A Cor Da Chuva

19 Capítulo 18


Notas iniciais
Obrigada ao Alberto e Yaoi Boy pelas recomendações! Paixão demais esses meninos. ♥

Fui encontrar Viktor no bosque que havia no parque onde costumávamos passear. Dentro do bosque havia a pista de skate, patins e bicicleta, rodeada por árvores e uma grama verde intensa, e também uma pequena clareira que ninguém parecia conhecer além de nós dois. Caminhei pela passarela que me levaria até lá, atravessando o lago onde havíamos caído no outro dia. Isso me fez sorrir involuntariamente, mas foi preciso apenas mais alguns passos para que meu sorriso murchasse e sumisse.

Vi Viktor sentado sob o ipê de flores amarelas da clareira, e sua expressão derrotada e abatida de imediato me preocupou. Poucas vezes havia visto aquela expressão nele – Viktor a maior parte do tempo fingia que estava bem, forçando sorrisos, mesmo que eu já houvesse lhe dito para sorrir apenas quando sentisse vontade de verdade de mostrar os dentes. Em resposta ele rosnara para mim com os dentes à mostra e nós dois rimos antes de nos beijar.

Beijar... Havíamos desenvolvido essa ‘mania’ como uma forma de carinho entre nós, porém agora eu não poderia beijá-lo para confortá-lo com o que quer que o incomodasse.

Me sentei ao lado dele que já notara minha presença e me esperava em silêncio.

“Desculpe por ontem. Eu mal te escutei ao celular.” Admiti num sussurro. Estava tão na pressa de ir à formatura que não havia percebido que não era simplesmente carência dessa vez. “O que houve?”

Toquei os fios ruivos do Viktor, incentivando-o a falar se quisesse. Os olhos dele estavam inchados, avermelhados, dando a entender que havia chorado boa parte da noite, também tinha olheiras bem marcadas. Seus cabelos estavam desarrumados, também precisando de um corte, mas a cor continuava bonita, alaranjado e chamativo como sempre. Lembrei que não gostava da cor antes, mas agora não conseguia imaginá-lo sem ser dessa forma.

“Minha avó... Ela descobriu que eu sou gay.” Viktor murmurou num fio de voz, apertando os olhos em seguida, talvez para não deixar outras lágrimas caírem. Eu fiquei impressionado, pois não sabia que a avó dele não sabia, uma vez que eu e ele já havíamos transado quando ela estava na casa, dormindo. Fiquei quieto, deixando-o desabafar. “Ela sempre desconfiou, é claro. É extremamente preconceituosa e tem uma língua ferina, feita para ferir. Adorava falar mal de homossexuais, negros e até japoneses quando tinha oportunidade, parecendo querer me alfinetar e desafiar com os comentários. Qualquer coisa que saia do que ela considera ‘normal’ é motivo de troça, de nojo.”

“Eu pensava que vocês dois se davam bem. Ela até te deu o carro...” Lembrei de uma conversa distante nossa, em que ele falava de sua avó. Eu havia suposto o completo errado. Viktor balançou a cabeça, negando.

“Ela não o usava mais, então me deu. Quando recebi, ele estava em frangalhos, não andaria duas quadras. Fiquei meses tentando consertá-lo, pois não queria gastar tanto num mecânico. Trabalhei um tempo como assistente de um mecânico para aprender e durante esse tempo fui consertando o que havia de errado no carro e melhorei sua aparência. É uma das poucas coisas de que me orgulho, deu um trabalho danado, mas consegui deixá-lo com cara de semi-novo, em vez de semi-destruído.” Viktor encolheu os ombros, abraçando mais as pernas, quando dei uma risada. Um sorriso pequeno e tímido brotou em seus lábios, para logo morrer.

“Alguém tem alguns talentos escondidos.” Sugeri, passando mais a mão por seu cabelo, tirando-o da testa. Viktor adorava carinho nos cabelos, era algo que ele às vezes me pedia para fazer quando estávamos em momentos preguiçosos.

“Pode me abraçar enquanto eu conto o resto?” Ele pediu, segurando meu pulso, e seus olhos castanhos olharam de uma maneira órfão para mim, temendo uma negativa. Eu assenti e me sentei apoiado contra o tronco da árvore, puxando-o em seguida para descansar as costas contra meu peito. Dimitri não ficaria nada satisfeito ao nos ver assim, mas Viktor precisava de aconchego, então o estreitei nos meus braços.

“Continue...” Sussurrei. “Como ela descobriu?”

“Um ex-ficante. Eu... Tive uma breve relação com um garoto há uns dois anos. Eu não sei o que deu nele, mas ficou bêbado e apareceu lá em casa na manhã de ontem, em vez de ir pra própria casa. Ele mora bem perto da casa da minha avó...” Viktor suspirou, descansando a cabeça em meu ombro, fechando os olhos enquanto uma brisa com cheiro de eucaliptos movia os fios de nossos cabelos, jogando-os contra nossos rostos. “Ele falou um monte de coisas, disse que me queria de volta, umas bobagens assim. Estranhamente foi ele quem terminou tudo, dizendo que não me aguentava mais, que eu era um louco sem solução.” As mãos de Viktor apertaram meus antebraços, e eu lhe beijei o pescoço para acalmá-lo. “E é ele que aparece dizendo estar com saudades. Um completo idiota mesmo, só ferrou comigo. Ele sabia que minha avó não podia saber de nada. Sabe... Eu só te levava pra minha casa porque ela estava sempre dormindo naquele horário, ela toma remédios pesados para dormir a maior parte do tempo, Lisete odeia viver. Desde que minha mãe foi pra prisão, ela só quer saber de dormir.”

Eu me mantive calado, deixando Viktor retomar a coragem para continuar. Ele precisava desabafar, e eu estava ali para ouvir. Apenas o abracei mais forte.

“Quando ela ouviu a gritaria do Bruno, logo entendeu tudo e o expulsou a vassouradas de casa.” Viktor riu disso, uma risada seca. “Depois veio pra cima de mim com a maldita vassoura. Tentava me espancar e batia com toda a força que tinha, me xingava de coisas terríveis, de sujo, de filho do meu pai. Xingou até a própria filha de drogada e puta, e disse que eu era o resultado podre e promíscuo daquela união. Eu deveria ter simplesmente fugido dela, mas de novo começou e... Eu... Eu fiquei assustado e magoado... De certa forma sentia que ela era toda a família que me restava e...” A voz do Viktor começou a falhar, o peito dando pequenos saltos de quem segura soluços. Até eu comecei a me sentir mal com aquilo, com raiva da avó dele.

“Você pode me contar o que aconteceu.” Sussurrei no ouvido dele, alcançando sua mão e a segurando com força. “Você sabe que não vou te julgar.”

Viktor balançou de leve a cabeça, fungando.

“Eu a empurrei... Segurei a vassoura pela ponta e a empurrei contra ela. Ela caiu e... Gritou com tanta dor. Eu tomei um susto pelo que havia feito, não era minha intenção, eu juro, eu não queria machucá-la de verdade, eu só-“

“Eu sei.” Garanti. Não era culpa do Viktor não saber lidar com situações difíceis e agressivas, e retribuir o que o agredia com violência. Mesmo assim, achei que o psiquiatra dele não estava sendo realmente efetivo em ajudá-lo a superar esse problema.

“Ela tem osteoporose. Quebrou o quadril ao cair no chão. Está no hospital agora...” Viktor murmurou, tremendo, assustado. “Um quadril quebrado não seria nada para um jovem, mas... Ela também está com anemia e muito fraca, apesar de eu nunca tê-la visto tão fraca antes. Ela fica dizendo aos médicos que quer morrer, que não quer continuar num mundo onde a filha é uma drogada assassina, e o neto é um puto problemático. Ela gritou isso durante quase toda a noite, ignorando minha presença. Em algum momento não aguentei e saí de lá, e nisso ela gritou que eu estava proibido de voltar pra casa dela. O pior é desejar que ela morra mesmo, já que odeia tanto tudo isso.”

Depois disso Viktor caiu no choro. Sua angústia e dor eram tão fortes que me atingiram como se fossem minhas – era como uma flecha que entra pelas costas e atravessa o peito, a ponta afiada surgindo discreta e vermelha na frente, depois de transpassar o coração. Eu o abracei ainda mais firme, voltando a acariciar seus cabelos, murmurando palavras vazias de que ‘iria ficar tudo bem’, ou que não era culpa dele.

Viktor se virou dentro do meu abraço e procurou meus lábios. Sua boca estava salgada e havia um amargor triste em seu beijo. Não consegui me negar a beijá-lo quando ele estava tão quebrado, mesmo que beijá-lo fosse quebrando um pouquinho de mim por estar traindo a confiança do Dimitri. Eu não sabia o que fazer, me senti dividido entre os dois. Viktor precisava de alguém e não havia ninguém além de mim no momento, não havia ninguém na vida dele. Mas Dimitri também precisava de mim, assim como eu precisava dele. Mas como eu poderia viver comigo mesmo renegando Viktor e causando-lhe mais dor? Isso também acabaria comigo e, de certa forma, eu também precisava dele. Eu precisava dele feliz, precisava dele sorrindo.

Viktor se virou completamente para mim e aprofundou o beijo, buscando afundar todas as suas dores naquele contato, uma fuga da realidade enquanto segurava com força meu rosto e me pedia em gestos por socorro, e eu o beijava de volta com meus braços em torno de sua cintura. Uma parte de mim sufocava lentamente em meio ao beijo, a outra puxava Viktor para fazê-lo parar de chorar. Era uma sensação terrível, uma dicotomia que lacerava meu peito. Viktor estreitou mais o contato, sem se importar por estarmos no meio de um parque.

“Diego, eu preciso...” Murmurou, com certo desespero, abrindo o botão de minha calça e tornando o contato menos confortador, mas mais urgente, instintivo, de uma necessidade carnal. Eu fiquei estático por um momento, meu coração entrando em um ritmo que poderia levá-lo facilmente à falência por esforço exagerado. Senti Viktor me tocar, e senti que o tocava também, minhas mãos tremendo e agindo por vontade própria, mais lentas que as dele.

Por um lado vi Viktor chorando, terminando de quebrar se o rejeitasse. De outro, a maneira magoada e igualmente quebrada de Dimitri ao nos encarar, como se estivesse a poucos passos de distância, nos encarando e esperando por minha atitude. Egoísta. Egoísta. Você quer os dois, você quer o sorriso de ambos, mas você tem que escolher. Escolher qual deles irá salvar, e qual deles irá te salvar, qual deles é o mais importante, mesmo que não se possa medir as formas de amar, mesmo que sejam duas coisas tão completamente diferentes, mas ambas especiais a sua maneira.

“Viktor, eu não posso... EU NÃO POSSO!” Eu o empurrei num arroubo de energia e culpa, já que ele não parecia me escutar. Me arrependi no mesmo momento, arregalando os olhos. Viktor caíra sentado e sua expressão era de puro espanto, tristeza, rejeição. Alguém que se considerava lixo, sendo colocado fora, tendo suas suspeitas confirmadas. “Não, Viktor, por favor, não é isso...”

“Eu sabia.” Ele murmurou, sua voz livre dos soluços, mas seu rosto transfigurado numa careta dolorida de choro, os olhos transbordando como uma correnteza. “Eu não mereço o amor de ninguém. Nunca terei isso, ninguém. Você está certo, eu sou alguém que nunca deveria ter nascido, um estorvo... Você não pode sentir algo por mim.”

“Eu sinto algo por você.” Garanti, tentando me aproximar, mas Viktor deu-me um tapa no rosto, me fazendo parar no mesmo instante. Senti que merecia aquilo, por tê-lo iludido durante cinco meses, o usado mesmo que ele permitisse. Eu deveria ter dito que ele valia mais, muito mais do que eu merecia e que jamais deveria se deixar usar por ninguém.

Era o que eu deveria ter-lhe tentado ensinar no lugar de me aproveitar de sua carência e amizade.

“Viktor...”

“Não chegue perto! Não chegue perto e me toque se no momento seguinte vai me empurrar e rejeitar!” Disse irritado, passando as mãos pelo rosto para afastar as lágrimas. “Eu te amei por três anos! Mesmo antes de você ganhar o mundial, eu admirava o teu sorriso, a forma de você agir com as pessoas, admirava teu jeito despreocupado mas centrado, a tua dedicação ao judô. Eu te idealizei tanto, mas esse foi meu erro. Você é como todos os outros!” Viktor se levantou, e eu fiz o mesmo, sem saber o que dizer, meu queixo um pouco caído. “Por que faz isso? Você não tem ninguém, ficou comigo por esses cinco meses, me deu esperanças... Eu achei... Eu achei que em algum momento ficaríamos juntos, quando você superasse aquela noite, achei que eu poderia te ajudar como você me ajudou, mas...”

“Você não entende.” Balancei a cabeça, sentindo minha bochecha latejar onde ele me estapeara. “Você é especial para mim, eu te amaria da forma que você quer e precisa. Mas... Eu tenho alguém.” A expressão de Viktor tornou-se tão chocada, de quem recebia uma estaca no coração, que eu mesmo me senti derramar lágrimas. Tentei me aproximar de novo, mesmo com a chance de levar outro tapa, mas ele se afastou vários passos.

“Quem é?” Ele perguntou, seco. “QUEM? Quem é a pessoa que você tanto ama que não esteve contigo nesses cinco meses? Que não te mandou um recado, não conversou com você nenhuma vez? Eu esperei tanto tempo até que você me notasse, Diego, e esperei cinco meses até você poder dizer que queria ficar comigo...”

“Ele esperou bem mais. Ele esperou toda uma vida. Nós nos amamos mesmo antes de percebermos isso...” Sussurrei sem pensar, sem conseguir me conter, querendo defender Dimitri, pois havia sido eu quem o afastara. Viktor ficou em silêncio por vários segundos, nós dois nos encarando enquanto ele ligava os pontos.

“É seu irmão.” Ele disse de repente, com uma certeza sólida. “ É seu irmão! Ele te ama... Eu... Achei que era só da parte dele, mas você também...”

“Viktor-“

“Eu sabia...” Viktor pareceu falar consigo mesmo, de uma maneira meio maníaca e distante que me deixou apreensivo. “Desde o início notei que você parecia preso a outro sentimento. Nesses cinco meses eu conseguia sentir essa barreira entre a gente. Achei que estava sendo paranóico como sempre, já que você me alimentava com migalhas de um amor que já pertencia a outro, e eu...”

“Viktor...” Comecei a chorar mais, meu rosto também se torcendo, os olhos se apertando, a testa franzindo, meus lábios escorrendo para baixo, na típica expressão de tristeza. Me senti miserável. “Eu queria... Queria que você fosse feliz. Você disse que eu estava te salvando, que-“

“Você estava. Você me deu momentos que ninguém mais deu, você demonstrou coisas por mim que eu nunca havia experimentado. Mas quando eu não tinha nada era mais fácil de suportar, porque continuaria achando que não teria nada, eu poderia viver com isso, era o que eu achava que merecia. Mas acho que não há nada que doa demais do que uma esperança despedaçada.” Viktor desviou o olhar, apertando as mãos ao lado do corpo. “Nossa forma estranha de amizade acaba aqui. Não tem por que continuarmos assim, eu não quero que você me carregue nos ombros por pena e não quero sentir ciúmes de você, ou por você ter uma família que te ama tanto que sua relação com teu irmão chega a esse nível de amor.”

Viktor se virou e começou a se afastar; a forma como caminhava fez-me pensar que nunca mais o veria, que o havia perdido e todo os momentos que passamos juntos estavam sendo jogados ao mar como pó. Estava tão acostumado com suas ligações, com seus dramas, com seu jeito enxerido, seus abraços carentes e seus cabelos laranja. A sensação de perdê-lo me causou um enjoo forte, como meu estômago quisesse vomitar, mas não conseguisse. Não aguentei vê-lo ir embora assim, com tantas ideias erradas na cabeça. Ele está mesmo errado? Avancei até ele e lhe segurei o braço, virando-o de volta para mim.

Éramos dois idiotas chorando no meio de um parque, numa clareira perdida no centro da cidade.

“Não tem que ser assim, Viktor. Como você vai ficar sem mim?” Hesitei por apenas um segundo, traria de volta a esperança, mas era mais forte que eu. A ideia de que algo de muito ruim aconteceria se acabasse daquela forma atormentou minha mente, como um zumbido de mosquito muito próximo do ouvido. “E como eu vou ficar sem você?”

“Eu vivi quase dezenove anos da minha vida sem você, Diego.” Ele disse, puxando o braço. “E você tem o seu irmão, é assim que você ficará.”

“Não, mas... É diferente, Viktor. Por que nem ao menos posso continuar ao seu lado para te confortar? Por que não posso continuar te salvando?” Você simplesmente não entende o quanto também se tornou parte da minha vida, e o quanto eu te quero bem. Por que precisava ser tudo tão complicado, se podíamos simplificar? Tudo ecoava em minha cabeça, mas não dei voz a todos os pensamentos. Viktor soltou o ar para boca, um certo ar de desprezo e cansaço.

“Você não pode ter os dois. Não pode ter tudo. Sou tão egoísta quanto você e por isso iria pouco a pouco te consumir e deteriorar a relação entre você e teu irmão. Mesmo eu sei que não se pode ter tudo. Sei disso há muito tempo, na verdade, só me enganei nesses últimos meses.”

Dessa vez Viktor partiu, sumindo por trás das árvores. Eu não sabia o que ele faria, pra onde iria. Um buraco nasceu e se expandiu no meu peito, onde ele estivera, e nem mesmo Dimitri poderia preencher aquilo, porque eram formas de amar e se preocupar completamente diferentes. Eu torci para que ele ficasse bem, que não tomasse nenhuma atitude impensada, que eu pudesse vê-lo no judô, mesmo que ele não olhasse mais para mim como antes. E segui também para minha casa, para acalmar o coração de minha mãe e quem sabe dizer a ela e à Fernanda que as amava, porque não se pode perder a chance de dizer coisas assim quando ainda existe a oportunidade.

Eu perco o sono e choro

Sei que quase desespero

Mas não sei por quê

A noite é muito longa,

Eu sou capaz de certas coisas

Que eu não quis fazer...

XxX

“Você está bem?” Dimitri me perguntou ao celular, enquanto eu seguia a pé pra casa, já que o parque não era muito distante.

“Estou. Eu conversei com ele e... Bem, você não tem mais que se preocupar com o Viktor, ele não quer mais me olhar na cara.” Garanti, não conseguindo esconder minha chateação com aquilo.

“Você não parece feliz com isso.” Ele notou, é óbvio que notaria. “Estou indo pra casa da Lydia também, em menos de cinco minutos chego aí. Acho que precisamos falar juntos que você irá se mudar pro meu apartamento, mas não acho que a desculpa que pensamos irá convencê-la. Qualquer coisa, deixamos para anunciar tua decisão em outro dia.”

“Ok. Eu também acho, precisamos de uma desculpa melhor do que eu também querer um pouco mais independência, porque senão iria morar sozinho... Eu não sei mesmo que desculpar dar.”

Eu dobrei a esquina de casa, tentando pensar em alguma coisa plausível pra dizer à nossa mãe, mas me calei e meu queixo caiu. O que caiu em seguida foi o celular, escorregando de minha mão. Não me importei. Comecei a correr em direção à minha casa, pois não poderia ser normal inúmeras viaturas e uma ambulância paradas na frente dela. Policiais armados cercavam a residência.

Cheguei ofegante e abordei o primeiro homem fardado que encontrei. Era um homem enorme, que parecia ter uns dois metros de altura.

“O que está acontecendo?!?” Praticamente gritei.

“Quem é você?” O homem perguntou, me empurrando pelo peito para que eu ficasse mais para trás.

“Eu moro ali! Minha mãe e irmã devem estar ali dentro!” Gritei desesperado, odiando o fato de ser sábado, pois certamente as duas estariam na casa. Não sabia o que estava acontecendo, o desespero me tomou por completo e me agarrei ao braço do policial, impedindo-o de me afastar dali.

“Sua mãe e irmã estão lá dentro, reféns de um rapaz que se identificou como ex-namorado da sua irmã. O guarda-costas que protegia sua irmã conseguiu nos acionar, mas o rapaz o matou em seguida. Não sei como um jovem drogado conseguiu matar um homem treinado...”

Eu dei um passo para trás, em completo choque. Achei que sabia quem era o ex-namorado, Nanda havia comentado dele, desprezando as ameaças e perseguição, e até achando que um guarda-costas era exagero da parte de Lydia. Wallace fora o filho da puta que afundara Fernanda junto com ele nas drogas mais pesadas, e agora não se conformava com a recuperação dela; já fazia mais de um ano que ele vinha tentando encontrar em contato com ela e retomar a ‘relação’.

“Eu tenho que ir até lá.” Murmurei e tentei avançar por entre os policiais, mas em algum momento fui detido. “Vocês não entendem! Minha mãe e irmã estão lá dentro! Eu tenho de protegê-las!”

“Garoto, você vai acabar se matando!” Um deles falou. “Fique atrás de nós. Estamos esperando o momento certo para invadirmos a casa.”

“Não, não! Seus inúteis, vão deixá-las morrer se continuarem esperando!” Me debati, parecendo um animal incontrolável, e naquele momento me sentia exatamente assim. Era desesperador demais a ideia de que minha mãe e irmã estariam agora ajoelhadas na sala, com uma arma apontada para suas cabeças. Que um simples movimento de um dedo num gatilho poderia arrancar a vida de qualquer uma delas. Eu não podia permitir isso, não podia... Havia visto na televisão há pouco tempo um caso parecido em que a polícia idiota e cautelosa esperou demais e o assassinato aconteceu.

“Diego!” Eu me virei às cegas ao escutar a voz do meu irmão. Logo sentia seus braços ao meu redor, apertando-me com força, seus lábios pressionando minha testa, porém nem isso ajudou a me acalmar.

“Eu não quero perder mais ninguém. Por favor... Isso não é justo. Me deixe ir até lá.” Implorei, puxando a camisa em suas costas. Dimitri me negou, mantendo-me firme contra ele. Aos poucos retomei o controle, mas ainda tremia terrivelmente. Dimitri me carregou para fora do caminho dos policiais, e ouvi os homens dando ordem para entrar na casa.

Eu olhei para nossa casa, me apertando mais a Dimitri, uma premonição agonizante como a de busca por oxigênio quando se afoga. E ela se concretizou quando houve um tiro antes que os homens invadissem a casa. Os segundos pareceram se tornar milésimos, aquele tiro ecoava em minha mente, e outro foi disparado. Me desvencilhei de Dimitri e corri me desviando de todos. Dimitri gritou e me seguiu e, quando entrei em casa, tudo era uma confusão, Wallace recebera um tiro e agora os policiais o seguravam, mas o que me congelou foi a imagem de Fernanda caída ao chão da sala, sobre o tapete onde ela costumava se espreguiçar quando mais nova – quando meu pai ainda era vivo – para ver filmes e desenhos junto comigo.

Minha mãe gritava e berrava, uma dor que apenas uma mãe poderia compreender e sentir, ajoelhada ao lado dela, mantendo a cabeça dela sobre seu colo. No outro momento, eu caía de joelhos ao lado do corpo de minha irmã, e era difícil vê-la com minha visão borrada, tantas lágrimas me impedindo de ver seu rosto uma última vez. Havia um buraco de onde brotava sangue bem no centro de seu estômago, e sangue também escorria de sua boca.

Ela olhou para mim, sem conseguir dizer nada. Eu tinha certeza de que balbuciava o nome dela, mas não conseguia me ouvir, não conseguia ouvir nada, era como nos filmes em que só o visual importava, e naquele momento tudo que eu conseguia perceber era que minha irmã – que já sofrera tanto, que eu já havia desejado que sumisse algumas vezes, mas de quem senti muito orgulho nos últimos meses, de quem dependi para me escutar várias noites, alguém que aceitou a mim e ao Dimitri – vomitava sangue ao tentar falar. Era assustador, era a imagem mais assustadora que já havia visto.

Medo.

Medo de perdê-la resumia meus sentimentos.

Dimitri de repente também estava ao meu lado, sua expressão de quem não acreditava no que via. Seus olhos também formaram lágrimas e, vê-lo chorando, logo Dimitri, minha muralha, me deu a certeza de que estava novamente perdendo alguém. Eu quis gritar, mas não consegui, e o grito pareceu explodir dentro de mim. Olhei novamente para Fernanda, sentindo sua mão fraca buscar a minha.

Ela pegou minha mão e a levou até a de Dimitri, apertando-as juntas num último esforço.

“Juntos...” Eu achei ter escutado o sussurro fraco e sofrido vindo de seus lábios, ou talvez tenha imaginado isso quando ela os moveu fracamente. Seus olhos molhados terminaram de nos contar suas últimas palavras.

Fiquem juntos, acima de tudo e de todos, fiquem juntos. Porque eu não vou poder mais estar aqui para defendê-los.

Perdão por tudo. Eu amo vocês.

“Eu te amo.” Toquei seu rosto e achei ter me despedido, usando-me de minha última oportunidade, mas continuava sem escutar nada, surdo até para mim mesmo. Os paramédicos chegaram e nos afastaram, colocando-a numa maca. Minha mãe os seguiu, parecendo gritar algo, mas não sei o que dizia, pelo que implorava, apenas tinha uma ideia, pois eu implorava internamente pelo mesmo.

Continuei ajoelhado, meus olhos perdidos em algum ponto da sala, e conseguia sentir a mão de Dimitri bem apertada à minha.

Doía.

Fernanda morreu no caminho ao hospital.

...

Será que alguma coisa,

Nisso tudo, faz sentido?

A vida é sempre um risco,

Eu tenho medo do perigo.

Lágrimas e chuva

Molham o vidro da janela

Mas ninguém me vê

O mundo é muito injusto

Eu dou plantão nos meus problemas

Que eu quero esquecer

Será que existe alguém

Ou algum motivo importante

Que justifique a vida

Ou pelo menos este instante...

– Kid Abelha, Lágrimas e Chuva.

Notas finais
Er... Sem comentários. Triste aqui. Obrigada a quem vem comentando, love you guys. ♥