NARRAÇÃO DE LOLA

Eu caminhava pelo corredor do colégio levando o peso do meu corpo. Minha mente estava vagando e apenas a minha presença física estava ali. Não olhava para o lado mas pelo clima de todos, eu podia sentir a tristeza pairando pelo ar. O barulho de vozes animadas dos jovens já não existia mais, pelo menos naquele dia. Entrei na sala de aula, cabisbaixa e balancei a cabeça para cumprimentar Erick que se sentou ao meu lado. Até mesmos os professores dos primeiros tempos estavam tristes com a morte recente de Sofia. Até mesmos as pessoas que nunca tinham falado com ela já havia prestado atenção em sua presença. Com seus cabelos ruivos sempre soltos e seu jeito leve e engraçado de ser ela nunca passava despercebida.

As primeiras aulas foram extremamente chatas e cansativas, o professor de literatura nos passou uma folha com exercícios em que eu só fui capaz de escrever meu próprio nome. Ele não brigou comigo por não ter feito o dever pois percebeu que eu estava abalada. No segundo tempo tivemos aula de história e a minha mente vagava enquanto a professora passava slide sobre uma época distante em que eu não me lembro agora. Minha mente se fixou àquele momento na boate, quando ela foi embora e se juntou com aqueles rapazes. Eu deveria ter feito algo para impedi-la. Me sinto culpada em não ter ido com ela mas Erick me diz que não tivemos culpa.

No intervalo algo diferente e inusitado aconteceu; o diretor Cézar pediu para que fizéssemos um circulo e déssemos as mãos para rezarmos para Sofia. Independente de nossa religião ou a falta de religiosidade, que era o meu caso, aquele gesto foi lindo. Ver todos os alunos unidos de diferentes tribos e grupos naquele momento, todos em silêncio pedindo para que a alma de Sofia encontrasse a paz e descansasse. Deixei uma lágrima escorrer de meus olhos. Erick amparou uma lágrima com o dedo indicador dos olhos dele. Até mesmo o diretor engoliu em seco e percebi que a sua voz estava embargada enquanto falava. A filha dele que eu não suportava, por incrível que pareça, também estava aparentando estar triste. Não ouvi a voz da menina o dia inteiro, a não ser no momento em que ela agradeceu ao Felipe por ter pego a borracha que ela havia deixado cair no chão. A atmosfera do colégio era de uma morbidez e tristeza tamanha.

No intervalo, recebi uma ligação de meu pai avisando que o enterro dela seria à tarde. Eu não queria ir, não queria vê-la pela última vez dentro de um caixão. Queria guardar na cabeça a lembrança de vê-la feliz e alegre como ela sempre fora. Mas por consideração à amizade que tínhamos e pela família dela, que eu não conhecia, eu resolvi ir.

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Quando chegamos ao cemitério senti a brisa do vento beijar minha face e bagunçar meus cabelos, então fechei os olhos e pedi ao universo que aonde quer que Sofia esteja, que ela consiga encontrar a paz. Dei um suspiro longo e fui encorajado com um carinho de meu pai em meu ombro, a continuar a caminhar até aonde estava sendo feito o enterro. Michele, meu pai e eu nos encaminhados junto com a pequena aglomeração de pessoas que estavam lá, no centro havia o caixão fechado e o padre estava dizendo palavras sagradas e todo o ritual habitual. Antes de colocarem o caixão preto dentro do buraco feito no chão, eu peguei uma flor rosa de um jardim próximo, me aproximei ao caixão e antes de jogá-lo por cima do caixão dei um beijo na flor. Me afastei e voltei ao lugar, próximo de meu pai e de sua esposa. Na volta, vi que Erick também havia chegado e ele me recebeu com um abraço.

O padre disse as últimas palavras e então começaram a colocar com pás toda a terra para cobri-lo. Neste momento, percebi que algumas pessoas começaram a chorar então não me contive e chorei também. Um garoto novo, que deveria ter por volta dos 15 anos, era amparado por uma senhora e ele dizia alto: '' Isso não é justo! Quero a minha irmã de volta! Ela não pode me deixar!''. E percebi, supostamente, que deveria ser o irmão mais novo de Sofia. Vê-lo daquele jeito partiu meu coração, eu não sabia que Sofia tinha um irmão. Por mais que pensamos que conhecemos as pessoas que nos cercam, no fundo há sempre algo desconhecido sobre elas.

Uma silhueta que eu reconhecia se aproximou de onde eu estava e percebi que pelo cabelo liso ondulado e meio loiro, era a minha amada Miranda. Meu coração disparou naquele momento. Me contive para ir correndo ao seu encontro. Esperei que ela se aproximasse de mim. Antes ela cumprimentou à todos e depois me abraçou fortemente.

— Meus pêsames.

Eu agradeci com um aceno de cabeça e ela ficou comigo abraçada de lado fazendo carinho em meu braço.

— Tão jovem esta menina era... Fico imaginando a tristeza de seus pais — disse meu pai.

— Sim, muito triste tudo isso. Você dava aula para ela, Miranda? — perguntou Michele.

— Não, Michele. A professora Rosângela que lecionava para a turma que ela pertencia. Muito triste isso tudo. Soube que o laudo da perícia e do IML conseguiu analisar uma substância tóxica no organismo dela.

— Como ela morreu, então? Qual foi a causa da morte? — perguntou Erick.

— Ela faleceu de overdose. Seu corpo já não aguentava a quantidade de drogas que ela inseria. A que ela tomou na festa de ontem foi a gota d'água para seu organismo. A droga era realmente muito pesada, o médico disse que deve ter sido uma dessas drogas novas produzidas em laboratórios. Algo caro e bastante letal. Muito triste perdermos nossos jovens para as drogas e para o álcool. — lamentou Miranda.

— Você sabia que ela usava drogas, Lola? — meu pai me perguntou.

— Na verdade, ela tinha nos contado que usava — busquei apoio ao olhar para Erick — mas mesmo a alertando ela não nos ouviu.

— É, isso mesmo. Até tentamos conversar com ela sobre isso mas ela não nos ouvia. — disse Erick.

— Vocês por acaso, já usaram? — perguntou meu pai apreensivo.

— Não, pai. Droga nunca experimentei. Apenas álcool, devo ser sincera.

— Eu também não, senhor.

Percebi que meu pai suspirou de alívio e Michele se aproximou dele e fez carinho em seu braço enquanto alisava a própria barrigada de grávida.

— Eu só consigo pensar na mãe desta menina... — ela disse.

Neste exato momento, uma mulher com os cabelos ruivos, igualmente parecidos com o de Sofia, se aproximou de nós junto com um homem que julguei ser seu marido.

— Você é a Lola, não é? — ela perguntou.

— Sim, sou eu. Você é a mãe dela?

A mulher assentiu com a cabeça e começou a chorar. O marido passou as mãos em suas costas para a acalmar.

— Eu sinto muito...

— Sentimos muito, senhora. — declarou meu pai.

— Não sou mãe ainda, mas sei o quanto deve estar sendo difícil para a senhora. Lamento muito. — declarou Michele.

— Eu... Sinto que foi minha culpa. De alguma for ela morrer deste jeito foi minha culpa.

— Não diga isto, Elizabeth. Não foi sua culpa e muito menos minha.

— Foi sim, Alberto. A nossa separação, brigas e desentendimento. A sua ausência e fixação pelo trabalho... De alguma forma temos a ver com a morte de nossa filha.

Alberto engoliu em seco e abaixou a cabeça. As demais pessoas, ficaram sem jeito ao ouvir aquele desabafo da mãe. Eu sabia que os pais de Sofia estavam para se separar, mas não sabia ao fundo como aquilo a afetava. Naquele momento eu desejei que ela voltasse a viver e que eu pudesse a abraçar e dizer que tudo ficaria bem. Que não era culpa dela o fim do casamento dos pais. E que ela poderia se sentir livre e leve utilizando outras coisas. Tudo menos as drogas. Mas já era tarde demais para tentar corrigir um erro como aquele.

— Claro que não foi culpa de vocês. — disse meu pai.

— Tem certeza? Quero dizer, não quero colocar a culpa da morte dela em cima de alguém mas, ela me contou que se sentia sozinha e estava abalada com a separação e brigas constantes que tinham. Pode ter sido uma maneira pela qual ela achou ao usar drogas. Ela precisava apenas da atenção das pessoas que ela amava.

Nem percebi o peso das palavras que eu acabara de dizer. Meu pai me repreendeu com um olhar, não brigou comigo pois ele sabia que não era hora e muito menos local para fazer isto. Apenas balançou a cabeça descordando. As palavras acertaram em cheio os pais de minha amiga que estava morta. Percebi quando Alberto passou a mão pela cabeça quase calva e ajeito os óculos de grau na face enquanto consertava a gravata no pescoço. Elizabeth também foi pega de surpresa e levou às mãos ao peito e deu um longo suspiro. Não me arrependi de ter dito aquilo, eles tinham que ouvir aquilo. De alguma forma eles iriam enxergar que erraram e poderiam consertar o futuro com o filho mais nova que ainda tinha muito o que viver.

— Eu só queria ter tido a chance de poder vê-la entrando em uma faculdade, se formando, tendo o primeiro emprego, casando-se, entrando na igreja com um vestido de noiva, tendo filhos e crescendo enquanto eu envelhecia a vendo vencer na vida. Eu só queria ter visto isso. — lamentou-se Elizabeth.

— Você está certa, menina. Eu poderia ter feito algo para que isto não fosse acontecer. Realmente sou vidrado no meu trabalho e mal tenho tempo de ver os rostos de meus filhos quando chego em casa. Não lembro da última vez em que jantei à mesa com toda a minha família. Apesar da separação conjugal, não deveria ter tido uma separação entre mim e meus filhos. Mas agora é tarde demais para lamentar — Alberto declarou com toda a sua sinceridade.

— Não pensem no que poderiam ter feito. Pensem no que fizeram e nos momentos bons que passaram juntos nesses dezoito anos em que tiveram Sofia ao lado. Eu não tive o prazer de poder ao menos ver o rostinho de meu filho. Eu tive um aborto espontâneo e só penso em como teria sido poder vê-lo falar a primeira palavra, dar os primeiros passinhos, aprender as cores, os números os nomes dos animais. O primeiro dente de leite caindo, o primeiro tombo ou a primeira festinha de aniversário... Eu não pude ter estas oportunidades e se me perguntassem se eu quisesse ver o rostinho dele por apenas alguns segundos antes de deixá-lo partir, eu sem pensar duas vezes, responderia sim.

Neste momento, pelo confissão de Miranda, todos ficaram alarmados e sensibilizados. Eu a abracei de lado e encostei minha cabeça em seu ombro. Contive uma lágrima.

— Não pensem no que poderiam ter feito e sim no que fizeram e em todos os momentos felizes que tiveram ao lado de sua filha. O importante foi que vocês tiveram a oportunidade de conhecê-la, de tê-la em seus braços e de ouvir suas risadas.

Elizabeth começou a chorar e Miranda a abraçou. Fiquei de lado olhando aquela cena e comecei a chorar novamente.

— Exatamente, Miranda está certa. E nem tudo está perdido. Vocês não podem se afundar na tristeza pois ainda têm um filho para cuidar e podem reparar os erros. Nunca é tarde para mudar, eu bem sei disso. — Michele limpou uma lágrima de seus olhos e alisou sua barriga ainda pequena, enquanto papai pegava em sua mão e a beijava.

— Nunca é tarde para mudanças. — disse Michele por fim.

— Vocês tem razão — declarou Alberto.

O jovem menino, irmão de Sofia, apareceu atrás do casal e com um semblante triste se aproximou do pai e abraçou a mãe.

— Podemos ir, pai?

— Claro, filho.

Alberto se despediu de nós junto com seu filho. Elizabeth também nos deu adeus, mas quando deu as costas para ir embora ela voltou no meio do caminho e se aproximou de mim.

— Foi você que deu este colar para a minha filha no aniversário dela? — ela me perguntou enquanto erguia o colar de ouro com um pingente de flor que eu havia presenteado Sofia em seu décimo oitavo aniversário em Setembro.

— Fui eu sim.

— Quero que fique com ele, para que sempre se lembre de minha pequena menina.

Eu abri a palma de minha mão e recebi o colar que reluzia pelos raios de sol.

— Obrigada... Eu jamais irei esquecê-la.

A mulher me abraçou e me deu um beijo na testa. Nos despedimos e quando vi Alberto andando abraçado com o filho de um lado e segurando a mão da esposa do outro, sabia que aquela família iria ser reconstruída a partir de uma tragédia. Aquilo eque ocorrera era cruel mas a esperança de um futuro melhor estava por vir. Era triste saber que Sofia não poderia mais fazer parte daquela mudança, mas era por causa dela que o futuro seria modificado.

Notas finais
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