A Cor Púrpura De Teus Cabelos
85 Planos e Sonhos
Os dias se passaram e a ausência de Sofia passou a ser apenas uma lembrança nos corações das pessoas que a amavam. É claro que resquícios da tristeza ainda pairava sob as cabeças de todos, mas a vida tem que continuar para os que ficaram. É assim que acontece por mais cruel e doloroso que seja.
Lola continuava tendo aulas particulares com Miranda, Michele comprava mais objetos e utensílios para o seu enxoval, Erick tentava reconquistar a confiança de sua amiga Lola a cada dia e Anna ainda tinha em mente seu plano maléfico. Mais uma tarde de estudos no apartamento de Miranda mas agora era diferente, a ligação que tinham era mais forte e a cada dia se intensificava mais. — Me passa a cola, por favor? — pediu Lola. — Já vai colar as ilustrações? Não é melhor colocar por cima do cartaz para ver como fica antes? — sugeriu Miranda. Lola colocou a mão no queixo e ficou pensativa. — É verdade, boa ideia. Após colocarem a matéria em dia, Miranda resolveu ajudá-la com um cartaz que seria exposto na formatura. O diretor incentivou os alunos e fazerem cartazes pessoais com mensagens bonitas para esta celebração inesquecível que era a formatura . — Não é incrível que o pai da insuportável da Anna tenha dado esta ideia? Quer dizer, não parece que eles tem o mesmo genes — disse Lola enquanto recortava com a tesoura uma imagem de uma menina segurando balões coloridos. — Lola, você não existe — riu Miranda. Lola largou a tesoura e surpreendeu sua amada ao sentar em seu colo com o rosto virado para ela. — Se eu não existisse você não sentiria isso... Os lábios carnudos da menina foram de encontro aos lábios finos mas sedutores da mulher. Fecharam os olhos e se beijaram delicadamente. — Sabe que eu até entendo a sua desavença com a Anna, por ela ser metida e tal mas não entendo o porquê de se detestarem tanto. Lola revirou os olhos, segurou nas mãos de sua amada e continua sentada em seu colo. — Você é professora. Não entenderia as brigas de colegial. — E você por acaso acha que eu nasci professora? — Miranda começou a rir — Já fui aluna como você, ok? Já tive inimizades mas nada como você e Anna. Quando se encontram só falta sair fagulhas entre vocês duas. A lembrança do beijo que ela havia dado Anna lhe surgiu em sua memória. A menina engoliu em seco e ficou desconfortável. — Tem algo que eu nunca lhe disse... Nem sei se cairia bem falar isso agora... — O quê é? Pode me dizer — os olhos verdes de Miranda a perfuraram até a alma. — Eu... Anna e eu nos beijamos — Lola abaixou a cabeça e olhou para as próprias mãos que agora estava sob o seu próprio colo — Isso não foi agora, foi antes de nós duas termos... Enfim, aconteceu no dia em que fui fazer aquele trabalho sobre Romeu e Julieta. Acho que ela passou a gostar de mim de verdade a partir desse dia e como eu não quis nada com ela, passou a me perseguir. Miranda ficou boquiaberta e sem palavras.— Eu... Bom... — antes de dizer algo ela levou à mão aos cabelos ondulados e loiros e os bagunçou em busca de palavras — Não fiquei chateada em saber disso, Lola. Só fiquei surpresa, mas fico feliz que você se sente à vontade para se abrir para mim. Lola lançou um olhar maliciosa para a professora levando a última frase que disse para uma interpretação lascívia e ambígua.— Pare com isso! — Miranda riu e bateu de leve no ombro dela — Você entendeu o que eu disse.— Sim. Agora, vamos parar de falar na Anna, por favor? Eu estava pensando...— Em que por exemplo? — Miranda pegou nas mãos de Lola novamente e entrelaçou seus dedos nos dedos dela.— Você vai se separar de Henrique logo?— Sim, só estou esperando que o ano letivo acabe para que eu comece a procurar um apartamento novo para mim, mas por enquanto ele ainda continua morando aqui comigo.— Vocês dormem juntos na mesma cama?— Claro que não, amor. A palavra ''amor'' pegou Lola de surpresa e a fez ficar extremamente feliz.— Que bom... — disse Lola aliviada.— Vamos vender este apartamento e com a minha parte da venda eu irei inteirar e comprar um apartamento novo. Mas no que você estava pensando? Lola tomou fôlego antes de proclamar qualquer pensamento. — Estou prestes a me formar, certo?— Certo.— A resposta de ser aceita em alguma faculdade só chegará no início do ano que vem. Meu pai está todo afoito com a chegada do novo filho. Então eu estava pensando em ir morar sozinha. Os olhos de Miranda iluminaram-se.— Mas não completamente sozinha... Nós poderíamos, depois da formatura, fugir. — Fugir? — perguntou Miranda incrédula.— Claro! Deixar tudo isso para trás. Morar em um novo lugar e como você também quer construir uma nova vida como eu, seria maravilhosa podermos construir juntas. O que você acha de minha ideia?— Mas... E o seu pai? O que ele diria sobre isto?— Oras, eu fiz 18 anos, não se lembra? E tenho dinheiro guardado na poupança, o suficiente para me manter e estabelecer por alguns meses senão um ano completo.
— Não seria uma loucura deixarmos tudo para trás? — Loucura é permanecer estagnada e não ir atrás de nossos sonhos. Me diga, realmente, você me ama?— Não precisa perguntar duas vezes, é claro que te amo. Você foi a melhor pessoa que apareceu em minha vida. Nunca ninguém mexeu tanto comigo e está me fazendo feliz como você faz. — Miranda pegou a mão pequena com as unhas pintadas de esmalte preto, e beijou-a delicadamente.— Eu também te amo e o que mais quero e acordar ao seu lado todos os dias de minha vida.— Eu também.— Então, aceita a minha proposta louca? Vamos fugir de tudo isso? Miranda relutou por uns instantes, passou a mão pelos longos e sedosos cabelos cor de púrpura de Lola e com um suspiro a beijou com um selinho breve na boca.— Com você eu vou até ao fim do mundo. Lola a abraçou e sentiu uma felicidade como nunca antes. Fogos de artifício foram explodidos em seu interior. O coração de Miranda acelerou-se só em pensar no dia em que fugiriam. As duas voltaram as suas posições de antes e terminaram de fazer o cartaz. Lola escreveu com uma letra cursiva e bem desenhada a frase ''Você já cumpriu com suas obrigações, agora corra atrás de seus sonhos'' e colou imagens inspiradoras no cartaz que era da lilás bem clarinho. Quando estavam limpando toda a bagunça em cima da mesa; jogando fora os restos de papéis picados, guardando tintas e canetas coloridas, a presença de Henrique no apartamento as incomodou.— Boa noite.— Boa noite, Henrique.— Boa noite — disse Lola. Henrique olhou para o cartaz e balançou a cabeça.— Pensei que você lecionava português para o ensino médio e não ajudava em trabalhos escolares que parecem de uma criança do ensino fundamental. Lola ficou boquiaberta mas não respondeu.— Não se intrometa em meu trabalho, por favor.— Como queira... — Henrique debochou.— Ah, quero falar algo com você sobre a casa. — E o que seria? — perguntou ele impaciente.— Não quero mais que fique com ela. Devemos vendê-la e cada um fica com a metade do dinheiro da venda.— Mas não era este o nosso combinado, Miranda! — ele se exaltou.— Eu mudei de ideia, oras.— Não me diga que está indo pela cabeça de alguém? Só poder ser isso... Só não me diga que foi pela cabeça da mesma pessoa que você deve estar me traindo.— Claro que não fui pela cabeça de ninguém, Henrique! E muito menos estou lhe traindo. Não estamos mais casados e ponto final. Pensei que isto estava claro para você mas parece que não.— Não, não está nada claro que um casamento de anos venha se desfazer por algum leviano. Deve ser crise de meia idade... só pode ser isso! Já pensou em ir em um psicólogo, Miranda? Se quiser eu te acompanho e...— Não é crise de meia idade tomar decisões na vida, senhor. — Lola se intrometeu.— Ah, claro. E agora uma pirralha como você acha mesmo que pode dar palpite no casamento alheio? Ora, por favor! Fique quieta e continue fazendo o seu trabalho.— Não fale assim com ela! — gritou Miranda.— Por favor, Miranda. Ela não é sua filha para defendê-la. Você nem sequer tem filhos. Não se estresse por problemas que não são seus. O rosto de Lola ficou vermelho de raiva e ela levantou-se de sua cadeira e pegou sua mochila, mas antes de ir embora disse algo que deixou Henrique enfurecido.— Como ousa citar algo tão grave que é perder um filho assim na cara da mulher que você diz que ama? Você é um crápula mesmo! Lola cuspiu estas palavras e se despediu de Miranda e bateu a porta com força.— É inaceitável eu ter que ouvir uma coisas dessas em minha própria casa.— Inaceitável é ter que ouvir algo tão cruel saindo pela boca de alguém que disse que me amava em outros tempos. Você é mais cruel que eu pensava... Miranda balançou a cabeça e foi para o seu quarto. Deixou Henrique sozinho na sala com a certeza de nunca mais a teria de volta em seus braços. A realidade do fim de seu casamento o acertará em cheio, mas a revolta e a vontade de se vingar começava a consumir seu interior por completo.— Não será tão simples se livrar de mim como pensa... Não será mesmo, Miranda.
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