Notas iniciais
Não sei o que há de errado comigo. Não sei por que estou ajudando um Iluminado. Pareceu ser o certo a fazer naquele momento, mas agora, sentada ao lado dele na cama da enfermaria, não tenho tanta certeza.
Prosper não devia ser tão imprudente exibindo suas habilidades daquela maneira. Onde estava com a cabeça? Ele devia saber que quando Iluminados, Cinzentos e Sombrios usam sua energia, atraem uns aos outros. Aquilo na água sem dúvida foi obra de um Sombrio ou de um Iluminado corrompido, e se os humanos não tivessem interferido, Prosper e eu estaríamos mortos agora.
Por culpa dele agora sabem onde estamos.
– Ele ainda não acordou? – ouço alguém sussurrar atrás de mim, à porta da enfermaria branca. Olho por cima do ombro e me deparo com uma das amigas de Prosper.
– Não – digo, voltando a olhar para ele.
A garota dá alguns passos e para ao meu lado, de braços cruzados.
– Você sabe o que aconteceu?
Suspirei. Já me perguntaram a mesma coisa sete vezes desde o ocorrido.
– Ele se afogou. Foi um acidente.
– Ah. É claro – murmura ela. – É estranho você estar com Prosper bem na hora em que esse acidente aconteceu, não é? Quer dizer... você era única pessoa na piscina com ele...
Cerro meus punhos. Lá vamos nós outra vez.
– Sabe de uma coisa? Você devia voltar para os seus assuntos – rosno para ela, fuzilando-a com o olhar – e cuidar da sua vida.
Os lábios perfeitinhos dela se crispam.
– Você já machucou muita gente, Effy. Não vou permitir que machuque Prosper.
Eu a encaro de sobrancelhas arqueadas, tentando não rir. O que uma humana como ela pensa que pode fazer contra mim?
– Se você diz – respondo com desdém.
A garota arruma a postura e deixa a enfermaria, bufando. Fico olhando para a porta e me perguntando que pessoas são essas que ela diz que eu machuquei. Não é justo. Nada disso é. Como essa humana espera que eu me comporte com pessoas que não são meus iguais? Que estão o tempo tentando me usar, manipular ou humilhar? Ela quer que eu os deixe me ferir sem reação? Eu os machuco para que eles não me machuquem.
– Não é justo – sussurro, os dentes trincados.
– O que não é justo? – ouço a voz rouca e sonolenta de Prosper indagar, assustando-me.
Olho para ele e ele devolve o olhar. Não sei o que dizer.
– Você salvou a minha vida? – Prosper sorri torto, constrangido.
Tiro meus olhos dos dele, inquieta.
– Não.
– Sim, você salvou. Mesmo não gostando de mim – ele franze a testa. – Por quê?
A expressão em seu rosto é tão ansiosa e sincera e ele é tão bonito que me faz suspirar. É claro, todos os Iluminados têm uma aparência incrível, mas Prosper se sobressai. Até com o rosto amassado pelos travesseiros ele é de tirar o fôlego.
Eu, porém, não me deixarei levar por seu belo rosto. Ele é, antes de tudo, um Iluminado.
– Sou uma pessoa decente – digo, sem olhar para ele. – Não podia simplesmente deixar você morrer.
Minha resposta parece ser o que ele esperava ouvir.
– Bem... obrigado. De verdade.
Arregalo os olhos. Isso só pode ser brincadeira. Certo? Não acredito.
– Você – minha voz soa trêmula – está me agradecendo?
Prosper ri.
– É claro, sou uma pessoa decente. Por que está tão surpresa?
Aproximo-me dele até o limite da decência, sentando-me de frente para ele na beirada da cama. Chego a ficar atordoada por sua beleza.
Toda essa minha surpresa se deve ao fato de que, em nossa realidade, minha e consequentemente de Prosper, os Iluminados não agradecem aos Cinzentos por seus serviços, sejam eles quais forem. Seria como agradecer a uma porta por se abrir ou a um corrimão por servir de apoio. É absurdo.
– Então é isso – sibilo para Prosper. – Você não sabe nada sobre quem você é.
Sua expressão é cômica e, admito, devo estar parecendo uma louca falando dessa maneira. Mas isso me fascina de um jeito que não aceito de bom grado.
Prosper não está me caçando para os Sombrios. Prosper não vai me tratar como se eu fosse um móvel útil. Prosper está olhando para mim e sorrindo como se eu também fosse Iluminada e, juro, é assim que me sinto nesse momento.
– Você é estranha, Effy – ele diz. – O que é que eu não sei sobre mim que você saiba?
O tom de sua pergunta me faz corar de vergonha. Eu o tratei com hostilidade e o recebi de maneira detestável quando tudo o que Prosper queria era me conhecer. Mas o que posso fazer se fui ensinada a bater primeiro e perguntar depois?
– Desculpe – digo, de má vontade. Detesto estar errada. – Desculpe por aquilo que eu disse ontem.
Ele me encara, sério.
– Você não sai da minha cabeça desde a primeira vez em que a vi e acabou de salvar a minha vida. Não acho que precise se desculpar por nada.
Baixo os olhos e fito meus joelhos ralados.
– Effy, o que aconteceu na piscina hoje? – Prosper pergunta, mudando de assunto.
Mordo o lábio.
Não quero contar a ele que sua pequena exibição atraiu a atenção indesejada de nossos inimigos da outra dimensão e que agora eles podem estar soltos pela escola, nos perseguindo. Não quero contar que ele é superior a mim. Não quero contar que odeio quem ele é.
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