A Cor Da Chuva
2 Capítulo 1
Procurei de cima abaixo, praticamente transformando-me em um furacão no processo, porque foi com essa impressão que meu quarto ficou quando me dei por vencido: um furacão havia passado por ali e tirado cada objeto e roupa do lugar. E ainda assim eu não encontrei os outros quinhentos reais que eu havia economizado para comprar o relógio de presente de aniversário para o Dimitri.
Bufei passando as mãos pelos cabelos e imediatamente seguindo para o quarto da Fernanda. Era impossível que eu não desconfiasse logo dela e, inclusive, havia aprendido a esconder bem minhas coisas no quarto por culpa dela. Quando empurrei a porta do quarto de minha irmã, sem nem ao menos bater, a encontrei jogada na cama, com os fones de ouvido tão altos que eu podia escutar a música barulhenta à distância enquanto ela balançava a cabeça e lia uma revista qualquer.
Revirei os olhos para a cena, pensando em como uma garota de 24 anos conseguia parecer tanto com uma adolescente rebelde – na verdade, ela não só parecia, mas como era uma, desde seus quatorze anos. Caminhei até a cama e arranquei os fones de seus ouvidos, recebendo em resposta uma exclamação de indignação.
“O que você quer, Diego?” Ela perguntou, já mal-humorada e na defensiva, o que era uma dica de que ela havia pegado meus quinhentos reais.
“Passa de volta. Eu sei que foi você que entrou no meu quarto e roubou meu dinheiro.” Estendi a mão, nem um pouco preocupado com a expressão de horror e raiva que ela abriu. Recebi um tapa na mão por isso.
“Eu não faço mais esse tipo de coisa, pivete estúpido!”
“O caralho que não faz! Como você explica então que meu dinheiro tenha subitamente sumido quando você vive na mesma casa, ainda?” Alfinetei. Dimitri não vivia mais com a gente, se mudou assim que completou dezoito anos, deixando-me sozinho para lidar com a Fernanda. Isso há quatro anos, agora.
“Vá se foder, Diego. Eu não peguei nada e não te devo explicações. E eu fico na merda dessa casa o tempo que eu quiser!” Ela jogou a revista longe e se levantou, empurrando-me com as duas mãos espalmadas no meu peito. “Agora vaza do meu quarto, que eu não tenho que ficar ouvindo teus latidos.”
“Você tem que ficar ouvindo os meus latidos até devolver o meu dinheiro. Não basta o quanto tu arrancou da mãe no tempo que era uma adolescente drogada? Ah! Desculpe, você ainda é uma.” Segurei-a pelos pulsos e a impedi de me atacar. Fernanda era dez centímetros mais baixa do que eu, tinha os olhos muito parecidos com os do Dimitri e seria bonita, se não fossem pelas sequelas deixadas pelos seis anos de uso de drogas. Havia mais rugas do que deveriam existir em seu rosto, a pele tinha um aspecto apagado e ela parecia sempre com olheiras.
Eu ainda suspeitava que ela houvesse voltado a usar, mesmo frequentando o psiquiatra e tendo passado por uma internação que durou dois anos, até vencer o vício. Mas quanto tentei falar isso para Lydia, ela não acreditou, porque a Fernanda jurava de pé junto que estava limpa.
“Vai pro inferno, Diego! Só porque você é o filho perfeito e famoso, preferido da mãe e do Dimitri, acha que sabe de tudo! Você não tem é noção de nada, é um egocêntrico que vive no teu mundinho, olhando sempre pro próprio umbigo! Agora me larga e vai lá naquela boate de putos e me deixa em paz!” Ela berrou, debatendo-se para soltar e conseguindo me dar um soco sem muito jeito no maxilar.
“Não enquanto você não devolver o meu dinheiro!” Gritei em retorno, tentando fazê-la parar de tentar me bater. “Quer ferrar tua vida? Vai lá, ferra! Já cansei de me preocupar, mas não venha roubar o dinheiro que eu economizei para comprar o presente do Dimi! E não ouse chamá-lo de puto de novo.” E segurei com toda a força, fazendo-a soltar um lamento baixo de dor. Estava possesso, odiava quando ela dava de preconceituosa para cima do Dimitri.
“Pro inferno com esse presente! Você dá um relógio para ele todo ano, que diferença vai fazer? E eu já falei que não peguei a porra do teu dinheiro!!!” Ela parou, ofegante, me encarando descabelada. Seus olhos estavam prestes a transbordar, mas eram lágrimas de raiva, pura e líquida.
Dar relógios em todos aniversários do Dimitri era quase um ritual. Ele era louco por relógios, tinha uma coleção deles, e eu adorava procurar todo ano por um relógio diferente e especial para lhe dar de presente, um que ele ainda não tivesse e o impressionasse. Por causa dos treinos, eu acabei deixando para última hora. Eu só tinha aquela tarde para comprar, antes de ir de noite para a boate dele. A Fernanda tinha de me devolver meu dinheiro.
Eu abri a boca para retrucar, mas alguém falou mais rápido do que eu.
“Fui eu quem peguei, filho.” Eu olhei para a porta e vi nossa mãe parada ali, com o rosto contorcido numa expressão culpada e triste por causa da nossa briga. “A Fernanda não faz mais esse tipo de coisa.”
“Toma nos dedos, seu retardado mental! E vê se para de acusar os outros sem prova!” Ela voltou a me empurrar, e eu cambaleei para trás, soltando-a. Senti-me péssimo por vir acusá-la sem provas, mesmo que ela houvesse me dado motivos para desconfiança por anos seguidos. Eu já perdi a conta de quantas coisas ela roubou de mim ou da mãe para vender, em troca de seu vício. Ela havia roubado, principalmente, minha confiança.
“Me desculpa, Nanda.” Pedi, reconhecendo meu erro.
“Pro inferno com as tuas desculpas. Eu não quero, nem aceito. Tudo que você sempre fez foi me acusar, apontar o dedo e me culpar por tudo. Se um meteoro caísse no nosso quintal, a Fernanda seria a culpada!” Ela voltou a se deitar na cama e recolocar os fones de ouvido.
“Puta merda! Você age como uma adolescente mesmo! Se você quer a minha confiança de volta, ou a confiança de qualquer pessoa dessa família, quem sabe não tenta reconquistá-la, então, em vez de ficar bancando a vítima o tempo todo? Eu já pedi desculpas!” Nós estávamos para começar outra briga, era óbvio. Mesmo que minha irmã fosse sete anos mais velha e devesse ser mais madura, conseguia ter uma mentalidade pior que a minha.
“Vocês dois, já chega!” Lydia falou firme, fazendo nós dois bufarmos em irritação. “Diego, você fez muito mal em acusar tua irmã dessa maneira. Talvez você ainda não confie nela, isso leva tempo, eu sei, mas também não te dá o direito de acusá-la sem provas e sem tentar esclarecer antes a situação. Fernanda, você sabe que tem culpa nisso também. Tente começar a agir como uma mulher de 24 anos e não como uma adolescente de 15, e conversar antes de sair dando patadas. Está na hora de vocês começarem a agir como irmãos e se apoiarem, em vez de procurarem briga em cada detalhe.”
Como não tínhamos o que responder a isso, ficamos em silêncio e, sem olhar para a minha irmã, deixei o quarto, rumando para a sala. Sabia que minha mãe apareceria depois de conversar com a Fernanda. Dito e feito, uns dez minutos depois, ela descia as escadas e vinha me dar um beijo na testa, o que fez minha irritação esmorecer de vez. Ela devia saber que isso me acalmava, pois sempre fazia quando eu estava irritadiço.
“Você poderia ter me avisado que tinha pegado o dinheiro.” Falei.
“Desculpe, filho. Foi um imprevisto, eu estava sem dinheiro em casa e não tinha tempo de tirar do banco. Já estou com ele aqui.” Ela foi até a bolsa e tirou os quinhentos reais da carteira. “Cuide para não ser roubado, ok? Talvez seja melhor eu te dar um cartão de crédito, ficar andando com essa quantia pela rua é perigoso... Quanto é o relógio dessa vez?”
“Uns mil e poucos.” Falei, aceitando o dinheiro. “E não é como se eu andasse com isso no bolso o tempo inteiro, né?” Revirei os olhos.
Saí logo depois, com toda a grana na mochila, e fui direto para a loja em cujo site eu havia encontrado o relógio ideal. O comprei com um sorriso enorme no rosto, mas saí rapidamente da loja quando a atendente veio com o papo de ‘Eu já não te vi na TV antes?’. Depois disso peguei o ônibus e fui direto para o apartamento do Dimitri. Eu poderia entregar o presente para ele na festa que ele daria para os amigos hoje à noite, na Elevação, ou no almoço de aniversário lá em casa, no dia seguinte, mas eu preferia entregar em um lugar calmo, num momento só nosso.
Ele morava num daqueles prédios enormes com tudo que se tem direito. Eu passei pela portaria e dei meu nome para o porteiro, que apenas me mandou subir enquanto ligava para o apartamento do meu irmão. Entrei no elevador e subi até o décimo quinto andar. Quando as portas se abriam, davam direito para a sala gigante dele, finamente decorada pela nossa mãe, mas completamente no estilo dele. Algo em tons escuros e aspecto de que ali morava um famoso executivo. Até parece...
Dimitri estava parado perto quando eu pisei do elevador diretamente para seu apartamento. Não esperei um segundo. Fui até ele e lhe dei um abraço apertado, experimentando aquela sensação de segurança que estar com ele me passava desde que eu podia me lembrar.
“Feliz aniversário!” Falei quando nos afastamos. Dimitri sorriu também e bagunçou meus cabelos.
“Como se eu fosse ficar feliz por estar ficando velho.” Retrucou e seguiu para sala. Eu o segui, revirando os olhos.
“Fala sério. Vinte e dois anos, e você reclamando? Imagina o drama quando chegar aos trinta.” Debochei, me jogando em seu sofá enquanto tirava a mochila das costas. Ele se sentou também e, quando o olhei, pensei que ele aparentava mais idade do que realmente tinha. Uns vinte e seis anos, talvez. Ele sempre parecera mais velho do que a realidade.
“Quando eu chegar aos trinta, já vou ter cara de quarenta. Terei razões duplicadas para entrar em crise.” Ele falou, como se lesse meus pensamentos sobre sua aparência. Joguei uma almofada pequena em sua direção.
“Não exagera.” Sorri de lado. “Você sabe que vai continuar bonitão até quando tiver todos os cabelos brancos. As bichas velhas vão tudo ser loucas por ti.”
Ele jogou a almofada de volta em cheio no meu rosto, fazendo-me cair para trás e soltar uma risada. Eu ainda lembro de quando o Dimitri contou para eu, a Nanda e a mãe que era gay. Nós estávamos jantando numa quarta-feira quando ele simplesmente abriu a boca e lançou a bomba como se comentasse do tempo. A Nanda deixou os talheres caírem, a mãe ficou paralisada e eu parei com o garfo a meia distância da boca, encarando-o em choque. Eu tinha só dez anos. Aquilo me impressionou, ele não tinha nada de gay, jogava no time de futebol da escola e inclusive já havia namorado uma garota e a trazido para um almoço em casa.
A mãe foi a mais complicada de aceitar. Ela, em busca de consolo pela perda dos maridos, frequentava a Igreja com certa regularidade, apesar de não ser nenhuma beata insuportável que fica ditando as regras de Deus a cada cinco minutos. Ela nunca disse que o Dimi iria para o inferno, mas demorou alguns meses para sentar com meu irmão e dizer que o amava e o apoiaria sempre; que só estava com medo do preconceito que ele poderia sofrer dos outros.
A primeira coisa que eu perguntei ao Dimi quando entrei no quarto dele depois do jantar, primeiro enrolando fingindo que estava atrás de uma de suas revistas de super-heróis, foi:
– O que há para se gostar num homem? – A ideia me soava absurda. Eu pensava nos meus colegas de escola e os achava todos desengonçados, idiotas, feios e patetas. E os acho até hoje, só que agora estão mais altos, e ainda mais idiotas.
Dimi desviou seu olhar sério da revista de esportes que folheava e os cravou em mim, parado no meio de seu quarto encarando-o com curiosidade. Eu não sentia asco dele, ou qualquer coisa do tipo. Eu era novo demais para sequer entender direito o que aquilo tudo significava. Ele bateu a mão sobre o colchão, ao seu lado, indicando para que eu fosse me deitar ao lado dele. Eu fui e me sentei bem ao seu lado, com as pernas cruzadas e os cotovelos apoiados nas minhas coxas, amparando meu queixo com as mãos.
– Não dá para explicar esse tipo de coisa, irmãozinho. É o mesmo se eu te perguntar o que há para se gostar numa menina. O que você responderia para me convencer? – Ele sorriu de lado esperando minha resposta, acariciando os meus cabelos sobre a testa, enquanto eu tentava em vão encontrar alguma replicata decente.
Porque, para começar, quem disse que com dez anos eu me interessava por garotas? Isso só foi acontecer lá pelos meus doze anos. Foi quando pela primeira vez reparei nos peitos da Jady, minha melhor amiga que teve uma puberdade precoce. Ela viu meu olhar e bateu na minha cabeça, dizendo para eu tomar vergonha na cara, ou senão me deixava caolho. Com quase quatorze dei meu primeiro beijo, com uma garota da escola um ano mais nova do que eu. Foi num daqueles bailes bestas de final de ano. Eu a convidei para dançar, com as mãos suando, ela aceitou e eu vibrei. Ela era linda, parecia uma boneca loira e sua respiração era trêmula quando juntei inocentemente nossos lábios no meio da pista de dança.
No dia seguinte o pai dela já sabia e veio ter uma conversa ‘de homem para homem’ comigo. Foi terrível, eu não parava de tremer e apenas concordava com tudo que ele dizia. Eu e a Gisela namoramos por um ano, até ela me chutar com a desculpa que eu nunca a procurava. Também! Sempre que saíamos, a gralha tagarela da mãe dela ia junto! Era o inferno, eu preferia evitar esses momentos de constrangimento.
Então naquela noite eu apenas dei de ombros e perguntei se poderia dormir ali com ele. Na hora não pensei, mas ainda lembro do sorriso, até um tanto aliviado, que o Dimitri abriu, e agora penso que ele deveria ter ficado feliz por sua revelação não ter mudado nada em nossa relação. Eu nunca me importei com isso, ele continuava sendo meu irmão, a pessoa que, eu suspeitava, amava mais do que à minha própria mãe. No caso, nossa mãe.
“Trouxe teu presente.” Falei, me virando para abrir minha mochila. Tirei dali a caixinha enrolada em papel-presente e entreguei a Dimitri, que suspirou parecendo culpado.
“Você não deveria gastar teu dinheiro comigo...” Ele disse, o que de imediato arrancou o sorriso em meu rosto, substituindo-o por uma carranca magoada.
“Você acha que é isso que eu estou fazendo? Simplesmente gastando dinheiro com você?” Perguntei, sério. “Pensei que isso tinha algum significado para você também.”
Dimitri me encarou surpreso por um momento, com aqueles olhos escuros que diferiam por completo dos meus. Nossas aparências, na verdade, não tinham nada em comum, e as pessoas costumavam ficar admiradas quando dizíamos que dividíamos o mesmo sangue. Dimitri se levantou, parecendo ganhar o teto. Olhei para cima para encarar meu irmão nos olhos. O desgraçado tem quase 1,90m de altura, enquanto eu preciso me contentar com meus 1,77m. A genética é injusta.
“É claro que isso tem significado para mim também, Diego.” Ele disse, a expressão sisuda também. “Eu só-“
“Esqueça.” Eu levantei também e lhe entreguei a caixinha. “Já estou acostumado com o Sr. Altruísmo. Abra isso logo e diga o quanto gostou do relógio e como tenho um bom-gosto inigualável.”
Ele soltou uma risada rápida pelo nariz e acatou a ideia, desfazendo o laço que prendia o enfeite e então abrindo a caixa preta e simples. Um brilho prateado atingiu nossos olhos. Cara, aquele relógio era bonito, acho que o melhor que eu já havia dado, e valia os mais de mil reais que eu havia gastado com ele.
Peguei o relógio mais rápido que o Dimitri e puxei seu pulso.
“É um Cartier, feito de titânio, e achei que combinava bem com a pulseira de couro. Resiste até 300m abaixo da água e, segundo a atendente, ele tem um repetidor de minutos, ainda que eu não saiba muito bem o que isso significa. Mas o mais legal é que ele tem esse mostrador, que exibe o movimento da carruagem do turbilhão, mas deus sabe o que isso significa! Mostra também as peças principais de repetição de minutos, assim você pode admirar os dispositivos do relógio funcionando. E mesmo assim ele ainda continua bonito, acho que por culpa desse design meio retrô dele, e o fundo de safira.” Eu ia falando o que havia lido no site e me chamado a atenção, enquanto apontava cada um dos detalhes no relógio. Ao final parei, excitado com minhas próprias palavras, e olhei para o Dimi, vendo-o babando no relógio, o que aumentou minha satisfação. “E então, gostou?”
“Acho que é o melhor relógio que eu já tive.” Ele sorriu para mim. “Um gosto inigualável, o desse meu irmãozinho.”
“Ah, pára, você diz isso todo ano.” Revirei os olhos, mas o sorriso me escapava pelo canto do lábio. Dimi me puxou para outro abraço, com uma mão sobre minha cabeça bagunçando de leve meus cabelos. Eu senti seu perfume sutil e me inebriei um pouco, fechando os olhos e me deixando levar por sensações boas como uma massagem nas costas depois de um treino de judô.
“Todo ano você se supera. Eu tenho sorte de ter um irmão como você...” Falou.
“Claro que tem!” Exclamei sorrindo, ao me afastar. “Aliás, a Jady vai ir hoje também lá na boate. Há uma semana ela veio me contar que é lésbica.”
“A Jady?” Dimitri perguntou surpreso, mas distraído, ainda com os olhos no relógio, girando o braço para que eu o regulasse em seu pulso. “Nunca pensaria, ela é bem feminina.”
“Sim. Também fiquei surpreso, tipo quando você contou... Você também não tem nada que te denuncie. Tanto que vive de receber cantada da mulherada.”
“E como está a Fernanda? A mãe ligou, contou que vocês brigaram...” Ele ergueu o olhar para mim, encontrando meus olhos ligeiramente arregalados, pego de surpresa com aquilo. Larguei a mão dele e lhe dei as costas, rumando para a cozinha, anexa à sala.
“Ela te ligou? Por que ela te ligaria?” Segui direto para a geladeira e peguei uma maçã esquecida na porta. Dimitri me seguiu e se apoiou ao balcão principal cujo tampo era de pedra polida.
“Quem sabe porque eu sou o irmão de vocês?” Ele ergueu uma sobrancelha. “Fiquei um bom tempo intermediando as brigas entre vocês dois junto com a mãe.”
“É, mas você perdeu o direito de saber dessas briguinhas à toa quando saiu de casa.” Falei, antes de dar uma mordida na maçã. “É o tipo de briga que não tem por que chegar aos teus ouvidos... Foi só um mal-entendido.” Dei de ombros, com uma nova mordida.
“Não, Diego. Foi uma briga séria. Você sabe que a Nanda está numa fase difícil, ela está tentando superar tudo que passou antes, e ter alguém para lembrá-la daquilo sempre que algo sai do lugar não vai ajudar, vai só colocar mais culpa e remorso sobre os ombros dela. Isso pode fazer ela voltar a se drogar... Se nem dentro de casa ela encontra apoio, onde mais ela iria encontrar?” Ele replicou seriamente, com um ar de autoridade que parecia emanar de cada um de seus poros. Sempre que ele dava uma dessas lições de moral, eu sentia os pelos do meu braço arrepiarem em união perfeita com os da minha nuca. Seus orbes castanhos pareciam adquirir o poder de me diminuir perante seu olhar e por isso virei o rosto, evitando-o.
“Ela já deve ter voltado a se drogar de qualquer maneira. E se você acha que ela precisa do apoio da família, por que saiu de casa? Deveria estar lá com a gente, e não aqui sozinho vivendo uma vida a parte. Se para você foi tão fácil sair de casa bem quando a Fernanda estava na pior fase dela, não venha jogar na minha cara que não a apoio quando era eu que tentava sempre me aproximar dela e só levava patadas. E o que eu ouço agora? Que sou o egocêntrico que só olha pro próprio umbigo. Ela que vá pro inferno, se quer mesmo saber.” Falei tudo, olhando irritado para a parede. Também lembrava claramente de quando Dimitri saíra de casa. Eu chorei, esperneei, reclamei, mas nada o fez mudar de ideia, e ele nunca foi capaz de me explicar o real motivo daquela mudança.
“Diego.” Dimitri chamou e eu fui atraído por sua voz. Meu olhar carregava rancor, e isso pareceu perturbá-lo, ou eu talvez estivesse apenas imaginando. Ainda que eu o conhecesse há dezessete anos, nunca sabia dizer o que ele estava pensando. Às vezes, eu sentia o quanto ele era um livro fechado para mim, mesmo que, a despeito da diferença de idade, déssemos muito bem como irmãos. Mas esse lado que ele mantinha inalcançável para mim e exclusivo para si próprio, tanto me intrigava, quanto me atormentava. “Mesmo que eu esteja morando aqui, não quer dizer que eu não me importo e não faça mais parte da vida de vocês. É injusto você dizer que vivo uma vida a parte. Não era eu quem buscava a Fernanda bêbada e drogada na casa de algum dos amigos idiotas dela? Ou que te levava e buscava da escola todos os dias? E aparecia sempre que vocês precisavam, e sempre a visitava na clínica junto com vocês? Eu odeio ver que você ainda me olha com raiva por eu ter saído cedo de casa.”
“Eu só queria uma explicação, só isso.” Falei um tanto seco e me desencostei do balcão da pia, jogando a maçã no lixo. “Esqueça, eu sei que você se importa. Se te deixa feliz, estou arrependido de ter acusado a Nanda e vou tentar ser um irmão melhor.” As palavras abandonaram a minha boca de maneira mecânica, mas não deixavam de ser sinceras. “Vou tomar um banho e me arrumar. Vou com você mais cedo até a Elevação.”
“Diego.” Dimitri segurou meu braço e eu me virei, encarando-o. Ele ficou uns segundos me olhando, até que eu o olhasse com a testa enrugada, sem entender a maneira como ele me encarava e o receio de falar o que se prendia à sua garganta.
“O que foi, Dimi?”
“Nada.” Soltou-me. “Só... Me desculpe por estragar o nosso ritual.” Ele usou a palavra, o que acabou fazendo meu maxilar descontrair e o canto dos meus lábios subir. Nos outros anos havia sido melhor mesmo, é verdade, ainda que não fosse nada de mais. Simplesmente a entrega do presente, um abraço apertado e um tempo nosso, conversando apenas amenidades e deixando o mundo exterior com seus problemas. Mas era o que eu gostava, dessa simplicidade e ausência da necessidade de fazer extravagâncias para tornar um momento especial.
“Tudo bem. Só não se esqueça de dizer que eu sou o melhor irmão do mundo até o final da noite.” O lembrei, franzindo a testa em intimação. “Você ainda tem tempo para compensar.”
Dimitri sorriu torto.
“Esteja pronto em uma hora. Eu preciso chegar cedo lá, e deus sabe que, se fosse pelo tempo que você demora se arrumando, não seria eu o irmão gay da família.” Me soltou o braço.
“Vai se foder, eu nem demoro nada.” Retruquei estreitando os olhos, porém segui para a sala, onde peguei minha mochila e a levei comigo para o banheiro. Eu já havia tentado diminuir meu tempo de banho, mas para falar a verdade, eu era mesmo uma garota me arrumando.
Notas finais
Agradeço a todos os comentários, fiquei muito feliz com o retorno, e é claro que vou continuar depois das reviews amáveis. ♥
Tem gente que não gosta, mas aí é só não olhar. Fotinho dos irmãos:
Diego:
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Dimitri:
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Beijões! ;*
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