Quando Daniel enfim ergueu o olhar, Rômulo estava parado a poucos passos, a arma ainda apontada. A luz da lanterna presa ao peito dele iluminava o cano escuro, quase ofuscando o semblante rígido. Ao redor, Elena, Ebony e Ian formavam um semicírculo silencioso. Ebony mantinha os braços cruzados, como um monólito, sem expressão. Elena mordia o lábio inferior, inquieta, desviando o olhar. Ian estava pálido, o queixo tremendo discretamente, seu fuzil pendurado num braço frouxo.

Por quê? — Daniel explodiu, sua voz soando estranha e arranhada — Por que você fez isso? Nós viemos juntos até aqui! Passamos perrengue juntos, rimos juntos! Por que atirar nele assim, por quê?

Rômulo suspirou, como quem carrega um fardo secular. Passou a mão pelo rosto, depois voltou a firmar o pulso, apontando o cano para Daniel.

— Não faça drama, Daniel. Ele ainda está vivo. Bom, pelo menos por enquanto.

— Isso é loucura! — Daniel gritou — A gente só queria a verdade! A história! Isso aqui é patrimônio do mundo, não é seu pra decidir quem vive ou quem morre!

— Ah, mas é — Disse Rômulo, a voz tão calma que doía — É sim. Mais do que você imagina.

O silêncio durou segundos intermináveis. O único som era a respiração falhada de Lucas, o eco longínquo de gotas pingando em alguma galeria.

— Daniel — Murmurou Lucas, entre dentes, apertando o braço de seu amigo — Não deixa ele… não deixa…

Rômulo deu um passo à frente, emergindo totalmente do feixe de luz, e o brilho nos olhos dele parecia um misto de orgulho ferido e fervor religioso. Daniel sentiu um calafrio percorrer a espinha. A caverna, com suas paredes úmidas e estreitas, parecia apertar-se em torno deles, cada pedra refletindo o brilho metálico do sangue espalhado pelo chão.

— Sabe, Daniel… — Começou Rômulo, a voz baixa, carregada de solenidade — Você é um bom arqueólogo. Realmente é. Mas falta a você algo essencial que minha família possui em abundância: memória. Linhagem. História viva, não apenas ruínas mortas.

Ele ergueu o queixo, deixando escapar um sorriso frio.

— Eu carrego nas veias o sangue de Dom Pedro I, de Dom Pedro II… Sou um Orleans e Bragança, descendente direto do trono que foi tomado deste país por um bando de maçons republicanos medíocres em 1889.

Rômulo olhou ao redor, como se aquela mina fosse um palco para seu manifesto, e continuou:

— Foi um golpe duro. Difícil de digerir. Mas decidimos que não seria para sempre. Uma hora, viraríamos o jogo outra vez. — Pontuou — E desde então, nos preparamos. A monarquia não morreu, apenas adormeceu, silenciosa, costurando alianças onde vocês, historiadores, nunca ousaram cavar. E o Brasil? — Ele soltou um risinho debochado — Bem, o Brasil nunca foi realmente estável, foi? Sempre precisa de tutores, de mão firme. Precisa de lembranças periódicas de quem realmente manda.

Daniel sentia o peito apertar. Ele olhou para Lucas, que ainda tentava se recompor contra a parede, e balançou a cabeça, incrédulo.

— Isso é… ridículo. Uma teoria conspiratória delirante. Você vai mesmo me dizer que um punhado de monarquistas sonâmbulos está manipulando tudo há mais de um século? — A voz de Daniel falhava, misto de incredulidade e horror — Que uma linhagem familiar controla governos, movimentos civis, revoluções… tudo isso?

Rômulo riu, um som baixo e satisfeito, quase afável, como o ronronar de um gato que se sente superior.

— Ah, Daniel… e você acha o quê? — Indagou, gesticulando com as mãos — Que essa onda recente de nacionalismo tosco, esses cultos à força bruta, às armas, que tomaram o país nos últimos anos, surgiram do nada? Que Bolsonaro e seus apoiadores apareceram como coincidência? Não, meu caro. Eles foram apenas peões úteis, instrumentos para abrir portas, testar a tolerância do povo para rupturas democráticas, sem que ninguém percebesse quem puxava os fios.

Rômulo se aproximou, deixando o peso da presença dele quase físico.

— Olhe ao seu redor, Daniel. Toda essa confusão, essa degradação das instituições, o ódio espalhado, o ensino distorcido… tudo isso foi cuidadosamente cultivado. Um terreno fértil para que, quando a sociedade entrar em colapso, o povo aceite o retorno da monarquia como algo natural, necessário e inevitável. A velha Coroa voltando para restaurar a ordem.

Daniel recuou um passo, a boca seca, o estômago embrulhando.

— Você… você é doente. Está me dizendo que todos esses movimentos fascistas, esses ataques à democracia… tudo isso tem o dedo da sua “linhagem real”?

— Não só o dedo. — Rômulo ergueu uma sobrancelha, satisfeito — Tem o punho inteiro. E se não fosse por um golpe de azar, o Brasil já teria reassumido oficialmente sua posição de monarquia tutelada, como aconteceu em outros cantos do mundo. Mas ainda vai acontecer. É inevitável. A República é fraca, corrupta por natureza. Precisa do peso simbólico do sangue azul para se sustentar.

Daniel sentiu náusea. O calor da mina misturava-se ao gosto metálico do sangue, penetrando seus sentidos. Cada detalhe da caverna parecia conspirar para amplificar o terror: goteiras pingando, ecos distantes, pedras irregulares refletindo luz trêmula.

— Tá, mas o que isso tem a ver conosco? — Gritou Daniel, a voz estrangulada entre a raiva e o medo — Por que nos chamar para esta expedição? Por que nos trazer até aqui? Só para atirar na gente?

Rômulo deu um passo à frente, a pistola ainda firme na mão, mas a expressão serena, quase contemplativa. O feixe de luz das lanternas refletia nos seus olhos, dando-lhes um brilho quase religioso.

— Ora, Daniel… — Começou ele, a voz baixa, calculada — Vocês acabaram de confirmar que esta cidade existe. Uma colônia romana perdida, com direito a minas de prata ainda intactas. Se a Itália souber disso, pode reivindicar este território como herança cultural e histórica. Talvez até territorial, caso algum governo oportunista queira forçar. Já pensou que belo pretexto para internacionalizarem parte do Brasil?

Daniel empalideceu, sentindo o peso do horror cair sobre ele como uma pedra. Nunca havia considerado aquela possibilidade. Para ele, cada descoberta arqueológica era um legado universal, não uma peça de xadrez geopolítico. Agora, aquele lugar que ele imaginava como uma maravilha esquecida, um tesouro científico, transformava-se em uma armadilha mortal.

— Vocês foram necessários até este ponto. De fato, eu sempre quis confirmar a existência deste local. Eu gosto mesmo de explorações, sabe? — Continuou Rômulo, a voz assumindo um tom quase paternal, mas gelado — Mas depois da foto que meu pessoal tirou do avião, precisávamos confirmar se a cidade era mito ou realidade sem nenhuma sombra de dúvidas. Precisávamos de profissionais competentes para nos ajudar a encontrá-la e identificá-la. E foi aí que vocês entraram.

Ele fez uma pausa, observando cada reação de Daniel e Lucas. O arqueólogo sentiu o estômago embrulhar, a mente girando em pânico.

— Agora que fizemos isso, não posso deixar que vocês estraguem mais de um século de preparação publicando artigos sobre este lugar. Este solo é brasileiro. — Rômulo apertou os dentes ao dizer a palavra, carregando-a de desprezo e determinação — E será guardado por nós, herdeiros legítimos, até que a coroa volte a brilhar.

Lucas gemeu, tentando se erguer, mas Daniel o segurou com força. O amigo tremia, misturando suor, sangue e pó prateado que havia se acumulado em seu rosto. Lágrimas quentes escorriam pelos cantos dos olhos de Daniel, enquanto o desespero se misturava à incredulidade.

— Você é um monstro… — Murmurou ele, a voz quase engasgada pelo medo e nojo.

Rômulo balançou a cabeça, impassível, como se aquilo fosse apenas uma operação lógica, um ajuste necessário na história.

— Não, Daniel. — A voz dele era firme, sem traços de emoção — Eu sou apenas o corretor de um erro histórico. O império não caiu; ele foi traído. Estou apenas… recolocando as peças no lugar.

O arqueólogo engoliu em seco, sentindo uma mistura de raiva, incredulidade e terror. Cada palavra de Rômulo era como um punhal, perfurando a lógica de sua vida e sua fé na história como ciência objetiva.

O empresário ergueu a arma, apontando diretamente para Daniel. O gesto não tinha pressa; cada movimento dele era calculado, frio.

— Mas enfim. — Continuou, como se estivesse encerrando uma conferência acadêmica — Vamos acabar logo com isso.

Um som sufocado veio, inesperadamente, de Ian. Até então estático, ele deu um passo para trás. Os olhos dele estavam arregalados de horror.

— Ei, hã… Espera… Isso não foi o que você me disse quando me contratou. Não foi o combinado. — Ele gaguejou, tentando elaborar um protesto — A gente ia registrar, tirar fotos, mas não ia ter ninguém morto, porra! Isso não estava no acordo!

Rômulo virou o rosto devagar para ele. O cano da pistola se inclinou quase preguiçosamente, apontando agora para Ian. O silêncio que caiu foi tão profundo que dava para ouvir o coração de Daniel martelar no peito.

— Você resolveu protestar logo agora, Ian?

Os lábios do outro tremiam. Ele balançou a cabeça, nervoso.

— Cara, eu não consigo… Não vou ficar aqui olhando você executar esses dois. Lucas tá morrendo, e você… você vai atirar no Daniel também, não vai? — A voz dele quebrou, embargada pelo medo — Isso não tem nada a ver comigo.

Rômulo respirou fundo, como quem precisa de paciência para explicar algo óbvio a uma criança.

— Você aceitou estar aqui. Você viu o que vimos. Já está envolvido até o pescoço.

— Não! — Ian sacudiu a cabeça, recuando um passo — Eu sou especialista em comunicações, cara. Só queria ganhar minha parte e ir embora, só isso. — Ele apontou para os dois acadêmicos caídos ao chão — Eu não quero carregar a morte deles nas minhas costas. Eu não sou assassino!

Os olhos dele se desviaram para Daniel, que continuava ajoelhado ao lado de Lucas, com o rosto manchado de sangue e desespero. Havia terror no olhar de Ian, mas também o que parecia um pouco de compaixão.

— Escuta, Rômulo… eu juro que não vou falar nada pra ninguém. Mas não me obriga a ficar aqui. Me deixa ir, eu sumo, você nunca mais vai ouvir falar de mim.

Por um instante, o silêncio pareceu pesar ainda mais. O dedo de Rômulo repousava no gatilho, imóvel. O olhar dele, frio, avaliava Ian de cima a baixo.

— Sabe, eu gostava mais de você quando você ficava caladinho. Por que, agora, você está falando demais. — Disse, finalmente — E eu não confio em gente que fala demais.

— Rômulo, por favor… — Ian ergueu as mãos, num gesto instintivo de rendição — Eu juro que não vou…

Mas o veredito já estava dado.

O estampido ecoou como um trovão aprisionado na rocha. O impacto lançou Ian para trás, o peito aberto em sangue. O fuzil caiu ao chão com um estrondo metálico. Ele ainda arfou, tentando respirar, os olhos arregalados de incredulidade. Daniel gritou, abraçando Lucas com mais força, lágrimas escorrendo pelo rosto. O cheiro de ferro, de sangue e prata misturavam-se no ar, tornando a caverna sufocante.

Rômulo baixou a arma lentamente, passou a mão pelo cabelo e suspirou, como se aquela execução fosse apenas um detalhe necessário, um ajuste de percurso.

— Eu realmente não queria chegar a isso. Mas é sempre assim… sempre há quem duvide, quem se amoleça na hora decisiva.

Ele se virou para Elena e Ebony, que assistiam a tudo com expressões tensas.

— Chega. Acabou. Não vou matar mais ninguém. — A voz de Rômulo cortou o ar, fria e decisiva — Preparem os explosivos. Vamos fechar a entrada da mina e garantir que estes três permaneçam aqui, junto com seus segredos.

O mundo pareceu congelar. Daniel olhou de Rômulo para Elena e Ebony, esperando algum sinal de hesitação. Mas não havia nada. Elena apertava os olhos, a mão tremendo levemente, enquanto se curvava sobre a mochila, retirando os cartuchos vermelhos com pavios curtos. Ebony apenas avançou, rígido, como uma sombra silenciosa, abrindo outra bolsa e conferindo rapidamente os explosivos.

Daniel sentiu o peso de Lucas em seus braços. Seu amigo tremia, os dentes cerrados, os olhos arregalados de dor.

— Não, não, não… — Murmurou, a voz embargada pelo medo e pela incredulidade — Por favor! Vocês não precisam fazer isso! Elena, você… você também entende o valor disso aqui, entende o que está destruindo! Não faça isso!

Elena não respondeu. Apertou ainda mais os olhos e, num gesto mecânico, preparou o detonador. Seus dedos tremiam, mas havia uma determinação gélida em seus movimentos, como se qualquer hesitação fosse impossível. Ebony recuou alguns passos, verificando a posição dos cartuchos com precisão clínica.

Rômulo até ergueu a arma mais uma vez, apontando para Daniel. Mas algo dentro dele pareceu se quebrar. O cano caiu abruptamente, numa combinação de impaciência e desdém, enquanto ele respirava fundo.

— Não vale mais a bala. — Disse, a voz tão neutra que parecia não carregar emoção — Vamos. Fechem logo essa maldita entrada.

O som seco do estopim sendo aceso reverberou pela caverna, uma sentença silenciosa. Daniel apertou Lucas contra o peito, o corpo do amigo sacudindo em espasmos, enquanto a chama serpenteava até o primeiro cartucho.

— Vocês não vão se safar com isso! — Berrou Daniel, a voz quebrando, embora soubesse que ninguém mais ouviria.

Elena e Ebony avançaram pelo túnel, lanternas iluminando a escuridão à frente. Cada passo deles parecia calculado, frio, indiferente ao horror que deixavam para trás. Não havia dúvida em seus olhos, apenas uma obediência quase militar. Daniel percebeu que qualquer tentativa de apelo seria inútil.

— Lucas, vem! — O arqueólogo passou o braço pelo corpo do amigo, tentando o fazer levantar — Vem, rápido!

— Daniel… — Lucas conseguiu dizer, a voz fraca — Não… O que você…?

— Vem, Lucas! — Daniel esbravejou, forçando o assistente a caminhar caverna adentro — Não podemos ficar aqui!

— Eu não vou…

Vai sim!

Daniel fechou os olhos, respirando fundo e tentando segurar o choro enquanto arrastava Lucas consigo para uma parte mais funda da caverna. Sabia que o tempo era curto. A chama avançava, crepitando em direção aos cartuchos, e o cheiro de pólvora se misturava ao ferro e ao sangue, tornando o ar sufocante.

E então, o clarão da explosão iluminou a caverna por um instante. Daniel só teve tempo de cerrar os olhos, se jogar no chão e apertar Lucas contra si quando o mundo explodiu num estrondo que sacudiu cada pedra, cada parede, e reverberou até nos ossos. O chão tremeu sob eles, poeira e detritos subindo como nuvens densas, abafando gritos e reflexos. Quando o rugido e o tremor finalmente se extinguiram, o silêncio caiu como um manto pesado. A caverna parecia engolir tudo: os corpos, o sangue, a vida.