A Cidade de Prata
8 Capítulo VII
Não fosse pelos relógios que carregavam consigo, teriam facilmente perdido a hora assim que deram início de fato à expedição e adentraram na mata. Diferente do que se esperava do sertão baiano, com vegetação rala e baixa típica de caatinga, a região era dominada por uma mata verdejante e relativamente alta, com copas que cobriam grande parte da luz do sol e um ou outro riacho correndo nas partes mais baixas do terreno.
Elena ia à frente, abrindo caminho à base do facão. Ian vinha logo atrás, com os olhos atentos ao GPS em sua mão e indicando a direção que deveriam seguir, seguido por Ebony, que vez ou outra conferia novamente os mapas topográficos da região e sugeria o melhor trajeto. Ambos estavam com seus fuzis presos a tiracolo, mas Daniel e Lucas fingiam não prestar atenção a este detalhe. Ainda não estavam 100% convencidos de que a justificativa de Rômulo para isso era plausível, mas também não iriam protestar e correr o risco de estragar uma oportunidade como aquela.
E o empresário, por sua vez, revezava sua atenção entre orientar o pessoal da sua Fundação e trocar amenidades excessivamente entusiasmadas com os dois acadêmicos. Vestindo novamente seu conjunto cáqui com colete e repetindo a todo instante o quanto estava ansioso e esperava que de fato encontrassem a tal “cidade perdida”, parecia uma versão ainda mais caricata de John Hammond do filme Jurassic Park. Daniel podia jurar que a qualquer momento ele soltaria a célebre frase “Não poupei despesas”.
— Isso aqui está mais difícil do que eu imaginei. — Lucas resmungou, desviando de uma touceira de espinhos — Eu sei que as descobertas mais maravilhosas vêm depois de muito mato, suor e mosquitos, mas juro que dessa vez esperava uma caminhada mais fácil.
Daniel deu uma risadinha, ajeitando sua mochila ao ombro.
— Não vou mentir, eu também esperava. — Ele emendou — Mas ainda assim prefiro isso a passar o dia todo em um escritório ou laboratório.
— E também existe o fator do desconhecido, não é? Quero dizer, mesmo com muito planejamento e organização a gente nunca sabe de fato o que vai encontrar pela frente, e eu considero isso particularmente muito estimulante. — Rômulo complementou — Do escritório para fora pode acontecer de tudo. Animais venenosos, terrenos acidentados, encontros indesejáveis ou até coisa pior.
Lucas e Daniel se viraram para olhá-lo, ambos estreitando os olhos.
— E o que seria esse algo pior? — Lucas indagou, realmente curioso.
Elena, que se mantinha calada até então e havia parado para respirar um pouco, apenas gritou lá da frente:
— Vocês nunca ouviram falar de expedições que simplesmente desapareceram?
O grupo ficou em silêncio, absorvendo aquelas palavras. Sim, todos já tinham ouvido falar de equipes inteiras que haviam desaparecido sem deixar rastros em inúmeras ocasiões, porém falar sobre isso ali, no meio da mata e com a expedição em curso, simplesmente não parecia certo. Deixava o ar pesado e fazia brotar um clima de receio.
Daniel tentou finalizar o assunto antes que os colegas criassem caraminholas na cabeça.
— Bom… Toda expedição tem seus desafios. — Ele pigarreou — Falta de suprimentos, problemas mecânicos, ferimentos. Mas faz parte do trabalho, e viemos preparados para isso.
Houve um aquiescer geral, e retomaram a caminhada. Não haviam avançado nem dois minutos adiante quando Elena levantou a mão e fez um gesto para que parassem.
— Estou ouvindo água. — Ela informou — Deve haver um riacho mais adiante.
— Uma parada estratégica não seria de todo ruim. — Rômulo comentou, conferindo seu relógio de pulso — Já é uma da tarde. Vamos acender um fogo e almoçar.
Apesar da disposição do grupo ainda estar alta, ninguém se opôs à ideia de um descanso para uma refeição. Apertaram o passo na caminhada e menos de 10 minutos depois estavam às margens de um córrego estreito e cristalino. O som da água corrente era um alívio, bem como a sombra das árvores que os protegia do calor implacável do sol a pino.
Elena se ocupou em juntar madeira para acender uma fogueira rápida, enquanto o restante da equipe se ocupava em limpar um espaço decente entre as árvores para se sentarem e almoçar. Aproveitaram também para reabastecer alguns dos cantis que já estavam pela metade, e Ebony montou a grelha novamente para cozinhar a ração de carne com batatas que comeriam.
Com os preparativos já encaminhados, Lucas sentiu uma súbita vontade de urinar. Se afastando de volta mata adentro, apenas comentou com Daniel:
— Vou ali rapidinho.
O amigo assentiu com a cabeça, entendendo o recado.
Lucas caminhou alguns metros até encontrar um lugar onde os arbustos eram mais densos e postou-se por trás do tronco de uma grande aroeira. Não havia nem terminado de abrir o zíper da calça quando um som diferente na mata chegou até seus ouvidos. Era um farfalhar sutil, mas ritmado, como se algo se movesse entre a folhagem.
E incomodamente próximo a ele.
Engolindo em seco e controlando a respiração para reprimir o arrepio gelado que lhe subiu pela nuca, fechou o zíper e se virou lentamente na direção de onde o som tinha vindo. Não viu absolutamente nada, mas permaneceu com os ouvidos atentos. Não tinha sido apenas impressão.
Ao longe, escutou Daniel chamar seu nome e dizer que a refeição já estava quase pronta. Quase de imediato, o som na folhagem se repetiu, e Lucas pôde jurar ter visto um movimento rápido num arbusto próximo. Ele não se considerava medroso, mas detestava com todas suas forças não saber com o que estava lidando. E a última coisa que ele queria era ser surpreendido por uma cobra venenosa ou coisa assim naquele fim de mundo.
Lucas permaneceu imóvel por mais alguns instantes, atento, e escutou Daniel o chamando uma segunda vez. Encarando o arbusto e se convencendo de que não sairia nada dali, suspirou e endireitou a postura. Não havia nem terminado de virar o corpo na direção de onde tinha vindo quando um pequeno animal preto pulou de trás da aroeira e se postou bem à sua frente. Pego de surpresa e assustado com o movimento repentino o assistente recuou, porém tropeçou em falso e caiu de costas no chão. Seu coração acelerou e, por um breve instante, o ar lhe faltou. Apoiando o corpo nos cotovelos e se levantando aos poucos, logo viu o que estava diante dele.
Era um filhote de onça-preta.
Com o pêlo negro escuro como um poço de piche e os olhos dourados brilhando de forma intensa sob a luz que atravessava as copas das árvores, o filhote o observava com curiosidade. Parecia inofensivo, mas Lucas não queria pagar pra ver.
— Ei, psiu! — Ele chiou a meia voz, estalando os dedos — Vai embora! Sai daqui!
A pequena onça apenas inclinou a cabeça de um lado para o outro, tentando entender o que aquele ser desengonçado na sua frente estava fazendo. Nunca tendo visto nada parecido com aquilo antes, se sentou sobre as patas traseiras e apenas continuou onde estava.
— Você é uma gracinha, mas precisa ir embora. — Lucas seguiu, se erguendo devagar e ainda tentando espantar o bicho — Vai, vai pra casa.
A movimentação do ser desengonçado despertou nova curiosidade no filhote. Se levantando também, deu um miado na direção do assistente e se aproximou, cheirando-o. Lucas estacou, imóvel como um poste. Não queria assustar ou fazer qualquer outra coisa que levasse o filhote a notá-lo como uma ameaça e, por consequência, o atacasse. Ele odiaria a si mesmo para o resto da vida se tivesse que se livrar do ataque de um filhote de onça na base do soco.
Entretanto, de forma contraditória, o pequeno felino até então não havia demonstrado nenhum sinal de hostilidade. Ao contrário, parecia genuinamente curioso em vê-lo e não demonstrava receio em se aproximar.
Ela nunca deve ter visto um ser humano, ele concluiu. Não tem razão para nos temer.
Enfim chegando até o assistente, a oncinha cheirou a barra de sua calça e pareceu intrigada com os cadarços de suas botas, batendo neles com as patinhas dianteiras como um gato que brinca com um novelo de lã. Mesmo ainda extremamente cauteloso, Lucas não pode deixar de achar fofa a cena que acontecia aos seus pés. O filhote jogava os cadarços de um lado para o outro e armava pequenos botes para saltar sobre eles, vez ou outra olhando para cima como se esperasse alguma reação do homem.
O assistente enfim se permitiu dar uma risadinha da situação.
— Então você quer brincar comigo? Não sei se é uma boa idéia. — Comentou.
Sua fala pareceu atrair a atenção da pequena onça, que largou os cadarços de lado e o encarou, miando de forma surpreendentemente adorável para um animal que um dia seria um enorme predador. Erguendo-se sobre as patas traseiras, unhou de leve as pernas da calça de Lucas, como se o convidasse a interagir. Ainda achando tudo aquilo extremamente fantástico, ele lentamente se ajoelhou e estendeu a mão aberta na direção do filhote, que se esticou e cheirou-lhe as pontas dos dedos.
A oncinha realmente não dava nem o menor indício de que via em Lucas algum tipo de ameaça, e ele se permitiu relaxar um pouco. Até arriscou fazer um carinho de leve no queixo do pequeno felino.
— Tsc, tsc. — Ele murmurou — Sua mãe não vai gostar muito disso.
— O que você está fazendo? — A voz de Daniel se fez ouvir de súbito por trás dele — Achei que você tinha se perdido.
Virando-se para olhar sobre o ombro, viu seu amigo de pé alguns metros atrás e com um semblante preocupado, estando acompanhado por Ian e Ebony. Logo se tocou que havia demorado mais do que imaginara.
— Me desculpem. — Lucas soltou — Eu tinha vindo mijar, mas encontrei esse coleguinha aqui.
Ele virou o corpo um pouco de lado para que os outros também pudessem ver o filhote de onça, que os encarou de volta com olhar atento.
— Onde você encontrou esse bicho? — Ian questionou com seu típico tom de voz baixo, porém a mão na empunhadura do fuzil estava visivelmente retesada.
— Apareceu do nada, por trás daquela árvore. — Lucas apontou — Se aproximou e começou a interagir comigo.
Ele balançou a mão no ar e a oncinha tentou acertá-la com a patinha.
— Isso é incrível, amigo, mas não me parece muito bom. — Daniel observou, olhando em volta.
— Não mesmo. — Ebony emendou, a voz tensa — Um filhote tão novinho… Os pais não iriam deixá-lo sozinho por muito tempo. — Ele também olhou em volta e destravou seu fuzil — Vamos embora.
Lucas suspirou. Por mais mágica que aquela interação tivesse sido, ele reconhecia que não era ideal para o filhote, pois poderia comprometer sua segurança no futuro ao lhe dar a falsa noção de que a convivência com o ser humano é pacífica.
— Pois é, amiguinho. — Ele disse para o filhote, agitando a mão no ar novamente para afastá-lo um pouco — Foi legal te conhecer, mas preciso…
Um farfalhar de folhas foi ouvido bem à frente de Lucas, interrompendo sua fala. Desprevenido, ele levantou a cabeça e se deparou com outro par de olhos dourados que o observava de volta de forma hostil e ameaçadora a menos de três palmos de distância. Com apenas a cabeça e os ombros à mostra entre os arbustos e a pelagem ainda mais preta do que o filhote, a onça mãe havia se aproximado silenciosamente e parecia não gostar do que estava vendo.
O assistente sentiu todo o sangue fugir de seu rosto e seus membros fraquejarem. Com uma cabeça tão grande quanto a sua e presas enormes à mostra, o felino o encarava de forma intensa, franzindo as bochechas e produzindo um som gorgolejante em sua garganta que lembrava um motor V8 roncando em marcha lenta. Estava com as patas visivelmente posicionadas em posição de ataque, pronta para saltar sobre Lucas.
Lá atrás, Daniel, Ebony e Ian também ficaram congelados em seus lugares ante o súbito aparecimento da onça, mas o negro logo se recompôs e empunhou seu fuzil M16, apontando-o para o animal. Estranhamente, foi impedido por Lucas, que ergueu a mão para trás num gesto de impedimento.
— Não atire. — Ele sussurrou, quase gaguejando — Não podemos matar este animal.
— Quê?! Você ficou louco?
— Lucas?! — Daniel fez menção de avançar, sendo contido por Ian.
A movimentação e o barulho dos homens pareceu irritar ainda mais a onça mãe, que miou na direção deles e bateu uma das patas no chão, calando-os. Ela estava pronta para atacar, e esta constatação fez Lucas perder completamente a força nas pernas. Escorregando vagarosamente, caiu sentado no chão e, pela primeira vez em sua vida, contemplou a própria morte. Sem ter o que fazer ou como fugir e sentindo-se subitamente desesperançoso, apenas aguardou e pediu que aquilo acabasse logo, sem forças até para chorar.
A onça avançou dois passos firmes, olhando bem nos olhos do homem à sua frente e rosnando com a boca aberta, mas então se deteve. Vendo que Lucas havia caído sentado no chão, o filhote aproveitou e pulou em seu colo, girando sobre suas pernas e roçando seu corpinho contra a camisa dele para se coçar, ronronando de satisfação.
Aquilo pareceu deixar a onça mãe intrigada. Vendo seu filhote interagindo com aquele homem de forma pacífica e provavelmente percebendo que o homem não lhe faria nenhum mal, ela observou a cena por alguns instantes com um olhar intenso. Depois do que pareceu uma eternidade, ela olhou bem nos olhos de Lucas e grunhiu baixinho. A oncinha imediatamente pulou do colo do homem e correu na direção da mãe, miando.
Tão logo o filhote passou por baixo de suas patas, a mãe miou alto na direção dos homens e encarou o assistente uma última vez, se virando e sumindo com seu filhote para o meio da folhagem.
Ainda um longo tempo se passou antes que alguém esboçasse alguma reação. Sentindo-se sufocado e só então se dando conta de que estava prendendo a respiração, Lucas deitou-se de costas no chão e puxou o ar pela boca, arfando pesadamente enquanto uma tremedeira resultante da descarga de adrenalina lhe percorria o corpo. Daniel saiu de onde estava e correu até ele, segurando-o pelos ombros.
— Você está bem? — Ele perguntou, já correndo os olhos pelo corpo do amigo em busca de ferimentos.
— Vou ficar. — Lucas conseguiu responder, ainda trêmulo — Vamos sair daqui.
Ian e Ebony esquadrinhavam a mata atentos a qualquer ruído ou movimento, mas perceberam que estavam de fato seguros. Quando Daniel conseguiu ajudar Lucas a se levantar, os orientaram a ir embora logo.
— Provavelmente estamos no território dela. — Ebony observou, virando-se para Lucas — E só não viramos lanche porque, por alguma razão, aquele gatinho foi com a sua cara. Parabéns, Branca de Neve.
O assistente deixou a provocação passar, empertigando-se e se pondo a caminhar sozinho.
— Vamos embora. — Ele resmungou, num tom de voz estranho — Preciso trocar de roupa e comer alguma coisa depois dessa experiência.
— Você não disse que tinha vindo mijar? — Daniel questionou, lembrando do que o amigo dissera anteriormente.
— Não preciso mais. — Lucas se virou de frente para ele, apontando a própria calça — Já me mijei.
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