A Cor Da Chuva
1 Prólogo
A Cor da Chuva
Foi quando a chuva caiu
E trouxe com ela a sua cor
Foi que o meu dia sorriu
Brotando as flores
Regando amores
Mas deixa molhar, deixa regar
Tudo que tiver que ser
Me deixa passar pra te buscar
Deixa o mundo todo ver
Se eu brinco de dizer verdades
Você insiste que isso não é coisa pra brincar
E se eu falo alto a minha vontade
Vão sobrar vozes pra me censurar
Mas deixa a chuva molhar, deixa regar
Tudo que tiver que ser
Me deixa passar pra te buscar
Deixa o mundo todo ver
– Rhodes
XxX
A chuva caía, numa garoa fina, como se tentasse levar para longe, varrendo-as para os interior da grama úmida, memórias que não deveriam ser esquecidas, assim como lavava o caixão selado que era entregue à frialdade impessoal da terra.
Diego, aos seus sete anos de idade, observava o caixão fechado, que apenas representava a figura do pai. Haviam falado sobre um acidente de avião, depois lhe dito que Rogério não iria voltar, porque fora para o céu e iria ficar lá, cuidando-os das nuvens, ao lado de Deus.
No início, Diego não quis entender, e ainda se negava. Ficou por três dias esperando a porta de casa abrir e o pai entrar, com aquele sorriso contagiante que ele tinha sempre que voltava de suas viagens. Ele o pegaria no colo e o rodaria, dando-lhe um beijo na testa, e a mãe então veria que estava errada em achar que o pai havia ido para o meio das nuvens.
Mas nunca era o pai que passava pela porta, e agora, vendo o caixão atingir o fundo de areia e o padre começar a falar um monte de coisas que Diego nem sabia direito sobre o próprio pai, sentiu os olhos começarem a arder e o nariz a pinicar, de modo que precisou fungar algumas vezes para que ele não escorresse.
Lentamente tornou-se consciente do que havia ao seu redor, como se até aquele momento ainda estivesse preso à bolha de esperança onde o pai ainda estava vivo e todas aquelas pessoas de preto não representavam nada além de vultos que não queria ver.
Ouviu o choro baixo da mãe, a qual perdia o segundo marido, sendo o primeiro desconhecido para Diego; o que sabia dele era através do que a meia-irmã lhe contava. Diego segurou o choro na garganta, pensando no próprio pai. Iria se esquecer dele? Puxou pela memória momentos com o pai e se alegrou em perceber que lembrava bem daquele dia que ele o ensinara a andar de bicicleta sem rodinhas, ou quando construíram juntos a casa na árvore.
Mas as lembranças também trouxeram à tona todo o choro que tentava a muito custo segurar, porque não queria chorar na frente de tantos desconhecidos. Então se agarrou à pessoa ao seu lado, escondendo o rosto no peito dela e sentindo um braço rodear-lhe a cintura, amparando-o ternamente. Chorou até que as lágrimas se esgotassem, sob o guarda-chuva que os protegia da garoa, e ignorou todos os afagos que recebeu na cabeça ao final do enterro, mantendo-se abraçado fortemente à pessoa que o acalentava em silêncio.
Apenas quando ficaram apenas ele, a mãe, Nanda e Dimitri no cemitério, numa despedida mais pessoal e íntima àquele que se fora, é que Diego deixou a mente conturbada e dolorida tornar-se consciente de quem abraçava. Olhou para cima e viu o rosto sério de Dimitri, que olhava para a lápide de Rogério – Amado pai e marido.
“Dimi...” Murmurou, com a voz embargada, atraindo a atenção do mais velho. O garoto de doze anos baixou o olhar, encontrando seus olhos azul-claros, mas Diego os fechou quando Dimitri acariciou suavemente seus cabelos loiros.
“Estou aqui, Diego.” Ele disse, em seu tom que sempre acalmava o irmão mais novo. “Vou sempre estar aqui.”
Diego escondeu o rosto no peito dele, voltando a chorar, experimentando pela primeira vez o aperto doloroso e incurável de perder alguém que se ama. Sentiu medo de perder mais alguém e usou toda a força dos braços finos para manter o irmão bem junto a si. Não o soltou por nada, nem quando a mãe quis pegá-lo do colo, de modo que o próprio Dimitri teve de erguê-lo e levá-lo até o carro, com as pernas do irmão menor rodeando sua cintura.
XxX
Os gritos pareciam que iam derrubar a qualquer momento as vigas de sustentação da casa, levando as paredes ao chão. O garotinho loiro se debatia enquanto a mãe tentava puxá-lo pelos braços, e ele chegava a tentar chutar as pernas da mulher, jogando o corpo para trás e usando todo o ar dos pulmões para negar-se a fazer algo tão simples quanto tomar banho.
“ME SOLTA! ME SOOOOLTA!” O timbre agudo atingiu os ouvidos de Lydia, deixando-a desconcertada e agoniada, com vontade de também chorar e puxar os cabelos por sentir vontade de enfiar algo na boca do filho para fazê-lo parar de gritar. “ME LARGA, EU NÃO QUERO!!! NÃO QUERO!” Gritou como se apanhasse de cinta.
Lydia enfim o soltou, não aguentando mais a violência com que o filho agia nos últimos meses, sempre colocando as patas em qualquer um que se aproximasse, arrumando brigas com os coleguinhas da escola, renegando-se a comer, a tomar banho, sempre fazendo escândalo com tudo e fugindo de todos os carinhos que tentava fazer, por menor que fosse o toque.
“CHEGA, DIEGO! EU NÃO AGUENTO MAIS! DORME SUJO, ENTÃO! É BEM ISSO QUE TEU PAI IA QUERER, UM FILHO SUJO, PORCO E DESOBEDIENTE!” Gritou e imediatamente se arrependeu ao ver o filho cambaleando para trás por ter sido solto tão bruscamente, os olhos claros enchendo-se de água. Deu um passo na direção dele, estendendo a mão em incerteza. “Diego, meu amor, eu-“
“ME DEIXA EM PAZ! BRUXA! ME DEIXA EM PAZ!” Gritou com as lágrimas escorrendo pelas bochechas e correu para a cama, jogando-se ali e pondo-se a chorar convulsamente. Lydia se aproximou, tentando afagar-lhe a cabeça, mas recebeu um tapa na mão e outro berro, que a mandava sair do quarto.
Completamente frustrada, a mulher saiu e andou alguns passos pelo corredor, colocando uma mão sobre a boca e soltando uns soluços abafados de choro. Parecia que havia perdido a maneira de ser mãe depois da morte do Rogério. Era tão difícil ter de passar por aquilo tudo de novo, ter que aguentar a solidão e a perda, sentir-se impotente e fraca todas os segundos, minutos e horas do dia. E agora estava sendo ainda pior, porque Fernanda não ficara assim tão rebelde quando perdeu o pai, sempre fora muito tranquila e madura, e Dimitri era muito novo para entender a morte como Diego entendia.
E como que se pudesse escutar os pensamentos da mãe, Dimitri apareceu à porta do quarto, flagrando a mãe apoiada na parede do corredor, sufocando o choro com dificuldade. Sua expressão tornou-se preocupada e ele se aproximou, tocando-a no braço.
“Mãe... Não fica assim, você sabe como o Diego é e sempre foi intenso...” Falou. Lydia ainda tentou parar o choro assim que viu Dimitri, mas vê-lo, tão mais forte que ela ainda que perdesse o segundo pai, a fez desabar ainda mais enquanto puxava o filho para um abraço apertado.
“Desculpa, meu filho, por não conseguir ser forte...”
“Não fala isso, mãe. Você é forte.” Dimitri a abraçou como pôde. Apesar de ser alto para a idade, a mãe ainda era uns dez centímetros mais alta. “Eu vou lá acalmar o Diego.”
Lydia puxou o ar, fungando, e se afastou com um sorriso terno, acariciando os cabelos escuros de Dimitri. Ele era quase idêntico a Vladimir, seu primeiro marido. O olhar firme, mas carinhoso, os cabelos e olhos expressivos, ainda que misteriosos, o queixo quadrado e forte, mas proporcional ao rosto anguloso, evidenciando a descendência russa herdada do pai.
“Vai lá, meu amor. Por favor. Você é o único que consegue lidar com o Diego desde que... que ele nos deixou.” Ainda precisava usar eufemismos, evitar o nome do marido e falar como se na verdade ele só houvesse os abandonado, mas ainda estivesse lá, vivo, em algum lugar da Terra. Às vezes se perguntava se seria menos doloroso, se esse fosse o caso.
Dimitri recebeu o beijo na testa da mãe, e então seguiu para o quarto do irmão, suspirando ao encontrá-lo enfiado entre as colchas, chorando baixinho, chamando pelo pai. Diego sempre fora uma criança muito carente, carinhosa e ciumenta, apegada a todos dentro daquela casa, buscava colo no pai, na mãe, no irmão, até na irmã que fazia caretas toda vez que ele pedia colo. Clamava pela atenção de todos, adorava estar no centro do universo, mas, incrivelmente, quase nunca fazia manhas e choradeiras duradouras ou incomodava demais. Era o anjinho da família.
Mas agora era como um diabinho inconformado cujo único intento era tornar difícil a vida de todos que se postavam em seu caminho, assim como estava sendo para ele perder um dos astros ao redor do qual antes orbitava. Agora que um astro se fora, o equilíbrio entre as massas se perdera, e era difícil encontrar uma nova conformação, um novo meio, uma nova energia que os mantivesse coesos.
Dimitri entrou no quarto e fechou a porta, e então se dirigiu até a cama do irmão, puxando a coberta e deitando-se ao lado dele sem pedir licença, aconchegando-se ali sem medo de ser repudiado. Não fez nada, apenas esperou que o choro do irmão cedesse, aos poucos, até restar apenas as fracas fungadas de nariz.
“Você acha que o papai iria me odiar?” Ouviu a voz chorosa do irmão. “Ele iria me xingar que nem a mamãe?”
“Se você continuasse fazendo birra por tudo, ele ia te repreender, sim. Mas nunca te odiar. Ele nunca te odiaria. A mãe também não te odeia, mesmo com você descontando nela a tua raiva.” Dimitri disse, um tanto severo, mas com a voz amena, acariciando as madeixas macias dos cabelos bagunçados de Diego, que pareciam fios de ouro.
Novos sons de choro começaram a nascer na garganta do mais novo, e ele fungou repetidas vezes, enquanto se aproximava de Dimitri e se abraçava a ele, como que buscando por redenção.
“Eu não queria gritar com a mamãe... Eu não quero que ninguém me odeie.” Murmurou abraçando forte o corpo quente do mais velho e molhando a camisa dele com as lágrimas. “Eu não quero mais sentir raiva.”
“Eu sei. Eu também não...” Confessou. Diego ergueu os olhos chorosos, mirando o mais velho com curiosidade e interesse.
“Você sente?”
“Sim.” Admitiu, acomodando-se melhor na cama, ficando meio sentado e apoiado nos travesseiros, e puxou o irmão para sentar no seu colo, com os joelhos um de cada lado de sua cintura. Envolveu-o com a colcha e o abraçou pela cintura, encostando a testa na dele. “Mas quando eu sinto raiva, eu respiro fundo e penso no momento mais especial que tive com a pessoa que sinto saudades, e isso me acalma, porque esses momentos eu não perdi... Vão sempre estar aqui” Tocou no peito do irmão, no ponto sobre o coração, podendo sentir os batimentos agitados do menor. “Junto comigo.”
Os lábios de Diego tremeram violentamente e os olhos se encheram ainda mais de lágrimas. Ele se jogou contra o irmão, abraçando-o forte. Dimitri o abraçou de volta, apertado, também se perguntando se a vida iria tirar-lhe também o irmão, ou se ela havia decido levar apenas as pessoas que chamava de pai.
Sabia que Fernanda estava na rua, até tarde, provavelmente metida com pessoas de índole duvidosa. Lydia sabia também, mas fingia não ver, preferia acreditar que a filha ainda era a menina madura e sensata de sempre, porque já havia coisas demais com que lidar e não conseguiria impedir Fernanda por enquanto. Mas Dimitri queria se manter firme. Alguém naquela casa precisava.
Principalmente, Diego precisava de seu apoio e força.
“Fica aqui comigo.” Diego pediu, não querendo soltar o irmão. Poderia ficar ali, roubando o calor do mais velho até que todas as folhas da árvore, no quintal, caíssem, secassem e desaparecessem sobre a grama, no tempo em que incontáveis estrelas bailariam lá no céu.
“Fico.” Dimitri disse, roçando os lábios no pescoço do irmão, passando pelo maxilar e bochechas, até alcançar a testa, onde depositou um beijo demorado. Amava aquele pequeno ser em seus braços de uma maneira que, às vezes, o assustava. Adorava quando ele o abraçava e demonstrava que precisava de si, e até agora, quando o motivo da carência também o machucava, se sentia bem abraçando o corpo frágil do mais novo. “Mas antes você precisa de um banho.”
“Não... Não quero!” Diego falou, afastando-se um pouco e fazendo bico. “Está frio...” Fez manha.
“A água vai estar quente. Vamos, você não tem mais idade para fazer birra desse jeito.” Falou sorrindo e acariciando com as duas mãos os cabelo extremamente liso do outro.
“Tenho sim...” Diego ainda disse, mas deixou que o irmão se levantasse da cama, levantando-o junto e então o carregando até o banheiro. Diego apoiou a cabeça no ombro do irmão, satisfeito por não caminhar e ainda mais satisfeito com a atenção que recebia.
A mãe andava irritadiça, impaciente e triste, e sem perceber transmitia uma aura negativa aos filhos. Diego a sentia e, não sabendo como reagir, gritava, reclamava e esperneava. Queria o pai, o pai voltando resolveria tudo! Mas a dor de saber que ele nunca voltaria, que nunca o veria de novo, o atingia em cheio todas as vezes.
Mas de Dimitri recebia apenas um sensação de conforto, serenidade e carinho. Nos últimos dias, começara a inconscientemente fazer birra apenas porque sabia que o irmão apareceria depois para acalmá-lo.
Quando ele o colocou no chão do banheiro, Diego ergueu os braços para que ele o despisse, mesmo que pudesse fazer isso sozinho. Dimitri, se achou estranho, não demonstrou. Começou a despir o irmão, em silêncio, e depois foi preparar a banheira. Quando voltou os olhos para Diego, percebeu que deveria primeiro ter feito uma coisa, e depois a outra. O mais novo abraçava o próprio corpo, tremendo e batendo de leve os dentes, com a pele pálida arrepiada.
De joelhos, Dimitri o puxou e abraçou, cobrindo-o parcialmente com o casaco velho que usava quando estava em casa. Diego se encolheu contra seu corpo, com os braços dobrados e juntos entre os dois, enquanto Dimitri testava a temperatura da água. Quando ela ficou quente, se ergueu, pegando Diego pelas axilas e o colocando na banheira, onde o loiro afundou em busca do calor vaporoso que se desprendia da superfície líquida.
“Dimi...” O menor chamou, apoiando as mãos na borda da banheira para olhar melhor para o irmão. “Fala do papai, pra mim? Fala de coisas que você sabe dele que eu não sei... Fala da tua lembrança boa dele que te acalma. Por favor?”
Dimitri olhou para aqueles orbes incrivelmente claros do mais novo, feitos de algum pedaço recortado de céu azul, e apoiou o braço na borda da banheira, descansando-o enquanto acariciava os fios loiros, cuja textura tanto gostava.
“É um pouco estranho... Mas eu me lembro de uma vez, quando você ficou doente, com uns cinco anos. Ficou tão doente, de maneira tão súbita, que a gente temeu que você acabasse nos deixando. O Rogério, mesmo tão desesperado quanto o resto de nós, pensou e agiu rápido. Te levou para o hospital, fez de tudo para que você fosse atendido imediatamente, e depois a gente soube que você não morreu por questão de minutos, graças ao pensamento veloz dele. Isso sempre me faz pensar no quanto ele era bom em cuidar da gente, e no quanto ele te amava... Se não fosse por ele, talvez você não estivesse aqui comigo agora, e sempre que eu penso nisso, eu fico calmo e sei que preciso me manter bem, para cuidar de ti como ele fez... Ele manteve quem eu mais amo junto comigo, e essa é a melhor lembrança que eu posso ter dele.”
Quando terminou, viu o outro tentando segurar novamente as lágrimas, com a boca trêmula, olhando-o com aquela careta de choro de criança. Sentiu que lágrimas também desceram silenciosas por seu rosto, e puxou Diego pela nuca, encostando de novo as testas. As mãozinhas pequenas do irmão foram para seu rosto, pousando delicadamente em suas bochechas.
“Também te amo, Dimi... Não me deixa também...” Implorou, engolindo soluços.
“Não vou. Eu prometi, não foi? Vou sempre estar aqui.” Falou, limpando algumas lágrimas de Diego com o polegar. O mais novo assentiu, e eles se mantiveram naquela posição, tão deles, até que Diego sentisse a água da banheira começar a esfriar e voltar a eriçar seus pelinhos.
Na manhã seguinte, quando Lydia entrou no quarto de Diego, viu-o deitado na cama abraçado a Dimitri, que dormia de barriga para cima, com um dos braços contornando os ombros do mais novo. Ela sorriu para a cena e, mesmo que já estivesse na hora de acordá-los, resolveu que os deixaria dormir por mais dez minutos, aproveitando do conforto que encontravam apenas um no outro.
Notas finais
Somente o prólogo é em terceira pessoa, o resto da história é em primeira pessoa, no POV do Diego.
Sim, podem me matar por postar mais uma história. Sim, eu mereço. Sim, eu estou indo para as montanhas agora. *foge*
Beijos a todos que se arriscarem a ler, gostarem e ainda deixarem alguma review. ;*
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