A Cor Da Chuva

23 Capítulo 22


Eu pensei estar alucinando.

Abri os olhos, mas não ergui a cabeça, fitando a grama abaixo de mim e sentindo de imediato meu peito iniciar uma sinfonia amplificada de batuques desordenados. Aquela voz era inconfundível e me arrepiava como nenhuma outra faria; porém eu poderia estar imaginando, confundindo a voz de outro pela dele, simplesmente porque eu queria tanto que o Dimitri estivesse comigo.

“Você não vai olhar para mim?”

Tomei coragem e ergui meu rosto, mantendo minhas esperanças controladas para caso não fosse aquilo que eu esperava, para que a queda não me machucasse mais do que eu já me encontrava machucado. Mas, imediatamente, o ar me faltou e nenhuma imagem poderia se comparar àquela.

Meus ouvidos não haviam me enganado, e resolvi acreditar em meus olhos porque eles me mostravam tudo que eu queria ver. Dimitri parecia ainda mais bonito do que eu me lembrava – seus traços maduros, a barba curta por fazer no rosto de queixo forte e um sorriso suave ao me olhar com seus orbes escuros que estavam límpidos como cristais, deixando-me, talvez pela primeira vez, entender tudo que havia por trás deles.

“Dimi...” Murmurei estarrecido. “Como...? Como você...?”

“Eu sei, não tenho mais teu celular no GPS... Eu estou te seguindo desde que você saiu dos alojamentos.” Ele confessou, colocando as mãos no bolso, pouco orgulhoso disso. “Não tive coragem de me aproximar até agora. Estava com medo... Eu sei que estive ausente durante muito tempo.” Notei as olheiras sob seus olhos, denotando certo cansaço, como se não dormisse há muitos dias.

Continuei estático no banco, sem conseguir mover uma fibra de meu corpo. Isso está mesmo acontecendo? Senti vontade de me beliscar, mas isso seria muito ridículo. Poderia ficar por horas apenas o encarando, sem acreditar, sentindo todos os astros do céu girando em minha cabeça e me deixando zonzo, sem chão; porém os segundos me pareceram essenciais demais para serem perdidos com minha incredulidade, então forcei meus músculos a me levantarem do banco e rapidamente acabei com o espaço entre nós dois.

O mais natural seria beijá-lo, meus lábios já queimavam com a saudade daquele toque, mas antes que meus pensamentos parassem de rodopiar, eu já havia socado Dimitri em cheio, fazendo-o cair na grama segurando a mandíbula. Minha mão latejou de dor assim como meu peito pela raiva guardada por vários meses. Dimitri havia me ‘evitado’ desde nossa despedida, como uma espécie de punição por eu ter me mudado junto com nossa mãe.

“Desgraçado! Só não um filho da puta porque temos a mesma mãe!” Falei meio trêmulo, em parte ainda chocado com aquela aparição. Meus punhos estremeceram. “Por que você simplesmente sumiu por todo esse tempo?! O que você esteve fazendo?”

Fodendo o Alexandre até agora?! Completei em pensamentos, transbordando de raiva com a ideia. Eu mal havia abraçado alguém naquele tempo, não querendo de forma alguma traí-lo e também não sentindo qualquer desejo sexual nem mesmo pela mais bonita das garotas. Pensar que ele não havia feito o mesmo me deixava com a sensação de que ácido havia sido jogado sobre minha pele.

“Ficou do lado do Alexandre esse tempo todo?” Perguntei, não aguentando meu despeito.

Dimitri me olhou atrapalhado, sem palavras. Quando abriu a boca, para tentar alguma explicação apressada, eu caí em cima dele, abraçando-o com todo meu peso. Ficamos caídos na grama sombreada por algumas árvores, e meu peso o impedia de se mover muito. Não demorou e eu comecei a chorar, como um garotinho perdido que reencontra seu guardião depois de horas na rua, passando por lugares desconhecidos e assustadores. Soluços arrebentaram da ferida que eu vinha cultivando nos últimos meses, e era como sangrar abertamente e extravasar todos aqueles sentimentos dolorosos.

Dimitri me abraçou com força em retorno, e foi então que percebi que não era nenhum delírio. Era o cheiro dele, de seu perfume masculino e inebriante; era o calor dele, seus braços ao redor de minha cintura e o formato tão conhecido de seu peito largo. Era tudo nele, um vício que eu demorei a reconhecer como meu, mas que agora eu jamais superaria, por mais que tentasse.

E eu não queria tentar. Queria me afogar nele, respirar suas palavras, me inebriar em suas mãos, beber de seus beijos. Eu queria tudo. Eu queria que nunca mais nos separássemos, e se para isso eu tivesse de deixar todo o resto do mundo para trás, eu não me importaria. Mais de um ano de separação me ensinara isso.

“Me perdoa.” Ele sussurrou no meu ouvido. “Eu queria ter aparecido antes, mas tantas coisas aconteceram que eu nem sei por onde começar. Independente disso, eu não toquei no Alexandre mais nenhuma vez. Eu juro.” Ele garantiu entendendo a dúvida que me corria e me abraçando forte, parecendo me envolver e proteger como se fosse duas vezes meu tamanho. “Eu senti tantas saudades, Diego.”

Eu ergui o rosto para olhá-lo, sentindo as lágrimas escorrerem pelo canto de meus olhos. Eu não sabia explicar como havia aguentado tanto tempo longe dele, pois só agora as coisas pareciam ter readquirido algum sentido. Toquei seu queixo e percebi o filete de sangue em seu lábio pelo meu soco.

“Droga!” Exclamei, consternado, odiando-me por aquilo. “Eu não deveria ter te socado... Agora não posso te beijar.” Sussurrei, abaixando a cabeça e escondendo no peito dele minha expressão culpada e chateada. Apertei seu casaco com força, não tentando falar mais nada ou poderia acabar voltando a chorar. Ficamos um pouco em silêncio, apenas nos segurando um ao outro, usando-nos de âncora e enchendo o ar com nossas respirações agitadas.

“Diego...” Dimitri chamou depois de algum tempo, mas não consegui responder, mesmo que minha garganta latejasse com mil coisas para dizer a ele. “Eu pensei em você em todos esses dias.” Ele murmurou rouco contra meu ouvido e nos girou sobre a grama, ficando sobre mim sem me soltar do abraço. “Agora me conte, por que não poderia me beijar?” Sorriu com a pergunta – um sorriso genuíno e leve como eu não via desde a noite após minha formatura.

O encarei sem compreender, estranhando aquilo. Ele mais do que ninguém deveria saber que, mesmo que as chances fossem baixas, eu poderia me contaminar também com HIV ao entrar em contato com o pouco de sangue em seu lábio.

“Porque você... Tem HIV, Dimitri.” Sugeri com cuidado, sabendo que era um tópico difícil, principalmente porque ele nunca queria falar sobre aquilo. Dimitri riu e acariciou meus cabelos, olhando-me de uma maneira apaixonada e intensa que me esquentou o rosto e pescoço.

“Você sabe... Quando o primeiro teste pro HIV dá positivo, é necessário fazer um segundo teste mais específico porque há chances de o primeiro dar falso-positivo.” Ele explicou lentamente, deixando que eu absorvesse bem a informação. “Eu me senti tão derrotado quando deu que eu era portador do HIV que demorei meses para realizar o segundo teste. Mas quando a coragem veio eu fiz o segundo teste e...”

Meu coração disparou mais do que eu poderia lembrar, não aguentando de expectativa. Dimitri propositalmente me deixou esperando por alguns segundos antes de dar prosseguimento à sua narrativa. Eu o segurei com mais força, gritando em minha mente para que ele falasse o que eu esperava, desejando de maneira tão intensa que chegava a sufocar.

“Deu negativo.” Ele declarou.

“O quê?!” Exclamei, pasmo. Uma erupção de felicidade quis me arrebentar em centenas de pedaços. Mas não durou muito, pois logo veio a indignação por ele não ter me contado nada no momento em que descobriu. “E você me deixou acreditando que tinha HIV!? Tem noção de toda a minha preocupação? Cheguei a achar que não me falava nada sobre isso porque havia piorado!”

“Eu quis fazer mais uns testes ainda. Todos deram negativo, e só então eu finalmente consegui acreditar que estava livre daquela maldição.” Ele riu e apoiou a testa na minha. Minha expressão continuava num misto indefinido de emoções – alegria, indignação, alívio, satisfação. “Eu queria contar logo, mas queria que fosse pessoalmente...”

“Droga, Dimitri, você merecia outro soco.” Eu falei, dando um fraco em seu braço. Minha mão ficou em seu bíceps, que apertei forte. Com a outra mão, passei os dedos pelo sangue em seu lábio inferior. Eu voltei a chorar, agora mais forte, porém de pura alegria e alívio. Me sentia uma criança chorona, pior do que meus novos irmãos pirralhos, mas era impossível controlar toda a enxurrada de contentamento que eu sentia. Dimitri era completamente saudável, ele nunca teria complicações por causa daquela doença, sua vida não seria difícil, marcada por tratamentos ininterruptos.

Eu nunca poderia explicar exatamente tudo que se passava por mim, porque seria como tentar explicar a história do mundo em um minuto.

“Eu te amo, Dimi. Te amo... Você não deveria ter se afastado, eu não deveria ter te deixado.” Nos repreendi. “Ainda não acredito que você está aqui, e com uma notícia tão boa... Será possível que as coisas vão começar a dar certo então?”

“Eu espero que sim, porque, definitivamente, isso de ficarmos separados acaba por aqui.” Dimitri anunciou, ficando sério. Sua mão escorregou para minha nuca, e ele me puxou para mais perto de seus lábios. “Cansei de ser altruísta, na próxima te jogo nas minhas costas e fujo com você pra bem longe.”

Um arrepio se alastrou para meus braços e nuca, descendo rasgante pela linha da minha coluna. Movi minhas pernas, sentindo Dimitri bem acomodado entre elas, e meu corpo acordou rapidamente para toda aquela proximidade gostosa. Meus dedos continuavam sobre os lábios dele, único impedimento entre nossos rostos.

Porém nós estávamos em público e já havíamos nos ferrado antes por ter justamente nos beijado onde qualquer poderia ver. Dessa vez estávamos em Londres, numa área do parque onde poucas pessoas passavam, ainda mais num dia de semana, mas eu nunca mais iria arriscar o perigo de ter-nos de nos afastar novamente.

“Eu devia ter ficado com você, nós perdemos tanto tempo.” Sussurrei arrependido, sentindo a respiração dele sobre meu rosto, quente, vibrante. Um desejo sufocante de sentir sua boca, o gosto de sua saliva e a textura de sua língua me encheu os pulmões quando puxei o ar. Eu poderia fazer amor com ele ali, sobre a grama, caso pudéssemos congelar o resto do mundo por algum tempo.

“Teria sido muito egoísmo da nossa parte. Se você não tivesse concordado com a Lydia, ela não teria ido e agora não estaria casada, feliz, com novos filhos. Ela teve uma chance pra recomeçar. Agora é a nossa vez. Juntos, lembra? Como a Nanda nos pediu...” Dimitri murmurou e segurou meu pulso, tirando meus dedos do caminho.

“Dimi... Dimi...! Aqui não... É melhor irmos pra algum lugar fechado.” Pedi já ofegante, me remexendo ao sentir os lábios dele roçarem nos meus, rememorando a primeira vez em que isso havia acontecido. Ou segunda, já que na primeira eu estava bêbado demais para lembrar.

“Eu te amo. Eu quero fazer amor com você, nesse momento.” Dimitri sussurrou com um timbre grave, e todo meu corpo estremeceu ao sentir seus lábios indo para meu pescoço, sua barba roçando na minha pele causando um pouco de cócegas.

“Não podemos transar num parque.” Eu consegui encontrar forças para empurrá-lo e me sentei na grama. Levantar seria um problema já que meu pênis estava apertado contra minha calça. “Eu acho que há um motel aqui por perto...”

“O hotel onde estou hospedado não é muito longe. Vamos!” Dimitri decidiu e se levantou, segurando meu braço e me erguendo junto.

“Você quer me levar pra cama sem antes me contar o que andou fazendo em todos esses meses?” Perguntei com uma sobrancelha erguida, na brincadeira, porém também curioso para entender tudo que acontecera com meu irmão.

“Eu conto tudo depois. Por enquanto só consigo me concentrar na tua boca, teus olhos, teu corpo todo...” Dimitri sorriu de uma maneira maliciosa e quente, me puxando com firmeza contra ele e apertando rudemente minha cintura. Eu arfei pela maneira com que ele me segurou e mandei minha curiosidade para o espaço.

“Então vamos logo.” Determinei.

XxX

Quando saí do banheiro da suíte do hotel em que Dimitri se hospedara, de banho recém tomado, os cabelos molhados escorrendo água por minhas costas, vi Dimitri próximo à janela, observando o céu. Inacreditavelmente, estava chovendo. Antes o céu estava apenas com algumas nuvens escurecidas, mas não havia previsão de chuva. Agora os pingos batiam no vidro da janela, vigorosos, numa chuva de verão.

“Está sempre chovendo...” Murmurei, o que atraiu a atenção de meu irmão. Ele se virou e sorriu, olhando-me de tal forma que senti um rubor subir por meu pescoço. Ele estendeu a mão para mim, com um sorriso.

“Vem cá.” Pediu de uma maneira irrecusável.

Eu me aproximei dele e, assim que lhe segurei a mão, ele me puxou para seus braços, me abraçando por trás. Nós dois ficamos de frente para a janela, podendo ver em detalhes a força da natureza agindo no céu, num espetáculo enegrecido e feroz. Eu me senti calmo e relaxado como há tempos não me sentia, apoiado contra o corpo do Dimitri, afagando seus braços que me cercavam. Suspirei satisfeito, arrepiado por estar apenas como uma toalha enrolada na cintura e ter a respiração de meu irmão acariciando minha nuca.

“Choveu em todos os momentos mais marcantes entre nós... Quando eu percebi o que sentia por ti, num dos treinos de judô. Quando abusei de você sem você saber...” Dimitri parou por um segundo. Eu sabia que ele sempre se sentiria um pouco culpado ao se lembrar daquilo. “Quando você deixou escapar seus sentimentos na Euromast. Até quando quase te beijei na Elevação o clima estava feio.”

“Quando nós transamos a primeira vez, quando você se confessou e na noite da minha formatura. Quando nos despedimos, e agora.” Completei, conseguindo rememorar até o som do vento em cada dia, as cores do céu, os estragos da chuva; seu som que passava de melodioso, para agitado e agressivo em questão de segundos.

“Sim...” Dimitri sussurrou em meu ouvido, gerando em mim um arrepio que eu conhecia bem, mas que agora parecia ainda mais forte. “Cada vez mais me convenço de que ela é nossa cúmplice. Ela simboliza nosso elo, isso que sentimos que os outros acham errado, mas que para nós faz todo sentido. Enquanto a chuva cai, as pessoas estão mais preocupadas com elas próprias, fugindo da chuva, escondidas dentro de casa. Nesses momentos estamos livres dos julgamentos sociais, nosso dito ‘pecado’ é lavado e nos mantemos encobertos pela cor dela.”

Eu ri de leve, experimentando aquela sensação de quando tudo parece fazer sentido, e nos sentimos mais leves, podendo apreciar cada detalhe ao nosso redor, sem medo de abrir bem os olhos e encarar até o que há de ruim a poucos passos de distância, pois há força para superar todos os problemas. Deixei minha cabeça se apoiar no ombro de Dimitri, e os lábios dele roçaram por meu pescoço exposto enquanto me abraçava ainda mais forte.

“Você parece ter pensado muito sobre isso...” Murmurei de olhos fechados, ainda com um sorriso, e pude sentir que ele também sorria contra minha pele.

“Em todos os momentos que choveram nesses últimos 18 meses, eu só conseguia pensar em nós dois juntos num futuro próximo. Afonso me disse várias vezes que não é saudável viver de projetar nossa vida, esperando que somente o futuro nos traga alguma felicidade, mas durante esse tempo, isso foi tudo que eu fiz. Só conseguia pensar no momento em que iria te reencontrar, Diego. Só conseguia pensar nesse exato instante em que estaria te abraçando, era só por isso que passei por cima de todos os problemas e me fingi de forte, mesmo que eu sentisse vontade de chorar com o céu sempre que ele me lembrava do quanto eu preciso de você.” Dimitri disse, angustiado, e seus lábios voltaram para minha nuca, lambendo de minha pele as gostas de água que escorriam dos cabelos.

“Dimitri...” Gemi, tocado por sua confissão. Novamente senti vontade de chorar, culpado por ter chegado a pensar que ele havia desistido e simplesmente decidido viver feliz para sempre com o Alexandre. Eu achava que não tinha como amar mais do que aquilo, mas Dimitri sempre me surpreendia tornando meus sentimentos mais fortes.

Ele tirou a toalha de minha cintura, deixando-a cair aos meus pés. Sua mão me acariciou habilmente, deixando-me com as pernas bambas. Espalmei uma de minhas mãos no vidro, vendo um trovão sacudir os ares e encobrir minha voz ofegante.

“Dimi...” Virei meu rosto de lado e nossos lábios se encontraram.

A boca do Dimitri estava com um gosto doce de menta, e me perguntei se ele teria chupado alguma bala enquanto eu tomava banho. Eu girei dentro do abraço dele, segurando com ambas as mãos sua nuca para trazê-lo para mais perto de mim. Nossa diferença de altura diminuíra um pouco, mas eu atingira meu limite, de modo que ele ainda precisava se inclinar para frente, puxando-me pelo quadril até que eu ficasse na ponta dos pés. Minhas costas foram pressionadas contra o vidro gelado e eu arfei pelo contato, sentindo a vibração dos pingos de chuva atravessando a janela e estremecendo meu corpo.

“Prometa que não vamos mais nos separar.” Eu pedi ofegante, segurando o rosto dele. “Eu vou me mudar de volta e-“

“Não.” Dimitri me interrompeu. “Eu já comprei um apartamento perto da casa da mãe e do Chico. Dois, na verdade, um do lado do outro no mesmo andar. Eles têm uma porta de ligação, mas ninguém precisa saber disso além de nós dois. Também fechei a Elevação e já aluguei um lugar para abrir uma nova boate. Se o lugar for bom mesmo, irei comprá-lo.” Dimitri abriu um sorriso largo quando eu arregalei os olhos, surpreso por ele já ter tudo preparado. “Organizei tudo para ficarmos juntos...”

“Eu acho que mais do que nunca, estou adorando como você sempre tem tudo sob controle.” Sussurrei sorrindo e voltei a beijá-lo. Desci minhas mãos e apressadamente empurrei o casaco dele de seus ombros, puxando-o para baixo e jogando no chão. Não era justo que apenas eu estivesse sem roupas. Meus dedos tremiam de antecipação ao começar a abrir os botões da camisa social dele, aos poucos expondo seu peitoral definido e abdômen musculoso pelo qual passei a mão quando a camisa estava aberta.

“Diego...” Dimitri sussurrou grave rente à minha boca. Ele baixou um pouco o olhar, admirando meu corpo com intensidade, deixando-me constrangido pela forma com que fazia isso, seus olhos negros parecendo absorver os raios que caíam lá fora. “Você ficou ainda mais bonito nesses últimos meses...” Anunciou seriamente, acariciando minha cintura e coxa. Eu abri a boca para retrucar alguma coisa, não sabia o quê, já que constrangido eu poderia falar qualquer besteira, mas Dimitri voltou a me beijar antes que eu tivesse tempo, num ritmo ainda mais alucinado, praticamente me deixando sem reação, me dominando inteiro.

Ofeguei baixo quando as mãos dele escorregaram para a parte de trás das minhas coxas e me ergueram pelos glúteos, me pressionando mais contra a janela. Minhas pernas se apertaram ao redor da cintura dele e senti espasmos prazerosos com a fricção do meu pênis com seu abdômen. Não sabia como Dimitri tinha força para me segurar tão facilmente, eu não era nem baixo, nem tão leve assim, mas isso não parecia dificultar em nada a maneira com que me sustentava, usando apenas um braço enquanto a outra mão segurava minha mandíbula, mantendo-me cativo de seu beijo.

Em certo momento eu arranquei a camisa aberta do corpo dele e o abracei, sentindo seu corpo ferver contra o meu.

“Dimi, vamos pra cama...” Pedi ansioso, querendo poder senti-lo de mais formas. Dimitri atendeu prontamente meu pedido, desencostando-me da janela e me carregando até a cama. Assim que estava sentado na beira dela, com Dimitri em pé à minha frente, tirei o cinto dele e abri sua calça. O pênis enrijecido formava um desenho bem marcado e viril por trás da cueca. Aproximei meu rosto e o envolvi com os lábios ainda por cima do tecido, umedecendo-o com minha saliva. A mão de Dimitri parou em meus cabelos e ele sussurrou meu nome, de uma forma que me incentiva a continuar.

Continuei até cansar e querer sentir diretamente a pele quente e rígida em minha língua. O livrei da cueca também e olhei para cima quando lhe segurei o pênis, vendo a expectativa nos olhos dele. Era bom poder ver que eu ainda causava aquilo no Dimitri, ter a prova física que todos os meus medos eram infundados. Sem desviar o olhar do negro de seus orbes, coloquei o que pude na boca, me esforçando para deixá-lo ainda mais excitado. Dimitri acariciava meu rosto, meus cabelos. Eu gostava de como ele conseguia ser carinhoso, intenso e em alguns momentos até rude durante o sexo. Meu sangue borbulhava na mesma expectativa com que ele me observava, sem perder nenhum de meus movimentos.

“Já está bom.” Dimitri falou após algum tempo, me afastando pelos ombros. Me deitou e suas mãos passaram pela extensão de meus braços, erguendo-os para cima até que nossas mãos se entrelaçassem e nossos lábios se reencontrassem, sôfregos. Dimitri me empurrou para o meio da cama e eu abri as pernas, com meus joelhos um pouco dobrados. Gemi com o contato de nossas ereções e a fricção de nossas peles, num sintonia perfeita.

Senti falta das mãos de Dimitri nas minhas quando ele as soltou, mas minha atenção fugiu disso ao senti-lo acariciando meu corpo enquanto seus lábios desciam, beijando-me o tórax, mordendo meu mamilo e contornando meu umbigo com a língua; tudo com uma atenção e dedicação exageradas, que me deixavam sem forças para qualquer coisa além de me render inteiro, arquear meu corpo, buscar por mais de sua boca e mãos. Não quero que isso termine nunca.

Dimitri continuou sua exploração por todo meu corpo. Não consegui me controlar tão bem quanto ele e gozei depois de tanto estímulo, me agarrando ao lençol da cama como se fosse cair em um buraco negro.

“Não é justo...” Murmurei, fazendo-o rir, e me virei de costas quando ele pediu, mesmo que meus braços tremessem pelo orgasmo. Já murmurava o nome dele antes mesmo que segurasse meus glúteos um com cada mão e os afastasse, deslizando a língua por entre eles. “Dimi... Você... Meu deus...” Murmurei sem nenhuma coerência, gemendo fracamente com minha testa contra o colchão. Aquilo era tão bom que eu poderia enlouquecer. “Fazia tempo que eu não sentia isso...”

Ele continuou até que eu não conseguisse separar gemidos de respiração, articulando-os toda vez que soltava o ar. Dimitri parou quando sentiu que eu já estava relaxado até demais, caído sobre a cama como se recém houvesse tido a mais cansativa das lutas de judô, esmagado pela intensidade daquilo depois de tanto tempo me privando de qualquer prazer daquela espécie.

“É minha culpa, por deixar um adolescente cheio de hormônios sem isso por tanto tempo.” Dimitri sussurrou quando se posicionou atrás de mim, mordendo-me o ombro, que se encolheu involuntariamente. “Mas vou compensar a tua espera...” Ele alcançou algo sob um dos travesseiros e, logo, eu sentia seus dedos lambuzados de lubrificante me penetrando. Dimitri de imediato pressionou minha próstata, não me dando tempo para sentir qualquer desconforto.

Praticamente gritei pelo prazer repentino.

“Eu senti tanto a sua falta...” Murmurei com dificuldade.

Deitamos em conchinha na cama, e eu dobrei minha perna para frente para dar mais ‘acesso’ aos seus toques, deixando-o me preparar com os dedos enquanto me beijava o ombro e pescoço, a bochecha e minha boca com beijos rápidos, porque minha respiração faltava a cada novo segundo. “Estava com tanto medo que você não me quisesse mais.”

“Que besteira, Diego. Eu te quero há anos, e sempre vou querer. Confie em mim.” Pediu com a boca contra minha orelha, num sussurro rouco, e pressionou mais forte minha próstata, deixando-me zonzo e mais ofegante.

“Eu confio!” Garanti numa exclamação que veio junto com uma onda de prazer e estremeci, desejando que nos uníssemos sem mais demoras. Peguei o lubrificante e o abri, pedindo a ele que estendesse a mão. Dimitri tirou os dedos de dentro de mim, obedecendo-me, e depois passou o gel em sua ereção. “Só vá com calma.” Lembrei-o.

Dimitri riu e me beijou o pescoço.

“Tudo que você quiser, amor.” Ele disse, num tom leve. Ouvi-lo me chamar de amor me constrangeu novamente; não me lembrava de ele ter me chamado assim, ainda mais daquela forma, como se tudo estivesse novamente nos eixos e não houvesse mais nenhuma preocupação.

E, percebi, era exatamente assim. Eu queria me acostumar e ser chamado assim, e queria chamá-lo por apelidos bobos também, como qualquer casal apaixonado fazia nos momentos de intimidade. Gemi junto com Dimitri quando ele começou a me penetrar lentamente, me abraçando apertado pela cintura e cuidando ao máximo para não me machucar.

“Vamos fazer isso tantas vezes e tão seguido que eu vou parar de sentir tanta dor no início.” Eu determinei, de olhos apertados, segurando com toda minha força o antebraço dele enquanto ele me masturbava para me distrair da dor.

“Eu acho uma ideia ótima.” Ele garantiu e roçou a boca em minha orelha. “Está doendo muito?”

“Pode... Pode continuar.” Falei ofegante e gemi novamente quando ele forçou um pouco mais a entrada, ainda não inteiramente dentro.

“Eu sou sádico por achar sua expressão sofrida sexy?” Ele perguntou malicioso contra minha orelha. Não consegui responder, apenas mordi o lábio com mais força quando ele me puxou e colocou tudo dentro. “Você é perfeito...”

“Não sou.” Arfei de imediato, com não só o rosto, mas o corpo todo em chamas. “Mas eu sou perfeito pra você, e você é perfeito pra mim. E por isso laços de sangue não importam... Por mais que nos façam acreditar que importam, simplesmente não importam...” Disse, convicto, mesmo que minha voz falhasse pela respiração agitada.

“Eu te amo.” Murmurei, virando o rosto para ele. Dimitri me encarou por um momento, nossos olhares conectados. Palavras se tornaram obsoletas, nós podíamos falar tudo que queríamos através de nossos corpos, numa linguagem que apenas nós dois conhecíamos, que é única para cada uma das almas gêmeas que se encontram no mundo – algumas distantes, outras nascidas tão próximas, como era o nosso caso.

“Eu também te amo, Diego.” Dimitri sussurrou, antes de erguer a minha perna e se afundar mais em mim, junto com um beijo que me calou nossos gemidos sincronizados.

O som da chuva era o mais melodioso de todos, como se nos homenageasse com suas notas mais suaves. Não era nem uma tempestade que destrói ferozmente, nem um sol forte que queima e cega, machucando. Era um equilíbrio perfeito, um encontro entre céu e inferno, um tempo sem medo de seus ponteiros. Assim era entre eu e Dimitri, enquanto nos tocávamos de todas as formas, explorávamos um ao outro, trocávamos de posição e sorríamos para nosso espetáculo particular.

Juntos. Fê havia dito. Sim, juntos.

Para sempre.

Notas finais
PODEM ME AMAR AGORA! ♥.Quero falar então algumas coisas sobre HIV com vocês. Primeiro, é bem difícil pegá-lo com apenas uma relação sexual com alguém infectado. No sexo anal, as chances aumentam, mas ainda assim não é tão fácil, mas quanto mais se faz, maiores as chances. Mesmo assim, sempre usem camisinha! O teste pra HIV é um dos mais específicos e sensíveis que existem, mas o primeiro teste é realmente menos efetivo que o segundo, e as chances de dar falso-positivo aumentam com alguns fatores, entre eles gripe. Não contei pra ninguém, mas Dimitri tava com vírus da gripe no corpo quando foi fazer o teste, e nem sabia, UAHUAJAIA. Eu já tinha isso planejado há tempos, podem perguntar pra konichiwaclara, contei pra ela por MP que o Dimitri era saudável logo depois de postar o cap. do Afonso, kkk! Não me matem! A vida nos prega peças muitas vezes... Mas aposto que vocês estão bem felizes agora, *.*.Obrigada aos amores que comentaram capítulo passado! Próximo é pra ser o último, hehe, acho que não será bem um epílogo, e talvez eu até escreva um mini-epílogo depois dele ainda. CARAMBA, a fic não acaba. Enfim, love vocês. ♥