Daniel sugeriu que explorassem a cidade inteira de forma geral naquele dia, e que a partir do dia seguinte eles então se concentrassem em detalhar a busca em cada parte da cidade. Rômulo concordou com um aceno breve, enquanto ajeitava a câmera pendurada no pescoço.

De onde estavam, à direita da praça, destacava-se um edifício grande, com colunas robustas sustentando um frontão ainda inteiro. As paredes ostentavam relevos gastos de figuras humanas, e o portal principal estava escancarado, uma boca escura convidando-os a entrar.

— Sem dúvida este era o Fórum. — declarou Daniel, com certo entusiasmo contido, apontando para o edifício — Veja o cuidado arquitetônico, o entalhe nas colunas. Esse tipo de capitel não é comum em cidades menores, indica um investimento de recursos significativo.

— E o tamanho. — completou Rômulo, olhando para a imponência das paredes — A vida política desta cidade com certeza acontecia aqui.

Lucas olhou em volta, franzindo o cenho. A amplitude do salão vazio, o silêncio das paredes, dava a impressão de que estavam profanando um espaço ainda em uso.

— É estranho pensar nisso… — Disse ele, empunhando sua câmera — A gente imagina Roma e o Império como coisa distante, em livros ou filmes. Mas agora estamos pisando no lugar onde pessoas de carne e osso discutiam impostos, julgamentos, quem mandava ou não… É como se estivéssemos ouvindo ecos.

Daniel sorriu com a observação, mas manteve o tom analítico.

— Exato. O Fórum não era apenas um espaço político, era também um espaço social. Era aqui que a elite local se reunia, mas também onde comerciantes vinham apresentar suas queixas, onde escravos eram leiloados, onde as decisões sobre abastecimento e construções eram tomadas. Era, literalmente, o coração da cidade.

Ele correu os dedos por uma das paredes lisas, onde os relevos haviam quase desaparecido pelo desgaste do tempo.

— O curioso — Continuou — é o vazio. Veja: nenhum fragmento de inscrição, nenhuma estátua, nem mesmo as bases que costumavam sustentar bustos de imperadores. Isso pode significar duas coisas.

Lucas ergueu a sobrancelha.

— Que saquearam tudo antes da cidade ser abandonada?

— Essa é uma possibilidade. — Respondeu Daniel — Mas há outra. Pode ser que a cidade tenha sido abandonada de repente, e o tempo, os deslizamentos, talvez até saqueadores ocasionais, tenham levado o resto.

Rômulo tirou algumas fotos dos ângulos mais interessantes, depois se aproximou.

— Também pode ter havido um processo deliberado de destruição. Lembrem-se: quando religiões mudavam, templos e fóruns às vezes eram esvaziados ou até profanados. Se houve cristianização tardia por aqui, pode ter sido uma escolha apagar símbolos do passado.

Lucas soltou uma risada curta.

— Então você está dizendo que a primeira “guerra cultural” do Brasil pode ter acontecido aqui?

— Não seria a primeira vez que isso ocorreria em algum lugar do império. — Disse Daniel, sério — Há relatos de fóruns inteiros convertidos em praças comuns ou usados como depósitos depois que a população passou a se reunir em igrejas.

Andaram pelo salão principal. O vazio só aumentava a sensação de solenidade. Nos cantos, alguns fragmentos de madeira carcomida e pedaços de cerâmica quebrada formavam pequenos montes.

— Móveis? — Perguntou Lucas, apontando.

— Possivelmente. — Respondeu Rômulo, agachando-se para fotografar — Bancos, mesas, ou mesmo restos de arquivos. Se houvesse documentos, teriam se perdido há muito tempo.

Daniel observava tudo com uma calma estudiosa, mas não conseguia esconder certo brilho nos olhos.

— Imaginem… cada pedaço de madeira pode ter sido parte de um banco onde alguém se sentou para ouvir um discurso. Esses fragmentos, por mais insignificantes que pareçam, são testemunhas silenciosas de decisões que moldaram a vida de centenas de pessoas.

Lucas o olhou, meio divertido.

— Você fala disso como se ainda fosse possível ouvir os discursos ecoando.

— De certa forma, é. — Respondeu Daniel, poético — A beleza da arqueologia é ouvir o que resta de vozes antigas, mesmo que seja apenas um sussurro.

Passaram algum tempo em silêncio, absorvendo o ambiente, até que Lucas quebrou a quietude:

— Mas me digam uma coisa. Se essa cidade tinha um fórum desse tamanho, templos, ruas pavimentadas… Como ninguém encontrou isso antes? Como ela simplesmente desapareceu?

Daniel respirou fundo.

— Há muitas razões pelas quais uma cidade pode ser esquecida. Guerras locais, mudanças climáticas, colapsos econômicos. Talvez uma rota comercial tenha mudado, ou os recursos tenham se esgotado. E aqui, com essas encostas tão próximas, um grande deslizamento poderia ter sepultado tudo.

Rômulo acrescentou, ajustando a lente da câmera:

— E também há o fator humano. A memória pode se apagar em uma ou duas gerações. Se os sobreviventes foram embora e seus descendentes não voltaram, o lugar cai no esquecimento.

Lucas cruzou os braços, pensativo.

— É assustador pensar que um lugar inteiro pode desaparecer da história só porque as pessoas deixaram de falar dele.

Daniel sorriu de leve.

— É por isso que estamos aqui. Para devolver a voz a essa cidade.

Saíram do edifício e seguiram em direção ao lado oposto da praça, onde outro grande prédio arruinado chamava atenção. O teto havia cedido completamente, deixando um esqueleto de vigas expostas e pedras quebradas. Ainda assim, o enorme frontispício permanecia de pé, adornado por arabescos entalhados nas paredes internas que milagrosamente resistiram.

Daniel aproximou-se, passando os dedos pelos sulcos das figuras.

— Rostos… cruzes… e corvos?

— Corvos? — Elena, próxima, franziu o cenho.

— Aqui, veja. — Ele apontou um desenho mais claro: um corvo de asas abertas, quase devorando algo que poderia ser um coração — Um símbolo de mau agouro para muitos. Ou talvez apenas representações de morte e renovação.

Lucas estreitou os olhos, desconfortável.

— Ou de algo que deviam temer. — Olhava em volta como se esperasse o corvo saltar da parede — Parece até aviso.

Rômulo analisou os relevos com calma.

— Curioso… corvos eram comuns em mitologias diversas, não apenas entre romanos. Podiam simbolizar sabedoria, transição entre vida e morte. Talvez este templo não fosse dedicado a uma divindade tradicional, mas a algum culto local, adaptado ao estilo romano.

— Um culto sincrético. — Completou Daniel — Como tantas vezes aconteceu nas províncias. A população misturava suas crenças nativas com símbolos do império. O resultado podia parecer estranho para nós hoje, mas fazia sentido para eles.

Lucas engoliu em seco.

— Então você está dizendo que este templo não era para Júpiter, Marte ou Vênus, mas para… sei lá… um deus corvo?

Daniel sorriu diante da imaginação do amigo.

— Não necessariamente. Mas pode ter sido um templo votivo, dedicado a uma divindade relacionada à morte ou ao destino. Talvez Hades, talvez algo ligado a cultos mistério, como Mitra. O corvo às vezes aparecia como mensageiro nesses rituais.

Rômulo acrescentou:

— Há registros de soldados romanos que traziam para as colônias rituais orientais, mistérios persas, até crenças egípcias. Quem sabe esse templo não era resultado disso?

Lucas coçou a nuca.

— Bom, seja lá o que era, não dá pra dizer que o clima aqui é muito convidativo. — Murmurou, olhando para o interior escuro — Parece que a qualquer momento algo vai nos observar lá de dentro.

Eles avançaram alguns passos, mas logo perceberam que o interior estava tomado de escombros. Ainda assim, a imponência da fachada permanecia.

— Se este era mesmo um templo… — Disse Daniel — Pode ter sido o centro espiritual da cidade. Talvez até o lugar mais sagrado.

— E, ironicamente, o que mais resistiu. — Completou Rômulo, tirando novas fotos.

Mais adiante a rua continuava, mas o panorama mudava drasticamente. O que antes eram construções inteiras virou um mar de escombros. Daniel estudou as encostas ao redor, notando ranhuras profundas nas pedras mais altas, e balançou a cabeça.

— Deslizamentos. A montanha cedeu em algum ponto, soterrando boa parte da cidade. Talvez tenha sido isso que selou o destino dela… e também o que a escondeu do mundo.

Lucas olhou em volta, inquieto.

— Então, de certa forma, foi a própria montanha que enterrou a cidade. Como se quisesse guardá-la.

Rômulo respondeu em tom mais prático:

— Ou destruí-la. A natureza não tem intenções, só consequências.

Mas Daniel não pôde deixar de sorrir para as palavras de Lucas.

— Ainda assim, gosto da ideia. A cidade ficou adormecida, esperando por alguém que viesse ouvi-la novamente.

Ficaram em silêncio. Ao redor, a cidade morta parecia observá-los. E, por um momento, todos sentiram que estavam pisando não só sobre ruínas, mas sobre memórias ainda vivas, sussurros antigos que o vento se encarregaria de carregar para sempre.

—X—X—X—

O sol do sertão já estava alto quando Daniel, Lucas, Rômulo, Elena, Ian e Ebony deixaram a praça central daquela cidade esquecida pelo tempo e seguiram adiante pela estrada de pedras calçadas que descia o vale. Atrás deles, as ruínas romanas se espalhavam como ossos gigantescos sobre a terra quente. Por um instante, Daniel virou-se para contemplar novamente o mosaico quebrado que outrora haviam sido os edifícios, agora moídos sob o peso de séculos.

— Incrível como eles trouxeram pra cá toda a mentalidade imperial, não? — Comentou, incapaz de esconder o tom de fascínio na voz — Olha isso. Uma Roma inteira, plantada no meio da caatinga.

Lucas soltou um assobio baixo, ajeitando os óculos no rosto.

— É, Daniel. Mas ainda pergunto: por quê aqui? Por que alguém escolheria um lugar tão distante, tão inóspito, para erguer construções tão grandiosas? Deve haver uma razão mais tangível do que só delírio colonizador.

Daniel ergueu o olhar na direção do horizonte, protegendo os olhos com a mão. A estrada antiga se estendia como uma cicatriz pálida em meio ao mato ralo, seguindo adiante em direção a um ponto escuro no vale. Era mais uma construção imponente, que lembrava uma casa-grande de engenho, embora mais pesada, quase sinistra. O telhado parcialmente destruído deixava vigas à mostra, retorcidas contra o céu.

— Talvez ali esteja nossa resposta — Apontou — Vamos?

Rômulo apenas assentiu, o semblante carregado de algo difícil de decifrar. Carregava sua mochila militar com naturalidade, mas a mão direita agora repousava retesada no cinto de sua calça com certo nervosismo. Decerto também não estava sabendo lidar com a onda avassaladora de entusiasmo ante tudo aquilo, Daniel avaliou.

Elena, Ian e Ebony vinham atrás, trocando olhares breves. Era discreto, mas Daniel percebeu que eles começavam a manter certa distância. No entanto, julgou que fosse apenas o desinteresse deles começando a dar sinais, afinal os exploradores de verdade ali eram Lucas, Rômulo e ele.

A estrada conservava trechos do calçamento original. Pedras largas, encaixadas com técnica que lembrava o que Daniel já vira em escavações na Itália e na Tunísia. Mas aqui, essas pedras estavam cobertas por poeira grossa, intercaladas com espinhos secos. Era um caminho que gritava abandono.

Lucas chutava pequenas lascas de cerâmica que surgiam aqui e ali, e vez ou outra parava para tirar mais uma foto de algo que julgava interessante.

— Já imaginou quanta coisa já passou por aqui? Escravos. Soldados. Comerciantes. Deve ter sido um formigueiro de vozes.

— E gritos também. Sangue, suor e até lágrimas. — Disse Daniel, o tom mais grave — Não vamos romantizar demais. Esse império foi construído sobre sofrimento. Pense nos povos locais, nos homens trazidos à força para cá, para colocar esta cidade de pé.

O grupo avançava pela estrada estreita, a poeira subindo a cada passo. O sol já se inclinava, espalhando tons dourados pelo sertão. Daniel e Lucas iam à frente, lado a lado, debatendo em voz baixa, como se as próprias árvores ao redor pudessem escutar e guardar segredos.

— É muito estranho… — Murmurou Lucas, chutando uma pedra seca pelo caminho e ainda remoendo o mesmo assunto — Uma cidade inteira, desse porte, simplesmente abandonada. Não faz sentido.

Daniel arqueou as sobrancelhas.

— Cidades não morrem sem motivo. Pode ter sido falta de recursos, pode ter sido uma epidemia, pode ter sido guerra. Mas tudo me leva a crer que o problema aqui foi econômico.

— Você acha que as pessoas largaram tudo porque acabou alguma fonte de riqueza? — Lucas insistiu.

— Exato. Lugares assim só florescem quando há algo a ser explorado. Se esse “algo” desaparece, o resto desmorona junto.

O assistente concordou em silêncio. Mas uma sombra ainda o incomodava.

— E se não foi apenas a escassez? E se houve conflito com os povos que viviam aqui antes? Forçar mineração em território indígena… não seria a primeira vez.

O arqueólogo não respondeu de imediato. Apenas suspirou fundo, como se confirmasse mentalmente a hipótese.

— Talvez tenha sido uma mistura dos dois. Ganância demais, conflito demais.

Atrás deles, Rômulo caminhava estranhamente em silêncio absoluto. Seus olhos examinavam cada curva da trilha, cada pedra maior, como se estivesse sempre à espera de uma emboscada. Daniel o observou de relance, pensando que talvez ele estivesse confabulando consigo mesmo sobre a possibilidade de darem de cara com um dos grupos armados que ele mencionara bem ali, e uma estranha sensação de vigilância se instalou em seu peito.

Ao dobrarem um trecho mais estreito, o caminho se abriu.

E então finalmente a viram com nitidez.

A construção erguia-se diante deles, mais nítida agora. Paredes altas, janelas arqueadas, pedaços de pedras da fachada caindo como cascas de uma pele antiga. O mato também havia tomado conta: cipós escorrendo pelas paredes como cabelos desgrenhados, raízes rompendo os alicerces. O som de água correndo completava a cena — o rio passava logo atrás, represado por uma barreira de pedras, formando um lago raso repleto de aguapés.

— Olha só isso… — Murmurou Lucas, a voz quase trêmula — Parece uma casa-grande, ou entreposto, mas… adaptado. Completamente modificado.

Daniel franziu o cenho.

— Modificada para quê?

Apressaram o passo, contornando o mato até a lateral da construção. Ali, o chão revelava fileiras de buracos escavados, com bordas de pedra calcária bem talhada. Alguns estavam meio soterrados por folhas e terra.

— Poços de lavagem… — Daniel se agachou, examinando — E aqui, um dique rudimentar. Servia para represar a água e direcionar a correnteza para movimentar equipamentos. Isso não era engenho de cana. — Ele olhou bem nos olhos de Lucas — Isso era mineração.

O assistente sentiu o peito se apertar.

— Então é isso. O motivo de a cidade existir bem aqui.

Rômulo se aproximou, sempre atento ao entorno, e acrescentou em tom baixo:

— Também explica o isolamento. Operações assim exigiam discrição. Menos olhos curiosos, menos notícias chegando à Europa.

Daniel soltou um riso seco, sem humor, enquanto se levantava e limpava as mãos na perna da calça.

— Um paraíso para enriquecer rápido. E um inferno para quem trabalhava aqui.

Elena, Ian e Ebony observavam à distância. Ebony olhava em volta com uma expressão quase sem ânimo, enquanto Ian cruzava os braços, olhando a mata em silêncio, como se não quisesse se envolver.

O grupo entrou na construção.

O interior era frio. A luz entrava em feixes diagonais pelos buracos do telhado, revelando poeira que dançava no ar. Bases de ferro estavam cravadas no chão, restos de rochas espalhavam-se pelos cantos, e calhas quebradas ainda conduziam ao que pareciam antigas fornalhas desabadas.

Daniel passou a mão sobre uma bancada de pedra. Um pó escuro cintilou em seus dedos.

— Escória — Comentou, pegando um punhado entre o polegar e o indicador — Eles fundiam o minério aqui mesmo. O calor devia ser insuportável.

Ao seu lado, Lucas registrava tudo com sua câmera. Daniel percorreu as paredes, descobrindo marcas riscadas, talvez de ferramentas. Mais adiante, inscrições quase apagadas pelo tempo, apenas sulcos tortos como sombras.

— Lucas, isso muda tudo. — Sua voz saiu num sussurro reverente — Uma cidade romana no sertão já era absurdo. Mas agora temos o motivo: mineração. O império romano já conhecia a América do Sul por meio de seus metais preciosos.

Lucas assentiu, os olhos brilhando.

— E agora o abandono também faz sentido. Se os metais se esgotaram, ou se os conflitos com os indígenas ficaram insustentáveis, eles não tinham mais por que permanecer aqui.

Daniel respirou fundo, absorvendo o peso da descoberta.

Após explorarem cada canto, assim como nos demais prédios da cidade não encontraram nada muito revelador. Seguiram pelos fundos da casa. O terreno subia levemente até uma clareira pedregosa.

Foi ali que encontraram a boca da caverna.

Larga, sombria, exalando um ar úmido com odor metálico, como se respirasse por conta própria.

Daniel parou, sentindo um arrepio. O sertão, vasto e dourado, permanecia atrás deles. Mas à frente, a escuridão prometia segredos.

— Vamos? — Perguntou, encarando Lucas.

— Vamos. — Lucas sorriu, nervoso — Não viemos até aqui pra parar na porta.

Rômulo sinalizou silêncio, investigou a entrada, depois assentiu. Elena, Ian e Ebony permaneceram próximos, mas não se adiantaram.

Dentro da caverna, o espaço era amplo nos primeiros metros, como a entrada de uma vasta galeria. No entanto, diminuía à medida que seguia montanha adentro. À medida que avançavam, as lanternas do grupo revelavam paredes irregulares e teto baixo em alguns pontos. Mais adiante, numa reentrância lateral, algo chamou a atenção de Daniel.

Parecia uma antiga caçamba tombada. E dentro dela, um monte de pedras cinzentas, pontiagudas, que brilhavam contra a luz da lanterna.

Daniel se aproximou, o coração disparado. Pegou uma das pedras, analisando-a sob a luz.

— Argentita… — Murmurou, com toda a cor fugindo de seu rosto — Eu já vi amostras iguais no Museu das Minas e do Metal, em Belo Horizonte.

Lucas arregalou os olhos.

— Você está dizendo que isso é… prata?

Daniel respirou fundo, emocionado.

— Isso quer dizer que esta não é só uma mina qualquer. Lucas… — Os olhos dele estavam marejados — É a Mina de Muribeca.

O silêncio foi quebrado apenas pela respiração deles. Os dois se encararam, descrentes. E então se abraçaram, tomados pela mesma euforia.

— Cara… — Lucas balbuciou — Você tem noção do que isso significa? Estamos reescrevendo a história!

— A história do Brasil inteiro. — Daniel sorriu, recontando com os olhos marejados — Os romanos de alguma forma chegaram ao nosso continente, estabeleceram esta cidade e a abandonaram. Séculos depois, Muribeca encontrou estas minas e morreu sem revelar sua localização. E agora… Nós a encontramos.

Rômulo observava à distância, um leve sorriso no canto dos lábios, mas não disse nada. Elena, Ian e Ebony permaneciam imóveis na entrada, como estátuas.

A emoção transbordava em Daniel e Lucas.

— Daniel, isso aqui vai consolidar nossas carreiras como nunca se viu antes na arqueologia nacional! — O assistente pontuou — Temos material aqui para trabalhar pelo resto da vida!

— Isso aqui… isso é muito maior do que nós dois, irmãozinho. — O outro devolveu — Mas estou muito feliz que estejamos juntos nessa.

Antes que Lucas pudesse responder, um estalo seco cortou o ar.

Daniel congelou, reconhecendo o inconfundível som do cão de uma arma sendo engatilhada.

Virou-se devagar e viu que Rômulo estava de pé, a pistola erguida, apontada diretamente para eles. Lucas empalideceu ao ver a cena e pareceu murchar.

— Rômulo? — Ele piscou, incrédulo. — O que… que diabos você tá fazendo?

O empresário não piscou.

— Larguem tudo. Agora.

Daniel sentiu o mundo girar. O suor escorria pela têmpora, que imediatamente começou a latejar.

— Rômulo, o que é isso? O que você está fazendo? — Gritou, a voz embargada, tentando decifrar a expressão no rosto do empresário — Escuta, nós não queremos nada disso! Não estamos nessa atrás de dinheiro. Essa descoberta é histórica, não financeira. Se você quer o minério, pode ficar!

Lucas levantou as mãos, dando um passo atrás.

— Isso, cara, não precisa de violência. A gente publica junto, divide os créditos, sei lá, qualquer coisa. Mas não faça besteira…

— Silêncio. — A voz de Rômulo era de pedra — Não falem mais nada.

Daniel se exaltou, avançando um passo.

— Você não pode fazer isso, Rômulo! Isso é maior do que nós todos!

O empresário não respondeu. Suspirando de uma forma estranhamente relaxada, seu dedo apertou o gatilho. O som do disparo explodiu nas paredes da caverna, multiplicado em ecos quase sobrenaturais.

Lucas soltou um gemido agudo, levou a mão ao ombro e cambaleou, batendo contra a rocha. O sangue brotou escuro entre seus dedos. Seu corpo escorregou devagar até o chão, deixando um rastro vermelho sobre a parede acinzentada. Daniel ajoelhou-se ao lado de Lucas num sobressalto, quase escorregando nas pedras manchadas de sangue. O corpo do amigo tremia convulsivamente, o rosto retorcido em dor. Daniel pressionou o ferimento no ombro dele com as mãos, tentando conter o fluxo quente e vermelho que pulsava entre seus dedos. Lucas arfava, a respiração irregular, os olhos arregalados buscando algo no teto da caverna.

— Lucas! Ei, ei, ei! Fica comigo, por favor… — Sussurrou Daniel, desesperado — Vai ficar tudo bem, a gente vai te tirar daqui…

Mas ele próprio não acreditava no que dizia. O som do disparo ainda reverberava pelos corredores de pedra, como se a própria montanha repetisse, zombeteira, a sentença de morte que pairava ali.