A Cidade de Prata
9 Capítulo VIII
Durante a tarde o calor parecia emanar do próprio chão. Sob o peso de seus corpos e mochilas, o tapete de folhas mortas rangia seco e quebradiço, liberando um cheiro acre de poeira e matéria em decomposição. Mosquitos zumbiam preguiçosos, pousando na pele suada dos exploradores apenas para serem espantados com gestos irritados.
Daniel e Elena lideravam o grupo com o semblante firme, olhos cravados no chão à procura de qualquer pista que pudesse sugerir um caminho antigo — fosse um fragmento de cerâmica, um pedaço de entalhe, ou apenas um desnível incomum no solo. Atrás deles, Lucas caminhava calado. Após o encontro com a onça ele estava mais introspectivo, os olhos voltando-se constantemente para as sombras densas entre os troncos. Parecia temer que, a qualquer momento, a pelagem negra fosse surgir ali de novo, acompanhada dos olhos âmbar e dentes brancos.
Rômulo, mais atrás, começava a sentir o desconforto da jornada. Com o colete encharcado de suor, ele se abanava numa frequência quase neurótica.
— Talvez eu esteja começando a me arrepender de ter vindo. — Bufou, comentando de forma obviamente irônica — Se soubesse que aqui era tão quente, tinha ficado no escritório com o ar-condicionado no talo e mandado vocês pra cá com meia dúzia de drones.
— Mas aí você não ia ter a chance de morrer de hipertermia, picado por um marimbondo gigante ou algo assim. — Provocou Elena, sorrindo enquanto abria o caminho com o facão.
— Ah, ótimo, obrigado pela lembrança — Replicou ele, lançando-lhe um olhar de falsa indignação.
Ian riu baixo.
— Pelo menos sem sinal de rádio, não tenho relatórios chatos para enviar para o escritório. Só espero que minha mulher não ache que fugi com alguma índia.
— Pode deixar que se a gente topar alguma tribo isolada, mando recado. — Disse Ebony, ajustando a alça do rifle. Seus olhos estavam atentos ao entorno, como se mapeassem cada detalhe da mata.
Daniel respirou fundo e, aproveitando que a equipe de Rômulo decidira trocar provocações entre si, voltou sua atenção para Lucas.
— E você? Está melhor?
Lucas tentou sorrir, mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Mais ou menos. Não paro de ver… a onça. Ela era tão silenciosa… Não sei como estou vivo.
Elena, à frente, parou um instante e se virou.
— A mata tem seus perigos, gracinha. — Disse, num tom quase carinhoso — Mas também é justa. A onça só fez o que faz para sobreviver. Só seguiu o instinto. Nós é que somos intrusos aqui.
— Não me consola muito, se quer saber. — Murmurou Lucas, passando a mão no rosto e ajeitando os óculos.
Avançaram por mais algumas horas em meio ao emaranhado vivo de troncos, cipós e samambaias. Por duas vezes Elena apontou pegadas recentes de caititu e tatu-canastra, e certa vez se abaixou para mostrar a Lucas uma marca de garras num tronco. O assistente empalideceu, mas não disse nada. O sol já declinava no céu, filtrando-se em faixas douradas que cintilavam na poeira suspensa do ambiente.
Foi só no fim da tarde que, ao contornarem um capão mais espesso, puderam enfim ver a montanha. Erguia-se ao longe como um gigante adormecido, imponente, coberta de floresta em quase toda a extensão de sua base e do topo, este último parecendo coroado por nuvens alaranjadas.
Rômulo suspirou, exausto mas fascinado.
— Então é pra lá que vamos…
— Sim — Disse Daniel, largado sua mochila no chão e abrindo o mapa que Ebony rabiscara. — Amanhã de manhã começamos a subir. Melhor acampar aqui hoje, perto desse riacho. Assim poupamos forças.
Sem discutir, o grupo se pôs a montar o acampamento. Elena procurou um local seco para a fogueira, Ian montou uma antena improvisada em meio a dois troncos e tentou em vão captar algum sinal. Ebony examinava o terreno com olhos experientes, registrando cada declive, cada pedregulho, cada velho tronco caído. Lucas, mais silencioso que nunca, se ajoelhou perto do riacho e lavou o rosto, como se quisesse acordar de um pesadelo.
Logo a fogueira crepitava, exalando um cheiro agradável de lenha em brasa. Ian mexia numa panela de alumínio onde ferviam pedaços magros de peixe seco com arroz, enquanto Rômulo já manuseava o bule outra vez para passar mais uma leva de café para o grupo. O som das labaredas misturava-se ao canto longínquo dos macacos guariba e dos urutaus.
Após posicionar um tronco próximo à fogueira para servir como banco, Ebony se afastou um pouco em direção à mata, para recuperar o fôlego enquanto conferia munições. Foi quando algo chegou aos seus ouvidos. Era um som baixinho de algo se movendo na mata. Folhas sendo pisadas, galhinhos secos se partindo enquanto algo abria caminho pela noite em algum lugar mata adentro.
Um arrepio gelado subiu por sua espinha. A história que Rômulo havia lhes contado sobre os grupos armados que ainda atuavam como cangaceiros na região lhe voltou à mente, e ele não conseguiu evitar pensar que aquele som poderia muito bem ser algum olheiro ou batedor de algum desses grupos vindo fazer um reconhecimento — ou algo pior — do acampamento deles. Olhou para os companheiros — Ian soprava o vapor da panela, Elena ajeitava um feixe de galhos, Daniel rabiscava o mapa, distraído. Nenhum deles havia notado o som. Melhor assim. Se estivesse certo, não queria espalhar pânico. Se estivesse errado… ao menos confirmaria sozinho.
Com movimentos lentos, ergueu-se e ajustou a correia do fuzil em torno do pescoço. O som no mato se repetiu — um arrastar, um estalo, depois silêncio. Ebony respirou fundo, sentindo o coração acelerar. Apertou o rifle contra o ombro e se aproximou dos demais em torno da fogueira, cada músculo em alerta.
— Não estou a fim de comer peixe. — Falou, tentando parecer casual — Vou dar uma volta, ver se consigo caçar algo que preste.
Rômulo o olhou com uma expressão questionadora e Elena ergueu o rosto, limpando o suor com o antebraço.
— Não vai longe demais. Já temos risco o bastante.
— Sou cartógrafo, lembra? Se me perder na mata, posso largar a profissão. — brincou ele.
Empunhou o rifle, amarrou o cantil na cintura e sumiu mata adentro, caminhando como quem faz parte do lugar. Antes de sair, fez questão de fazer contato visual com Ian e lhe passar o recado silencioso de que algo não estava certo. O outro assentiu num gesto quase imperceptível e passou a mão pela coronha de seu próprio rifle, assegurando que ficaria de olho no acampamento.
O interior da mata fechava-se mais e mais à medida que Ebony se afastava do acampamento. O cheiro de terra molhada e cogumelos aumentava. Ele avançava em silêncio, evitando galhos secos, tentando se misturar com a floresta e sumir de vista enquanto mantinha os ouvidos atentos a cada som — um farfalhar, um estalo, qualquer coisa. Seus olhos treinados distinguiam nuances no verde que escapariam a qualquer outro, mas naquele momento cada sombra lembrava a silhueta de um chapéu de couro, cada tronco retorcido parecia esconder uma emboscada. A tensão latejava em sua testa.
Então, quando estava prestes a gritar um desafio para a escuridão, a figura que surgiu entre os troncos não era de homem algum, mas de um ser improvável: um veado branco. O animal tinha olhos claros e o pêlo alvíssimo, parecendo emitir luz própria sob a tênue luz da lua que conseguia vencer as copas das árvores. Ebony congelou. O rifle permaneceu meio erguido, mas sua respiração vacilou. Ebony ficou momentaneamente maravilhado, sem saber o que fazer. Mas antes que pudesse decidir qualquer coisa o veado se virou para encará-lo e, um segundo depois, saltou para o mato.
— Droga — Murmurou.
Num impulso, seguiu-o. Galhos arranharam seu rosto e braços, o coração disparado tanto pela corrida quanto pelo que representava aquele animal. Um veado branco… sinal de boa sorte, diziam os velhos. Ou então um presságio de que algo extraordinário se aproximava.
Avançou mais uns cinquenta metros antes de perceber que o veado sumira de vista. Então abaixou-se e se escorou nos joelhos, recuperando o fôlego. Foi aí que, mesmo no escuro, notou algo estranho sob seus pés. O chão não era apenas terra macia — era regular, quase nivelado demais. Limpou com a mão uma camada grossa de folhas e raízes e ali, sob a manta de detritos da floresta, surgiram blocos de pedra. Cobertos de limo ressecado, mas inegavelmente talhados e encaixados por mãos humanas.
Ebony estremeceu. Levantou-se e seguiu adiante, passando o rifle de um ombro para o outro. Uns dez metros depois, encontrou o que restava de um meio-fio baixo, quase engolido por samambaias. Era uma estrada. Uma estrada de pedra, antiga, abandonada, engolida pela floresta. E levava… para onde? Levantando os olhos, percebeu que ela seguia exatamente em direção à base da montanha.
—X—X—X—
Quando Ebony voltou ao acampamento, já era noite fechada. As estrelas piscavam entre galhos altos, o fogo iluminava rostos tensos. Ele surgiu quase sem fazer barulho, o que fez Ian dar um pulo.
— Porra, Ebony! — Exclamou o especialista em comunicações. — Quer me matar do coração?
— Relaxa — Disse o cartógrafo, rindo. — Trago boas notícias.
Daniel ergueu a cabeça, os olhos brilhando na luz da fogueira.
— Conseguiu caçar algo?
— Não. Mas achei algo melhor que comida.
Todos se viraram para ele, atentos. Ebony respirou fundo, saboreando o momento.
— Uma estrada. De pedra. Enterrada na mata, mas nitidamente artificial. Muito antiga.
Daniel quase derrubou o caderno que segurava.
— Tem certeza do que viu?
— Absoluta. Sei diferenciar rocha natural de calçamento. Blocos bem alinhados, sulcos que indicam que carruagens ou carroças passavam por lá. E segue adiante, direto para nordeste.
O arqueólogo se virou para Rômulo, levemente esbaforido.
— Você trouxe a cópia do Manuscrito?
Rômulo entendeu o que ele queria.
— Claro! Vou pegar.
Rômulo levantou-se, excitado, e foi até sua mochila. Voltou de lá trazendo o calhamaço de folhas amareladas e entregou-o a Daniel, que folheou-o com um cuidado quase religioso até encontrar o trecho que queria.
— Aqui! Logo na primeira página. — Ele apontou, recitando o trecho específico com fervor — “Sucedeu correr um negro e descobrir por este acaso o caminho entre duas serras, que pareciam cortadas por artifício, e não pela Natureza”.
Ele levantou os olhos e encarou Rômulo e Lucas, e nos olhos de ambos refletia a inconfundível chama da sede do descobrimento.
— Este pode ser o caminho direto para a cidade! — Rômulo comentou, esfuziante — Se o caminho existe, então a cidade deve existir também! Ninguém deve ter pisado por estas terras em séculos. Imaginem o que encontraremos!
Instaurou-se um clima festivo entre a equipe, mesmo que a única evidência do descobrimento de algo até o momento fosse apenas a palavra de Ebony.
— Vamos inspecionar essa estrada amanhã. — Decretou Daniel — Se ela foi construída para chegar à cidade, ela nos poupará horas, talvez até dias, abrindo caminho pela mata na base do facão. É onde teremos mais chances de fazer novas descobertas.
Lucas conseguiu esboçar um sorriso.
— E com sorte, menos chances de encontros com onças.
Elena, que remexia as brasas, ergueu o olhar.
— Não contem vitória tão cedo. Estradas antigas costumam guardar segredos… e armadilhas. — Ela acabou dando de ombros — Mas é, sem dúvida, nossa melhor pista.
O grupo caiu num silêncio pensativo. Ian mexeu em seu rádio outra vez, mas só obteve estática. Ebony se sentou um pouco afastado, afiando o facão lentamente, olhos perdidos na escuridão. Parecia esperar que o veado branco surgisse de novo, como um fantasma da mata.
Daniel abriu o diário de couro e começou a rabiscar linhas febris, anotações, esquemas do que poderiam encontrar. Às vezes murmurava para si mesmo sobre colunas, arcos, moedas, nomes romanos esquecidos.
Rômulo andava de um lado para o outro, batendo palmas nos ombros como se quisesse expulsar insetos imaginários. Talvez fosse só nervosismo. Investira muito dinheiro naquela empreitada, e pela primeira vez sentia que poderia ter retorno.
Quando o jantar terminou, Elena contou uma história sobre antigos coronéis que mandavam enterrar ouro em potes, protegidos por mandingas, para ninguém achar. Lucas ouviu fascinado, apesar do medo. Ebony riu baixo, dizendo que preferia topar com assombrações do que com um bando de cangaceiros atrasados no tempo.
A noite avançava. O vento trouxe um cheiro úmido de flores noturnas. O fogo começou a baixar, estalando preguiçoso. Acima, a lua se ergueu, pálida e magra, filtrando-se entre galhos retorcidos como uma lâmina branca.
Ali, às margens daquela montanha silenciosa, o pequeno grupo de aventureiros adormeceu lentamente, embalado pela expectativa do que encontrariam na manhã seguinte — e pelo leve arrepio de quem pressente que a mata guarda mais do que simples raízes e cipós.
Fale com o autor