A Cor Da Chuva
20 Capítulo 19 Afonso
Notas iniciais
Não queria estar ali, parado e imponente novamente, mas talvez eu devesse começar a me acostumar a isso, ainda mais quando dentro de um ano me formaria e teria liberdade para exercer minha carreira de médico. Eu sabia, no entanto, que nunca me acostumaria, nunca deixaria nevar em meu peito a frieza do mundo. A morte sempre me atingiria como uma paulada, ou uma pressão sem localização exata que continua e se torna mais forte quando pensamos nela. Alguns colegas e professores diziam-me que eu deveria aprender a não sofrer junto, e sim a ter compaixão – uma de nossas artes mais belas de nosso conjunto de sentimentos, que ilumina quem se permite senti-la. Eu sabia disso, precisava ainda me acostumar a não sofrer junto, mas isso era algo difícil quando via tanta dor nos olhos daquela família.
Dimitri abraçava Diego com um braço e Lydia com outro, parecia o pilar daquela tríade, tentando manter-se forte mesmo que seus olhos estivessem avermelhados. Era o único dos três que não chorava enquanto Fernanda era enterrada ao lado do túmulo do pai, Vladimir. Pouco distante dali, estava o túmulo do outro pai daqueles três, Rogério. Tantas perdas marcadas na terra de um único lugar que, por mais bonito que fosse, arborizado e florido, ainda era um mar de lembranças dolorosas. Eu me lembrava de como Dimitri ficara após a morte de Rogério: pareceu tornar-se mais maduro de maneira quase súbita, ainda que já fosse um garoto mais centrado que todos os pivetes de sua idade.
Perguntava-me o que viria agora. Era tão injusto que depois de muita luta e superação, a morte levasse uma garota tão jovem, que queria batalhar e se redimir, buscar felicidade depois de tantos anos de escuridão. Eu admirava Fernanda por ela ter aceitado a relação entre Dimitri e Diego, fiquei aliviado por eles terem encontrado aquele suporte dentro da família, e um sorriso me encheu o rosto quando Dimitri me contou que ele e Diego estavam juntos, como ele há tanto tempo desejava. Eu havia acompanhado Dimitri por vários anos, o ajudado como podia apesar de saber que fazia pouco com meus conselhos e palavras que talvez não carregassem nenhuma verdade, apenas suposições e reflexões... Vê-lo com aquele sorriso radiante, de um sonho realizado, me contagiara, da mesma forma que me contagiava agora a tristeza e incredulidade dos fatos recentes.
A vida nos devora um pouquinho dia após dia, e nós nos esquecemos de devorá-la em retorno, presos em nossas ideias egocêntricas de imortalidade. Procuramos fingir que a morte não existe e assim lidamos com ela da pior forma. Eu próprio sabia me encaixar nesse fato, eternamente, como tantos, pego de surpresa quando ela vinha e arrebatava alguém importante. A morte, mesmo quando não é nossa, leva um pouquinho de nós, de nossos traços, de nossos apegos e da imagem que fazemos da vida e das coisas que nos cercam. Ela põe fim a expectativas, desejos e até mesmo lembranças que mantínhamos em nossa mente. Ela nos deixa inseguros, e isso nos atordoa e assusta. Nós não gostamos de ser inseguros, não gostamos de nos sentir vulneráveis, então vamos à busca de explicações, criamos religiões, crenças e mitos para explicar as perdas, para nos assegurar que tudo que somos não é somente um milésimo de segundo na eternidade do tempo.
E em alguns momentos eu me perguntava, afinal, o que era essa entidade intitulada de ‘eu’, da qual achávamos ter uma ideia tão clara. Nós passamos nossos dias nos dedicando àquilo que nos dá satisfação – pessoas, objetivos, trabalho, viagens – e acreditamos ferrenhamente que a vida, tudo que temos de realmente nosso, se resume a isso: pensar somente através de nossas próprias experiências, amar aqueles com quem convivemos e aqueles que nos convém, sofrer, envelhecer e então partir.
Poderia a vida ser algo tão mesquinho?
Muitas vezes me sentia imerso em um devaneio coletivo, onde todos se acreditam lúcidos pelas conveniência de não olhar para dentro de si mesmo, e para os outros. Temos medo dos anos que levam embora a juventude, de não conquistar as coisas que desejamos, de não sermos amados ou admirados.
E assim nos convencemos de que isso é viver, e não questionamos.
Não fomos ensinados a questionar.
Esquecemos que, a todo instante, o mundo desmorona. Pessoas nascem e morrem, milhares padecem e choram, sangram de sofrimentos que jamais conheceremos. Alheios a isso, montamos uma muralha ao nosso redor que nos torna indiferentes, que nos cega. Irritamo-nos se nosso dia não sai a contento, se não conseguimos algo que almejamos – um elogio, uma conquista. Somos tão limitados, tão focados em nós mesmos que o verdadeiro mundo e toda sua realidade e complexidade passa-nos inteiramente em branco. E cada vez mais tememos perder esse muro ao nosso redor, essa centralização em um eu que nem sabemos direito o que é. Dentro de nossa insignificância, não conseguimos ver nada além de nós mesmos. Nada além de nossa família, trabalho e pequeno círculo social. Somos uma gigantesca nuvem feita de olhos fechados que se abrem apenas para o que lhes convêm.
E eu, dentro de minha insignificância, voltava meus olhos apenas para aqueles três, segurando-se um ao outro em busca de consolo. Porém também notava outra pessoa, mais distante dos outros e quase desfocada em meu campo de visão – um garoto de cabelos da cor do verão, solitário e amuado, acompanhando o momento com uma dor disfarçada; porém uma dor que parecia superar a de todos ali, porque levava em si muitas das dores que assolam o mundo.
O sol se refletia de uma maneira vibrante e agitada nos cabelos alaranjados, como se a luz passeasse por aqueles fios, extasiada e alegre com aquela cor. Ele parecia para além de nossa muralha, incapaz de atravessá-la, de chegar até nós. Logo identifiquei quem era, Dimitri havia comentado sobre ele em alguns de seus emails e eu não tive dúvidas de que se tratava do garoto com quem Diego se relacionara, causando tanto ciúmes em meu amigo.
Fui até ele, levado por algum tipo de curiosidade que já nascera em mim desde que Dimitri escrevera seu nome no email e explicara sobre seu passado, tachando-o como problemático, quando todos nós somos, em realidade, criaturas extremamente problemáticas, repletas de dramas, medos e defeitos. Viktor demorou a notar que eu ficava mais próximo a cada novo passo e, só quando estava muito perto, seus olhos saíram do horizonte e se voltaram para mim. Eram olhos castanhos desconfiados e pouco amigáveis, ainda que não carregassem força para afastar alguém apenas com seu brilho.
“Você deve ser o Viktor.” Comentei com naturalidade, mantendo minhas mãos no bolso.
“Sim.” Ele olhou para o lado, procurando uma saída. “Desculpe, já estou indo embora.”
“Por que se desculpar?” Perguntei, quando ele já se virava. Viktor parou e me olhou, erguendo as sobrancelhas. “Não tem por que se desculpar por que está indo, apesar de eu querer que você fique.”
Ele me olhou como se fosse louco, mas dei de ombros.
“Diego ficaria feliz se fosse falar um pouco com ele.” Comentei, mesmo sabendo que isso irritaria Dimitri profundamente. O que eu conhecia de Diego, conhecia através dos relatos de Dimitri, e sabia que Viktor era importante na vida do irmão de meu melhor amigo. Viktor balançou a cabeça em negativa.
“Eu e Diego não temos mais nada. Ele tem o irmão dele, então vai ficar bem...” Disse, torcendo as mãos, parecendo querer dizer mais alguma coisa, mas não conseguindo encaixá-la na frase.
“A Fernanda fará falta para eles...” Falei serenamente, e vi os olhos de Viktor ganharam mais brilho. A morte da Fernanda também o machucava, e ele assentiu nervosamente.
“Ela era muito legal. Víamos filmes juntos e ela sempre ria das brigas entre eu e o Diego, ele ficava querendo falar do filme, mas eu ficava falando de outras coisas, acabávamos brigando, mas ela nunca perdia a paciência e também nos explicava todas as cenas que perdíamos. E também nunca se importava em responder nada sobre... Sobre o passado dela, mostrava tanta força e superação. Eu admirava isso... Ela não merecia...” Viktor me olhou, parecendo reparar que falava demais. Eu sorri leve para ele, e vi suas bochechas ruborizarem. Ele passou a mão pelos cabelos. “Eu preciso ir.” Novamente afirmou.
“E vai para onde?” Me intrometi, mantendo meu tom tranquilo. A pergunta o surpreendeu, mas não demonstrei achá-la estranha. Não a achava, e esperei pela resposta sem tirar os olhos dele.
“Para lugar nenhum...” Viktor murmurou, abaixando a cabeça. Algo no jeito dele me chamava a atenção, ou talvez fosse sua história sofrida e minha terrível mania de querer me intrometer nos problemas alheios e arrogantemente tentar resolvê-los. Pretendia entrar numa residência de psiquiatria e poder ajudar as pessoas no âmbito mental e emocional, não tanto o físico, e a chance de ao menos conhecer e ouvir um pouco de pessoas que sofriam de uma maneira diferente – e ainda assim tão igual – a de todos nós, me instigava.
“Se você puder esperar alguns segundos, eu posso ir com você para lugar nenhum.” Falei e esperei alguns instantes, observando a expressão ainda mais confusa do ruivo. Virei-me e fui até Dimitri, Diego e Lydia. O velório chegava ao seu final e agora eles recebiam abraços. Dei minhas condolências à Lydia e Diego, e parei em frente ao Dimitri, encarando-o com carinho.
“Nesses momentos a gente diz: ‘você vai superar isso’. E eu sei que você vai – você, seu irmão, sua mãe, todos seguirão em frente. Então dê tempo ao tempo, em algum momento começará a doer menos.” Disse, como era minha mania de achar que sabia prever o futuro, quando tinha tanta certeza quanto uma criança em sua fase dos porquês.
“Mas sempre irá doer.” Dimitri admitiu, baixo.
“Sim.” Nós nos abraçamos e eu me despedi, deixando-o para cuidar do irmão e mãe.
Caminhei até onde Viktor estivera e não o encontrei, algo que não me admirou. Eu não esperava que ele confiasse num completo estranho, então apenas continuei caminhando com minhas mãos no bolso, respirando profundamente o ar com aroma floral do lugar, pisando sobre a grama verde e me culpando por esmagá-la sob meus pés. Novas ponderações sobre a vida e a morte começaram a mover meus pensamentos, levando-me a divagar e esquecer o mundo ao redor. Meus amigos costumavam chamar-me de sonhador, mas eu não sonhava, apenas gostava de me afundar em ponderações sem respostas exatas.
Quando saí do parque-cemitério, vi Viktor do outro lado da rua, apoiado em um carro já antigo, mas bem conservado. Atravessei sem pressa a rua, mas dessa vez estava surpreso, e apenas parei quando estava em frente a ele.
“Você esperou.” Expressei abismado, apesar de ser uma constatação bastante óbvia. Viktor demonstrou dificuldade em olhar-me diretamente nos olhos, como se temesse que eu visse além dele e aprendesse sobre tudo que ocultava daqueles que não lhe eram próximos.
“Quem é você?” Ele perguntou, mirando-me de esguelha, porém mais para meu corpo e a parte inferior de meu rosto. Ele talvez houvesse me visto conversando com Dimitri, depois o abraçando, assim como ao irmão e à mãe, o que ao menos me transformava em uma amigo daquela família, e não um completo estranho que abordava pessoas em cemitérios.
“Apenas alguém, que você pode chamar de Afonso.” Dei de ombros. Não fazia diferença quem eu era, não mudaria o fato de que eu não estivera na vida dele até aquele momento e que não compartilhávamos nada.
“Apenas alguém está bom...” Viktor entrou no carro e eu o segui, entendendo seu ponto.
Qualquer alguém estaria bom para aplacar sua solidão.
Perguntei-me rapidamente o que teria acontecido entre ele e Diego, mas a resposta se formou rápida e lógica para mim. Ele sabia do amor de Diego por Dimitri, logo sabia que nunca teria espaço nesse tipo de amor, que nunca seria único no coração de Diego e que tentar ser apenas desgastaria a todos, a ele próprio. Quem não possui em si o medo da rejeição? Quem, além dos que nunca tiveram amor, teriam mais direito de temer uma repetição do passado?
Cada dia é novo, mas nós nos mantemos velhos dentro dos dias, carregando cargas dolorosas de vários ontem’s que fariam por bem se dissolverem nas areias da memória, mas que insistimos em guardar em nosso armazém de lembranças, estragando e nos estragando, tornando nosso solo infértil para viver o que o agora nos oferece.
“Você sabe o caminho para lugar nenhum?” Perguntei.
“Sim.” Ele afirmou. “Já fui pra lá várias vezes.” Viktor ligou o carro.
XxX
Cheguei à boate do Dimitri e passei pelo guarda com um aceno. Era cedo ainda, o lugar ainda estava fechado, mas sabia que o encontraria ali. Duas semanas já haviam se passado desde a morte da Fernanda, e eu tinha mais duas no Brasil. Eu gostaria de ficar mais, porém era impossível. Além disso, não gostava de ficar com meus pais, com meu pai, principalmente. Ele nunca aceitara minha orientação sexual, e até hoje não conseguíamos conversar mais do que três palavras em sequência. Minha mãe nunca tentara mudar isso, mantendo-se indiferente, tornando-se também distante. Ambos eram preconceituosos, e esse fora mais um motivo para eu ir para Alemanha, viver com meu avô materno que, estranhamente, aceitara-me sem restrições. O porquê foi fácil de entender quando descobri que ele mantinha um romance com outro homem já há quinze anos, desde que minha avó morrera de um infarto fulminante.
Quando subi para o mezanino vip da boate, me surpreendi com a cena que encontrei. Havia um homem ali também, que num primeiro momento achei que fosse Diego, mas depois percebi que não era o caso. Era mais velho e a pele mais morena, alguns traços diferiam e sentava sugestivamente no colo de Dimitri no sofá, os lábios bem próximos, todo seu jeito indicando que aquele era um momento íntimo. Meu coração disparou e me senti traído como se eu fosse o próprio Diego. Como depois de todos aqueles emails Dimitri poderia simplesmente trair Diego, seu irmão, o amor de sua vida, logo após tê-lo nos braços?
Uma fúria quis irromper de meu âmago, rasgando carne e vísceras pela vontade de ir até os dois e socar a ambos. Porém algo me chamou a atenção antes que eu começasse uma guerra. A expressão perplexa, pálida de Dimitri, e seu corpo inerte, que não retribuía os toques do outro. Num estalar de dedos me lembrei de seus emails contando sobre o garoto obcecado que vivia de ‘persegui-lo’, chamado Alexandre. Caminhei a passos pesados até os dois e arranquei Alexandre pelos cabelos do colo de Dimitri. Me senti como uma garota ciumenta arrancando a rival de cima do namorado, mas estávamos longe disso.
Alexandre se torceu, tendo dificuldade em recobrar o equilíbrio enquanto meus dedos ainda puxavam seus fios loiros.
“Filho da puta! O que está fazendo?” Ele perguntou com as mãos na cabeça, tentando tirar minha mão dali. Não era muito forte, percebi, seu porte físico era parecido, mas até menos musculoso que o de Diego.
“Vá embora, garoto, antes que eu chame os seguranças.” Falei, soltando-o. O olhei com a expressão fechada ao soltá-lo, esperando que ele não começasse um escândalo.
“Quem é você? Mais um dos putos do Dimitri?” Ele torceu os lábios. “Você deveria saber que não é, nem nunca será exclusivo.”
Eu suspirei. Isso era irritante. Primeiro, porque eu já havia sido ‘exclusivo’ do Dimitri por dois anos durante a adolescência, não que isso importasse, estava no passado e eu não nutria mais esse tipo de sentimento por Dimitri. Segundo, porque eu nunca tive paciência para discussões rasas e sem qualquer fundamento.
“Quem eu sou não importa. Apenas vá, Alexandre. Vá ser feliz, encontre um cara que te ame e pare de gastar tempo e energia com quem nunca quis nada além de uma noite de prazer contigo.” Eu tentei falar na paz, mantendo meu tom normal, porém isso apenas pareceu enfurecê-lo ainda mais.
“Você o ouviu, Alex. Vá embora. Não importam suas ameaças, elas não vão mudar o que eu sinto.” Dimitri nos interrompeu e se levantou, sobrepujando a nós dois com sua altura. Sua expressão era de uma seriedade que há muito tempo eu não via, talvez se assemelhando à que tinha quando me revelou abruptamente que amava o irmão de um modo não-fraternal.
Alexandre abriu a boca, pareceu querer falar mil coisas, mil xingamentos, porém se virou abruptamente e saiu dali a passos pesados. Assim que ele desceu as escadas, Dimitri se deixou cair novamente no sofá, apoiando a cabeça no encosto das costas e levando a mão à testa.
Eu me sentei ao seu lado, esperando por alguma explicação para a cena bizarra.
“Ele sabe.” Dimitri murmurou.
“Ele leu seus emails para mim.”
“Sim.” Dimitri concordou. Havia compartilhado aquela dúvida comigo. “Não sei como, mas ele também sabe que eu e Diego estamos juntos agora. Ou ao menos tem quase certeza. Veio aqui para me ameaçar, disse que irá contar para a Lydia e todos que me conhecem, caso eu não largue o Diego. Eu fiquei sem reação, foi uma sorte você ter chegado.” Dimitri balançou a cabeça. “Eu sou um idiota, sabia que ele era problema e ainda assim o levei para a cama. Deus, se eu pudesse voltar atrás...”
“Mas não pode. E o que irá fazer? Se a Lydia souber...”
“Ela nunca aceitaria.” Dimitri endireitou o corpo e me olhou. “Ela desconfia também, é óbvio que desconfia, não é cega. Digo, ela percebe algo desde há muito tempo, tanto que ficou aliviado quando eu anunciei que sairia de casa. Mas enquanto ela não tiver as suspeitas confirmadas, pode continuar mantendo os olhos fechados, negando a realidade e fingindo que tudo está em ordem. Se ela descobrir, irá surtar e não conseguirá aceitar. Aliás, acho difícil pensar em alguma mãe ou pai no mundo que aceitassem, até mesmo os mais liberais.” Dimitri suspirou e apoiou os antebraços nos joelhos. “E agora ela já perdeu uma filha. Saber sobre mim e Diego seria como perder os filhos que lhe restam.”
“Mas você não vai acatar a ameaça dele e se separar do Diego, eu suponho.” Cogitei, e para meu espanto Dimitri me olhou de uma maneira cansada, derrotada e sofrida. Eu voltei a me levantar, perplexo. “Não pode! Depois de tudo...!”
“Alexandre é maluco, Afonso.” Dimitri puxou o ar para os pulmões e voltou a esfregar com a mão a barba que lhe crescia no maxilar. “Ele poderia chegar aos jornais e isso prejudicaria a imagem do Diego como esportista. E o Diego é bastante ligado à Lydia, ouvir dela que não o aceita e assim perder a mãe seria quase insuportável, principalmente logo depois de perder a irmã...”
Tudo que Dimitri dizia fazia grande sentido, mas me parecia inconcebível simplesmente aceitar as ameaças de um rapaz desequilibrado e obsessivo, baixando a cabeça sem que se tomasse alguma atitude, apesar de eu não ter ideia de que atitude poder-se-ia tomar numa situação como aquela. Também passei a mão por meus cachos, enquanto Dimitri se levantava e ia até o bar, servir-se de um drinque.
“Inferno!” Ele se descontrolou e acabou jogando o copo contra a parede, depois de apenas um gole.
Eu fui até ele e coloquei uma mão em seu ombro. Dimitri tinha as costas largas e musculosas, mas agora estava encolhido em impotência, com os cotovelos apoiados no balcão e o rosto escondido entre as mãos, provavelmente tentando pensar em uma saída menos dolorosa.
“Não posso acreditar que quando finalmente posso ficar com o Diego, tenho de me separar dele dessa forma.” Dimitri sussurrou, mais para si mesmo.
“Vocês poderiam se mudar para outra cidade.” Sugeri, buscando por uma saída. “Diego terminou o colégio, e você pode reabrir a boate em outro lugar.”
“E Lydia? Por que iria querer se mudar? Não podemos deixá-la para trás logo agora. E, mesmo se ela aceitasse uma mudança, Alexandre faria um escândalo de qualquer forma. Se isso caísse na mídia, a Lydia iria nos confrontar e o Diego não conseguiria mentir. Seria uma confusão infernal. Você não imagina como o Diego anda depressivo, nas últimas semanas praticamente não desgrudou da mãe. Lydia está destruída...” Dimitri se acomodou na cadeira, olhando em frente para a estante com bebidas, pensativo e amargurado.
“Tem razão.” Eu me sentei num dos banquinhos do bar. “É um momento delicado, para algo ainda mais delicado. Mas se você pensa em se afastar do Diego, mesmo que apenas por uns tempos, então ao menos não esconda dele a razão. Conte sobre as ameaças, conversem sobre isso. Ele talvez tenha alguma solução milagrosa, nunca se sabe.” Falei, desejando poder ajudar de uma forma melhor.
Dimitri não falou nada, mantendo-se pensativo e distante. Depois de uns minutos soltou uma risada seca, balançando a cabeça.
“E eu que achava que aquele Viktor que iria ameaçar o Diego e tentar expor-nos. Parece que o Diego sabe escolher melhor do que eu com quem se relaciona.” Dimitri confessou, irônico.
“Viktor jamais faria algo dessa magnitude para prejudicar alguém. É um bom garoto.” Falei com veemência, enrugando a testa em irritação pelo comentário, como se ele houvesse sido uma ofensa pessoal. Dimitri me olhou com as sobrancelhas erguidas, curioso.
“Não me diga que... O garoto misterioso com quem você anda saindo é o Viktor?!” Dimitri perguntou abismado.
“Sim, é ele.” Não neguei, e também não havia motivos para tal. “Eu... Estou apaixonado por ele.”
“Você... Quê?!” A expressão de espanto de Dimitri me fez rir. Era raro vê-lo assim tão perplexo. Suas expressões sempre variavam de sérias para ligeiramente irônicas, algumas vezes permeadas com sorrisos sinceros que apareciam apenas por bons motivos, nunca à toa. Frente à minha risada e assentimento com a cabeça, Dimitri soltou um resmungo. “O que há naquele ruivo? Mel para que todo mundo se interesse por ele?”
“Não é bem assim. A única pessoa que foi mais próxima do Viktor até hoje foi o Diego, e apesar da relação deles ter crescido muito, não superou o que o Diego sente por você. Agora... Eu não tinha ninguém me prendendo o coração antes de conhecê-lo.” Admiti, abaixando o olhar para o balcão. “Sei que ele não sente o mesmo por mim, eu sou como um substituto temporário para o Diego, justamente porque voltarei para a Alemanha em duas semanas, mas... Eu não consegui impedir.”
“Já dormiu com ele?” Dimitri perguntou, me sobressaltando. Eu falando de paixão e ele me vinha com uma pergunta como essa. O olhei irritado por um segundo, mas depois suspirei, coçando um cacho.
“Não. Como eu disse, ele não sente o mesmo por mim. Ele estava carente e vulnerável, precisando de apoio, de um amigo que o escutasse sem julgar. Conversamos muito todos os dias, até tarde da noite. Ele está hospedado comigo lá na casa dos meus pais para falar a verdade, já que não tem para onde ir. Já dormimos na mesma cama várias vezes, mas não rolou sexo, nem nada... Ele não demonstra querer isso.”
“Como você pôde se apaixonar tão facilmente? Você é mesmo um idiota.” Dimitri disse, repreensivo. Eu soltei uma risada breve e abri um sorriso no canto de meus lábios. Dimitri me olhava sério, não estava brincando. Eu sabia que ele apenas estava preocupado comigo, pois inevitavelmente seria dolorido deixar Viktor no final do mês.
Eu era mesmo um idiota que se apaixonava fácil – primeiro fora por várias garotas durante a pré-adolescência, depois por Dimitri, depois por um colega de faculdade, depois por um professor com quem até mesmo cheguei a ter um relacionamento curto, depois por um engenheiro que conheci em uma festa.
Fora Dimitri, nenhuma paixão fora duradoura, e agora era impossível não me perguntar se também não seria o caso, porém dessa vez eu sentia a existência de algo diferente, uma chama nascente e ainda insegura que eu desconhecia, mas que avançava a cada nova vez que Viktor acariciava meus cabelos e me olhava com seus olhos cada vez mais calorosos e menos desconfiados.
“Eu nunca fui muito com a cara desse Viktor, mas admito que era porque tinha ciúmes de vê-lo com o Diego. Não sei muito sobre ele na verdade, apenas sobre o que aconteceu com os pais dele e... Bem, se você se apaixonou, aproveite, mas deveria saber que vai ser traumático para alguém como ele se afeiçoar por você, e te perder como perdeu o Diego.” Dimitri comentou, sendo a voz da razão, maduro e sincero, como costumávamos ser um com o outro. Não à toa nossa relação não dera certo, eu e Dimitri éramos muito iguais, os dois centrados, cientes, raramente perdendo as estribeiras, o que tornara um relacionamento entre nós algo morno, funcionando perfeitamente quando se tratava apenas de amizade.
Dimitri só perdia as estribeiras quando o assunto em questão era o Diego, e eu... Eu nem sabia. Mas havia, para meu próprio assombro, socado um rapaz chamado Bruno há dois dias, que tentara se aproximar do Viktor no shopping, quando íamos ao cinema, para perturbá-lo com coisas que evidentemente deixavam o ruivo desconfortável e angustiado.
“Eu sei...” Murmurei, afundando-me em culpa. Tinha medo de abandonar Viktor, e pensei que talvez esse fosse outro motivo para o ruivo ainda não se abrir completamente comigo. Ele sabia que eu voltaria para a Alemanha ao final do mês, e perder outra pessoa importante num espaço tão curto de tempo seria mais do que ele conseguiria suportar. Eu não queria deixá-lo, porque Viktor precisava de mim.
E eu também precisava dele.
Uma risada sem humor de Dimitri me interrompeu os pensamentos.
“Somos dois ferrados no amor.” Ele comentou e serviu dois copos com uísque. Eu ri amargamente também e brindei com ele, aos infortúnios, armadilhas, complicações e toda a indispensabilidade da paixão e do amor.
XxX
“Eu acho que nos enganamos.” Sussurrei à meia luz do quarto. Eu e Viktor havíamos voltado tarde de um concerto em um teatro. Eu era apaixonado por qualquer tipo de apresentação em teatros, e Viktor vinha descobrindo que também gostava, os olhos dele se mantinham atentos ao palco durante todas as apresentações.
Já deveria passar das duas da manhã agora, mas eu não tinha certeza – já havia perdido a noção do tempo, durante nossa conversa. Aliás, mais uma semana se passara, e cada vez mais eu queria ter menos noção de tempo, porque o nosso estava acabando.
“Por quê?” Viktor perguntou.
“Nós nos enganamos e procuramos distrações, como a de hoje à noite mesmo — um teatro, um cinema, uma festa. Mas sofremos ainda assim, sendo reis ou plebeus, sangramos por razões que se renovam a cada nova batalha, porque nossas batalhas são apenas premissas de outras guerras. Nós desejamos, e nos envolvemos, e nos magoamos, e amamos, num ciclo centrado em nós mesmos, na nossa ideia do ‘eu’ e do ‘meu’, que é tão internalizado em nós que chega a ser nocivo. Aí então criamos mil labirintos, caminhos e esconderijos dentro de nós para fugir de nossos fantasmas, e isso apenas nos torna mais confusos e perdidos. Então fingimos e nos enganamos que a vida carrega promessas boas ou abrigos onde poderemos repousar durante o caminho.”
“Sempre pensamos que, se estamos sofrendo hoje, amanhã será melhor, ou na próxima vida teremos mais sorte. Mas isso nos impede de simplesmente encarar o que acontece nesse exato momento, sob a luz dessa lua enorme através da janela, e não de uma a daqui meses, ou anos, que talvez nem seja tão bonita quanto à de agora. Nós vivemos de jogar nossa felicidade para um amanhã inexistente e nos esquecemos de estar presentes no aqui e no agora. Esquecemos de ser felizes no hoje. Não seria melhor se, no lugar de tecermos fantasias, esperanças e mil ilusões mirabolantes e milagrosas no amanhã, nós olhássemos para nossos sofrimentos e os encarássemos, sem medo, sem nenhuma urgência de tentar combatê-los ou mudá-los? Se encarássemos nossa situação, sendo ela boa ou ruim, será que ainda sentiríamos tanta dor? Porque, afinal, essa dor não é justamente produto de nosso medo de encarar o que é real, encarar a nós mesmos, encarar as coisas que nos atormentam agora mas para as quais fechamos os olhos, e deixamos que continuem nos corroendo, nos tornando fracos, vulneráveis...?”
“Acho que é o maior mal da humanidade – essa projeção e fuga, essa ideia de que se hoje sou ruim, amanhã serei bom, ou, se hoje sou individualista, amanhã serei generoso, que nos impede de ser hoje bom e generoso. Assim continuamos a empurrar para uma dimensão mental e inexistente o que deveria ser vivido nesse instante. Nossa esperança para o amanhã, que parece tão adequada e reconfortante, na verdade nos cega e, afinal, em qual momento estamos realmente vivendo?”
Eu parei e olhei para o Viktor. Apenas a luz da lua iluminava o quarto, e era uma lua cheia lindíssima, enorme, que havia nos surpreendido quando saímos do teatro. Viktor me encarava sério, mas com os lábios entreabertos, parecendo ainda beber do que eu falara. Minha mania de cair em reflexões cansava muitas pessoas, mas ele sempre me escutava atentamente, o que me aquecia o peito.
“Você sempre faz isso.” Viktor sussurrou, levando a mão até meu rosto e me tocando de leve, sentindo minha barba por fazer na ponta de seus dedos.
“Isso o quê?” Rebati, sorrindo curioso.
A cama do meu quarto era de solteiro, o que deixava nossos corpos bastante próximos para que coubéssemos os dois ali. Mas Viktor era magro e menor que eu, o que ao menos não nos deixava tão apertados. Eu deveria ser uns dez centímetros maior do que ele, e tinha o corpo mais malhado, apesar de não ser nenhum galã de cinema. E no fundo gostava daquela proximidade supostamente forçada.
“Parece falar tudo que eu preciso ouvir. É como uma sessão de terapia. Só que muito melhor...”
“Viktor...” Me virei mais para ele, apoiando meu antebraço do lado de seu corpo, olhando-o diretamente de cima, enquanto acariciava seus cabelos alaranjados. “Posso te beijar?”
“S-Sim...” Viktor murmurou em resposta, ficando com as bochechas coradas.
Eu sorri e me aproximei, deixando nossos lábios se tocarem. Aos poucos nossas roupas caíram no chão do quarto, num silêncio que era ideal para o momento. Nossas respirações aceleravam a cada toque, e eu sentia meu coração explodir numa felicidade nova, que ao mesmo tempo me acalmava e levava aos extremos.
Viktor tinha um corpo lindo, e suas expressões a cada novo toque eram as mais sublimes, as mais sinceras. Quando uni nossos corpos, suas pernas e braços me envolveram sem nenhuma hesitação ou dúvida, aceitando-me por completo, e eu senti que não poderia jamais quebrar a ligação que criávamos ali.
E o resto da noite foi uma mistura de lua cheia, suspiros, carícias e nossos corpos suados abraçando-se com uma intensidade que parecia superar a que mantinha a Terra girando numa elipse perfeita e constante ao redor do sol.
XxX
Desde crianças, aprendemos a jogar fora tudo que sofre um pequeno arranhão, um caminhão que perdeu a roda, uma boneca velha pela mais nova na loja. Aprendemos a jogar nossos brinquedos fora sem nem ao menos tentar consertá-los, ou desistir rapidamente quando tentamos mas é muito difícil repará-los.
E assim seguimos pelo resto da vida, jogando fora qualquer coisa que fuja daquilo que consideramos ‘normal’, ‘perfeito’, ‘adequado’ segundo os padrões sociais. Olhamos com troça para alguém vestido fora da moda, temos preconceito com a pessoa que tem ideias diferentes, e fugimos e desprezamos, chegamos a odiar, pessoas que não se enquadram nos pré-requisitos da perfeição, que não sorriem para uma piada, que não fazem o que é esperado, cujas atitudes não entendemos, porque não tentamos entender. Porque é mais fácil simplesmente condenar e achar errado, taxar de estranho, acusar pelos erros cometidos sem nunca olhar para o que nós cometemos, tantas e tantas vezes, repetidamente.
Afinal, temos nossos próprios problemas, não é mesmo? Estamos acima do peso, apaixonamo-nos sem sermos correspondidos, não temos uma profissão legal ou tanta popularidade quanto gostaríamos. Pra quê pensar no colega com dificuldades, nas pessoas sem teto embaixo da ponte, nas crianças sem um abraço ou carinho em seus aniversários? Não precisamos disso. Não queremos nos importar, porque já somos suficientemente vazios, sempre em busca de nos preenchermos, de sentir e obter sensações boas, apaziguar nossas ambições.
Os outros não importam.
Nossa vida é limitada a nós mesmos e às nossas crenças e preconceitos que veem do berço, dos quais não tentamos fugir, ou questionar, ou refletir. Estamos condicionados a isso a tal ponto que nem sequer percebemos nosso egoísmo, e ainda nos felicitamos como bons samaritanos quando fazemos algo minimamente altruísta, que não nos afeta em nada, que não muda nossa rotina e não nos tira do centro de nossos próprios pensamentos, como dar uma esmola a uma criança na sinaleira, ou participar num único dia do ano de um trabalho voluntário. Nos achamos nobres, parte de uma causa importante, mas evitamos mexer com tudo que possa ir além daquilo que vemos ao redor de nossa muralha de indiferença.
Isso se refletiu em minha vida cinco dias depois que eu e Viktor fizemos amor pela primeira vez. Não encontrei meu ruivo no meu quarto quando acordei, já passando das oito da manhã. Não o encontrei em lugar algum. Primeiramente achei que deveria estar chateado, porque estava marcado para o dia seguinte meu voo de retorno à Alemanha. Porém, mais tarde viria a descobrir que ele recebera um telefonema bem cedo avisando sobre a morte de sua avó.
Eu me demorei procurando-o em lugares idiotas, até decidir ir a casa onde ele morava antes. Lá, o encontrei na banheira simples de sua suíte. A água da banheira era de um vermelho claro, manchada de sangue. Um dos braços de Viktor pendia para fora da banheira, e um pouco de sangue ainda pingava de seu pulso. A cabeça dele descansava na borda da banheira, seus olhos entreabertos e a pele mais pálida que o normal, seus lábios já azulados pelo pouco oxigênio que circulava por seu corpo.
Viktor era o boneco quebrado, tantas vezes jogado fora, até se convencer de que o melhor seria jogar-se fora em definitivo.
“Meu Deus... Viktor!” Eu me engasguei com um aperto no peito ao vê-lo e corri até ele. Chequei sua pulsação e um alívio me preencheu ao sentir seu corpo ainda não completamente frio, e batimentos irregulares e taquicárdicos no pescoço. Minhas mãos tremiam quando liguei por socorro, me atrapalhando por um momento no endereço do lugar. Assim que desliguei, enfaixei os pulsos de Viktor e o tirei da banheira, enrolando-o em um cobertor quente.
Ele precisava urgentemente de uma transfusão. Eu não fazia ideia de quanto sangue já teria perdido, há quanto tempo estava daquele jeito. Condenei-me por demorar tanto a pensar na casa da avó dele, o primeiro lugar onde eu deveria tê-lo procurado. O sustentei abraçado a mim, tentando mantê-lo quente o máximo que podia.
“Por favor, aguenta, Viktor. Eu sei que você fez isso porque queria partir, mas você sabe que tem mania de fazer as coisas sem pensar. Então talvez você não queira mesmo isso... Você acha que está sozinho, mas não está. Eu estou aqui, eu prometo que não vou te deixar. Eu te levo pra Alemanha comigo, porque eu não vou conseguir sem você... Eu nunca me apaixonei dessa forma, e acredite, não quero ninguém além de você. Eu sei que parece idiota falar tudo isso quando nos conhecemos só há quatro semanas, mas faz algum sentido medir o tempo em que o amor pode surgir? Há algum tempo determinado pra isso nos livros? Só depois de X dias alguém pode sentir o que eu estou sentindo?” Murmurei tudo com ele em meu colo, esperando impacientemente pela ambulância. Minhas mãos tocavam seu cabelo molhado e meus lábios suas bochechas e testa, verificando a cada instante se ele não estava completamente frio. Lágrimas começaram a cair de meus olhos, e tudo que eu queria era gritar. “Não quero uma vida sem você, então não me deixe porque acha que vou te jogar fora como os outros. Eu quero te ajudar a superar todos os teus fantasmas...”
A ambulância chegou em meio ao meu monólogo. Eu entrei junto com Viktor e voltei a me sentir aliviado ao ver a médica socorrista injetando soro na veia dele, para então melhorar os curativos apressados que eu havia feito. Quando chegamos ao hospital, a cor de Viktor já era melhor, mas mesmo assim ele foi levado para a UTI. Provavelmente precisava de uma transfusão. Também teriam de verificar se estava tudo bem com seus órgãos, se nenhum sofrera falência por baixo suprimento sanguíneo.
Tudo que eu queria era ficar perto do Viktor, mas ainda tive que responder várias perguntas.
Foi um novo alívio quando me informaram que não houvera danos irreversíveis. Restava-me então esperar que o médico aparecesse e liberasse visitas ao Viktor. Eu liguei para Dimitri um pouco depois e contei o ocorrido. Num tempo recorde, ele aparecia no hospital junto com o Diego.
Diego parecia devastado, sua pele quase tão pálida quanto à de Viktor quando o encontrei.
“Onde ele está? Como ele está? Ele vai ficar bem?” Diego me bombardeou com perguntas.
“Ele está fora de perigo.” Falei, exausto. “Você não deve se culpar.”
“Como não!? Eu o chutei há pouco tempo atrás, e ele ficou devastado. Eu nem sequer tentei conversar com ele depois daquilo. Estava tão focado em mim mesmo, na morte da Fê...” Diego abaixou a cabeça e esfregou os olhos com uma mão. “Estou tão aliviado por ele estar vivo, só de pensar que... que...”
“Diego, o Viktor já tinha um histórico de depressão muito antes de te conhecer. Ele sofreu mais do que nós três juntos ao longo da vida. Ele não teve família, não teve pais amorosos, passou por situações traumáticas, nunca teve amor, carinho, só ouviu coisas ruins das pessoas que deveriam dar-lhe suporte e confiança, os outros rapazes com quem ele teve alguma coisa foram uns idiotas com ele, e não estou incluindo você aqui, ao menos não completamente. Todos que o conhecem superficialmente o julgam, não buscam entendê-lo, e ele teve de passar sozinho por toda sorte de preconceitos, só porque não é o estereótipo do bom garoto, apesar de ser sim uma boa pessoa. Tudo isso o levou a fazer o que fez, não apenas um fora isolado de um garoto que ele acreditava amar.” Falei, sincero.
Diego manteve a cabeça baixa, o olhar desfocado no piso claro do hospital. Dimitri passou a mão pela cintura do irmão e tentou dar-lhe conforto, mas Diego se afastou bruscamente, o que me levou a crer que eles já haviam conversado sobre as ameaças do Alexandre. Eu estava tão feliz com o Viktor, que havia me esquecido de perguntar sobre o resultado daqueles acontecimentos.
“Quero vê-lo.” Diego implorou. “Eu só quero me desculpar. Não sou egocêntrico a ponto de achar que o Viktor tentaria se matar por minha causa, mas isso não me impede de me sentir culpado. Eu me importo com ele.”
“Eu sei que se importa. Ele também deve saber. Estou esperando o médico, logo ele libera as visitas...”
Diego correu para ver o Viktor assim que lhe foi permitido, deixando eu e Dimitri para trás, na sala de espera. Dimitri suspirou profundamente e eu notei as olheiras profundas sob seus olhos escuros. Coloquei uma mão sobre seu ombro, esperando que me olhasse.
“Você não deveria ir lá ver o garoto também?” Dimitri perguntou.
“Eu vou, mas talvez seja bom que o Diego e o Viktor possam conversar um pouco. Não sei se o Viktor iria querer ver o Diego logo ao acordar e perceber que continua vivo, mas... Vou deixar isso a escolha dele.” Encolhi meus ombros.
“Diego entrou em pânico quando contei a ele o que você me disse. A morte de pessoas próximas o afeta de uma maneira forte, um pêsame além do normal. E depois que eu falei sobre o Alexandre, ele ficou ainda pior. Nós estamos sem saber o que fazer... E ele passa quase todo o tempo com a Lydia, ou treinando, nós mal nos vemos nos últimos dias.”
“E o Alexandre? Te incomodou de novo?” Perguntei, sentindo-me mal pelos dois. Eu já havia torcido tanto para que ficassem juntos; era difícil vê-los tão sem saída, encurralados um em cada extremo de uma rua infinita.
“Ele apareceu na Elevação. Disse que se eu não voltasse a transar com ele, contaria tudo. O pior: eu descobri que ele tem uma foto minha e do Diego se beijando. Quando eu falei que ele não tinha provas e que por isso não iria aceitar suas ameaças, ele me mostrou uma cópia da foto... De quando eu beijei o Diego na formatura dele. Não sei como ele me perseguiu dessa forma, ele está maluco, desequilibrado, e eu estou sem saída. Alexandre também tem um amigo que trabalha no jornal...” Dimitri apertou as têmporas, enquanto meu queixo caía.
“M-Mas... Você não... Você não vai transar com ele para impedi-lo de falar, vai?” Perguntei, com meu coração batendo rápido. Pude ver as artérias pulsando nas têmporas de Dimitri e ele apertou os braços da cadeira em que sentava com tanta força, que achei que iria quebrá-la.
“Eu não tive escolha...” Disse, com uma dor tão grave na voz, que eu perdi o ar.
“Você já...?”
“Depois que ele mostrou a foto e me encheu de ameaças, me dizendo para fodê-lo enquanto se insinuava para mim... Eu senti tanta raiva, tanto ódio por ver, depois de tudo, as coisas darem errado sem que eu pudesse fazer nada. Fiquei cego e perdi o controle, qualquer coisa que envolva o Diego me faz perder a razão. Coloquei o Alexandre contra a mesa do meu escritório e praticamente o quebrei em dois, fiz para machucá-lo, e machuquei, ao final ele estava chorando, e eu achei que iria me odiar, ir para os jornais, contar para a Lydia.” Dimitri falou, agoniado, parecendo ficar fora de si. Ao menos não havia muita gente ali e todos estavam preocupados com seus próprios problemas para notar o estado de nervos de meu amigo. “Mas hoje de manhã recebi essa mensagem.”
Dimitri me entregou o celular e eu a li.
‘Hoje à noite, na minha casa.’ Era uma mensagem do Alexandre.
“Meu deus...” Murmurei, atônito. Esse Alexandre estava precisando de ajuda, de algum tratamento, algo acontecera para deixá-lo tão obsessivo e delirante. Pensei em repreender Dimitri pelo que fizera com o rapaz, mesmo as ameaças não justificavam uma agressão e não sabíamos o que se passava na cabeça do garoto, mas talvez não fosse momento para isso. “E o Diego? Sabe disso?”
“Sim... Eu contei tudo para ele, até mesmo... Até mesmo o que fiz com o Alexandre. Ele nunca vai me perdoar, ele não olha mais para a minha cara. A última mensagem da Fê para mim e o Diego foi que ficássemos juntos, mas eu estraguei tudo. Eu... Merda, eu estraguei tudo.” Dimitri voltou a apertar as têmporas e dessa vez as lágrimas inundaram seus olhos. Eu não me lembrava de alguma vez o ter visto chorar assim, apesar de às vezes imaginar que chorava ao escrever-me alguns dos emails. Eu abracei Dimitri, sem encontrar palavras, mas ele logo me afastou, já se recuperando numa velocidade impressionante. Quem o olhasse, não desconfiaria do pesadelo por qual passava.
“Preciso ir. Estou de cabeça cheia, tenho de ver em que dia terá fechado a janela imunológica e poderei fazer o teste pro HIV.” Ele murmurou, levantando-se. Eu me sobressaltei ainda mais e pulei da cadeira, impedindo-o.
“O que quer dizer?” Praticamente gritei.
“Descobri ontem que o Alexandre é HIV positivo. Ele próprio descobriu recentemente e acho que por isso anda tão fora de controle. Eu tive o bom-senso de colocar uma camisinha, mas ela acabou arrebentando pela brutalidade do ato...” Dimitri desviou o olhar, e eu o soltei, sem acreditar. Senti que meus olhos também ficavam molhados, e isso irritou Dimitri quando voltou a olhar para mim. “Não seja pessimista, Afonso. Ainda não tenho a confirmação, e mesmo se a tiver, não vou morrer de um momento para o outro. Há tratamento para manter a doença sob controle, um futuro médico deveria saber disso melhor do que eu.”
“Eu sei... Me desculpe. Eu... Mas que inferno, Dimitri. Eu queria... Poder fazer alguma coisa.” Falei instável, internamente já gritando para que o resultado fosse negativo. Com tratamento ou não, ainda era uma doença furtiva que tinhas suas complicações, e cujo tratamento poderia trazer efeitos colaterais nada suaves.
“Você já faz. Eu vou sentir a tua falta quando voltar pra Alemanha.” Dimitri me deu um abraço rápido, mas apertado. “Avise o Diego que tive que ir antes.” Dito isso, meu melhor amigo deixou o hospital. Eu caí na cadeira, extenuado e esmagado pelas complicações da vida. Pouco depois, Diego reapareceu, cabisbaixo.
“Ele pediu para eu te chamar.” Diego murmurou. “Obrigado por ter estado com ele nesse último mês. Mesmo com isso que aconteceu, sei que você fez bem pro Viktor, muito mais do que eu já fiz.”
“Às vezes não conseguimos ajudar as pessoas como gostaríamos, mesmo quando temos a melhor das intenções.” Rebati, na realidade pensando em mim mesmo. Diego balançou a cabeça, abrindo um sorriso irônico.
“Aí que está. Eu não acho que tinha a melhor das intenções, mas você tem. Então, cuide dele. Tranque a faculdade, não sei, mas não vá embora amanhã, por favor.” Diego me encarou com seus claríssimos olhos azuis, e era possível decifrar facilmente a sinceridade contida neles. Eu assenti, já havia tomado essa decisão.
“Eu já cancelei meu voo. Não vou embora até arranjar tudo para que o Viktor vá comigo. Se ele quiser, claro.” Anunciei, levantando-me. Coloquei minhas duas mãos sobre os ombros de Diego, fazendo com que ele me encarasse de frente. “O Dimitri te ama mais do que tudo nesse mundo, ele nunca iria querer te magoar. Assim como você me pede para cuidar do Viktor, por favor, cuide do Dimitri também, não dê as costas para ele.”
“E você quer que eu faça o quê?” Diego deu um passo para trás, ficando nervoso, pego de surpresa por eu estar a par dos acontecimentos recentes. “Que o receba de braços abertos todas as noites depois de ele se deitar com aquele louco para mantê-lo de boca calada? Eu não... Eu não condeno o Dimitri por tentar me proteger, tampouco o odeio pelo que fez, mas isso é demais. Eu não posso ficar perto dele enquanto isso acontece, não dá... Dói demais...” Falou tudo num sussurro e, com um último olhar perdido e confuso para mim, virou-se e se afastou apressado, não me dando chances de dizer alguma coisa.
Eu não sabia se havia alguma coisa para dizer. Eu deixei que ele se fosse e então rumei para o quarto do Viktor. O encontrei sentado na maca, abraçando os joelhos. Sua aparência estava melhor, mas não conseguiu me olhar quando entrei, envergonhado do que havia tentado. Eu me sentei na cama e acariciei seus cabelos.
“Meu garoto dos cabelos da cor do verão... É bom vê-lo corado e respirando normalmente.” Disse, carinhoso. Foi o suficiente para ele cair no choro e se jogar nos meus braços. Eu o abracei apertado, beijando o topo de sua cabeça.
“Me perdoa. Me perdoa. Eu estava sentindo tanta dor, tanta culpa. Eu só queria fugir de tudo. Sou um fraco... Covarde. Eu estava com medo.” Viktor disse tudo rápido, atropelando as palavras, enquanto me abraçava pela cintura com toda a força de seus braços finos. “Quando me ligaram falando que a Lisete morreu no hospital, eu acabei-“
“Shhhh. Tudo bem, não precisa se explicar.” O beijei na bochecha, sentindo o gosto salgado de suas lágrimas. Havia descoberto antes que a avó morrera naquele mesmo hospital, por burlar tomar os remédios e recusar-se a comer e receber alimentação parenteral. Mesmo com a rejeição anterior, ela fora tudo que Viktor tivera por vários anos.
“Eu ainda estou com medo.” Viktor admitiu, num sussurro envergonhado.
“De quê, meu amor?” Perguntei, segurando seu rosto com ambas as mãos e o erguendo para que me olhasse. “Pode me contar tudo que te preocupa.”
Viktor hesitou por vários segundos, acalmando-se e criando coragem enquanto eu o mantinha bem perto de mim, esperando que confiasse a mim seus medos. Então ele ergueu a cabeça e me olhou, respirando fundo antes de dizer:
“Estou com medo porque me apaixonei por você, mas você está indo embora amanhã, e eu vou voltar a ficar sozinho. Eu... Eu sei que não tenho direito nenhum de te pedir pra ficar, mas-“
“Viktor.” Eu o interrompi, abrindo um sorriso. “Eu não vou a lugar nenhum sem você, está bem? Eu não vou te deixar sozinho, nunca. Eu também não tenho nenhum direito de pedir isso, mas, se mude comigo para a Alemanha. Não há mais nada para você aqui no Brasil, e poderá começar do zero em outro país, se quiser. Você pode terminar sua faculdade lá, há um convênio entre a sua universidade e a universidade que eu curso para estudantes que querem estudar no estrangeiro, eu chequei isso. Você pode ter esse período de experiência e, se quiser ficar comigo definitivamente, daremos um jeito.”
Viktor me encarou com aquela sua adorável expressão de perplexidade, o queixo caído e o olhar de quem nunca poderia esperar por algo parecido – o olhar surpreso de quem está acostumado a deparar-se apenas com as dificuldades. Um soluço escapou dele quando me abraçou com mais força, agarrando meus cachos, e me beijou.
“Eu quero! Eu quero ficar com você, aqui, na Alemanha, onde for...” Ele murmurou desesperado, segurando-se em mim como se eu fosse alguma espécie de ilusão. Eu o abracei com força, para mostrar que não era nenhuma ilusão, e ri com ele ao ver seu rosto se iluminar com um sorriso especial.
For all those times you stood by me
For all the truth that you made me see
For all the joy you brought to my life
For all the wrong that you made right
For every dream you made come true
For all the love I found in you
I'll be forever thankful baby
You're the one who held me up
Never let me fall
You're the one who saw me through, through it all…
–Because you Loved Me, Celine Dion.
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