A Cidade de Prata
11 Capítulo X
O vale diante deles continuava lá ao amanhecer, como uma miragem que se recusava a sumir. O sol subiu preguiçoso sobre as montanhas, lançando fachos dourados que dançavam no mar verde lá embaixo. A coluna de pedra que haviam avistado no dia anterior cintilava, ainda tocada por brumas tênues.
Ao redor dos exploradores, o topo da montanha acordava em sinfonia: cantos altos de arapongas, o estrilar metálico de insetos e o rumor do vento que varria os cristais que se aventuravam para fora da boca da caverna, arrancando deles lampejos rápidos. O ar era fresco ali, quase frio, mas cheio do cheiro amadeirado da vegetação noturna que se dispersava.
A equipe decidiu não se apressar. Após o impacto da descoberta, perceberam o quanto seria imprudente tentar descer imediatamente. Montaram um fogo contido e Elena preparou um café da manhã reforçado: cuscuz de milho com carne seca e um café bem forte.
Sentaram-se em círculo para comer, os rostos ainda tensos pela emoção, mas agora iluminados por sorrisos genuínos.
— Vocês têm noção do que é isso? — Disse Rômulo, comendo lentamente, saboreando cada colherada mais pela oportunidade de falar do que pelo gosto do cuscuz — Uma suposta cidade romana… aqui, no meio do Brasil. Uma cidade inteira. Uma maldita cidade romana.
— Ainda temos que confirmar tudo. — Ponderou Daniel, mas seus olhos brilhavam — Mas as indicações são fortíssimas. O Manuscrito fala claramente de colunas, inscrições... Tudo se encaixa.
Ebony, sentado com o rifle entre os joelhos, balançou a cabeça, maravilhado.
— Mas por quê? O que levaria romanos a cruzar um oceano inteiro para construir uma cidade aqui, tão longe de qualquer outra colônia conhecida?
— Talvez não tenha sido o Império, mas sobreviventes. — Sugeriu Lucas, se servindo de um segundo pedaço de cuscuz — Um navio perdido, gente que fugiu de guerras. Quem sabe um grupo isolado que decidiu recomeçar num lugar novo, longe dos conflitos do Mediterrâneo.
— Ou um projeto secreto de expansão — Arriscou Daniel, conspiratório — Quem garante que não havia missões clandestinas, exploradores além do que os registros oficiais contam?
Rômulo sorriu, mesmo com a boca cheia.
— A história é cheia de lacunas. Lacunas até demais. — Pontuou, uma expressão estranha passando por seu rosto por um segundo — Mas o que importa é que vamos preencher uma delas. E isso é maior do que qualquer teoria agora.
Elena observava o vale silenciosa, com uma expressão intrigada. Quando se virou para eles, em seus olhos havia um brilho de excitação, mas também algo de alerta.
— Seja qual for a explicação, este lugar ficou escondido por muito tempo. E a floresta não larga o que toma para si facilmente. Temos que ter cuidado lá embaixo.
Lucas suspirou, parando uma colherada a meio caminho da boca para falar.
— Depois do que enfrentamos até aqui, estou preparado para qualquer coisa. Desde que não apareça outra onça querendo me fazer de petisco.
Eles riram, o peso dos dias anteriores transformado agora em piada. Por um instante, foram apenas seis pessoas acampando, partilhando comida quente e sonhos impossíveis.
Quando terminaram, arrumaram o acampamento com rapidez. Cada um assumiu o peso de sua mochila, os cantis ainda bem abastecidos, e Daniel conferiu o Manuscrito 512 mais uma vez antes de guardá-lo em sua mochila. Rômulo apareceu outra vez com sua câmera fotográfica e quis mais uma foto da equipe, mostrando a cidade lá embaixo. Foi difícil encontrar um local para apoiar a câmera, mas Ian conseguiu prendê-la em uma fenda na boca da caverna. O empresário ligou o timer da câmera e voltou até o grupo, e mais uma foto da equipe estava registrada, com sua incrível descoberta ao fundo.
Desceram pelo mesmo caminho por onde tinham chegado, seguindo a estrada de pedra agora pelo lado oposto da montanha. Logo perceberam que ali o tempo havia sido menos gentil. Muitas pedras estavam partidas, desalinhadas, engolidas por raízes que pareciam punhos gigantes rasgando o calçamento. Em alguns pontos, a estrada desaparecia completamente sob deslizamentos antigos, obrigando o grupo a contornar ou saltar sobre trechos de rocha e terra solta.
— A chuva deve ter sido implacável por aqui ao longo dos séculos. — Comentou Lucas, estudando as fendas no caminho — E os raios também. Veja como essas árvores estão retorcidas, queimadas em partes.
— Isso pode explicar por que a estrada se conserva melhor lá embaixo. — Comentou Daniel, limpando o suor da testa — A proteção das copas maiores e o relevo menos exposto aos ventos fortes deve garantir alguma proteção.
Rômulo vinha logo atrás, quase parecendo um turista eufórico em seu conjunto cáqui.
— Desde que ainda nos leve à cidade, podem faltar pedaços à vontade.
O sol já estava alto quando finalmente atingiram o sopé da montanha. Ali, a estrada parecia ressurgir das entranhas do solo, muito mais bem conservada. Os blocos de pedra alinhavam-se firmes, ladeados por árvores tão altas e retas que formavam uma espécie de túnel natural. A luz filtrava-se em feixes finos, pintando o caminho com listras douradas e escuras, e ao lado da estrada calçada corria um riacho de águas cristalinas. Era como contemplar o trabalho de um talentoso paisagista que resisitira a séculos de intempéries. O ar, por sua vez, estava pesado de aromas: terra molhada, flores quase apodrecidas e um leve toque mineral vindo do fundo do vale.
Avançaram por uns bons minutos em silêncio, estupefatos, absorvendo cada detalhe. Até que, numa curva, a vegetação se abriu de súbito. Diante deles erguia-se um arco monumental, composto por três vãos: o central muito maior, flanqueado por dois menores. No topo ainda podiam se ver blocos lavrados com inscrições tão antigas que o tempo se encarregara de corroer quase completamente, e nos quatros cantos o que pareciam manequins sem cabeça e sem braços, claramente restos de estátuas já desfiguradas.
Lucas puxou sua própria câmera fotográfica da mochila e começou a registrar a cidade. Daniel caminhou até o arco, os olhos arregalados e marejados, passando a mão pela superfície irregular das letras e encarando uma das poucas inscrições minimamente nítidas.
— Veja isso, Rômulo. Não é latim clássico, mas algumas letras ainda se distinguem… um “C”, um “E”… talvez parte de “CAESAR”.
Rômulo apertou os olhos, se aproximando e examinando com o dedo.
— Difícil dizer. O desgaste foi brutal. Mas é bem no estilo dos arcos do triunfo, celebrando alguma vitória ou homenageando o imperador.
— Sim. O que bate com o que está no Manuscrito.
Os dois trocaram um olhar cúmplice e Daniel tratou de empunhar o Manuscrito outra vez, encontrando o trecho correspondente.
— “Não achamos outro caminho senão o único que tem a grande povoação, cuja entrada é por três arcos de grande altura; o do meio é maior, e os dois dos lados são menores”. — Leu, dando um passo para trás e contemplando o conjunto com ar grave — Aqui é o limiar. Estamos oficialmente entrando na cidade.
Rômulo sorriu de um jeito orgulhoso, quase esfuziante, como se tivesse acabado de receber um prêmio.
— Então entremos. Que César nos receba.
Atravessaram o arco e encontraram uma rua larga, ladeada por construções que o tempo não perdoara. À esquerda, estendia-se uma fileira de casas baixas, simétricas, construídas de blocos de barro queimado que ainda seguravam firmes umas às outras apesar das rachaduras profundas. O telhado de algumas havia desabado, mas outras mantinham as lajes inteiras, criando sombras escuras onde o cheiro acre de morcegos era forte.
— Este deve ter sido um bairro residencial — Daniel especulou, abrindo o mapa mental do lugar — Casas pequenas, uniformes… Provavelmente para os trabalhadores.
Elena fez uma careta ao ver uma revoada de morcegos escapar de uma das portas semi-caídas.
— Espero que não tenhamos que entrar em todas essas tocas fedidas.
— O espírito aventureiro tá fraquinho hoje, Elena? — Provocou Lucas, tentando sorrir.
— Pode me chamar de covarde à vontade. — Ela lhe lançou um olhar desdenhoso — Respeito toda vida animal, mas não gosto desses bichos.
Decidiram então explorar primeiro as casas baixas à esquerda, aquelas fileiras simples de barro queimado. Por insistência de Rômulo, Ian e Ebony foram primeiro, com os rifles em riste, apenas para garantirem que de fato eram os únicos por ali. Os dois examinaram casa por casa, e apenas quando fizeram um sinal positivo para os demais é que o empresário consentiu em liberá-los para seguir em frente.
Entraram cautelosos em algumas das casas que ainda mantinham o teto. O cheiro de mofo e fezes de morcego era quase insuportável. Nas paredes internas não havia pinturas ou decorações, apenas a rudeza das marcas de ferramentas antigas.
— É estranho. — Comentou Rômulo, segurando um lenço contra o nariz e analisando o local com cuidado — Nenhum utensílio, nenhum sinal claro de quem viveu aqui.
— Podem ter levado tudo na fuga. Ou a cidade pode ter sido saqueada. Ou então o tempo devorou o que não era pedra. — Sugeriu Daniel.
Na casa ao lado, cujo teto havia desabado, Lucas remexia os destroços de um dos cômodos que ele julgava ter sido um quarto, buscando algo interessante para fotografar, quando algo lhe chamou a atenção entre pedaços de telha e terra endurecida. Agachou-se, cavando com cuidado até retirar uma ânfora rachada, quase inteira. Aquele poderia ser um primeiro indicativo de quem eram as pessoas que haviam habitado aquela cidade, e ele achou que valia a pena registrar.
Puxou a ânfora com cuidado para fora dos destroços, procurando alguma inscrição na cerâmica, mas não havia nenhuma. Notando o vasilhame relativamente pesado, destampou-o para conferir seu conteúdo e quase caiu de costas. Ao virar o gargalo em sua mão, moedas douradas caíram lá de dentro, tilintando de forma quase musical.
Eram inequivocamente moedas de ouro. E a ânfora estava cheia delas.
— Daniel! Rômulo! Venham ver isso! — Gritou.
Os dois vieram correndo. Lucas mostrou as moedas na palma da mão. O sol bateu nelas, arrancando lampejos vivos.
— São iguais às descritas no Manuscrito. — Ele anunciou, trêmulo — De um lado um moço de joelhos, e do outro uma coroa e um arco e flecha.
Daniel estava lívido, com uma expressão estarrecida congelada em seu rosto. Rômulo, ao seu lado, pegou uma das moedas e ergueu-a contra o céu, girando-a com delicadeza.
— Senhores… — Ele abriu um sorriso malicioso, de puro prazer — Nós não apenas fizemos a descoberta do século… Mas também vamos sair daqui todos ricos.
Ian, Ebony e Elena já haviam se aproximado o suficiente para ouvir o anúncio do empresário.
— Como é que é?
— Quê? Ricos como?
As perguntas começaram a surgir e Daniel e Lucas já encaravam o empresário com assombro, mas Rômulo ergueu a mão em um gesto pedindo silêncio.
— Não é como se nós fôssemos vender essas moedas no mercado negro. — Ele esclareceu — Vamos levá-las para a Fundação, catalogá-las e disponibilizá-las para museus interessados em adquiri-las. Aí, sim, seremos muito bem pagos.
Ian e Ebony trocaram um high five animado e Elena chegou a esboçar um sorriso satisfeito. Daniel e Lucas trocaram um olhar, sem saber o que achar daquilo. Rômulo examinou a moeda mais um pouco e jogou-a de volta na mão de Lucas.
— Não perca sua chance de brilhar. — Falou para o assistente, já puxando a câmera de Lucas para si — A descoberta foi sua. Vamos registrá-la.
O assistente sorriu, buscando o olhar de Daniel. O arqueólogo abriu um sorriso orgulhoso e fez um gesto positivo com a cabeça, se afastando para que o amigo tivesse seu momento.
— Faz uma pose legal com a ânfora. — Rômulo pediu, apontando a câmera para Lucas.
Ainda trêmulo e um pouco desajeitado, Lucas enfiou o punhado de moedas que estava segurando no bolso da bermuda e segurou a cerâmica com as duas mãos. Não conseguiu evitar a emoção que o invadiu naquele momento, e apenas aceitou que sairia com uma careta de choro horrorosa nas fotos que mostravam sua primeira grande descoberta arqueológica.
Rômulo bateu algumas fotos e devolveu a câmera ao jovem.
— Parabéns, Lucas. — Ele o cumprimentou, com um sorriso imenso no rosto — Os livros de História vão citar seu nome também
O assistente engasgou, depondo a ânfora no chão.
— Obrigado, Rômulo.
Daniel se aproximou também, puxando o amigo para um abraço apertado.
— Parabéns, irmãozinho. — Ele falou no ouvido do outro — Estou muito orgulhoso de você.
— Valeu, Daniel. — Lucas respondeu — Significa muito vindo de você.
— Tudo certo, tudo ótimo. — Rômulo falou em voz alta — Mas ainda temos uma longa exploração pela frente. Vamos deixar para celebrar os pormenores quando voltarmos pra BH, ok?
Daniel e Lucas se soltaram e concordaram. Rômulo apontou para a ânfora e fez um gesto para que Elena a recolhesse.
— Vamos guardar isso com cuidado. Pode ser só o começo.
Deixaram as casas. Mais à frente, a rua se alargava e terminava numa praça majestosa, pavimentada com pedras maiores, dispostas em padrões geométricos que só podiam ser vistos parcialmente, cobertos que estavam por folhas, raízes e trechos tomados por terra. No centro erguia-se uma coluna de pedra escura, robusta e marcada por profundas cicatrizes, como se mil raios tivessem escolhido aquele ponto para morrer.
No alto da coluna, quase negra pelo limo, estava uma estátua de um homem de toga, o braço direito erguido e o dedo indicador estendido em um gesto de comando. O braço esquerdo havia se quebrado e o musgo cobria parte do rosto, mas não restavam dúvidas de quem representava.
— Júlio César. — Sussurrou Lucas, postando-se ao pé da coluna — O conquistador dos conquistadores.
— É o espírito colonizador no seu ápice — Emendou Daniel, fitando a estátua ferida de César — O impulso quase doentio de levar a própria civilização até os confins do mundo, custe o que custar. Não bastava dominar a Europa, o norte da África, o Oriente Médio… Precisavam plantar seus símbolos em qualquer terra que pisassem.
Lucas soltou um riso breve, sem humor, enquanto erguia sua câmera e tirava fotos da coluna e da estátua.
— E no fim, tudo volta para a terra. Roma caiu, esta cidade foi engolida pela selva… e só sobraram estátuas quebradas.
— Ainda assim é impressionante como o homem tenta eternizar seu poder. — Daniel colocou a mão na base da coluna, quase reverente — Mesmo sabendo que, cedo ou tarde, a natureza toma de volta o que é dela.
Nos quatro cantos da praça, quatro obeliscos menores competiam por atenção, embora dois estivessem partidos ao meio, caídos como gigantes mortos.
Rômulo girava devagar, absorvendo tudo.
— Olha só para isso… Impressionante, não é? É como Pompeia, só que no meio da floresta.
Elena concordou, soltando uma risadinha nervosa.
— E sem turistas tirando selfies.
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