Três dias se passaram e Lola e Miranda ficavam mais próximas ainda. Lola se trancava no quarto, longe dos ouvidos do pai, e passava horas ao telefone conversando com Miranda. As duas conversavam sobre como foi o dia de ambas, sobre o colégio, a vida e até mesmo sobre coisas mais sérias. Uma era o apoio da outra. De um lado, Lola sentia falta de sua mãe e sabia perfeitamente como era sentir falta da presença de alguém se tanto ama, do outro lado, Miranda era compreendida e amparada por ela, por ter sido deixada de lado pelo marido e pelo fato de ter tido sua ferida aberta novamente ao confessar ao Henrique que havia perdido o filho ainda na barriga. Elas não eram apenas um alicerce para a outra, mas também havia o amor e paixão entre elas. Lola amava Miranda desde a primeira vez que a vira e o convívio com ela só aumentava esse sentimento. Miranda, foi descobrindo a verdadeira personalidade de Lola, que para muitos que veem de fora, podem julgá-la como uma pessoa brava, durona e introspectiva mas por dentro ela tem um grande coração e essa descoberta fazia com que a professora amasse cada dia mais a sua aluna. Porém, para Miranda a relação que elas estavam criando era diferente, ela ainda era casada com Henrique – apesar de estarem distantes e brigados- e ela ainda estava incerta sobre seus reais sentimentos com Dolores. Não sabia distinguir se o que sentia por ela era realmente amor ou uma loucura avassaladora momentânea, afinal, ela ao auge dos 30 e poucos anos, nunca havia experimentado tantos sentimentos confusos e ardentes com alguém antes e muito menos com alguém do mesmo sexo. Para ela, tudo aquilo era muito novo. Miranda sempre fora taxada pelas pessoas próximas como careta por ser sempre ‘’certinha’’ nas coisas que faz, ao contrário de algumas amigas da faculdade, ela nunca havia beijado alguém do mesmo sexo antes, nem mesmo por curiosidade ou em forma de brincadeira. Quando beijou Lola, ainda mais por ela ser mais nova e ser sua aluna, isto a arrasou. Ficou completamente desnorteada e sem saber o que fazer. Prometia à si mesma que não mais se entregaria aos desejos da carne e não deixaria ser levada pelo momento, mas sempre que se aproximava de Lola, a conexão forte que ambas tinham a invadia por dentro e a única coisa que ela queria era estar perto da menina, beijá-la e abraçá-la para sempre. O dia poderia estar péssimo mas quando estava na presença de Dolores, a alegria e felicidade invadia seu ser de uma forma que nem mesmo ela conseguia explicar. Então, devido a distância que ela tinha do marido, por ele ter ido passar um tempo morando em um hotel, ela ficou mais próxima de Lola fazendo com que o que sentia por ela ficasse mais evidente ainda com o passar do tempo.

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NARRAÇÃO DE ANNA

No corredor do colégio podia-se ouvir a algazarra dos alunos sobre algo que eu ainda não estava por dentro. Me encaminhei para a multidão aglomerada em volta de alguém e logo vi de quem se tratava. Estavam todos reunidos em volta de Sofia. A ruiva da outra turma que sempre estava envolvida com alguma festa. Logo me meti entre as pessoas dando cotoveladas em algumas e jogando meu cabelo loiro e encaracolado nas pontas, pois eu havia feito babyliss. Sofia estava no meio de um círculo formado por estudantes animados e em sua mão estava segurando um bolo de papéis coloridos. Fiquei curiosa e peguei um e li o que estava escrito enquanto ela dizia alto:

— Festa da piscina em minha casa no sábado, galera! Bebida liberada e não esqueçam do traje de banho pois se vierem só com roupa jogarei na piscina mesmo assim. – disse enquanto ria.

No convite, que mais parecia um panfleto dessas festas que acontecem entre jovens onde há bebida liberada e mulheres não pagam até meia noite, estava escrito em letras de forma com cores néon com dois coqueiros ilustrados do lado e no fundo um mar azul celeste:

‘’ ALOHA!

Eu te convido para minha festa de 18 anos com tema tropical!

Local: na minha própria casa (endereço no verso do convite)

Traje: roupa de banho (biquíni, sunga ou maiô)

Venha se divertir no clima do Havaí com direito a drinks tropicais! ‘’

O nome de Sofia estava estampado no título, bem a cima do convite.

De princípio, confesso que achei bastante brega esse tema pois era uma coisa muito passada. Quase todo mundo que eu conheço já fez festa na piscina com esse tema. O convite em si era muito brega e eu coloquei a mão na boca para conter meu riso. Quando Sofia perguntou se eu iria e que contava com a minha presença eu pensei em recusar na hora mas daí, ao olhar Erick de longe, encostado em uma parede mexendo no celular, tive uma ideia na hora. Essa festa seria perfeita para colocar meu plano em prática e eu não deixaria essa oportunidade passar batida. Então, logo pedi outro convite para Sofia e perguntei se ela convidaria o Erick e na mesma hora ela disse que sim com um grande sorriso estampado no rosto. Peguei o segundo convite e corri de encontro com ele que ainda estava distraído com o próprio celular.

Me aproximei dele e dando um pulinho, balancei o convite em frente ao seu rosto enquanto eu dizia:

— Olha o que temos aqui! Nosso plano vai entrar em prática! – disse cantarolando nas pontas dos pés enquanto dava pulinhos para alcançar o rosto de Erick.

Quando ele ouviu minha voz, colocou o celular no bolso e voltou a sua atenção para mim.

— O quê? Como assim? Que papel é esse?

Entreguei para ele e enquanto ele lia o convite fluorescente brega de Sofia eu expliquei que iríamos para aquela festa.

— Festa? Não estou para clima de festa...

— Não está hoje mas até sábado você estará sim senhor! E outra, você não só irá ir como também vai convencer Dolores à ir também!

— O quê? Mas para quê? O que isso tem a ver com o nosso plano?

Sorri maliciosamente e meus olhos brilharam só de pensar na possibilidade de me vingar dela.

— Ora, tem tudo a ver com o nosso plano! Mas antes, preciso que convide ela para ir. Esse é o ponto principal.

— Mas como você tem certeza que Sofia à convidou para essa festa?

— HELLO! – disse em deboche- Sofia é amiga dela e vive a arrastando para essas festas por aí e é claro que ela a convidaria para a sua festa de 18 anos. Afinal, ela está convidando a metade desse colégio!

Erick riu com meu último comentário e seguimos para a cantina para comer alguma coisa.

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NARRAÇÃO DE LOLA

Do outro lado do corredor, eu tranquei meu armário e guardei meu livro de química geral I quando me deparei com uma cena muito distinta. Vi que Erick estava andando com Anna. Logo com a menina que eu mais detestava nesse colégio. Fiquei furiosa ao ver aquilo, afinal, os dois nunca se suportaram e Erick compartilhava comigo a minha antipatia por aquela loira de farmácia. Eu sei que tivemos um breve beijo mas isso só fez com que minha antipatia por ela só aumentasse. Não suportava mais ver seu rosto ou ouvir sua voz. Tudo nela me irritava. Mas quando a vi ao lado do meu melhor amigo, bom, talvez seria melhor eu corrigir isto dizendo; meu ‘’ex’’ melhor amigo, quase surtei de vez. Porquê estariam juntos se não se suportavam? Fiquei com isso martelando em minha cabeça por horas à fio.

Eu ainda estava atônita, perdida em pensamentos enquanto mordia meu sanduíche com recheio de palmito, frango e ricota quando vi com minha visão periférica um amontoado de cabelos cor de fogo ao meu lado. Pela voz chamando meu nome, logo percebi de quem se tratava.

— Olá, Sofia!

— Oi, Lola! Está sozinha? – ela estranhou, pois provavelmente, sempre me via com Erick.

— Eu estava até que você chegou. – disse secamente.

— Nossa, não quis te atrapalhar, desculpa.

Suspirei e soltei meu lanche e puxei Sofia pelo braço magro, branco e cheio de sardinhas para que ela voltasse pois estava indo embora.

— Desculpa, eu que fui grossa com você. Fique. Sente-se ao meu lado.

Sofia franziu a testa mas logo sentou-se ao meu lado.

— Tudo bem... – ela pegou um papel e entregou para mim- Quero lhe convidar para a minha festa de 18 anos.

Li o que estava escrito mas não estava animada para festas.

— Obrigada pelo convite mas não estou em clima de festa...

— Ah, qual foi, Lola? – ela colocou as mãos na cintura- Por isso mesmo que você tem ir! Para se alegrar um pouco. Nem parece a Lola que eu conheço, que adora festas e sempre topa tudo comigo. Vamos, por favor!

Olhei de relance para ela e vi que estava animada com a comemoração do aniversário então resolvi aceitar por mais que eu estivesse triste e desanimada.

— Tudo bem... Farei o possível para ir!

— O possível não! Quero que prometa que vá! – ela colocou as palmas das mãos coladas uma na outra em forma de oração e implorou para que eu fosse.

— Ok. Eu prometo que irei!

— Isso aí! E se não for eu irei até à sua casa te puxar pelos seus cabelos!

— Ah, meu cabelo não! – coloquei meu cabelo de lado e o alisei em tom de brincadeira.

— Então faço favor de comparecer, mocinha!

Sorri para ela e um menino de rosto familiar se aproximou dela, pedindo um convite.Então ela se despediu de mim e levantou do chão indo embora com o tal garoto.

Sofia era assim, sempre festeira e para cima. Ela era presença marcada em todas as festas que aconteciam fora do colégio. Todos gostavam dela e a convidada para tudo. As festas que ela dava sempre acontecia algum burburinho. Na festa de 16 anos, uma menina bebeu tanto que chegou a vomitar em cima do garoto que ela estava ficando. A cena foi bizarra e todos zoaram a menina pelo resto do ano. Na festa de 15 anos de Sofia, alguém acendeu um cigarro e depois de fumá-lo jogou a bituca mal apagada no lixo mais próximo e é claro, um princípio de incêndio iminente interrompeu a festança e a pessoa que jogou o cigarro nunca assumiu o erro. O fogo foi controlado mas o alvoroço das pessoas em volta da lixeira foi grande. As festas de Sofia sempre foram assim, marcadas com algum acontecimento estranho ou vergonhoso que as pessoas comentavam até mesmo depois de meses de festa. Eu acho que no fundo Sofia gosta da fama que suas festas tomaram. Ela é do tipo de garota que ama ficar sob holofotes, ter todos os olhos virados para ela, eu também era assim, gostava de ser percebida, mas ao contrário de Sofia eu não queria ser notada até mesmo por coisas ruins. Ela gostava se ser notada até mesmo passando por momentos que não eram bons. Além de festeira, ela tinha fama de usar drogas nas festas, mesmo com a presença dos pais – que na realidade nunca a proibiram de nada- e muitos jovens achavam ela descolada por isso. Eu não. Eu via um outro lado de Sofia que poucos conseguiam enxergar. Sofia e eu estudávamos juntas desde o primário, quando fomos para a quinta-série mudamos para o mesmo colégio e estudamos na mesma sala. Eu não era tão próxima dela quanto era com Erick, mas sempre conversava com ela na escola e percebia que era uma boa pessoa. Quando passamos para o primeiro ano do ensino médio, ela mudou de turma e consegui ver, ao passar dos anos, sua mudança repentina de personalidade. Só por ser ruiva natural, ela já chamava atenção de todos mas depois que passou a andar com os populares do colégio – aqueles que sempre são notados e percebidos- e ela passou a frequentar essas festas, ela mudou por completo. Mesmo assim, ainda trocávamos alguns assuntos sempre que nos cruzávamos no corredor do colégio e ela sempre me chamava para algumas festas e eu acaba indo com ela para algumas mas ela sempre conseguia fugir de minha presença e sumia para não sei aonde enquanto eu me divertia dançando também não estava interessada em saber, mas também não queria me distanciar dela só por isso. Eu não usava nada e não me deixaria levar caso ela me oferecesse pois tenho personalidade forte, mas ela nunca chegou a me oferecer.

Apesar dessa fama que ela tinha, conseguia perceber que ela tinha uma grande coração pois sempre tentava me alegrar quando eu estava para baixo. Ela não era tão presente em minha vida e também não era uma amiga muito próxima como Erick era para mim, mas ainda assim eu gostava dela e tinha um apreço por ela. Então por isso resolvi aceitar seu convite e até mesmo pensei que me divertiria nessa festa. ‘’Afinal, o que poderia acontecer de errado?’’

Eu pensei, mas mal sabia que eu estava completamente enganada comigo mesma.