Notas iniciais
If you could only save me I'm drowning in the waters of my soul...

Vejo Effy Sem Sobrenome à distância, conversando com duas amigas da equipe de torcida. É meu segundo dia nesse colégio para prodígios e as pessoas ainda me olham diferente, como se eu fosse algum tipo de celebridade. Claro, isso já aconteceu antes, nas outras escolas, mas nada como o que acontece aqui.

Marvel está me levando ao treino de natação como me prometeu ontem, e eu me esforço ao máximo para passar por Effy sem parecer que me importo com sua presença.

Parece uma garota falando desse jeito, zomba Eco. Ela está insuportavelmente presente em todas as coisas que faço, sempre fazendo um comentário sarcástico ou palpitando sobre meus assuntos. É insuportavelmente irritante.

– Você competia no Atlas? – Marvel pergunta de repente, enquanto passamos por Effy e suas amigas.

Sei que é estranho dizer isso, mas consigo sentir os olhos dela cravados em minhas costas conforme me afasto.

– Meu tio Don sempre quis que eu competisse – torço o nariz, numa careta -, mas nunca me interessei pelos campeonatos de lá.

Marvel aperta meu ombro, rindo.

– Estou com pena de você agora, cara.

As piscinas da Escola Para Prodígios são colossais; duas cobertas e duas brilhando sob o sol da tarde. Ouço o apito do técnico e quatro estudantes caem na água. Não consigo evitar ficar agitado.

– Uau – murmuro, sem que Marvel ouça.

Estou aqui hoje para fazer o que chamam de teste para entrar no time– ou qualquer coisa parecida -, e Marvel me garantiu que eu me sairia bem mesmo sendo o novato. Achei uma ótima oportunidade de tirar Effy de meus pensamentos e de finalmente me envolver em algo que deixe marcada minha permanência nessa escola, que por alguma razão sinto que será diferente aqui.

Sinto o mesmo, diz Eco, séria. É curioso o modo como consigo interpretar seu humor apenas pelo tom de sua voz ou pela maneira como ela pronuncia as palavras.

Não diga que isso também tem algo a ver com Effy?, brinco.

O objetivo disso tudo não é esquecê-la nem que seja por um minuto?

Dou risada, chamando a atenção de Marvel. Seus olhos puxados franzem-se ainda mais e ele parece caçoar de mim.

– Tá rindo por quê? – pergunta, enquanto nos aproximamos do vestiário masculino.

Sacudo a cabeça.

– Porque não acredito que deixei você me meter nessa.

É um alívio quando trocamos os uniformes formais por bermudas e camisetas do time – no meu caso, uma quase camiseta do time. Marvel me apresenta a seus colegas de equipe, aos treinadores e até às líderes de torcida de natação. Quando cruzamos o ginásio coberto, direcionando-nos à parte externa para o início dos testes, meu olhar é atraído por um borrão cor de rosa que salta graciosamente na água brilhante e eu paro no meio do caminho, congelado.

Só pode ser piada, ralho em pensamento.

É tão irônico que até eu estou surpresa, Prosper, Eco ri com amargura.

Marvel encara minha súbita paralisia como admiração por Effy. Ao meu lado, ele cruza os braços e a observa, rindo torto.

– Ah, sim – ri. — Ela é...

– Certo, espere – interrompo-o. – Por que não me disse que ela faz parte da equipe?

– Ela não faz. Não da nossa equipe.

– Hum?

– Ela é da equipe feminina e, odeio admitir, é incrível. Nenhum dos caras a venceu desde que chegou aqui.

Arregalo os olhos.

– Nenhum dos caras? – quase grito. – Fala sério, olhe para ela. Não passa de uma coisinha...

– Uma coisinha terrivelmente veloz – ri Marvel, lançando olhares cheios de segundas intenções para Effy, que saía da piscina.

Não foi uma boa ideia, não é?, suspira Eco. Ela não devia usar uma daquelas toucas de mergulho?

Agora não.

Olha, quando eu disse que você devia se enturmar, eu...

Eco, não.

Certo. Vamos só dar meia volta e sair daqui. Marvel vai entender e, afinal, sempre há vagas no clube de xadrez.

Não.

Eu não vou deixar de fazer algo apenas porque a garota mais detestável e rabugenta do mundo está envolvida. Não é justo. Não quando só me restam alguns poucos meses na escola e poucas chances de fazer amigos e ser alguém. Effy Sem Sobrenome não terá esse poder sobre mim.

– Como será o teste, Marvel? – pergunto, sentindo uma ideia começar a tomar forma em meus pensamentos.

Prosper, não.

Quieta, Eco. Sei o que estou fazendo.

Não, não sabe. É para isso que eu estou aqui, para te aconselhar, para...

– Ora, como qualquer outro teste – ele dá de ombros. — Você tem que mostrar do que é capaz.

Não consigo evitar um sorriso.

– Ótimo. Chame o treinador, diga que meu teste começa agora.

Pare já com isso!, protesta Eco, furiosa. Quando é que vai aprender a me escutar?

Praticamente arranco minha “camiseta do time” e corro até a beira da piscina onde Effy prepara-se para voltar à água. Marvel grita algo atrás de mim, mas não lhe dou ouvidos. Meus olhos estão inteiramente focados nela, nos cabelos molhados pingando e em como seu corpo está perfeitamente inclinado para um salto glorioso. Posiciono-me ao seu lado e me preparo para saltar também. Então ela me vê.

Sua expressão é de indignação e por um segundo penso que ela vai me xingar e me enxotar daqui, gritando para os quatro cantos da Terra o quanto não me acha nada legal. Effy, porém, simplesmente fita a piscina e mergulha com violência. Não perco tempo e caio na água atrás dela, já tendo certeza de que serei o primeiro a vencê-la em seu jogo.

Errado, errado, errado! Abortar missão, Prosper!

Assim que mergulho, é como se eu entrasse no modo piloto automático: meus braços, pernas e tronco sabem exatamente o que fazer e eu alcanço Effy em questão de segundos. Ultrapasso-a, até. Quando a ouço gritar em frustração não contenho uma risada alta e nos encontramos na outra extremidade da piscina. Eu paro e ela para também, me encarando como se eu fosse maluco.

Você é maluco, Prosper!

– O que está fazendo? – pergunta, alarmada. Está ofegante e terrivelmente linda.

– Vencendo você – sorrio, dando-lhe as costas.

Effy me puxa pelo cotovelo.

– Qual é o seu problema? Por que está se expondo desse jeito? – ela parece terrivelmente assustada. – Faz alguma ideia do perigo que está correndo agora?

Há algo errado, Eco sussurra, agourenta. Prosper, saia da água. Saia daí agora!

Sinto uma dor lancinante no joelho esquerdo, mil vezes pior do que a pior das câimbras, e fico sem ar. A mão me Effy me alcança por um momento e ela grita meu nome antes que algo forte e frio me puxe para dentro d’água. Meus dedos soltam-se dos dela. Meus membros congelam e só o que posso fazer é piscar e gritar. A piscina parece horrivelmente funda agora, como se um abismo azul me esperasse lá embaixo. Algo ainda me puxa cada vez mais para o fundo, algo que não posso ver e que machuca minha perna como navalhas afiadas destroçando minha carne. Grito e fico sem ar.

Vejo a imagem baça de Effy acima de mim e sinto suas mãos surpreendentemente fortes me puxando pelos ombros. Outras mãos chegam para ajudar e quando volto à superfície é como se estivesse renascendo.

Pessoas das quais não vejo o rosto tiram-me da piscina às pressas, gritando ordens uns para os outros.

– Vamos, vamos! Para a enfermaria imediatamente!

– Alguém chame a ambulância!

– Onde está o kit de primeiros socorros, Ryan?

No entanto, a única voz que consigo reconhecer é a dela, tão próxima que me sobressalta.

– Seu idiota, o que foi que você fez? – sussurra Effy, amavelmente.

Notas finais
Continuem acompanhando! :)