A Cor Da Chuva

11 Capítulo 10


Notas iniciais
Dedico o cap. à Dark Lace, que recomendou, e me arrancou um sorriso enorme. *.*
.
Também queria agradecer á Sumie pela ajuda com a fic! Me ajudou muito, really. ;*

“O celul-“ Tentei dizer, mas Dimitri voltou a me beijar, sedento, sorvendo meus lábios com uma fome que me assustou. Eu tentei empurrá-lo, porque o som daquele aparelho tocando repetidamente deixava-me nervoso. Era como o mundo chamando, nos espionando através da chuva e nos mandando parar com seu barulho intermitente e angustiante. Dimitri pressionou-se entre as minhas pernas, forçando o corpo contra o meu, e sua mão puxava minha nuca enquanto a outra agarrava a minha coxa.

No começo, foi bom, era o que eu queria, sentir seus lábios, o calor conhecido, as mãos que já haviam me acalentado nos momentos mais difíceis. Mas aos poucos as sensações foram mudando, minha mente perdeu o foco e se perdeu em memórias difusas da noite anterior. Dimitri não pareceu perceber o momento em que comecei a suar frio, minhas mãos a tremer de encontro ao seu peito, ou em que instante não consegui mais corresponder ao beijo.

“Dimitri, es-“ Tentei pedir, contorcendo-me, mas meu irmão parecia fora de si, tomado por uma luxúria antiga, disseminada por seu corpo e mente, que o fazia seguir os instintos da carne. “Eu não-“ Eu não consigo. Para. Eu me sentia, de súbito... Sem controle. Sem controle do meu corpo, sem controle da situação, e isso era apavorante. Dimitri largou minha coxa e, no instante seguinte, colocou a mão entre as minhas pernas, apertando meu membro.

Comecei a ofegar e me remexer debilmente, com lágrimas me vindo aos olhos. Vou ser violado de novo. Pensei, entrando em pânico, enquanto Dimitri descia os lábios e mordia meu pescoço. Era loucura, era meu irmão, não aquele bastardo do Bernardo, mas, mesmo quando não havia sido o Bernardo, havia sido o Dimitri. Eu estava drogado, sem controle, perdido. E continuava da mesma forma... E o maldito celular não parava de tocar. Eu queria arrancar fora meus tímpanos. Queria empurrar Dimitri. Queria sumir. Queria gritar. Socar. Lutar. Chorar. Fugir. Escapar para uma dimensão onde eu não sentisse tanta dor emocional. Onde tudo fosse simples. Tão simples quanto uma semente que desabrocha na terra.

Eu havia me tocado pensando no Dimitri. Por que agora meu corpo o rejeitava? Não fazia sentido. Nada fazia. Eu me sentia mais frágil a cada carícia de sua língua na minha pele, e seu membro rígido contra o meu – que não demonstrava a mesma animação – me deixava nervoso e assustado. Sem sentido. Sem cor. A chuva cedia na janela.

“Diego?” Ele finalmente pareceu perceber meu estado, parando lentamente e erguendo o rosto para me encarar. Seus olhos estavam enegrecidos, e ele tentou tocar meu rosto, mas eu virei a cara, apertando os olhos e mordendo o lábio. Seria ridículo chorar naquele momento. Eu não queria magoá-lo, tampouco. Eu te amo, Dimi, mas não dá.

“É errado.” Murmurei, agarrando firme sua camisa no peito. “Não... Não posso. Eu não consigo.” Falar era difícil, pela maneira como eu ofegava.

“Não!” Ele replicou, cortante, me fazendo olhá-lo sobressaltado. Segurou meu rosto num súbito desespero, aproximando-se novamente. “Não, não faz isso, Diego. Não é errado. Você quer isso também, não precisa ter medo. Sou eu, não sou? Eu quero estar com você, quero cuidar de você. Por que isso é tão errado? Por favor, Diego, entende...”

Dimitri voltou a tentar me beijar, dessa vez com um desespero que beirava a agressividade. Seus lábios, suas mãos que não queriam me deixar escapar... Era um lado dele que eu desconhecia. Um lado que ele escondia de mim...? Desde quando você é assim, Dimitri? Desde quando não cede às minhas vontades? Eu voltei a me debater, debilmente, sentindo que iria estourar. Meu coração batia mais rápido do que eu poderia lembrar, e aquela febre fria me desnorteava, deixava-me tonto. Eu estava com medo, e não sabia exatamente do quê.

“Não... Para, Dimitri. Para! Eu não quero isso!” Fugi de seus lábios e pedi me encolhendo, mas havia o chão, duro e inexorável, atrás de mim. As lágrimas terminaram de brotar em meus olhos e escorrer. Imagens do Bernardo ameaçando me estuprar, seguidas daquelas em que meu irmão entrava e saía de dentro de mim, enquanto eu me sentia cego pela chuva e pela culpa, entorpecido pela droga, me assaltavam como navalhas, pinicando a pele para rasgá-la pouco a pouco, e eu tremia descontroladamente. “Por favor...”

“Calma. Diego, calma. Sou eu, eu não vou te machucar.” Tentou me abraçar e beijar meu rosto repetidas vezes, arrancando-me um lamento, sua mão acariciando meus cabelos numa tentativa falha de me acalmar, porque ele continuava sobre mim, e eu precisava de espaço. “Por favor, não se culpe.” Disse e me beijou de novo.

“Nnnnão.” Disse abafado, contra sua boca, debatendo-me mais, ou pensando que me debatia. Ele não era agressivo, não me machucava, não fisicamente. Parecia apenas tentar me acalmar com um beijo cálido, as mãos subitamente mais gentis em meu rosto e nuca. O celular havia parado de tocar, e eu poderia empurrá-lo facilmente, se não me sentisse tão frágil, mas não precisei fazer nada. Dimitri foi empurrado por outra pessoa no momento seguinte.

“ELE NÃO QUER, IDIOTA!”

Eu puxei o ar, reconhecendo aquela voz, mas não conseguindo acreditar. Abri os olhos e vi a Fernanda, ofegante, molhada e com os olhos avermelhados, parada em pé ao nosso lado, apertando os punhos. Dimitri estava caído ao meu lado, também a encarando em espanto.

“N-Nanda...” Murmurei estupidamente quando ela se ajoelhou ao meu lado e me puxou, me ajudando a sentar, assim como me afastar do meu irmão.

“Meu Deus. O que você fez com ele, seu doente? Ele está pálido e tremendo! Como pôde fazer isso?! É teu irmão, seu escroto!!! Se gosta de homens, o problema é teu, vá atrás deles e os coma, ou dê a bunda se preferir, mas não faz isso com o teu irmão!” Ela gritou, com a voz trêmula, e suas mãos estavam terrivelmente frias, a água da chuva escorria dela para mim.

Dimitri se levantou, ficando mortalmente sério.

“Não... Não é bem assim, Fernanda.” Tentei dizer.

“Como entrou aqui?” Dimitri interrompeu. Ele me olhou e tentou se aproximar para me ajudar a levantar, mas a Fernanda o afastou com um tapa que apenas piorou a expressão dele.

“Não toca nele.” A própria Fernanda me ajudou a levantar. Ela me fitou assim que estávamos de pé, e tocou meu rosto de uma maneira que me assustou, porque não lembrava de receber nenhum toque carinhoso – fraternal – da parte dela. “Você está bem?”

“SIM! Ele está bem!” Dimitri perdeu a paciência. “Mas que droga, Fernanda, diz como e o que você veio fazer aqui?”

“Peguei a senha do elevador na recepção, anos de drogada ao menos serviram para me ensinar a ter boa lábia. Vim até aqui porque estava precisando de ajuda, ok?!” Ela gritou em retorno, virando-se para o Dimitri. “A mãe estava surtando porque o bosta do traficante com quem eu namorei anda atrás de mim, e eu não aguentava mais as tagarelices e berros dela. Eu precisava de ajuda, e hoje em dia a única ajuda que eu tenho seria a dos meus irmãos... Antes eu correria para os malditos drogados que eu considerava meus amigos, mas agora... E aí encontro... Vocês... Não entendo...” A voz dela começou a falhar no final, e ela caiu sentada no sofá, tapando o rosto com as mãos. “O que estava acontecendo aqui...?”

Nos dois ficamos em silêncio. Olhei para Dimitri, e ele me encarou em retorno, com dor no olhar negro. Parecia me perguntar por que eu o rejeitara, depois de beijá-lo por vontade própria. Droga, Dimi, nem eu sei... Não me olha desse jeito, ou eu que resta inteiro em mim vai terminar de quebrar.

“Eu enfrento qualquer coisa por você.” Dimitri murmurou agora beijando meu pescoço e eu inclinei minha cabeça para o lado, fechando os olhos. “Eu encaro a nossa mãe, a sociedade, qualquer coisa. Eu faço qualquer coisa, se você também quiser, Diego. Eu te amo...”

Só se eu quiser...

O que você quer que eu diga, Diego? Ele parecia me perguntar agora, e meus lábios se entreabriram, buscando mais ar. O que poderíamos dizer? Não me parecia possível explicar nada. Há no mundo tantas coisas que não podem ser explicadas, parecia melhor deixá-las apenas na sugestão de um olhar.

“FALEM ALGUMA COISA!” Fernanda exigiu, erguendo o rosto e gritando. “Falem, ou eu conto tudo que vi para a mãe. E aí, quem vai ser o filho problemático, huh? A ex-drogada, ou o irmão incestuoso que agarra o caçula enquanto ele chora e se debate, hein, Dimitri?” Olhou para Dimitri com os olhos ainda mais avermelhados.

“Fernanda... Você não precisa se preocupar comigo.” Eu falei. Estava surpreso, porque ela não me atacava com palavras, ao menos, não diretamente, ou conscientemente. Aquelas coisas me machucavam também, mas não era a intenção dela. Mais lágrimas escorreram do canto dos meus olhos, sem que eu mal percebesse. Fernanda se levantou com suas próprias lágrimas se formando em seus olhos.

“Por que você não me vê como uma irmã, é isso? Então não preciso me preocupar, não é? Só quem precisa se preocupar contigo é o Dimitri. E é só contigo também que ele se preocupa! Sempre foi assim! Vocês dois juntos, fechados um para o outro, e o resto do mundo que se exploda. Até a mãe já reclamou disso algumas vezes, sabia? Quando vocês não estavam por perto. E o que ela diria disso tudo?”

Dimitri avançou até a Fernanda e a agarrou pelo braço.

“Se você contar a ela...”

“Você vai fazer o que, huh? Mandar que ela me interne de novo, mesmo depois de eu suplicar para que não me colocassem naquele lugar? Mentir que ando me drogando novamente, só para que ela não acredite em mim?” Fernanda abaixou o rosto e pôs-se a chorar um pouco mais, e Dimitri afrouxou a força com que lhe segurava o braço. “Eu sempre tive ciúmes da relação de vocês... Mas agora... Eu sinto nojo. Você sente desejo pelo Diego, por isso ele sempre foi teu preferido!”

Dimitri pareceu tão furioso, que a soltou e socou a parede mais próxima, com um urro de raiva. Eu estava inerte em meio a briga dos dois. Ele se voltou novamente para ela, com o punho sangrando, a pele esmagada contra os ossos.

“Eu convenci a Lydia a te internar porque era o melhor para você! E quantas vezes eu não fui atrás de você, cuidei de você, deixei você chorar no meu ombro até adormecer? Se nossa relação não é das melhores, é por causa das tuas escolhas, as tuas atitudes. Você sempre repudiou e afastou todo mundo enquanto se drogava, e agora acusa os outros de te deixarem de lado. Deixe de ser tão egoísta e egocêntrica, e pare de falar merda sobre o que você não sabe!” Dimitri despejou. “Você é minha irmã, sempre tentei cuidar de você. Mas não sou o superman, ou qualquer desses heróis de quadrinhos. Eu erro também. Estou longe de ser perfeito, como qualquer pessoa...”

“Coisas que eu não sei? Eu sei o que eu vi! Você estava agarrando o Diego à força. Até onde eu sei, isso é mais do que um erro qualquer!” Fernanda rebateu. Ela nunca havia sido de ‘deixar barato’. Até aquele momento eu estava apavorado e tenso demais para me impor, mas tive de me forçar a defender o Dimitri. Mesmo que ele estivesse me agarrando à força. Eu havia nos colocado naquela situação. Se eu não houvesse mudado em relação ao Dimitri, teríamos continuado o mesmo de sempre. Era minha culpa.

Eu que o beijei primeiro. Nas duas vezes. Percebi.

“Chega, Fernanda. Não é culpa do Dimitri. Eu fiz coisas que não devia... E nós acabamos ultrapassando um limite que não podíamos. Mas acabou aqui. Não julgue ele, por favor. Fui eu... Eu confundi as coisas. Sempre idolatrei o Dimitri, desde que o pai morreu, eu o transformei num porto-seguro, tentei seguir os passos dele, fazia de tudo para orgulhá-lo. Desculpa se eu esqueci de ser um irmão para você e só tinha olhos pro Dimitri. Eu cheguei a confundir tudo, mas... Mas foi só um lapso. Acabou.” Ao mesmo tempo que me dilacerava falar aquilo, poderia ser uma verdade tão grande que eu me sentia aliviado.

“Diego...” Dimitri tentou segurar meu braço, seu tom incrédulo. Eu me afastei e o olhei em agonia.

“É isso que você ouviu, Dimitri. Me desculpa por confundir as coisas. Me desculpa por estragar tudo. Mas olha, não dá! Você está vendo a cara da nossa irmã? Ela está com nojo da gente, e as outras pessoas, hein? E todo o resto do mundo? Isso só é certo enquanto formos irmãos e só, entendeu?” Minha voz saiu alterada. A Fernanda ficou abrindo e fechando a boca, olhando de um para outro, tentando entender o que realmente acontecia ali.

“Mas eu vi...” Ela começou a dizer, mas Dimitri a interrompeu.

“Fernanda, cala a boca!” Ele a mirou com ódio, que a fez dar um passo em falso para trás. Era aquela expressão do Dimitri que se via raramente, uma que parecia capaz de serrar todas as intenções de alguém de ir contra ele. “Você já atrapalhou mais do que poderia atrapalhar para um único dia. Vai embora, que eu preciso conversar com o Diego.”

“Não! Quem vai embora sou eu. Eu vou contigo, Fernanda.” Falei. Não podia ficar sozinho com o Dimitri naquele apartamento. Deus, eu perderia de novo a sanidade. Eu já a sentia escorrendo pelos meus dedos, e tudo que eu queria era um pouco de paz daqueles sentimentos tormentosos. Eu segurei o braço da Fernanda e a puxei comigo em direção ao elevador, mas o Dimitri fez o mesmo comigo, aproximando-se para sussurrar no meu ouvido.

“Não vai embora assim, Diego. Você sabe que a gente precisa conversar. Eu entendo que você está confuso e com medo, e que a Fernanda não poderia ter aparecido em momento pior pra jogar a bomba do preconceito sobre nós, mas, por favor, não faz isso com a gente...” O tom dele me fez fechar os olhos e querer voltar a chorar, resmungar, tremer. Era difícil deixá-lo, era difícil ficar também. Só de pensar no que poderia acontecer se ficássemos sozinhos, eu ficava nervoso e receoso, e todas aquelas sensações de impotência e fragilidade me agrediam bem lá no fundo, num lugar que eu nem sabia onde era.

Eu me soltei dele e puxei a Fernanda comigo para o elevador. Dimitri não tentou nos impedir, mas nós dois nos sobressaltamos com o barulho contra as portas assim que elas fecharam. Dimitri devia ter batido nelas, socado ou chutado. Lembrei de sua mão sangrando e senti necessidade de voltar para cuidar daquele ferimento, mas não fiz nada, apenas me apoiei no espelho que havia ali e olhei para o chão. Um silêncio pesado se instaurou entre eu e Fernanda.

“Eu não vou contar nada para a mãe.” Ela murmurou quando o elevador parou no térreo, e antes das portas abrirem.

“Obrigado...” Sussurrei em retorno. “Tem dinheiro pra um táxi?”

“Tenho.”

Nós pegamos um táxi em frente ao prédio e fomos para casa. No meio do caminho, recebi uma ligação da Lydia, ela estava escandalosa, dizendo que já havia ligado pra Fernanda, para o Dimitri, e ninguém a atendia.

“A Fernanda está comigo, mãe. Estamos voltando pra casa.” Disse e desliguei. Fingia que estava com a mente em branco mas, naquele momento, eu pensava que seria melhor se eu e Dimitri não nos víssemos por algum tempo. Assim, quem sabe, o tempo nos transformasse no que éramos antes.

Apenas irmãos.

Apertei os olhos e abafei o choro. Não aguentei e descansei meu rosto no ombro da Fernanda, que estranhamente não reclamou e pôs-se a acariciar meus cabelos, naquele mesmo silêncio de antes.

XxX

Nossa mãe nos assaltou assim que chegamos em casa.

“Você ficou louca, Fernanda?! Aquele cara te perseguindo, e você sai de casa assim, sem ninguém?! Como você pôde esconder isso de mim, sobre esse teu ex-namorado perigoso? Nós precisamos ir agora para a polícia resolver esse assunto. E vou contratar um guarda-costas para você, não interessa o que você diga. Não vai sair mais de casa sozinha, está me ouvindo?” Lydia segurou Fernanda pelos ombros e praticamente a sacudiu.

Eu pensei que a Fernanda iria gritar, discutir e espernear, como ela sempre fazia, mas ela suspirou, olhando para mim como se tentasse dizer alguma coisa. Eu arqueei as sobrancelhas, sem entender muito bem o que se passava pela cabeça dela.

“Está bem, mãe...” Ela murmurou.

“Não! Não está nada bem e... O quê?!” Lydia parou, surpresa. “Você está concordando comigo? Onde está a minha filha, e o que você fez com ela?”

“Estou bem aqui. Só estou cansada, podemos ir para a delegacia amanhã? Eu preciso de um tempo para organizar algumas ideias e também tomar um banho antes que eu acabe gripada...” Pediu num tom manso. Lydia a soltou, assentindo, ainda sem acreditar. Fernanda seguiu para as escadas e as subiu rapidamente, deixando eu e minha mãe sozinhos.

Eu fui até ela e a abracei forte.

“O que foi, meu amor? Aconteceu alguma coisa?” Ela perguntou, me abraçando em retorno. “Só te vejo triste assim quando está brigado com o Dimitri, e isso é raro. Vocês brigaram?”

Como ela podia ser tanto e tão pouco perceptiva ao mesmo tempo?

“Não... Eu não sei. Talvez.” Murmurei. “Mas não quero conversar sobre isso. Só quero colo de mãe, pode ser?” Perguntei num tom manhoso. Lydia não se negou, e nós acabamos no sofá. Minha cabeça estava no colo dela, e assistíamos a um filme qualquer enquanto ela acariciava meus cabelos.

“Há tempos que você não buscava meu colo.” Ela comentou em certo momento, fazendo uma pressão boa em minha testa, algo que ela fazia quando me colocava para dormir, de antes de meu pai falecer. Ela tinha razão, agora que eu parava para pensar, quando criança euhavia concentrado minha raiva pela morte do pai nela, e me voltado para o Dimitri. Mesmo assim ela nunca havia se afastado, deixado de se preocupar ou se ressentido. Esse amor incondicional me ajudou a me sentir mais seguro e estável. “Vocês vão crescendo, e esquecendo que tem mãe... Às vezes me pergunto se fiz tudo certo.”

Segurei sua mão e a beijei.

“Claro que fez.” Murmurei.

“Mas a Fernanda... Na época eu estava tão depressiva pela morte do meu segundo marido, eu não consegui ajudá-la. Me fiz de cega e fui fraca. Eu me arrependo de tantas coisas. Mesmo com você, houve tantas vezes que eu não sabia como lidar com a tua raiva e agitação, não sabia como te dar algum conforto, e deixava isso nas mãos do Dimitri. Deixei um dos meus filhos ser mais pai do que eu... Ah, se eu pudesse voltar no tempo.” Suspirou verdadeiramente cansada, com ares de nostalgia para um tempo irrevogável.

“Mas não pode. Não se culpa, mãe... Agora as coisas vão entrar nos eixos, você vai ver. A Fernanda parece estar mesmo melhorando, eu acredito que ela superou e está se esforçando para retomar a vida da melhor forma, e nós vamos estar aqui para dar suporte a ela, certo? E quanto a mim, não tenho nada para reclamar. Aprendi cedo que pais não são super-heróis...” Nem meu irmão é. Pensei, mas isso eu havia aprendido mais tarde.

“Você é meu anjo, sabia? Tenho tanto orgulho de você, tanto. Eu te amo, meu filho.” Inclinou o rosto para beijar minha testa. Mordi meu lábio, inevitavelmente perguntando-me se ela continuaria a sentir orgulho ao saber que eu e o Dimitri havíamos compartilhado da mesma cama, e não um compartilhar inocente, como de tantas outras vezes. Ainda me amaria? E o Dimitri, continuaria me amando, depois do que eu havia dito e feito? Estremeci, sentindo que agora precisava do meu travesseiro para abafar meu choro.

“Também te amo, mãe. Estou indo dormir, boa noite.” A beijei na bochecha e segui para meu quarto. Tomei um banho demorado, e olhei pro corte no meu braço, lembrando do Viktor. Aquilo havia sido surpreendente e eu me peguei pensando o que se passaria dentro dele, quando em mim tudo que parecia restar era uma cidade após a passagem de um tufão, tornado, furação, ou coisa pior.

Como posso julgá-lo? Ao menos ele não dorme com o irmão. Se é que ele tem algum irmão... Eu achava que não tinha. Saí do banho e fiz um novo curativo no braço; já de pijama, fui para o quarto e me deitei na cama, ficando no escuro, sem conseguir dormir propriamente. Não sei quanto tempo passou, acho que horas, até que ouvisse batidas na porta. Me sobressaltei e fui até ela, abrindo-a para me deparar com a Fernanda.

“Posso entrar?” Ela perguntou, num sussurro.

“C-Claro.” Falei, dando espaço. Fechei a porta e depois liguei um abajur que deixava o quarto iluminado por uma luz amarelada e confortável, que não incomodava os olhos. Fernanda se sentou na ponta da cama, apertando as mãos uma na outra. Ficou um tempo assim, olhando para nenhum ponto em específico, até me encarar com resolução.

“Desculpa.” Ela pediu, com os olhos negros brilhando. “Eu ouvi o que você falou para a mãe e, sim, ainda tenho a mania de escutar as conversas alheias.” Suspirou, com um sorriso que logo sumiu, voltando a ficar séria. “Eu também devia ter sido uma irmã melhor... Eu sempre fui tão revoltada. Mas eu quero mudar, quero ser uma irmã pra você e o Dimitri, e também uma filha melhor para a mãe. Eu estou tentando, então, podem contar comigo... Mesmo quando eu for estúpida e não saiba como agir. Mesmo quando eu me meter e falar merda. Mesmo quando eu não conseguir entender. Porque eu não consigo, mas eu posso tentar. Eu só... Depois de tudo que eu passei... Eu só quero uma família.”

Meu coração bateu acelerado e eu arregalei os olhos.

“Do que você está falando? Entender o quê?” Tive de me fazer de louco. Era surreal demais ouvir tudo aquilo dela, justo dela.

“Diego, não se faça de estúpido, não comigo. Eu posso ter sido uma drogada, mas isso também me fez passar por coisas que poucas pessoas sonhariam, e eu vi muita coisa, não sou nenhuma completa alienada. Eu entrei naquele apartamento e vi você aos beijos com o Dimitri. Depois você fala que você entendeu mal teus próprios sentimentos, e parando para pensar, só de olhar para vocês dois... Meu deus, eu sempre senti ciúmes da relação de vocês, mas então... Então eu não sinto mais, porque... É diferente, entende? Há algo mais e é tão óbvio quando alguém dá a dica! Eu cheguei a me sentir mais... feliz no caminho até aqui, porque, não sei, era como se houvesse uma justificativa para eu ser deixada um pouco de lado.” Ela se levantou e veio até mim, que estava estático a poucos passos da cama. “Você está apaixonado pelo Dimitri, não está? E ele por você, há um bom tempo já, não é? Eu não sei há quanto tempo vocês já... Consumaram isso, se é que consumaram, mas não importa. Eu só queria que você soubesse isso.” Ela tocou meu ombro e puxou o ar, soltando pelo nariz. “Ah, Diego, eu já fui julgada e menosprezada pelas pessoas tantas vezes. Eu só não quero que a minha família também passe por isso. Me desculpa pelo que eu disse mais cedo, eu não sinto nojo, assim como nunca senti nojo de homossexuais, como dei a entender antes. Só falava aquelas coisas para machucar mesmo. Sobre isso entre vocês dois... Eu acho estranho, sim, muito estranho, não é algo que eu conseguiria entender com empatia. Mas... Saiba que há ao menos alguém nesse mundo que, depois de tantos erros, vai tentar defender vocês como pode.”

“Nanda...” Murmurei, surpreso. “Eu... Não sei o que dizer. Eu e o Dimitri... Nós não... Não somos...”

“Psss. Não fala nada. Só pensa no que eu disse, está bem? E pode... Eu sei lá, falar comigo, se precisar. Eu provavelmente não vou ser boa com conselhos, e talvez faça algumas caretas, mas posso tentar também. Ah, e não venha com abraços e essas coisas, isso é algo a que eu também ainda preciso me acostumar.” Abriu um sorriso trêmulo e, após colocar a mão por alguns segundos em minha bochecha, num contato singelo, dirigiu-se para fora do quarto.

Eu levei minhas mãos às têmporas. Tudo parecia estar mudando tão rápido, que minha mente girava e não conseguia acompanhar o ritmo. A paisagem parecia passar, veloz, e eu a olhava de uma janela do trem, mas não conseguia reagir a tempo, antes que o trem já estivesse longe. Eu não queria pensar, queria apenas deitar e apagar. Foi o que fiz, ou tentei, pois logo em seguida recebi uma mensagem.

“Não vou mais te incomodar. Me desculpe por hoje.” Era do Viktor, mas notei que já havia outra do Dimitri ali.

“Eu não quero ter estragado tudo. Me ligue quando achar que pode me dar outra chance. Eu vou esperar.”

“Nenhum deles vai mais me procurar...” Murmurei e, num ato impulsivo, fui até a janela e joguei meu celular através dela. Ouvi o barulho dele se espatifando no pátio, e apoiei meu queixo entre meus braços, olhando as marcas do temporal na grama, nas árvores, na rua e no céu além do muro dos fundos da casa. “A cor da chuva...” Sussurrei, e era uma cor de tons indivisíveis.

Notas finais
Isso aew, um mês desde a última atualização, podem me bater, auhaahuahua! Jzuis, como o tempo passa rápido, me expliquem isso? Mas quero que passe rápido mesmo, esse semestre da faculdade 'tá me matando. Enfim, obrigada a todos comentários LINDOS do último cap. E perdoem o Diego, ele continua confuso, foi muita coisa para apenas dois dias, não concordam? Adoro vocês, beijão!