A Cor Da Chuva

21 Capítulo 20


Notas iniciais
Agradeço imensamente à Bruna Uzumaki e aninha_laurinha pelas recomendações maravilhosas. Vocês dizem que eu faço vocês chorarem e se emocionarem, mas vocês fazem isso comigo também. ♥ Obrigada. :*

"Então vocês estão mesmo se mudando."

Eu parei quando escutei a voz do Dimitri. Era irônico como nossos lugares pareciam invertidos em relação a cinco anos atrás. Era eu agora, em meu quarto, arrumando minhas malas e colocando minhas tralhas em caixas ao passo que ele aparecia na porta, com aquele olhar de quem se ressente com o que vê. Minha garganta se contraiu, e eu tive que engolir a saliva em minha boca com força para conseguir respirar.

Eu sabia que deveria ter informado para ele sobre a decisão da nossa mãe. Os últimos dias foram difíceis, principalmente para nossa mãe e nós ainda recebemos a notícia de que uma das irmãs dela, de quem Lydia era mais próxima, era portadora de uma doença que lhe dava, segundo os médicos, mais cinco anos de vida no máximo. Por que todas as desgraças tinham de vir tão juntas? Minha tia Rebeca morava em outro Estado, e nos convidou para morar perto dela e do meu outro tio. O motivo oficial do convite era porque minha mãe estava arrasada e deprimida e ficar mais perto dos irmãos lhe faria bem. A extra-oficial era porque minha tia tinha os dias contados, mas ninguém queria falar sobre isso.

Eu nunca havia visto minha mãe como agora. Nunca pensei que alguém poderia chorar tanto, todas as noites. Chorava mais do que quando meu pai morrera. Ela parecia ter perdido a vontade de viver e não parava de se recriminar, afirmando que a culpa havia sido sua: não cuidara de Fernanda na adolescência, demorara demais para tomar uma atitude em relação ao vício dela, não contratara guarda-costas o suficiente para ela, não a protegera como deveria no dia do assassinato, e a lista aumentava a cada nova hora.

A cidade para onde iríamos era maior e tinha um ginásio mais preparado para o judô, no qual eu passaria a praticar em tempo integral agora que a escola terminara. Eu não podia deixar minha mãe ir sozinha e ainda teria chances de treinar até o topo. No entanto... Dimitri não poderia vir também, porque agora havia o Alexandre para prendê-lo aqui.

Isso era também algo de que eu queria fugir. Não suportava a ideia do Dimitri ter transado com o Alexandre, e talvez já ter transado com ele novamente. Racionalmente eu entendia a situação, mas emocionalmente eu sentia um ódio corrosivo borbulhar no meu peito, e não era nem um ódio dirigido ao Dimitri, ou ao próprio Alexandre, apesar de eu querer estrangular aquele chantagista até a morte. Era um ódio sem nome, sem início ou fim, que se somava à perda de minha irmã e à perda do meu pai – que eu achava já ter superado, mas que voltava agora com força renovada.

Acima de tudo, somava-se à ideia de perder o Dimitri para outra pessoa. Ao mesmo tempo em que me assustava afastar-me dele, parecia a melhor solução para a tempestade interminável de meus pensamentos.

Era tudo tão contraditório quanto o amor pode ser.

"Desculpe. Eu deveria ter falado com você antes..." Murmurei. A verdade é que eu não havia tentado conversar com Dimitri desde a nossa briga por ele ter transado com o Alexandre. Sempre que eu o olhava, a imagem dos dois juntos se desenrolada em minhas retinas e eu tinha que desviar o olhar e segurar minha vontade de quebrar alguma coisa, bater em alguém, derramar algumas lágrimas por toda aquela condição inacreditável. Não há muito tempo eu estava na casa dele, e nós decidíamos como iríamos dar um jeito de morarmos juntos, contando com a ajuda e cobertura da Fernanda. Por que tudo tivera de tomar um caminho tão complicado?

Juntos. Fê dissera, e eu sentia estar traindo seu último pedido ao me mudar. Mas que escolha eu tinha? Obrigar minha mãe a continuar definhando nessa cidade onde tivera tantas perdas e não ficar os últimos anos com a irmã, ou deixá-la ir sozinha sem nenhum de seus filhos, algo que obviamente a magoaria até o limite de um abismo?

"Tudo bem..." Dimitri falou, entrando no quarto e fechando a porta. Minhas orelhas pareceram levantar como as de um cachorro quando escutei a porta ser chaveada. "Nós precisamos conversar."

"Aqui não é o melhor lugar. A mãe está lá na cozinha ajudando a Isabel com o almoço." Falei, continuando a pegar as roupas do armário para colocar na mochila. "Sabe, também vou sentir falta da Isabel. Ela é nossa empregada desde que eu era um pivete..." Eu sorri com as lembranças. Isabel me levava para brincar na pracinha do bairro e sempre era muito paciente com as minhas birras na hora de voltar para casa, ou minha insistência em comer picolé de uva todos os dias.

"Eu sei... Mas mesmo assim. É importante e... Mais alguns dias e você não vai estar mais aqui." Dimitri falou, sua expressão séria. Estava mais sério que o normal, e eu parei, mas sem me virar para ele, continuando de lado incapaz de fitá-lo. Sentia minha nuca arrepiada apenas pela presença dele em meu quarto, tão próximo de mim e ao mesmo tempo tão distante, como se eu nunca mais conseguisse alcançá-lo por mais que estendesse o braço.

"Ok. O que foi?" Perguntei, com a cabeça um pouco baixa. Aquele aperto no peito, de quando estamos prestes a chorar quis me dominar por inteiro, mas eu evitei fraquejar na frente dele. "Se é sobre a mudança... Eu acho que será o melhor para a mãe. E você poderá ir pra lá também, é só resolver a situação com o Alexandre... A cidade é maior, uma boate lá deve lucrar muito mais do que aqui. E eu preciso ter um preparo melhor se eu quiser ganhar a Olimpíada do ano que vem, já recebi proposta de patrocínio com a mudança." Tentei explicar rapidamente, me sentindo um imbecil, até mesmo egoísta, mas egoísta eu sempre fui.

Sussurros de que se eu amasse de verdade o Dimitri ficaria com ele até as últimas consequências, sem me importar que o mundo soubesse sempre me vinham à mente. Mas eu não conseguiria. Não conseguiria viver com as acusações da sociedade, os dedos apontados para a minha cara, o desprezo das pessoas, a decepção e nojo da nossa mãe, o prejuízo na minha carreira no judô quando ainda não havia alcançado meu sonho. A verdade era que eu não merecia alguém como o Dimitri; eu sabia disso, e ao mesmo tempo era extremamente difícil e assustador perdê-lo. De certa forma, era como se ao me mudar eu o estivesse forçando a resolver logo a situação com o Alexandre, nunca mais tocar um dedo no bastardo chantagista, e ir atrás de mim. Dimitri ter transado com outro depois de ternos nos unido sem culpa me magoara para além dos sentidos racionais.

"Não é isso. Eu já falei com a Lydia, ela me explicou tudo e também me pediu para ir com vocês... Mas não é sobre isso." Pude ver pela minha visão periférica Dimitri balançar a cabeça e passar a mão pelo rosto e pela barba que apenas lhe escurecia parte da face. "Diego, eu contraí HIV."

Foi como levar um soco através das costelas.

Eu me virei para ele, com meus lábios entreabertos. Meu coração começou a bombear forte, como se adrenalina pura houvesse sido injetada em minha circulação sanguínea, e eu mal pude respirar, me engasgando com minha saliva. Arregalei os olhos ao ver uma lágrima escorrer pelo canto do olho do Dimitri. Meu Dimitri, sempre tão forte, uma muralha, alguém que carregaria o mundo nas costas e não reclamaria nem desistiria facilmente, indo até o limite das forças. Eu contraí HIV. Eu contraí HIV. Eu contraí HIV. As palavras dele ecoaram agressivamente em algum ponto da minha cabeça, causando-me pontadas de dor de cabeça.

“O que você está dizendo...?” Murmurei, sentindo o sangue fugir de meu rosto. “Você está brincando, não é? Isso é alguma espécie de brincadeira? Porque se for, não tem a mínima graça.” Falei, irritado, finalmente encarando-o diretamente, olho no olho, esquecido de todo o resto.

“Não estou brincando, Diego... É a verdade. Eu peguei, do Alexandre. Ele enlouqueceu por causa disso, por isso vem fazendo essas chantagens e anda tão descontrolado. Desculpe também não te falar antes, mas não queria contar nada sem ter o resultado do teste... Eu precisava contar para alguém.” Ele encolheu os ombros, não aguentando e desviando o olhar, enquanto eu sentia um buraco negro abrindo-se sob meus pés, querendo devorar o que sobrava de mim. Que porra a vida estava fazendo com nós dois? Era mentira, tinha de ser.

Soltei uma risada seca.

“Está mentindo. Você está mentindo, sei que está.” Falei, com convicção, e me irritei ainda mais quando Dimitri franziu as sobrancelhas, como se sentisse dor, ou se impedisse de chorar, seus olhos ainda distantes do meu. Eu me aproximei dele e o agarrei pela camisa, puxando-o para perto como se quisesse levantá-lo do chão, mesmo sendo menor. “Está mentindo, caralho! Fala a verdade, Dimitri! Você não está com HIV! Não pode estar, por favor... Chega de tanta merda, chega... Isso não...” Minha voz começou a faltar, mas minhas mãos o agarraram com ainda mais força, sacudindo-o para que me encarasse com seus olhos negros. “Dimi...?”

“É a verdade, Diego. Peguei o resultado do teste essa manhã, deu positivo. Ainda é necessário outro de confirmação, mas... Desculpe.” Ele tentou me segurar pelos ombros, sua voz ainda mais quebrado do que a minha. Eu balancei a cabeça. Por quê? Por que justo o Dimitri? Como o mundo poderia ser tão injusto num espaço tão curto de tempo? Não consegui me impedir de chorar. Não queria chorar, pois isso não ajudaria Dimitri em nada, apenas o faria sentir-se pior, mas um medo irracional de que ele pudesse morrer me tomou, deixando-me em pânico. Em um segundo, eu estava chorando descontroladamente, pior do que todas as vezes em que havia chorado.

Ouvi a voz dele tentando me acalmar, mas não adiantou. Seria muito mais fácil se fosse eu com a doença, não o Dimitri. Eu queria arrancar todo o sangue dele, e ele ficaria com o meu, faríamos uma troca. Eu devia algo assim a ele, por todas as vezes em que ele já havia cuidado de mim. Quando tentei dizer isso a ele, Dimitri me abraçou tão apertado que achei que iria sufocar, asfixiando-me com meu choro e com a força de seus braços ao redor de mim.

“Não posso te deixar...” Falei, sentindo minha cabeça girar, mesmo que ele houvesse apoiado a testa na minha e tentasse me acalmar com os sibilos que alguém faz para acalmar uma criança ou bebê quando eles choram. “Não vou me mudar, vou ficar aqui com você. Eu-“

“Não, Diego. Eu não quero que você fique.” Dimitri murmurou, e eu o olhei através das minhas lágrimas, perplexo porque ele falava extremamente sério. “Eu não quero que você fique aqui. Eu quero que você se mude com a Lydia, ela também precisa de você e... Eu tenho coisas para fazer por aqui.” Ele disse resoluto, numa maneira autoritária de irmão mais velho que muitas vezes já me irritara. Era um contraste forte entre seu abraço carinhoso e seu tom irrevogável.

“Mas-“

“Não discuta comigo. Você vai e acabou.” Ele determinou, me olhando. O peso de seus olhos negros me calou, enquanto eu tentava compreender, confuso, atrapalhado com meus pensamentos. Sem conseguir dominar as palavras, me irritei e comecei a me debater, furioso com ele, com o maldito HIV, com o Alexandre, com tudo. Se Deus realmente existisse, era o cara mais filho da puta que eu jamais conheceria, pois preferiria ir para o inferno a subir aos céus e encontrar o desgraçado.

“Filho da mãe! Por que vem me contar tudo isso, pra depois me mandar embora como se não fizesse diferença pra você?” Perguntei, com minha voz começando a se alterar, o que poderia atrair a atenção da nossa mãe. “Como pode me deixar ir tão facilmente?! Eu estar ou não do teu lado não faz porra de diferença pra você?”

Eu fui calado antes que acabasse acertando um soco nele. Dimitri me beijou com força, me desnorteando com seu ataque repentino. Sua boca grudou-se à minha e sua mão me puxou pela nuca, forçando-me a me render por completo, calando-me com uma urgência que beirava a brutalidade. Eu ofeguei, não conseguindo me mexer dentro da prisão que ele criara com seus braços. Isso deu a ele a oportunidade de aprofundar ainda mais o beijo, até o ponto em que minha cabeça era forçada para trás, e eu a sentia girar, meu corpo queimar e minha excitação me corroer.

Consegui me mover apenas o suficiente para puxar Dimitri mais contra mim, gemendo ao sentir sua ereção pressionar-se contra meu abdômen e sua coxa roçar entre minhas pernas. Nós andamos quase aos tropeços pelo quarto até que caíssemos na cama, ainda nos puxando, parecendo mais em meio a uma briga que envolvia língua, pernas, braços e lábios, do que simplesmente aos beijos. Nada parecia o suficiente, cada toque apenas despertava mais e mais daquele desejo sofrido que se misturava com o medo de vivermos afastados. Dimitri soltou meus lábios e sua boca caiu em meu pescoço, mordendo-me forte, arrancando-me um gemido de dor enquanto eu apertava os olhos e então ofegava ao sentir a mão dele apertar-me entre as pernas.

“Dimi...” Gemi, e me parecia óbvio onde aquilo iria acabar. Não importava que ele tivesse HIV, era só colocar a droga da camisinha. Não seria isso que me afastaria dele, tudo que eu mais queria naquele momento era saciar aquela fome que tínhamos um do outro e matar a saudades de seu corpo, seu calor, seus toques...

Porém as batidas na porta nos separaram abruptamente.

“Meninos?” Nossa mãe chamou do outro lado da porta, e nós nos levantamos rápido, tentando colocar nossa aparência em ordem. Quando eu abri a porta, o olhar da Lydia desviou-se para meu pescoço, e eu gelei, com o coração agitado, mas ela logo voltou o olhar para o Dimitri, indagando qualquer coisa, e eu me perguntei se não teria imaginado aquilo.

Pouco depois Dimitri foi embora, sem me olhar, sem dizer nenhuma palavra, deixando-me mais confuso e perdido do que antes. Eu caminhava por um campo minado enquanto minha pele queimava pelo sol que viera forte demais.

E sentia saudades da chuva.

XxX

No dia seguinte tive um dia de despedida com os amigos, principalmente com Jady, minha amiga mais próxima. Ela chorou nos meus braços, não acreditando naquela separação. Ela havia terminado com a namorada, o que contribuía para o ânimo sensível. Jady também se mudaria de cidade, passara no vestibular para medicina numa federal, em outro Estado, o que nos deixaria imensamente distantes quilometricamente falando. Senti que era outra pessoa especial que eu perdia, apesar de ser um perder diferente.

“Prometa que vai ligar, mandar cartas, estar sempre online no facebook quando eu precisar de ti?” Jady perguntou, ainda chorosa, mas com um sorriso leve no rosto.

“Mandar cartas? Que ultrapassado.” Discordei. “Mas pro resto, vou estar disponível.”

“Acho bom, loirinho. E não se esqueça de mim quando ficar ainda mais famoso pelo judô.” Ela exigiu, beliscando minha barriga, uma mania que ela não perdia desde que éramos pivetes. Não contei a ela sobre meus problemas, já que ela nem sabia sobre Dimitri e eu. Não a incomodaria com isso; tinha medo de suas reações, de qualquer forma.

No último dia antes da mudança, fui encontrar o Viktor. Eu não esperava que ele me recebesse bem, mas sentia saudades dele e, depois do perdão dele no hospital, eu queria vê-lo ao menos uma última vez. Sabia que dali um tempo ele iria para a Alemanha com o Afonso, e talvez nunca mais nos víssemos, eu não tinha como saber. A perspectiva era triste por mais que eu ficasse contente por ele ter se arranjado com o Afonso, que parecia ser um cara bem legal.

“Diego?!” Viktor perguntou surpreso ao atender a porta do lugar em que estava morando com o Afonso. O ruivo parecia melhor, seu rosto parecia mais vívido, sem a sombra que sempre parecia pairar sobre ele. “Aconteceu alguma coisa?”

“Podemos conversar?” Perguntei, com as mãos no bolso, um pouco constrangido por ir atrás dele depois de tudo. “Se não quiser, eu entendo...”

“Não seja idiota.” Viktor suspirou. “Não tem ninguém na casa... Acho que não tem problema se você entrar um pouco.” Ele disse e abriu espaço para que eu entrasse. Nós fomos para sala e nos sentamos no sofá. Ele ficou me olhando, esperando que eu falasse algo.

“Eu acho que queria me despedir, sabe. Ainda é difícil pensar que nunca mais vou te ver, depois de termos ficado tão próximos.” Comentei, juntando minhas mãos, sem saber muito bem como continuar. Viktor se aproximou um pouco e tocou de leve meu rosto.

“Nunca mais é muito tempo, Diego.” Ele murmurou, com seus dedos indo para os meus cabelos. “Eu vou sentir saudades.”

“Eu também.” Garanti.

“Sim. E agora me conte o que aconteceu. Você parece péssimo.” Ele exigiu, continuando com o carinho. Eu segurei seu pulso e puxei sua mão pro meu colo, começando a mexer nos dedos dele. A mão do Viktor era pequena, meio feminina. Eu gostava das mãos dele, eu gostava dele inteiro, e ainda era estranha a ideia de não seríamos mais tão próximos.

“Meu irmão está com HIV.” Sussurrei aquele segredo que me degradava a alma. Olhei para Viktor e o vi com a expressão surpresa. Assim que ela passou, Viktor imediatamente se aproximou mais e me abraçou pelo pescoço.

“Sinto muito...” Murmurou, não soando falso. “Vocês não mereciam passar por mais isso.”

“Engraçado você dizer isso. Você passou por tanta coisa.” Eu falei e o puxei para o meu colo. O rosto de Viktor avermelhou por isso, e eu sabia que não deveria mais fazer aquilo, mas mesmo assim o abracei, com carência. “Desculpe.” Sussurrei, conseguindo ouvir o coração dele bater forte ao descansar minha cabeça em seu peito magro. Ele havia emagrecido mais alguns quilos desde a tentativa de suicídio.

Eu esperava que ele nunca mais tentasse algo assim.

“Tudo bem.” Ele sussurrou, mas notei os pelinhos de seu braço arrepiados.

“Você ainda sente desejo por mim?” Perguntei, segurando seu braço, com certa curiosidade. “Você não está apaixonado pelo Afonso?”

“Não faça isso, Diego.” Ele pediu, tentando se afastar, mas eu o segurei. Não sabia por que, eu deveria simplesmente soltá-lo, mas não queria, porque não nos veríamos novamente e ele seria mais alguém que eu perderia. Viktor suspirou para a minha resistência. “Eu estou sim apaixonado pelo Afonso, mas você acha que o que eu sentia por você simplesmente desapareceria em pouco mais de um mês? Você ainda mexe comigo. Satisfeito?”

“Você também mexe comigo. Desculpe.” Eu o soltei, culpado. “Sou um babaca, só estou carente e, sei lá, tudo parece estar errado. Tudo dói e é tão difícil... Eu vou me mudar também, e o Dimitri não vem comigo.”

“Eu sei. Afonso me contou sobre o Alexandre. Ele vem tentando conversar com o garoto para convencê-lo a ir atrás de ajuda. Parece que os pais dele não sabiam sobre ele ser gay. O pai dele é do exército, daqueles homens brutos e conservadores, e a mãe também é conservadora. Ele deve estar com medo de acabar sozinho quando descobrirem que além de gay, é aidético. Ele ainda depende dos pais porque o dinheiro que ele ganha como estagiário é muito pouco e vem tentando passar em algum concurso público desde que se formou na faculdade. Afonso diz que ele está perdido, sabe. Eu consigo entender. Claro que sou contra as chantagens, mas... Bem, Dimitri parece que também vem tentando ajudá-lo.” Viktor falou, como sempre falando demais e mordendo o lábio em seguida.

“Ajudá-lo transando com ele. E ficando doente também.” Eu apertei os punhos, desgastado. “Ainda não consigo acreditar nisso tudo. Às vezes ainda volto pra casa acreditando encontrar a Nanda por lá, e minha mãe contente por a filha estar tocando a vida... Noutras sonho com os planos que eu e o Dimitri tínhamos. Mas agora ele parece que também não me deixa chegar perto...”

Me joguei para trás, abrindo meus braços sobre o encosto do sofá e olhei para o teto. Dimitri se afastara de mim de uma forma absurda, eu não consegui encontrá-lo de jeito nenhum dos últimos dias, e seriam os últimos dias em que moraríamos na mesma cidade, em bairros próximos.

“Você nunca pareceu enojado por eu ter uma relação com meu irmão.” Comentei, trocando de assunto.

Viktor se aproximou e se aconchegou contra meu corpo.

“Não sei explicar. Não pareceu importante, sabe. Eu sei que as pessoas condenam, mas as pessoas condenam tantas coisas, e será que estão certas? Eu acho que não, acho que a maioria das coisas que condenamos é pura idiotice. Quando minha ficha caiu, eu sei lá, eu só pensei que não havia chances para mim, porque o laço de vocês é muito forte, mais forte que qualquer coisa... Eu fiquei triste, mas ao mesmo tempo mais conformado do que ficaria se fosse outra pessoa qualquer, que não o Dimitri.” Viktor deslizou o dedo pelo meu abdômen, em silêncio por alguns instantes. “Por isso eu acho que vocês ainda vão ficar juntos, mesmo tendo que enfrentar tantos problemas. Eu torço por vocês. Sei que isso pode soar falso, mas é a verdade. Eu torceria por vocês mesmo se não tivesse conhecido o Afonso, porque eu posso ser louco, mas não sou daqueles maníacos ao estilo ‘se você não pode ser meu, que não seja de ninguém!’.” Viktor falou, debochado. Eu ri primeiro, e ele acabou se juntando a mim. Eu o abracei novamente e o beijei na bochecha, no pescoço, e voltei a abraçá-lo, em busca de conforto.

“Você não tem medo do futuro?” Sussurrei. “Digo, de ir pra Alemanha, mas não dar certo com o Afonso?”

“Tenho...” Viktor murmurou, com um suspiro. “Mas o Afonso me explicou que não vale à pena temer o futuro, e sim viver o presente, sem perder as oportunidades. Se eu não for com ele, nunca saberei se dará certo ou não. São justamente esses medos que estragam nossa vida e nos fazem perder inúmeras oportunidades, então eu tento não pensar nisso.”

“Eu realmente vou sentir saudades de você.” Comentei, achando-o mais maduro, muito mais maduro que eu, aliás. Bem, meu aniversário seria dali três dias e eu teria então dezoito anos. Seria maior de idade, quase um adulto. Era hora de parar de agir infantilmente. Ainda assim, eu e o Viktor nos despedimos com um beijo na boca. Era nosso último – uma despedida carinhosa e calma que me doeu, mas ao mesmo tempo aqueceu enquanto eu segurava gentilmente seu rosto, e ele apertava de leve minha cintura.

XxX

“Eu não acredito que bem hoje vai chover. É tão ruim dirigir com chuva!” Minha mãe comentou, desgostosa. Havia olheiras salientes sob seus olhos, denunciando as noites mal dormidas. “Ah, seria tão bom se o Dimitri viesse também. E onde ele está que ainda não apareceu para se despedir?”

Eu olhava para a placa em frente à nossa casa, com os dizeres ‘Vende-se’. O dia estava mesmo nublado e depressivo, o clima abafado. Seria outra tempestade de verão, ou talvez ficasse apenas na ameaça. O carro já estava carregado. Nós pegaríamos o avião, o resto das bagagens já haviam sido enviadas em um avião de carga para lá.

“Talvez ele não venha se despedir.” Falei, decepcionado. Ainda imaginava que Dimitri apareceria e me impediria de ir, numa fantasia que não era nada madura. Eu me arrependi de falar isso ao ver a expressão triste da nossa mãe.

Fui até ela e a amparei.

“Eu não queria me despedir de outro filho. Sei que Dimitri vai continuar vivo, mas... Ah, eu sei que estou sendo contraditória, mas eu preciso sair desse lugar. Toda vez que olho para aquela sala, relembrava os momentos com aquele assassino, ele atirando na Fernanda...” Os olhos da Lydia se encheram de água, mas ela piscou, recompondo-se. “Eu quero um recomeço, ou senão irei desabar. E tem também a doença da Rebeca... Sei que é egoísta te pedir pra vir comigo-”

“Não, não é!” Afirmei, abraçando-a e a beijando na testa, como era costume dela fazer comigo. “Eu te amo, mãe. Eu quero o seu bem, e nunca iria te deixar sozinha num momento desses.”

“Mas seu irmão-” Ela falou.

“Eu vou ficar bem.” Nós ouvimos a voz do Dimitri e nos viramos na direção dele. “Desculpe, me atrasei.” Ele caminhou até Lydia e a abraçou, desculpando-se por ficar para trás. “Quando eu resolver alguns problemas, eu vou ir ter com vocês, e nós vamos voltar a estar próximos. Eu prometo, mãe.”

Ao ouvir-se sendo chamada de mãe, Lydia tapou a boca e desabou, deixando-se abraçar por Dimitri, que a acolheu, com a expressão ainda séria, firme, ainda que carinhosa. Só naquele momento eu notei que há anos ele não a chamava assim, era somente o nome Lydia que saía de seus lábios. Eu os observei, também emocionado com a cena e, quando eles se separaram, Dimitri pediu um momento a sós comigo. Nossa mãe o beijou na bochecha e foi para o carro, entrando primeiro.

Eu olhei para Dimitri, me sentindo fraco, enquanto ele voltava a ser a muralha que eu sempre usara como proteção, deixando que me cercasse e protegesse do mundo exterior. Antes que eu dissesse qualquer coisa, Dimitri se aproximou e me abraçou – um abraço que não parecia querer me deixar ir e ao mesmo tempo se obrigava a isso, a ter de me soltar eventualmente.

“Por que eu tenho que ser tão egoísta?” Sussurrei perto do ouvido dele. “Se eu não fosse, poderia dizer ao Alexandre para que contasse tudo, que apenas ter você me já me basta... Eu não quero te deixar para trás, só que eu também não suporto te ver com o Alexandre, nas mãos dele. Sinto que vou estourar com tudo isso.” Agarrei-me à camiseta do meu irmão, mal sentindo a ponta dos dedos pela força que usava. Nem comentei o fato de ele ter HIV, relembrar isso em palavras seria ruim como engolir pedras. “Você tem certeza de que ama alguém como eu?”

Dimitri riu, como se achasse minha pergunta absurda.

“Eu quem seria egoísta ao pedir que perdesse tudo só para ficar comigo, Diego. Eu quero que você tenha tudo. E você me tem também, sempre vai ter. Eu não sou de mais ninguém. Só me dê algum tempo, eu vou resolver tudo e, se você puder me perdoar, vamos ficar juntos de novo, sem ninguém para nos atrapalhar... Por enquanto você cuide da Lydia e de você mesmo, e eu cuido do resto.” Sussurrou de volta, surpreendendo-me com aquilo, já que me evitara nos últimos dias, e eu já não sabia mais o que aconteceria com nós dois; se não havíamos nos magoado demais para voltar àquela felicidade momentânea, mas inesquecível que tivemos, após minha formatura.

“Eu vou te perdoar quando você estiver comigo e não houver mais nada para nos separar.” Falei, rouco, no ouvido dele.

“Então espere por mim, porque irei atrás do seu perdão o quanto antes.” Ele prometeu, e aquilo me derreteu.

Eu esperaria pela eternidade, se fosse necessário, se precisássemos de várias vidas até que conseguíssemos ficar juntos. Me sentia tão dramático e romântico ao pensar nisso, mas não deixava de ser a mais pura verdade. Desde que eu descobrira e entendera meus sentimentos por Dimitri, nada nem ninguém poderia superar aquele sentimento, aquela entrega e cumplicidade. No fundo ele era um tolo por achar que precisava mesmo de algum perdão. Eu só precisava dele, de nós dois juntos, sem nenhum impedimento, nenhuma culpa, nenhuma chantagem e nenhuma mágoa. Talvez fosse pedir demais para dois irmãos incestuosos, mas era um dos sentimentos mais sinceros que poderia existir em mim, drama ou não.

Quando entrei no carro, os pingos de chuva já banhavam os vidros. Olhando para trás, vi Dimitri tornando-se menor a cada minuto em que o carro avançava; ele sumia aos poucos, desaparecendo como um desenho em um papel que se molha e deteriora, até que sobre apenas...

A cor da chuva.

I'm here without you baby
But you're still on my lonely mind
I think about you baby
And I dream about you all the time
I'm here without you baby
But you're still with me in my dreams
And tonight, it's only you and me

The miles just keep rolling
As the people leave their way to say hello
I've heard this life is overrated
But I hope that this
gets better as we go...

– Here Without You, 3 Doors Down.

Notas finais
E este é o fim!..........BRINKS, CLARO QUE NÃO! OIAJSAOIJSAOSAOIPSJAOPSA Não me maaaaaaaaaatem! Eu nem vou comentar sobre a questão do HIV, vou ignorar todos os xingamentos e falar disso só no próximo capítulo. ♥ Mas podem me xingar à vontade, eu sei que mereço. IJAIOAJAAOI Vocês devem estar com uma puta raiva do Diego por ir embora, mas pior que eu entendo o coitado, nossa, é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e estar dividido entre tantas coisas, ser egoísta e altruísta ao mesmo tempo, dependendo do ponto de vista... E o Dimitri ainda mandando ele ir embora. Enfim, pobrezinhos dos meus chuchus. 'Tá na hora de eu ser boazinha com eles. ILJAIAJIOAIOA Obrigada a todos que comentaram cap. passado: Taia, Bruna Uzumaki, Aiko, Álefe, Lilian Hummel, Nath, Mary, Milla Bueno, Rafaella Lima, Duque de Orion, konichiwaclara, Selene, Nanda chan, Lucca James, AlguemQualquer, Sally Black, Luisa Silva, giiihsiqueira, Angel Rose Black, Lucy Yuki, Nutella, Swoon, Lyla e Guima!Fui ♥