A Cor Da Chuva
12 Capítulo 11
Os dias foram apenas uma ilusão
Logo entendi que se você não está aqui
O relógio parará para sempre
Fale comigo...
Não quero estar sem você
Se você vai embora amor, não vá sem dizer adeus
E ainda que nesta vida tudo acabará...
Quero acreditar que a união de nós dois
Seguirá...
Diego mantinha a cabeça baixa enquanto ouvia a diretora explicar à mãe que ele havia se envolvido em mais uma briga na escola. Em seus oito anos recém feitos, ele estava bem consciente que iria receber uma bronca quando chegassem em casa, afinal, não era a primeira vez que aquilo acontecia. Lydia já recebera inúmeros bilhetes dos professores reclamando de seu comportamento em sala de aula; o relacionamento com os colegas também não era dos melhores, o que gerava conflito entre as mães.
“Eu compreendo que vocês tenham passado por uma perda recentemente, dona Lydia, mas o comportamento do Diego já está prejudicando os outros alunos, e a frequência das brigas e desobediências é preocupante. Talvez uma ajuda profissional, um psicólogo-“
“Eu não preciso de ajuda profissional. Eu não sou louco!” Diego gritou, erguendo-se de súbito do sofá da sala da diretora. Havia escutado as pessoas dizerem que os loucos iam ao psicólogo, e sabia que não era louco, não queria que os outros o considerassem assim. Chateado, correu para longe daquela sala e das acusações que recebia.
Foi justo quando alcançou o ar livre que a mãe o agarrou pelo braço, praticamente erguendo-o do chão. A expressão dela era furiosa, e Diego quase chorou em antecipação.
“Não corra mais dessa maneira!” Lydia exigiu. “Você tem ultrapassado todos os limites, Diego! Onde está a educação que o teu pai te deu? Você acha que ele gostaria de te ver agindo dessa maneira?”
“O pai está morto! Por que você não morre também?” Perguntou e debateu-se, começando a fazer um escândalo enquanto Lydia o arrastava com ela para fora dos domínios da escola. Ela abriu a porta e o jogou para dentro do carro, fechando-o rápido ali dentro para que não inventasse de fugir.
Com um suspiro cansado e choroso, Lydia tapou o rosto, sentindo-se perdida e com um aperto enorme no peito, as palavras do caçula, mesmo que fosse apenas uma criança, doíam. Mas tinha de engoli-las, então contornou o carro e entrou também. Não falou com o filho durante todo o trajeto até em casa, e Diego manteve-se num silêncio emburrado, com os braços cruzados sobre o peito e a expressão irritada.
Lydia não sabia mais o que fazer com o filho, e nesses momentos só conseguia pensar em entregar o garoto ao irmão mais velho. Ter Dimitri em casa era uma benção, mesmo que mal houvesse completado treze anos, o mais velho era calmo, centrado, o oposto do que se esperaria de um adolescente. Lydia sentia que iria enlouquecer se tivesse de lidar com três rebeldes, porque Fernanda se tornara a definição do que era uma adolescente – egocêntrica, difícil, teimosa e desobediente. Ela e Diego eram muito parecidos, em certos quesitos.
Quando chegaram em casa, Lydia tentou chamar Diego para passar uma pomada onde ele havia se machucado com a briga que tivera com um dos colegas. O loiro se recusava a dizer o motivo da briga, e a mãe do outro garoto afirmava que o filho era inocente e que Diego o atacara sem motivos, como um delinquente. Diego não confirmava, nem desmentia, e se recusou a deixar Lydia cuidar dos machucados leves.
“Não quero!” Diego se debateu, começando a chorar. “Eu estou bem!”
“A última coisa que você está é bem! Fique quieto para que eu possa cuidar disso, Diego!” Lydia pediu, exasperada. A falta de carinho de dois dos três filhos vinha a machucando por meses agora, unindo-se com a depressão que sentia pela perda do segundo marido. Sentia-se solitária e desamparada, e às vezes era egoísta também – a paciência cada vez menor dava-lhe ganas de fugir e abandonar tudo.
“Você deveria dar uns tapas nesse guri. Uns tabefes bem dados iam fazê-lo parar com tanta manha e teimosia.” Fernanda apareceu na porta da sala, com um cigarro entre os dedos, enquanto se apoiava na batente.
Lydia, num acesso de raiva, se levantou rápido, soltando o caçula, e foi até ela, arrancando o cigarro da filha.
“Quantas vezes eu já não falei para não fumar essas porcarias? Ainda mais aqui dentro! Você quer ir de castigo também?” Lydia perguntou, segurando o braço da filha com força. “Eu não quero mais te ver andando com aqueles marginais! Onde você esteve até agora?”
“Você não manda em mim!” Fernanda exclamou, dando um tapa no braço cuja mão lhe segurava. “Se você quer se afogar no teu luto, problema é teu! Mas não ache que pode me trancar dentro dessa casa, com uma mãe que só chora e um irmão insuportável!”
“Eu não sou insuportável!” Diego gritou para a irmã. As brigas entre os dois também cresciam em frequência e intensidade nos últimos meses, tornando a casa uma espécie de palco de guerra que explodia a cada dia por um motivo diferente. “E não quero ficar de castigo!”
“Mas vai ficar!” Lydia olhou por cima do ombro. “Suba para o seu quarto, sem conversa, antes que eu acabe fazendo o que a Fernanda disse e te dê uns tapas bem dados!”
“O pai nunca faria isso!” Diego ladrou e correu escada acima, em direção ao quarto. Dirigiu-se para o quarto do irmão, no lugar de para seu próprio, mas não encontrou Dimitri ali. Ele deveria estar nos treinos de judô. Diego desejou nesse momento poder acompanhar o irmão nos treinos, isso diminuiria o tempo de convivência com a mãe.
Jogou-se na cama do mais velho e abraçou-se a um dos travesseiros, caindo num choro saudoso. Ressentia-se da mãe, da irmã, e até do pai, por tê-lo deixado. E agora tinha medo que Dimitri o deixasse também. Ele prometeu que ficaria sempre comigo, recordou, escondendo o rosto no travesseiro e sentindo o cheiro do irmão – algo amadeirado e caloroso que o confortava.
Acabou adormecendo ali, exausto e com o corpo dolorido da briga de mais cedo, e só veio a acordar ao sentir um carinho suave em seus cabelos ligeiramente compridos. Abriu sonolento as pálpebras e de imediato fungou e sentiu os olhos se encherem de lágrimas ao deparar-se com Dimitri.
“Hei, hei, hei!” Dimitri exclamou, aproximando-se de Diego e o abraçando para cintura. Trouxe-o para perto, de modo que Diego de imediato escondeu o rosto em seu peito, fungando repetidamente para evitar um choro exagerado. “O que houve, Di?”
“Briguei com um garoto da escola, e a mãe ficou braba, porque a diretora chamou ela para ir até lá.” Admitiu num murmúrio choroso, abraçando-se com força ao corpo do irmão. Dimitri apoiou o cotovelo no colchão, e o rosto na mão, soltando um suspiro enquanto fazia carinhos nas costas do mais novo.
“E por que você arrumou briga na escola de novo?” Perguntou suavemente, e aproximou o rosto da orelha do menor, para sussurrar. “Ainda que eu saiba que o garoto deve ter merecido.”
“Sim!” Diego ergueu a cabeça, olhando-o ansiosamente. “Ele mereceu sim! Ele me chamou de órfão, e disse que a mãe ia me abandonar também, porque eu só arrumava confusão na escola. E falou também que eu iria continuar sozinho, porque ninguém gosta de mim...” Fungou mais várias vezes, com o lábio tremendo. Dyimitri tocou novamente os cabelos macios do loiro, sorrindo com a ideia de que ele se parecia com um anjinho machucado, com aqueles cabelos e olhos claros, e a pele branca. Aproximou-se dele e deixou que a testa de ambos se encostassem, algo que sempre acalmava o caçula.
“Mas isso é uma grande mentira, não é?” Falou, cúmplice, olhando bem dentro dos olhos azuis do irmão, que o encarava em retorno, com total atenção. “Por que eu amo você, e você sabe disso, não sabe?”
Os lábios de Diego tremeram ainda mais e ele soltou um fraco “Sei...”
“Muito bem, acho bom que não se esqueça disso nunca.” Dimitri sorriu e o beijou na testa, o que fez o mais novo fechar os olhos. “Sabe o que eu acho?” Perguntou, e o loiro balançou a cabeça em negativa. “Que eu deveria te levar para fazer judô comigo. Isso te ajudaria a gastar suas energias e também a aprender a lutar para acabar com a raça desses teus colegas chatos.”
Os olhos de Diego brilharam ao abri-los emocionado, era justamente o que havia desejado mais cedo! Mas depois ele mordeu o lábio e olhou para o colchão, constrangido.
“Mas eu não quero acabar com a raça deles...” Murmurou, com medo de decepcionar o irmão; mas nunca conseguia ser nada além de sincero com Dimitri. O mais velho sorriu, achando-o mais adorável do que nunca, a vontade que tinha era de abraçá-lo apertado até que ele se sentisse melhor.
“Não quer, eu sei. Porque é um bom menino e não vai mais arrumar brigas na escola, não é isso?” Sugeriu, passando o polegar pela bochecha do irmão, o rosto ainda apoiado na mão enquanto deitado de lado.
“Não vou!” Diego se prontificou, desejando ser um bom menino para não decepcionar Dimitri. “Prometo!”
“Eu acredito em você.” Dimitri disse. “Mas ainda acho que treinar algum esporte te faria bem. Se não for o judô, pode ser-“
“Não! Eu quero treinar judô com você, Dimi! Por favor, por favor, me leva com você pros treinos!” Pediu, desesperado, erguendo-se apenas para se atirar em cima do mais velho e fazendo-o bater de costas do colchão, enquanto caía por cima dele. Dimitri riu e o abraçou, não se importando com o peso do irmão sobre sua barriga.
Diego sentiu o perfume do mais velho, de banho recém tomado, os cabelos negros um tanto úmidos. Chateou-se porque gostaria de ter tomado banho junto com ele, mas não disse nada, esperando ansioso pela resposta.
“Huuum... Já que você pede com tanta vontade, eu acho que vou aceitar, mas antes... Antes vou tirar essa cara de choro do teu rosto...” Falou, abrindo um sorriso maldoso que colocou Diego em alerta. O loiro tentou fugir, mas Dimitri o pegou e o derrubou sobre o colchão.
“Não! Não, Dimitri! Não, cosquinha não!” Pediu, exasperado, começando a rir ao ter as mãos do mais velho atacando seus pontos fracos, a barriga notoriamente. Quando Dimitri ergueu sua camisa, colou os lábios em seu umbigo e então assoprou causando um barulho engraçado de 'pum', continuando as cócegas com as mãos, Diego achou que iria morrer de tanto rir. As risadas misturaram-se com gritos agudos de misericórdia, ao passo que se debatia por inteiro, sem sucesso nas tentativas de fuga e de chutar o irmão para longe. Dimitri só parou quando o loiro já estava com as bochechas completamente afogueadas e tão ofegante que mal conseguia respirar.
Diego olhou para o teto, recuperando o ar, e risadas involuntárias ainda escapavam de sua garganta, num reflexo atrasado. Sentia-se feliz, mais leve, querendo continuar daquela forma para sempre, andando em nuvens claras. Dimitri se acomodou ao seu lado e tirou de seu rosto uns cabelos que se grudaram na testa suada pelo esforço.
“Você tem que ir tomar banho.” Dimitri disse e o tocou no ombro, o que fez Diego se encolher. “O que foi? Está machucado?” Perguntou, preocupado, ao que o loiro assentiu de leve, envergonhado por não ter sabido como se defender. Tinha certeza de que Dimitri nunca apanharia de ninguém. Dimitri era quase como um deus, um herói.
O mais velho puxou Diego, para que se sentasse na cama, e tirou a camisa dele. Olhou para o hematoma no ombro do irmão, sentindo raiva da pessoa que causara aquilo, mesmo que seu lado racional soubesse que fora outra criança a culpada. Suspirou e se ergueu, buscando uma pomada para massagear no machucado. Diego não se opôs, e se manteve em silêncio enquanto Dimitri cuidava da injúria.
“Não vou deixar mais ninguém te machucar.” Dimitri sussurrou, cuidando para não colocar pressão demais sobre o roxo. Sua expressão era bastante séria, mais do que Diego conseguia lembrar.
“E vai estar sempre comigo, né?” Diego aproveitou o momento para confirmar o que o angustiara mais cedo. “Você prometeu... Quando o pai...”
“Eu vou.” Dimitri assegurou e então sorriu, antes de puxá-lo para um abraço que trouxe Diego para seu colo. "É claro que vou, Di."
O loiro se acomodou ali e quase voltou a adormecer nos braços no irmão, não fosse Dimitri relembrar depois de algum tempo que ele precisava ir tomar banho.
XxX
Joguei meu skate no chão enquanto atirava a mochila por cima do ombro. Quando eu fizesse dezoito, iria comprar uma moto; não aguentava mais aquele skate, por mais que já houvesse sido apaixonado por ele. Mas, justamente, ele me lembrava uma outra época, uma outra idade, e eu não era mais o mesmo. Não depois do último final de semana.
“Então estamos bem?” Jady perguntou na saída do colégio. Eu estive quieto durante todo o tempo, naquela segunda. Havíamos tido aula de tarde também, e agora eu teria de ir direto para o treino. Isso se eu conseguisse treinar alguma coisa; se eu acabasse pior do que antes, meu treinador talvez chegasse ao ponto de dar-me uma surra.
Não era grandes coisas, mas havia um campeonato regional em duas semanas, e ele queria que eu fosse. Eu também queria, mas da maneira amadora com que eu vinha treinando, nem valeria à pena. Eu não sentia ânimo para aquilo, e era algo que me doía.
“Sim, por que não estaríamos?” Perguntei, distraído, notando o céu claro.
“Você saiu correndo da minha casa sábado, domingo não retornou minhas ligações e hoje está todo quieto, sem falar direito comigo. Estou tentando lembrar se fiz algo de muito errado.” Jady disse, sincera. Era sempre sincera, não importava o assunto, e isso era tanto uma qualidade, quanto um problema, principalmente quando ela sincera demais com professores, por exemplo. Eu queria poder ter a franqueza dela correndo por minhas veias.
“Claro que não, você não fez nada, bobona. Eu que ‘tô meio aéreo mesmo, uns probleminhas familiares quaisquer me incomodando.” Dispensei, com um pé sobre o skate, esperando que o assunto acabasse ali e eu pudesse me impulsionar e fugir.
Não que houvesse alguma escapatória de mim mesmo.
“Oh, o que aconteceu?” Ela logo se prontificou a escutar.
“Não, nada. Outra hora te conto... Preciso ir pro treino.” Me despedi rapidamente e segui pela lomba abaixo, deslizando pelas ruas tranquilas daquela parte da cidade. Um ar refrescante entrava em meus pulmões e o vento batia no rosto, bagunçando os cabelos. Uns vinte minutos depois e eu cheguei ao ginásio. Foi aí que lembrei que provavelmente encontraria o Viktor ali.
Meu coração se agitou com isso, e eu recordei nosso último encontro. Era difícil chegar a uma conclusão, mas eu me sentia tão perdido que pensava que não seria tão ruim encontrá-lo. E, quando saí do vestiário já usando o quimono e entrei no salão com o tatame, encontrei-o se aquecendo e alongando. Havia apenas mais dois garotos por ali, mas conversavam distantes do ruivo.
Viktor me viu ao erguer a cabeça depois de um alongamento, mas mordeu o lábio rapidamente e se virou um pouco, evitando algum outro contato visual. Estava nitidamente constrangido. Eu suspirei e me aproximei lentamente dele, a falta de calçados ajudando a camuflar meus passos. Ele se sobressaltou quando lhe toquei o ombro.
“Não precisa me ignorar... Nós estávamos transando regularmente até semana passada.” Comentei, e ele se voltou para mim, encarando-me com os olhos arregalados. Aqueles olhos castanhos que também pareciam ter sardas.
“Eu... Você ainda quer continuar transando?” Ele perguntou, perplexo. “Porque... Eu te ataquei e-“
“Hei, eu não falei isso, falei? Nós poderíamos ir a algum lugar e conversar depois do treino? Eu odeio deixar as coisas mal-entendidas.” Falei, e odiava mesmo. Se tinha algo que eu detestava, eram assuntos mal-acabados. Talvez por isso eu não viesse me concentrando no judô como deveria. Dimitri era o meu assunto mal-acabado, mas me parecia impossível encontrar coragem para dar um ponto final naquela história.
“Tudo bem... Você quem sabe, Diego.” Ele murmurou, acuado. Provavelmente imaginava que eu iria enchê-lo de acusações pelo que havia feito, mas, seriamente, quem era eu para julgar? No momento era mais fácil tentar entender o Viktor do que a mim mesmo, e eu não era insensível a ponto de ter transado até cansar com ele para depois simplesmente ignorá-lo porque algo de estranho havia acontecido.
E com isso em mente fui me aquecer.
XxX
O clima era estranho.
Estávamos em um café próximo ao ginásio, e já era noite àquela hora. Eu havia ligado para minha mãe, avisando que iria aparecer um pouco depois, e agora já fazia mais de dez minutos em que eu e Viktor estávamos em um silêncio constrangedor, enquanto esperávamos nossos pedidos. Eu me se sentia cansado, mais cansado do que nunca. O treino fora tão ruim que eu me envergonhara – ainda mais quando fui reconhecido quando entramos no café – e pensava se não seria melhor parar um pouco.
“Então...” Comecei a falar quando nossos pedidos enfim chegaram. Colocar as mãos ao redor da xícara de café quente com chocolate me deixou mais confiante, o calor nas palmas me causando um breve suspiro. “Eu queria me desculpar por sábado. Eu não deveria ter aparecido na tua casa pedindo por sexo, para depois-“
“Diego! Pelo amor de deus, eu te ataquei com um canivete e você pede desculpas?!” Viktor exclamou alto demais, atraindo alguns olhares. Ele se encolheu, o que fez com que a fumaça de seu chocolate quente batesse em seu rosto. “Eu não deveria ter feito aquilo...”
Eu mordi o lábio para a expressão desolada dele, de quem parecia prestes a cair em lágrimas. Me perguntei se minha expressão triste também causaria em alguém a mesma vontade de abraçar que eu sentia no momento em relação ao ruivo.
“Você estava irritado.” Murmurei, mesmo que não justificasse. Eu apenas queria que ele não parecesse tão triste. Era estranho, porque, agora — e só agora — eu percebia o quão antiga aquela expressão era nele, e como ele sempre se esforçava para parecer contente. Eu conseguiria me esforçar como ele? “Se você quiser falar sobre isso...”
Viktor suspirou e esfregou o rosto com as mãos.
“Você não me abandonou mesmo de propósito naquela festa?” Viktor perguntou, num sussurro de quem não parecia querer ouvir realmente a verdade. Evitou olhar-me, mantendo-se concentrado na bebida à sua frente.
“Não foi por querer. Coisas aconteceram naquela festa... Um cara... Me drogou.” Admiti, com meu coração disparando, mas não iria além disso. Não teria coragem.
Viktor de imediato ergueu o olhar para mim.
“O quê?!” Perguntou, em choque. “Como? Por quê? Ele tentou abusar de você? Diego, por que você não me disse antes?” Ele perguntou, nervoso, e esticou o braço para tocar meu pulso, em um toque leve. “E-Está tudo bem com você? Aquelas marcas roxas no teu corpo e... Quando eu parei para pensar com calma, lembro que você estava chorando antes de começarmos a brigar. Ah, Diego...” Apertou meu pulso, e seus olhos chorosos me causaram uma sensação horrível. Coloquei uma mão sobre a minha boca e segurei um soluço, sentindo-me fraco. Aquele olhar de condescendência causava um sufoco que se comparava a mãos poderosas apertando minha garganta.
Viktor se levantou, provavelmente querendo se aproximar de mim e consolar-me, mas balancei a cabeça, forçando-me a me recuperar e recompor.
“Senta.” Mandei, e Viktor acabou por cair na cadeira de novo. “Antes você me conta isso do seu psiquiatra e dos remédios que você tem que tomar, e aí eu te conto alguma outra coisa.” Falei, pensando que precisava urgentemente me distrair da enxurrada de memórias do final de semana que me invadiram a mente. Viktor entreabriu os lábios e usou de seu momento de hesitação para beber um pouco do chocolate quente.
Depois me encarou com uma franqueza brilhante, que se podia sentir na pele, e despejou tudo:
“Eu tenho depressão, transtorno de ansiedade e, quando sou colocado frente a episódios de stress, reajo com violência, é impulsivo e mais forte do que eu. Tomo remédios para refrear justamente esse comportamento agressivo. Meu psiquiatra diz que minha ansiedade gera muitas desconfianças, suspeitas... Eu sempre acho que todos estão contra mim, querendo... Causar-me algum mal, ou rindo pelas minhas coisas, querendo me humilhar de alguma forma, ou me usar e jogar fora.” Parou um momento, umedecendo os lábios. Pareceu-me ansioso até, para explicar o acontecido, colocar tudo aquilo que escondia para fora. Isso acabou por me lembrar do que ele havia me dito sexta, sobre me amar. Isso queria dizer que eu transmitia confiança para ele?
“Viktor-“
“Espera, deixa eu terminar.” Viktor pediu.
Pelo menos estávamos numa mesa reservada do café e, naquela altura de voz, ninguém nos ouvia. O lugar era confortável e não tão cheio, com uma luminosidade suave; tudo parecendo contribuir para uma ‘sessão de confissões’.
“Diego, desculpa, mas... Eu ouvi a tua discussão com o Dimitri na sexta-feira. Não era a minha intenção!” Ele afirmou rapidamente, quando a minha expressão mudou por completo. Naquela discussão eu havia acusado o Dimitri de quase me beijar, depois de ele falar aquelas coisas sobre o Viktor.
“Então... Você sabe...?” Perguntei, mas não tinha como ele saber de tudo, porém de repente era como se eu estivesse nu na frente dele, despido para seus julgamentos. Quis encerrar a conversa ali, mas Viktor se inclinou para frente, parecendo mais nervoso do que antes.
“Eu sei que você sabe sobre o que aconteceu com meus pais. Meu psiquiatra diz que tenho baixa auto-estima porque não tive o amor e incentivo deles quando pequeno, o que isso gerou um quadro de depressão. Que presenciar meu pai bater na minha mãe tantas vezes e depois ver ela matar ele gerou a ansiedade e a violência como defesa... E é isso, é isso sobre mim, e em parte você já sabia, e mesmo assim não veio me acusar, ou tentou me afastar depois disso. Eu achei que era por isso que você fugiu de mim na festa, mas não. E mesmo depois do que eu fiz, você está aqui querendo conversar e isso me deixa... Feliz.” Viktor admitiu, abaixando o rosto, e vi lágrimas silenciosas caírem sobre a mesa. “Não importa que teu irmão tenha alguma tara por ti. Puta merda, ok? E quem não teria?”
Coloquei minha mão na testa, sentindo meu estômago revirar. De repente quis sair dali, porque conversar em público não havia sido das melhores ideias. Tinha noção que meu rosto deveria estar pálido e que eu suava mesmo que a noite estivesse fria. Me levantei e contornei a mesa, mas o Viktor também se ergueu e segurou meu braço.
“Diego!”
“Não quero desabar em público, me deixa.” Pedi, mas estava tão fraco que nem consegui puxar o braço.
Então fui arrastado.
Viktor jogou o dinheiro sobre a mesa e me levou com ele para fora do café, sob o olhar curioso de alguns. Nós paramos no beco ao lado do café, na proteção da pouca luz, e eu fui abraçado com força, com minhas costas apoiadas na parede.
Eu escondi o rosto no pescoço do Viktor, sentindo o cheiro do perfume dele, que já conhecia muito bem. Isso me passou algum conforto — nós não éramos do mesmo sangue, e eu podia estar com ele daquela forma sem me sentir culpado. Essa ideia deixou minhas lágrimas molharem a curva do pescoço dele, e pude sentir que seu corpo também tremia de encontro ao meu.
“C-Calma...” Ele pediu, vacilante. “Me desculpa, eu não tenho tato mesmo. Mas não importa o que você me diga, eu vou te amar de qualquer jeito. Pode me chamar de louco por isso, mas não me importo. Eu te amo, Diego. Você queira ou não, já faz três anos desde que é assim...”
“Tudo bem...” Murmurei, sem muita certeza. Tudo bem porque você não é meu irmão, e pode me amar dessa maneira. Por que a chuva não cai quando me abraça, e não me afogo num dilúvio sem sobreviventes.
Viktor se afastou apenas o suficiente para fitar meus olhos, e suas mãos seguraram meu rosto, enquanto seus dedos secavam minhas bochechas. Eu toquei seus cabelos alaranjados em retorno e funguei tentando segurar a vontade de chorar. Se eu parasse para pensar, sempre havia sido do tipo que chorava fácil, principalmente quando criança; não era como se as lágrimas me fossem tão estranhas. Elas agora apenas possuíam um motivo muito além do de um pé machucado, ou um brinquedo quebrado.
Porque o coração não é um brinquedo.
“Eu queria poder dizer que vou cuidar de ti, porque você parece que está precisando de alguém que faça isso... Mas eu mal sei cuidar de mim, e não queria falar um monte de coisas vazias. Eu sou exagerado, dramático, fraco e medroso, mas eu realmente queria fazer algo por você.” Viktor admitiu, mordendo o lábio, com a testa contraída numa expressão condoída, como se compartilhássemos das mesmas dores, medos e ansiedades.
Talvez fosse verdade.
Eu teria apoiado minha testa à dele, mas isso me lembraria meu irmão, aquele gesto que era nosso, e que não pareceria certo compartilhar com outra pessoa, então voltei a abraçá-lo e descansei a cabeça contra a parede, olhando para cima e vendo as estrelas da noite límpida.
“Então vamos cuidar um do outro...” Murmurei, perguntando-me por quanto tempo o céu continuaria daquela forma límpida, sem nuvens, sem chuva.
Notas finais
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Muito obrigada a todos que comentaram no último cap.! ^.^ Fico muito feliz de estar chegando à reta final da história e ainda ter gente aqui comigo acompanhando fielmente. Seus lindos! ;* De praxe: me desculpem a demora e até o próximo cap.! ♥
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