazida de volta para a realidade pela voz de Lúcio.
— Miranda, você quer saber o real motivo de tê-lá convidado para comer comigo? Miranda virou a cabeça de lado pois estava confusa com o que Lúcio havia lhe dito. — Como assim? — Eu estava pensando, já que você é uma das pouquíssimas pessoas que têm um vínculo com a minha filha, e por infeliz coincidência ela tirou uma nota baixa em sua matéria, eu queria saber se você não gostaria de dar aulas particulares para a minha filha. — Aulas particulares? — Miranda se surpreendeu com a proposta. — Exatamente, mas é claro, seria tudo devidamente remunerado e não seria todos os dias da semana. — Mas porquê eu? — Você é a única professora que ela gosta e como acabei de saber que ela até desabafa com você, eu juntei o útil ao agradável e pensei que se você desse aulas particulares para ela, a ajudaria a recuperar a nota e me ajudaria a educá-lá. Miranda ficou sem fala. Aquilo era muito para sua cabeça. — Bom, isso é um tanto quanto inusitado... — Eu sei. Não é comum a própria professora dar aulas particulares mas eu não sei mais o que fazer. — Eu conheço professoras de confiança que podem dar aula para ela. Posso lhe passar o telefone para contato. Lúcio pegou na mão da professora. — Você não entende? Eu não a escolhi sem propósito. Depois que a vi no mercado confirmei que você é uma pessoa boa. Eu não sei mais o que fazer. Estou quase jogando a toalha e a mandando para um colégio interno em outro estado ou até mesmo país. — Colégio interno? — a professora arregalou os olhos. Miranda ficou chocada ao ouvir tal possibilidade, por mais que quisesse ficar longe de Dolores, ela queria ajudar a menina de alguma forma. Ela tinha compaixão e o seu coração se apertava ao saber que apesar dos anos a menina ainda sofria a perda da mãe. Ao mesmo tempo, Miranda não queria se envolver mais ainda com Lola pois já havia posto seu mundo de cabeça para baixo antes, mas ao ver o próprio pai da menina implorando por ajuda sem saber o que fazer, não teve outra escolha a não ser dizer sim e aceitar a proposta. — Eu aceito.- Sério? — Lúcio levantou da cadeira e foi em direção à professora para abraça-lá. Miranda percebeu sua intenção e levantou-se para receber o abraço. — Você não imagina o quanto eu fico feliz em saber que posso contar com você! — Mas tem uma.pequena condição... Lúcio arregalou os olhos em desespero esperando o pior. — Qual condição? — Eu não quero ser remunerada pelas aulas. Lúcio soltou a respiração que prendia no peito. — Mas isto não seria justo... — Se não for deste jeito eu não darei as aulas. — O.K. Então se não tem outro jeito eu fico de acordo. Tudo pelo bem de Lola. — Lúcio agradeceu e estendeu a mão para cumprimentá-lá. Miranda olhou para a mão de Lúcio e reuniu toda a coragem que tinha para selar o acordo. — Pelo bem de nossa Lola. Os dois se cumprimentaram selando o acordo.NARRAÇÃO DE MIRANDA Agora eu não teria como voltar atrás, mas eu não estava arrependida. Por mais insano que aquilo pudesse parecer, eu não poderia deixar Lúcio na mão e muito menos deixar Lola desamparada. A nossa Lola. A nossa menina. Eu me surpreendido ao dizer tais palavras. Solteira o "nossa", de uma forma tão natural. Naquele instante eu confirmei o que havia temendo há dias, eu já havia criado um apresso pela garota e conhecer o pai dela só aumento isto. Depois de confirmar a história que Lola havia perdido a mãe, ainda na infância, me fez ter mais carinho por aquela família. Eu não poderia deixá-lá de lado. Não depois de ter entrado em sua vida e ter deixado mais bagunçada do que já era. Aquilo não era justo. Então resolvi aceitar a proposta de dar aulas para ela fora do colégio. Mas estabeleceria uma relação extremamente profissional com ela. Respeitaria a confiança que Lúcio havia posto em mim e também honraria o meu casamento com Henrique. Estava disposta a ajudar a filha de Lúcio mas não às custas de sacrificar o meu matrimônio. Faria o que deveria ser feito sem cometer erros. Tudo estava em minhas mãos, desta vez não deixaria o destino comandar a minha vida. Não mais.
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