Notas iniciais
A garota de cabelo cor de rosa, Effy, sem dúvida é sinônimo de problema. Por causa dela, Prosper e eu quase morremos. E por causa dela, sobrevivemos. Não me agradam coisas que não fazem sentido ou que atrapalham a ordem natural dos acontecimentos. Effy consegue encaixar-se em ambas e eu não gosto nem um pouco dela por isso.
– Effy, você pode me contar – diz Prosper.
Ele perguntou à garota o que aconteceu na piscina e ela simplesmente congelou.
Suspeita? Com certeza.
– Você... – Effy começa a dizer, fazendo aquela coisa com os olhos que as garotas fazem quando querem alguma coisa. – Você tentou me vencer no nado livre. Mas algo aconteceu e você... você parou de nadar de repente e começou a gritar. – Havia uma certa angústia na expressão dela, como se estivesse revivendo o momento descrito. – Eu corri para ajudá-lo e você me puxou junto para o fundo da piscina. Foi então que o treinador ouviu os gritos e alguns dos garotos correram para nos tirar da água.
– Eu desmaiei? – pergunta Prosper. — Não me lembro de nada.
Effy pisca, distraída. Parece esconder alguns detalhes do acidente, mas apenas eu reparo nisso. Prosper só consegue pensar no quanto os lábios dela parecem macios e quão bonitos são os olhos. É irritante.
Pergunte mais, incito. Faça essa impostorazinha contar o que aconteceu nos mínimos detalhes.
Impostorazinha?, Prosper parece ofendido. Eco, ela salvou a minha vida. Ou, bem, ela ao menos tentou. Não me lembro de nenhum conselho seu enquanto eu afundava para a morte.
Não me provoque, eu avisei para sair da água. Você não ouviu por causa dessa...
Certo, certo, ele resmunga. Você está sempre certa. O tempo todo. Nunca erra.
Minha raiva agora é indescritível. As consciências não deviam ser capazes de expressar tantos sentimentos como eu sou. Não está certo. Essas emoções tão fortes atrapalham minha maneira fria de aconselhar Prosper.
Desde que os pais dele morreram naquele acidente de carro, não sou a mesma. Desde que Prosper acordou naquele hospital, nenhum de nós dois é o mesmo. Talvez as pancadas que ele levou naquela linda cabecinha tenham dado a mim, sua sábia e impassível consciência, a capacidade de sentir.
E isso é muito errado.
– Você ficou desacordado nas últimas duas horas – diz Effy, sem expressão. – Os enfermeiros da escola enfaixaram seu joelho. Parece que houve uma torção.
Prosper tenta mexer a perna por baixo do lençol da maca, mas guincha de dor.
Parece quebrado, eu digo, aflita.
– Só uma torção? – Prosper ri de dor. – Parece que passaram por cima do meu joelho. Como isso aconteceu?
Effy morde o lábio.
– Talvez você se lembre com o tempo. Essas coisas acontecem.
Ela é tão falsa.
– Fico aliviada em saber que você está bem, Prosper.
Falsa demais. Falsa demais.
Prosper me ignora e toma a liberdade de segurar a mão pequena e pálida de Effy. Ela se assusta quase tanto quanto eu.
– Você está... machucada? – ele franze a testa, erguendo o braço dela para ver os cotovelos ralados. Os joelhos de Effy também não estão nada bonitos.
Ela sorri, sem graça.
– Por que está se preocupando comigo? – Effy ri.
– A pergunta é: por que você se preocupou comigo? – Prosper entrelaça os dedos de sua mão nos da mão dela. O contato é tão íntimo que me enoja.
– Eu já disse, Prosper, eu só queria...
– Eu sei, eu sei. Ajudar. – Ele revira os olhos azuis. – Mas você podia muito bem chamar o treinador ou Marvel e os garotos para me resgatar. E, caramba, Effy, você é muito menor do que eu, poderia ter se afogado também. Além disso...
Prosper segue falando mil razões pelas quais Effy não deveria ter se arriscado por ele. Parece um bobo apaixonado. Ela o fita tão surpresa que chama minha atenção. Parece fascinada por Prosper. Não pela aparência dele, mas pelas palavras que saem de seus lábios. É quase como se essa fosse a primeira vez que Effy vê alguém se preocupar com ela.
– ... e eu não queria que você se machucasse – conclui Prosper, de testa franzida.
Effy dá um sorriso autêntico. Ela baixa os olhos para sua mão entrelaçada na dele e suspira.
– Por que está sorrindo? Estou furioso com você – ralha Prosper, apertando a mão dela. – Effy, não faça mais isso. Sou grato por sua ajuda, mas se algo assim acontecer novamente...
Ela sacode a cabeça, interrompendo-o.
– Não vai acontecer. Não seja bobo.
– Se acontecer.
– Não vai — ela ri.
Prosper está irritado. Posso sentir o quanto essa garota desestabiliza suas emoções.
– Como pode ter tanta certeza? – ele a desafia. — E se um maluco fizer uma curva errada no estacionamento e eu estiver no caminho dele? E se eu de repente tropeçar e rolar escadaria abaixo? E se o teto cair sobre a minha cabeça durante a aula de Cálculo?
Você está exagerando, garoto.
– Bem – suspira Effy -, não posso prometer que serei sua guarda-costas e que evitarei qualquer tipo de acidente que possa acontecer com você, mas... estarei por perto.
Prosper ri.
– Minha guarda-costas? – ele sacode a cabeça. – Olhe para você, Effy. É tão...
– Pequena? – ela ergue uma sobrancelha.
– Eu ia dizer frágil.
Effy joga a cabeça para trás, gargalhando. É uma cena rara, suponho, pois logo ela cobre a boca com a mão que Prosper não está segurando. Em seguida olha para ele de uma maneira que eu classificaria como nada menos do que intensa.
– Você disse que não para de pensar em mim... – ela sussurra. Prosper dá um meio sorriso preguiçoso. – O que você pensa, exatamente?
Qual é o problema dessa garota? Será que ela não vê o quanto você está se atirando para ela?
Não estou me atirando coisa nenhuma!, ele protesta.
– Você é diferente das outras garotas, Effy – Prosper diz, meio sem jeito. – Tenho saltado de escola em escola por todo canto do país e todas as garotas que conheço são completamente iguais.
– Uau. Não deve conhecer muitas.
– Já fui chamado para sair trezentas e vinte e sete vezes, se quer saber – gaba-se ele.
– Não é possível que sejam todas iguais, Prosper – Effy ri. – E duvido que esse número seja verdadeiro, você acabou de inventar!
Ela é esperta, murmuro, irritada.
– Bem, talvez eu tenha exagerado um número ou dois... – ele crispa os olhos.
– Ou todos.
Prosper ri, sacudindo a cabeça. Toda essa conversinha mole está me dando nos nervos.
– O que quero dizer, Effy, é que nunca me interessei por nenhuma dessas meninas.
Os olhos de Effy expressam vulnerabilidade.
– Nenhuma? Por quê?
Ele dá de ombros.
– É como eu disse, todas iguais. Todas com as mesmas perspectivas de vida, mesmos objetivos e mesmas normalidades. Minha vida não é normal e não quero que seja – Prosper bufa. – É por isso que você despertou algo em mim. Você é diferente.
Effy solta a mão de Prosper. Os ombros dela se encolhem quando ela diz:
– O que quer dizer com “minha vida não é normal”?
A frieza repentina dela não o abate. O sorriso de Prosper é caloroso quando ele diz:
– Conto a você amanhã.
A garota franze a testa, tão lerda que sinto vontade de saltar da mente de Prosper e dar uma boa bofetada nela.
– Amanhã?
– Vou levar você para jantar. Passo na sua casa às oito. Aliás, onde você mora?
Fale com o autor