A Cor Da Chuva

18 Capítulo 17


Notas iniciais
Mias um capítulo docinho pra vocês. *.*

Acordei me sentindo bastante grogue e, a primeira coisa que notei, foi o braço que rodeava minha cintura, estreitando-me contra um peitoral definido. Toquei esse braço, começando a me recordar rapidamente de tudo que havia acontecido, das sensações que senti enquanto me entregava ao meu irmão. Um sorriso encheu meu rosto e me espreguicei de leve, não querendo acordar Dimitri. Olhei para o relógio digital sobre a cômoda e me surpreendi por serem duas da manhã, ainda escuro.

Me remexi na cama, desconfortável ao me tornar ciente da sensação desagradável de sêmen seco em minha bunda. Havia ficado tão exausto depois do que eu e Dimitri havíamos feito, que me esquecera que isso aconteceria, já que não havíamos usado camisinha. Me virei para Dimitri e o observei na escuridão, conseguindo enxergar apenas um contorno indistinto de seus traços.

Levei a mão ao rosto dele e o toquei suavemente, cuidando para não acordá-lo.

“E eu quem tenho sono de pedra.” Murmurei para ele. Dimitri parecia no vigésimo sono, longe de acordar. Talvez finalmente estivesse tendo um sono verdadeiramente tranquilo e sem perturbações depois de tanto tempo. Ainda dei um beijo cuidadoso nos lábios finos dele antes de me levantar e seguir para o banheiro.

Peguei uma toalha pelo caminho e fechei a porta do banheiro ligado ao quarto, acendendo a luz. Esperava que Dimitri não acordasse, eu só iria tomar um banho rápido e voltar para a cama. Se bem que banho rápido para mim seria um milagre e faria o temporal retornar.

Ficar sob a água fresca foi uma benção. Continuava quente apesar de a chuva ter refrescado um pouco a noite. Parei para pensar em como as coisas seriam a partir daquele momento. Teríamos mesmo um dia de sol no dia seguinte? Porque, por mais que estivéssemos juntos, nunca poderíamos ser um casal normal a andar na rua de mãos dadas, demonstrando afeto. Sempre teríamos de mentir para todos que éramos apenas irmãos, poucos seriam os que aceitariam caso fôssemos descobertos.

E nossa mãe... Como ela reagiria caso eu dissesse que iria me mudar para o apartamento do Dimitri? Porque eu obviamente me mudaria. Até hoje não havia engolido a história de ele ter saído de casa e, agora que sabia o motivo e havíamos superado o ‘problema’, não havia porque continuarmos separados. Os minutos se passaram e eu comecei a me afogar em mais e mais dúvidas, não sobre nós dois e o fato de que éramos irmãos, eu já havia superado isso, ou estava muito perto de superar, mas comecei a imaginar a reação de cada um de meus amigos e familiares, e isso foi me deixando tenso.

Até que eu desse um pulo de susto ao sentir um toque em minha cintura, vindo de trás.

“Dimi!” Soltei com o coração aos pulos, me virando para ver meu irmão nu, entrando para baixo da água junto comigo. “Você me matou de susto...”

“Perdão.” Dimitri disse, com um sorriso divertido para meu susto, e abraçou-me pela cintura, colando nossos corpos molhados. Eu o abracei de volta, passando as mãos por seus braços. Ele era mesmo mais musculoso do que eu, ainda que nós dois malhássemos. Antes eu torceria o nariz para isso; agora achava sexy aqueles braços fortes me segurando com firmeza.

Droga, assim eu pareço uma mulherzinha. Pensei, escondendo o rosto no peitoral do Dimitri.

“Você parecia no mundo da lua, nem me viu entrar no banheiro, tirar as roupas e entrar no box.” Dimitri comentou, passando a mão pelas minhas costas. “No que está pensando...?”

“No quanto eu te amo...?” Sugeri tentando soar convincente. Não queria jogar minhas apreensões nele logo após nos acertarmos. Dimitri soltou uma risada ligeiramente sarcástica, mas que também denunciava que gostara do que escutara. Seus lábios provocaram minha orelha, causando-me um arrepio.

“Seus ombros estavam tensos. Me conte o que estava pensando, não guarde apenas para você, Diego. Tudo que nos incomodar ou tivermos de enfrentar, temos de fazer juntos, ou...” Ele deixou a frase no ar, talvez porque não tivesse nenhuma madeira por perto para bater nela três vezes se ele falasse o que tinha em mente. Eu suspirei, abraçando-o com mais força, antes de erguer o rosto para encará-lo. Dimitri era muito mais maduro que eu, sempre havia sido. Eu havia namorado cinco vezes, e ainda assim era um idiota em relacionamentos.

“Comecei pensando em como agiríamos um com o outro a partir de agora. Tentei imaginar a gente como um casal e percebi que nunca seremos um casal aceitável. Vamos ter de viver nos escondendo, mentindo, fugindo... Comecei a imaginar o que os outros diriam da gente.” Mordi o lábio, me sentindo estúpido. “É idiotice minha.”

“Não é.” Dimitri passou a mão por meus cabelos molhados. O toque era tão confortador como sempre havia sido, talvez mais. Havia um carinho mais sincero e aberto agora, nenhum medo de demonstrar a verdade de seus sentimentos. Tudo era mais intenso e palpável. “Acha que também não penso nisso? Não queria te fazer passar por nenhuma situação de preconceito, não queria que tivesse de se esconder. Quando disse que me sentia errado, disse por causa disso; porque ao jogar meus desejos para cima de ti, e se você os aceitasse, teria de passar por coisas que jamais passaria caso encontrasse uma garota legal, se casasse, tivesse filhos, tudo que a sociedade e a família esperam. É o curso natural da vida das pessoas.”

“Foda-se a sociedade e a família, porque eu nunca seria plenamente feliz se seguisse as regras delas. Você me ensinou isso quando assumiu sua orientação sexual e não teve medo das represálias.” Respirei fundo, com vários ‘foda-se’ ecoando da minha cabeça para fortificar o pensamento. Claro que não seria por isso que eu achava que o caminho era nos assumirmos para o mundo. Dimitri sempre fora reservado em relação à sua sexualidade, agora nós só precisávamos ser reservados em relação a nós dois. “Só estou pensando demais.”

“Sempre me fale quando estiver pensando demais...” Dimitri sussurrou começando a beijar meu pescoço, seus lábios deslizando facilmente já que a água caía sobre nós. Meu corpo de acendeu de imediato, mesmo que eu ainda quisesse umas boas horas de sono já que ainda me sentia bastante cansado. “Eu quis isso por tanto tempo...” Dimi murmurou extasiado, tocando todo meu corpo sem parecer nada saciado pelos momentos mais cedo.

“Você parece um viciado.” Afirmei revirando os olhos e me afastei, com um sorriso maldoso. Comecei a passar um sabonete pelo corpo de Dimitri, ignorando sua ereção já bastante proeminente. Ele tentou avançar para me agarrar, mas o impedi e comecei a esfregar a mão ensaboada em seu pênis, sentindo-o pulsar. Por ainda ser recente, ainda que não achasse estranho, minhas bochechas formigaram pela minha ousadia em sair agarrando o pênis do meu irmão no meio do banho. Dimitri, porém, me puxou e beijou antes que eu ficasse envergonhado por estar envergonhado.

Parei de tocá-lo bem antes que ele pudesse gozar e o empurrei contra a parede. Dimitri não ofereceu resistência, parecia curioso com o que eu iria fazer e satisfeito por eu estar tomando uma atitude sem que ele pedisse nada. Meus lábios desceram por toda a extensão do pescoço dele até o tórax, onde chupei um de seus mamilos antes de continuar descendo, enquanto minhas mãos acariciavam suas coxas. Me coloquei de joelhos e ergui os olhos ao segurar o pênis dele e lamber-lhe a glande.

Eu não tinha experiência alguma com aquilo, não havia chupado o Viktor antes porque não havia sentido vontade e ele também nunca pedira. Mas eu não precisava que Dimitri pedisse, queria fazer aquilo nele, queria dar prazer para ele de todas as formas, era quase uma necessidade própria. Eu comecei hesitante, mas o simples fato de preencher minha boca com a ereção do Dimitri pareceu o suficiente para que ele alcançasse um patamar elevado de regozijo. Isso me encheu de confiança para continuar com mais empolgação, querendo arrancar dele as mais diversas expressões de prazer.

Quando Dimitri gozou, eu acabei me assustando com o gosto súbito e diferente em minha boca. Não engoli tudo, apesar de não achar nojento. Ainda olhei meio deslumbrado para o membro dele, pensando que havia causado aquilo com minha boca. Tudo com Dimitri parecia tão diferente... Percebi que sempre havia desejado causar boas sensações nele. Claro que não imaginava que também conseguiria dessa forma quando era criança, ou até recentemente. Mas tudo que eu causava nele, parecia refletir-se em dobro em mim.

Senti uma carícia em meu rosto e sorri, erguendo-me para beijá-lo.

“Eu ainda estou com medo de acordar e descobrir que tudo isso não passa de mais um dos meus sonhos...” Ele murmurou em meio ao beijo molhado, já que havíamos voltado para baixo da água morna e agradável do chuveiro.

Meu irmão também era terrivelmente romântico, percebi.

“Me conte algum dos teus sonhos.” Ronronei preguiçoso, ficando na ponta dos pés e me esfregando nele já que também havia conseguido uma ereção. “Um que tenha tido de nós dois no chuveiro, e vamos transformá-lo em realidade. Vamos transformar tudo que pudermos em realidade, e aí nenhum dos teus sonhos vão parecer mais sonhos, e você não vai ter mais medo de acordar...” Sussurrei ao pé do ouvido de Dimitri, fechando os olhos para impedir que a água caísse neles. Dimitri ergueu uma de minhas coxas, fazendo-a contornar sua cintura.

Seu olhar parecia brasa ardendo na escuridão de seus orbes negros.

“Vamos começar comigo te penetrando com os dedos, e você implorando desesperadamente por mais, enquanto geme meu nome.” Dimitri sugeriu malicioso, causando-me um estremecimento de excitação e um leve constrangimento. Os dedos dele escorregaram para dentro de mim, e eu gemi, apertando seus ombros.

“Pervertido...!” Proclamei tendo de abafar mais um gemido assim que falei, o ar escapando de meus pulmões enquanto jogava minha cabeça para trás, batendo-a no azulejo da parede, e Dimitri atacava sem dó meu pescoço.

XxX

“Então... Quem é esse amigo que você comentou, que te ajudou a entender que eu estava traumatizado?” Olhei para Dimitri esperando por uma resposta, meus antebraços sobre a ilha da cozinha enquanto eu esperava por uma resposta.

Dimitri preparava o café da manhã que para mim se resumia a iogurte natural com farelo de aveia e frutas, e pão com manteiga e frios para ele. Percebi que seria mais mimado do que o normal, já que até descascar o mamão e as maçãs e cortá-los minuciosamente meu irmão estava fazendo. Não reclamei, estava mesmo acostumado a que fizessem essas coisas por mim, fosse Lydia ou a empregada Isabel.

“Ele sabe sobre nós...?” Complementei a pergunta, em um tom de apreensão. Para mim bastava que Fernanda soubesse, mais pessoas com o conhecimento disso me assustava.

“Você talvez lembre dele, se chama Afonso, foi meu amigo durante toda a época de escola.” Dimitri informou, colocando um prato com as frutas picadas na minha frente. Eu derramei a colher com a aveia, sujando um pouco do balcão ao errar o copo. Arregalei os olhos ao recordar parcialmente da imagem de um garoto de cabelos cacheados e sorriso simpático.

“O quê...? Mas, ele foi pra Alemanha, não foi? Eu lembro de você com um humor estranho por causa da partida dele...” Falei, confuso. Ia levantar para pegar um pano e limpar a sujeira, mas Dimitri fez isso por mim. Tinha um sorriso amarelo no rosto ao perguntar:

“Acha que era por causa disso que meu humor estava ruim?” Seu tom dava a entender que não esperava uma resposta à sua indagação. Dimitri sentou-se e começou a montar seu sanduíche, não parecendo muito contente com a ideia de relembrar o passado. “Eu estava daquele jeito porque recém havia percebido meus sentimentos por ti, então, antes de Afonso partisse, desabafei sobre isso com ele. Se ele achasse nojento e me julgasse, já estava indo embora e dificilmente nos veríamos de novo, achei que era uma boa ideia arriscar.”

Fiquei atônito com aquilo. Como Dimitri tivera coragem de simplesmente desabafar sobre isso com alguém logo que havia entendido o que sentia? Afonso poderia ser o amigo dele de muitos anos, mas Jady também era minha amiga há séculos e nem por isso eu conseguia me imaginar contando nada a ela. Fiquei mesmo impressionado, olhando admirado para Dimitri e sua coragem.

“E o que ele disse?!?” Perguntei curioso. “Ele aceitou assim tão fácil? Quero dizer, ele obviamente aceitou já que vocês mantêm contato até hoje, mas-“

“Num primeiro momento foi difícil para ele, porém ele não me julgou e disse para que eu também não me julgasse. Alguns meses depois ele já aceitava isso plenamente, dizendo que amor é amor e todas as formas de amor tem seu valor e não podem ser depreciadas levianamente, coisas assim. Foi bom tê-lo para desabafar ao longo dos anos.” Dimitri mordeu o sanduíche, pensativo. “Foi ele quem me aconselhou a sair de casa.”

“Oh, posso odiá-lo?” Perguntei, debochado. Dimitri não achou graça, balançou de leve a cabeça e engoliu, parecendo ainda mais desconfortável antes de voltar a falar. Eu ergui uma sobrancelha.

“Eu te masturbei quando você tinha treze anos.” Dimitri abaixou a cabeça, extremamente culpado com o que acabara de confessar. Eu quase derrubei meu copo de iogurte. Isso não fazia o mínimo sentido, como eu não lembraria de algo assim?

“Quê!?” Exclamei espantando. “C-Como assim?”

“Nunca imaginei que iria te contar isso... Mas é algo que ainda me faz sentir culpado, mesmo depois de cinco anos.” Dimitri largou o sanduíche no prato, e o café em sua xícara pareceu liberar um vapor mais denso e esbranquiçado, carregando o ambiente. “Você quis dormir na minha cama e teve um sonho molhado. Quando começou a se esfregar em mim, eu não resisti. Fiquei tão culpado que mandei um email pro Afonso, e ele me aconselhou a sair de casa. Eu concordei que era o mais correto a fazer. Me desculpe...”

Eu o continuei o encarando perplexo, não acreditando que Dimitri – o meu Dimitri – teria feito algo assim, tão proibido, tocado meu corpo sem eu nem ao menos ter consciência disso e, ainda, ter escondido isso de mim por cinco anos. Simplesmente não parecia algo que ele faria, e me perguntei até que ponto eu o conhecia realmente, o quanto de si ele não havia escondido de mim por considerar ser uma parte censurável de seu ser.

Eu queria tudo de Dimitri, queria saber cada detalhe, cada nuance, cada fio da teia que formava sua personalidade. Era isso que eu confabulava quando ele se ergueu e contornou a ilha, me alcançando e me virando no banquinho alto, segurando meus ombros. Minha expressão e silêncio devem tê-lo deixado ansioso.

“Diego, por favor, me perdoa. Foi um erro feio, eu sei, mas tentei remediá-lo o melhor que pude.” Dimitri apoiou um cotovelo sobre o balcão e segurou sua testa, desolado. “Merda, eu sou um idiota descontrolado...”

Dimitri era sempre tão sério e – aparentemente – comedido, que eu acabei rindo de seu desespero com uma risada que saiu mais pelo nariz do que pela boca. Dimitri voltou toda a atenção para mim, parecendo mais surpreso do que eu há alguns segundos.

“Você está rindo?” Perguntou, incrédulo. Eu continuei sorrindo zombeteiro e enlacei sua cintura com as pernas, trazendo-o para perto de mim. Eu já estava me sentindo um safado desde que o chupei no chuveiro, e um pouquinho mais não faria problema, então enchi minhas mãos com a bunda dele ao falar:

“Você deveria ter feito isso comigo acordado! Eu teria gostado bem mais!” Garanti e não me aguentei, comecei uma crise de riso, porque a expressão de quem não acreditava no que ouvia do meu irmão era hilária. Era legal deixá-lo sem palavras, já que ele sempre parecia ter alguma na ponta da língua.

“Você é mesmo...” Dimi começou dizendo, mas pareceu não encontrar palavra pra me definir, no lugar disso me agarrou e beijou, acabando de imediato com meu riso.

Eu não saberia definir o beijo dele, e talvez por isso eu precisasse beijá-lo pelo resto de minha vida, inúmeras vezes ao dia, para quem sabe em algum momento encontrar as palavras perfeitas para descrevê-lo. Dimitri me beijava de uma maneira que me fazia sentir a mais desejada das pessoas, suas mãos me apertavam com força, afundavam em minha carne e amavam cada pedacinho de mim. Sua língua barrava raciocínios profundos, e tudo que me restava era a paixão do momento, de me agarrar a ele e não querer soltar nunca mais.

A mão dele me apertou entre as pernas e eu gemi, perdendo o ritmo do beijo por um instante. Meu sangue se transformou em lava, era quase como estar drogado com algum paradisíaco, exigindo atenção até a última fibra do corpo. Mas eu estava novamente dolorido lá atrás, morto de fome e ainda um pouco cansado porque, durante o banho, eu e Dimitri nos empolgamos e fizemos amor de novo. Ficamos tanto tempo embaixo do chuveiro que eu suspeitava que a conta de água dele não fosse ser das mais agradáveis ao bolso naquele mês.

“Dimi, espera... Vamos comer alguma coisa primeiro.” Pedi fracamente. Meu corpo pedia exatamente ao contrário, a exceção do meu estômago bastardo que não parava de roncar. Dimitri ainda beijou meu pescoço, usando a língua na região de uma maneira que me causou arrepios tão fortes que me encolhi para longe dele, como se fugisse, apesar de querer mais.

“Estava fazendo o que você pediu.” Dimitri informou, como um bom samaritano. Eu voltei a rir e neguei com a cabeça, ficando sério, mesmo que ficar sério não tivesse um grande efeito quando eu estava sem camisa, descabelado e com uma ereção entre as pernas.

“Não. Eu quero que faça isso exatamente como fez quando eu tinha treze anos. Quero uma cena igual, nos mínimos detalhes. Não acredito que fui masturbado e nem ao menos acordei.” Falei, abismado com meu sono de treze anos. Eu era uma máquina de dormir – e sonhar com safadezas, aparentemente.

“Então coma e vamos voltar para cama. Vou te mostrar com todos os detalhes.” Dimitri murmurou rouco contra minha orelha, excitando-me mais, e eu notei que minhas mãos haviam voltado para a bunda dele. Bem, eu também gostava de bundas, tinha esse direito, e a de Dimitri não era nada mal.

Eu relutantemente comecei a mordiscar as frutas e tomei meu iogurte com aveia. Meus treinos provavelmente melhorariam bastante dali em diante já que não teria mais os pensamentos pesados sobre culpa, erros e saudades me atormentando. Eu conseguira ganhar um torneio menor naqueles cinco meses, mas ainda não estava treinando realmente bem. Esperava que isso mudasse, pois não havia desistido de ganhar o pan-americano e a liga mundial de novo e, depois, a olimpíada. Mais do que nunca queria orgulhar meu irmão.

“Tenho de me encontrar com o Viktor hoje.” Anunciei olhando por cima do ombro. Estava difícil de nos desgrudarmos, então Dimitri me puxara para o meio de suas pernas no banquinho ao lado do que eu estivera sentado. Uma sombra pareceu cair sobre o rosto de Dimitri e eu mordi o lábio. “Ontem ele me pediu para vê-lo. Eu disse que não podia, mas fiquei preocupado, a voz dele não era das melhores...”

Viktor já havia me ligado várias vezes dizendo que precisava me ver e no fim era apenas carência. Eu achava que era de novo, mas também me preocupava deixá-lo sem nenhuma resposta. Não era seguro confiar em reações racionais da parte do Viktor. Por mais que eu houvesse me afeiçoado a ele de uma forma diferente, como se quisesse protegê-lo do mundo e dar todo o carinho que ele nunca havia recebido, havia partes obscuras nele que eu desconhecia. Ele nunca mais me agredira como quando me atacou com um canivete, mas às vezes seu humor parecia percorrer uma corda fina e bamba, sobre dinamites.

“Você sabe que eu não confio nesse garoto, e, desculpe, Diego, mas é impossível não sentir ciúmes quando você e ele já se relacionaram fisicamente antes...” Dimitri estreitou os braços ao redor da minha cintura, aspirando o cheiro da minha nuca e me causando um friozinho bom na boca do estômago.

“Eu quero me encontrar com ele justamente para deixar claro que teremos de ser apenas amigos convencionais a partir de agora. Acho que vou contar a ele sobre nós dois... Por algum motivo acho que ele tem direito de saber.” Comentei, em dúvida.

“Isso é perigoso. Ele pode ficar irritado e ir contar tudo para a Lydia, ou até para os jornais. Querendo ou não, você tem alguma fama por ser campeão do judô em praticamente tudo que participou desde os treze anos. E a mídia adora histórias sensacionalistas... Isso poderia prejudicar tua carreira no esporte.”

“É verdade, mas... Eu confio no Viktor. Ou melhor, ao menos não acredito que ele faria algo dessa magnitude para me prejudicar. Tentar me bater, me xingar, ser agressivo num primeiro momento, sim, mas não algo assim.” Garanti com certeza, apesar de temer o julgamento dele. Não tinha certeza sobre o que deveria fazer.

Suspirei, descansando minha cabeça no ombro do Dimi.

“Vou deixar essa passar, faça o que achar melhor, apesar de eu achar que, quanto menos gente souber, melhor.” Dimitri comentou, contrafeito. “Afonso me ligou antes que você acordasse. Ele veio passar as férias no Brasil dessa vez, está querendo se encontrar comigo..."

Uma de minhas sobrancelhas se ergueu, e uma dúvida cutucou minha mente ao escutar aquilo. Dimitri agia estranhamente condescendente por eu ir encontrar meu ex-ficante e depois soltava que iria encontrar Afonso, como se eu fosse sentir ciúmes de seu amigo mas, como estávamos quites, eu teria de aceitar também a ideia.

“Afonso é gay? Você teve algo com ele?” Perguntei me virando para Dimitri, minha testa franzida.

“Sim para as duas perguntas.” Dimitri admitiu resignado. “Ele foi meu namorado durante parte do ensino médio.”

Acho que fiquei mais perplexo com isso, do que com ter sido masturbado sem saber. E dessa vez minha reação não foi das melhores. Me afastei de Dimitri, me dirigindo para fora da cozinha. Fiquei puto por ele nunca ter me contado nada e me achando um idiota por não desconfiar de nada em todas as vezes em que ele saía de casa dizendo que iria se encontrar com Afonso. Me senti traído e isso não fazia merda nenhuma de sentido, já que não tínhamos absolutamente nada naquela época.

Dimitri me alcançou na sala, abraçando-me por trás e me impedindo de fugir.

“Diego,” Era ele agora que segurava a risada, tentando ainda manter-se sério. “Você está com ciúmes de algo que aconteceu há mais de cinco anos atrás? Quando eu namorei com ele, eu nem havia ainda percebido a maneira como realmente te amo...” Dimitri soltou aquele seu tom sensual na minha orelha, um completo golpe baixo que me amoleceu, mas eu ainda estava irritado. Céus, eu era tão ciumento quanto Dimitri! Eu sempre fui ciumento com todo mundo, mas não a esse ponto.

“Não me contou nada.” Murmurei manhoso, com uma tromba se formando involuntariamente em meus lábios. “E se ele quiser relembrar o passado com você?”

“Isso não vai acontecer, Diego. Ele sabe o quanto eu quero só você...” Dimitri afastou os cabelos de minha nuca e a beijou. Eu estava precisando de um corte de cabelo, percebi. Ele me carregou com ele para o sofá e me fez sentar em seu colo, mas eu continuava emburrado. Dimitri sorria de uma forma charmosa, parecendo adorar meu ciúme, e isso me deixou mais contrariado ainda.

“Você fica tão bonitinho com ciúmes e emburradinho, me lembra de quando era mais novo e fazia manha pra tudo.” Dimitri mordiscou minha orelha, sua voz baixa e carregada com doses de diversão e carinho. Isso só me deu vontade de ficar ainda mais carrancudo.

“Não fico.” Murmurei teimosamente. “Eu vou querer conhecer melhor esse Afonso depois, ver se ele não tem mesmo nenhuma intenção pra cima de ti.”

“Sem problemas. Ele iria gostar de te conhecer, e também ficará feliz em saber que estamos juntos. Vai ser uma surpresa pra ele também, eu acho. Ou não... Às vezes ele parecia falar nas entrelinhas que acabaríamos mesmo juntos.” Dimitri comentou, acariciando minha coxa e cintura. Eu me acomodei melhor a ele, descansando minha bochecha contra seu peito, me sentindo como uma criança sentado de lado em seu colo, um pouco encolhido, mas não me importei, afinal, era meu irmão.

Apenas soltei um resmungo para as palavras de Dimitri, apesar de gostar da ideia de que ao menos alguém no mundo – além de nós dois – fosse ficar feliz com a nossa união, e mudei de assunto.

“Se lembra quando fizemos aquela viagem até a chácara do tio Renato, há dois anos atrás?” Perguntei, rememorando aquele passeio num dezembro de férias. Havíamos ido apenas nós dois, Dimitri dirigindo, obviamente.

“Aquela viagem em que faltou gasolina no meio do caminho porque erramos a rota, andamos 100km na direção errada, e tivemos de voltar mais 100 até encontrar o caminho certo?” Dimitri riu com a lembrança. Definitivamente havia sido uma viagem em que tudo dera errado. Eu havia ficado puto da cara com Dimitri por ele ter errado o caminho, já que eu sempre ficava enjoado e com dor de cabeça em viagens de carro muito longas. “E que você depois tentou pechinchar cinco litros de gasolina com o cara do quiosque pelo caminho.”

“Ele estava cobrando vinte reais por aquilo!” Me defendi como daquela vez.

“É, mas se ele se irritasse por você estar pechinchando e não quisesse mais vender, nós estaríamos ferrados, sem gasolina no meio do nada, há 7Okm do posto mais próximo!” Dimitri me letrou praticamente idêntico como da outra vez. Dei de ombros, esse não era o ponto de eu ter me lembrado da viagem.

“Você transou com o filho da nova mulher do Renato?” Fui direto ao ponto. Dimitri ficou em silêncio por alguns instantes, e isso foi o suficiente para que eu deduzisse a resposta. “Você transou! Seu canalha!”

“Por que está pensando nisso? Você também ficou com a filha do caseiro!”

“Então pra se vingar você foi transar com aquele idiota?” Perguntei. O garoto era insuportável, ao menos na minha concepção; todo engomadinho e perfeitinho, e eu odiara a maneira com que se jogara pra cima de Dimitri. Também era loiro, mas tinha os olhos castanhos e era um nanico perto de mim, imagine perto do Dimitri, e isso que eu tinha quinze anos, e o garoto, Tales, tinha dezenove.

“Não foi isso!” Dimitri se defendeu, mas seus ombros murcharam e ele admitiu. “Talvez em parte... Eu fiquei louco de ciúmes de te ver com aquela garota e descontei no Tales, já que ele parecia bastante disposto...”

“Sem detalhes sórdidos, por favor.” Suspirei, me afastando um pouco e passando a mão por meus cabelos e depois pela lateral de meu rosto. “A questão é que eu já fiquei me mordendo de ciúmes de ti naquela semana e sempre fingi que não sentia ciúmes algum... Eu achava que era até normal, muitos irmãos sentem ciúmes de seus irmãos, mas agora estou vendo tudo sob uma nova ótica.”

Dimitri alargou os lábios num sorriso e seus braços me envolveram apertado pela cintura.

“Eu devia mesmo ter te masturbado com você acordado, não é?” Ele brincou e mordeu meu pescoço. Resmunguei qualquer coisa e o xinguei quando se ergueu me levando junto, na típica posição de noiva nos braços de seu recém adquirido marido. Meus xingamentos não convenceram nem a mim e até gostei de ser carregado daquela forma, era engraçado.

Dimitri me levou pro quarto e acabamos voltando a nos redescobrir minuciosamente na cama – a começar por ele me mostrando como havia me tocado há cinco anos, narrando tudo próximo do meu ouvido, deixando-me delirante de tesão. Aproveitamos aquela manhã ensolarada, como ele havia previsto, feito o casal apaixonado e recém-formado que éramos.

E teríamos passado o dia inteiro daquela forma, aproveitando cada momento perdidos um no outro. Contudo, se demorássemos demais, Lydia poderia até vir ao apartamento do Dimitri já que não a avisamos nada e nossos celulares estavam desligados. Quando peguei o meu, havia dezenas de chamadas perdidas dela, de Fernanda e do Viktor.

Suspirei, sabendo que era hora de enfrentar o mundo lá fora.

Notas finais
Nhom, que amores eles. ♥ Será que meu lado safado falou mais alto nesse capítulo? Será? Será? UHAUAAHUIA
.
Obrigada a todos que comentaram cap. passado: Bruna Uzumaki, Alice, Dark lace, Nora Norran, Vilma Drumond, Nath, Guima, Thamy, Nanda Chan, Lucca James, konichiwaclara, Gracisillva, Mary, Lilian Hummel, Nutella. ♥
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Segunda minhas aulas voltam, mas tentarei escrever os próximos caps. ainda rapidinho! Beijos! ♥