A pequena e charmosa lanchonete tinha a aparência idêntica aos da década de 50. As cores branco e vermelho tomavam conta do lugar, os assentos eran acochoados, o piso era quadriculado nas cores preto e branco e a decoração também era típica daquela década.O menu da lanchonete também não fugia do padrão; eram servidos sundays, hambúrgueres, batatas fritas, refrigerante de cola, milk shake e outros aperitivos.

— Eu adoro este lugar! Tudo aqui é tão lindo- disse Lola encantada.

— Eu também! Ele é bem diferente e único — concordou a professora.

As duas escolheram uma mesa afastada do resto das pessoas, o local não estava cheio. Lola pegou o cardápio e seus olhos avaliaram as opções.

— Escolheu oque vai pedir?

— Eu vou querer o mesmo que a senhora.

Miranda chamou o atendente e fez o pedido de dois milk shakes de morango.

— Já lhe disse que pode me chamar de "você" — disse sorrindo.

— É que eu ainda não estou acostumada — respondeu a menina sem jeito.

— Não sou tão rígida como pensa que sou. Bom, não fora da escola.

— Isso você já mostrou que não é. Depois da confusão que cometi hoje, duvido que se tivesse sido com outra professora não teriam me entregado para o diretor. Obrigada por ter me salvado! Já tenho me metido em muitos problemas ultimamente, minha cota já se excedeu. Se você não tivesse me salvado eu não sei oque seria de mim.

— Que isso, Lola! Eu tento sempre usar o diálogo com os meus alunos antes de partir para meios mais severos mas devo confessar que você quase me tirou do sério hoje.

— Obrigada novamente! — Lola esticou a mão que estava em cima da mesa e colocou sob a mão de Miranda em forma de agradecimento.

Miranda se surpreendeu, olhou para as mãos de ambas e lembrou da noite em que Lola dormiu em sua casa, lembrou de que vê-la quase despida lhe permitiu ter pensamentos lascivos pela menina. Ela poderia ter tirado a mão naquele instante mas a conexão que sentia por ela, toda vez que entrava em contato físico com Lola, a deixava alucinada por dentro. Era algo que não conseguia controlar, então resolveu deixar-se levar por aquele sentimento e fitou os olhos da jovem enquanto esboçava um sorriso sincero, talvez o mais sincero que tinha exposto nos últimos meses.

— Aqui estão os dois milk shakes, no capricho! — interrompeu o garçom.

Lola retirou a mão que estava por cima da de Miranda colocou-as no próprio colo.

— Obrigada! -agradeceu Miranda.

Lola foi a primeira a experimentar a bebida.

— Está uma delícia! Você tem bom gosto — disse enquanto saboreava o sabor adocicado do morango.

—Que bom que gostou. Esse milk shake me faz recordar de minha infância.

— E como foi a sua infância?

— Foi maravilhosa, aproveitei bastante. omplicado foi a minha adolescência.

— Não me diga que você aprontou muito?

— Porquê? Eu tenho cara de que fui quietinha? — riu Miranda.

— Você tem cara de que foi uma daquelas nerds. Aposto que só tirava nota alta em todas as matérias — brincou a garota.

— Está completamente errada!

— Jura? Duvido! Fale a verdade...

— Eu já tive meus momentos de adolescente rebelde como você. Certa vez aprontei uma com a professora que lecionava física no primeiro ano do ensino médio.

— Oque você fez? — perguntou com curiosidade.

— Coloquei cola na cadeira dela e fiquei suspensa por semanas — contou enquanto ria ao se lembrar da situação.

— Não acredito! — Lola levou aos mãos a boca, incrédula no que estava ouvindo.

— Mas é claro que eu levei a maior bronca dos meus pais. Eles me deixaram de castigo por semanas e confiscaram minhas fitas cassetes de música. Minha mãe então... ficou uma fera!

— Aposto que ela não era tão severa quanto o meu pai...

— Andou se desentendendo com ele, não é mesmo? Oque houve?

Lola retirou do bolso da calça i bilhete que seu pai havia lhe deixado e que ela havia guardado.

A professora franziu o cenho enquanto lia o bilhete em voz baixa. Engoliu em seco e devolveu o papel para a menina.

— Você está triste porque vai ficar sozinha em casa?

— Triste não, pois já esacostumada mas fiquei com raiva.

— Porquê?

— Nós brigamos de novo.

— Se quiser, pode se abrir comigo — desta vez quem acariciou a mão da outra foi Miranda. Alisou a mão da menina demonstrando confiança para a garota.

— Meu pai me levou para jantar em um restaurante italiano...

Então Lola tomou coragem e desabafou com Miranda. Contou tudo oque havia ocorrido para ela. Se sentiu aliviada em ter se aberto para alguém e sentia total confiança na professora.

— Lola, eu nem sei oque lhe dizer...

— Não precisa falar nada. Só de poder ter me ouvido conseguiu me ajudar de algum modo.

— Olha, eu sei que a morte de sua mãe nunca será superada e nem deve. Você deve se lembrar dela e tentar fazer com que ela, de onde estiver, sinta orgulho de quem você se tornou hoje. Eu sei que é difícil aceitar que seu pai tenha um novo relacionamento, mas ele também é humano e precisa de amor, então tente conversar com ele, com calma,mostrando o seu lado da história mas claro, sem desrespeitá-lo como tal.

— Obrigada pelo apoio Miranda, mas meu pai é difícil de se conviver e como eu tenho um gênio forte a nossa relação de pai e filha só se tem desgastado com o tempo. O problema não é ele arrumar uma namorada mas sim em querer fazer com que eu a aceite e tenho medo que ela queira tomar o lugar que um dia pertenceu a minha mãe. Isto eu jamais irei aceitar! — desabafou Dolores.

— Mas ninguém tomará o lugar dela. Ela será sempre a sua mãe e ninguém pode te tirar isso.

— Não é apenas isto, eu sinto falta do meu pai. Ela não me dá atenção, não procura saber como vou, não sabe nada dos meus gostos pessoais e mal conversa comigo. Sempre está ocupado com o trabalho dele — a menina não conseguiu s controlar e acabou chorando.

— Não chore! Assim você partirá o meu coração — Miranda levou a mão ao rosto de Lola secando sua lágrimas.

— Na noite passada eu pensei que poderíamos voltar a ter um vínculo como pai e filha, havia ainda uma esperança dentro de mim mas depois de ter me enganado com relação a presença de Michele no jantar, levou a única esperança que restava em mim.

A professora ficou sensibilizada com o desabafo da aluna. Saber de todos os problemas que a jovem enfrentava a fez enxergá-la de outra maneira. Enxergou uma Dolores frágil e sensível que estava escondida por trás de uma personalidade fechada e dura.

Ambas terminaram de tomar o milk shake e Miranda fez questão de levar Lola para casa de carro.