Quando os primeiros sinais do amanhecer surgiram como um fiapo de luz fria no horizonte, erguendo-se sobre as serras que desenham o horizonte de Minas Gerais, a caravana já havia rodado muitos quilômetros. Daniel apertava o volante da L200 com força enquanto o motor roncava grosso, quase vibrando em seu peito, e a vibração lhe trazia uma estranha excitação. Ao lado dele, Rômulo ajeitava papéis num fichário pesado, conferindo coordenadas com um dedo ágil, enquanto Ian, silencioso, estava distraído com o celular no banco traseiro. Atrás deles, pelo espelho retrovisor, Daniel via as luzes do Dodge Journey conduzido por Lucas, sempre disciplinado no volante, quase colado na traseira da caminhonete. Ebony e Elena ocupavam o banco de trás, a silhueta dos dois projetando-se contra o brilho avermelhado do painel digital.

A BR-040 ainda estava envolta em um lençol de neblina esbranquiçada, serpenteando entre as serras em direção ao norte de Minas e cercada por matas que dormiam sob sombras azuladas que iam se desfazendo conforme a manhã vinha chegando. Com a claridade, pequenas fazendas apareciam às margens da rodovia, com galpões metálicos úmidos de orvalho e bois parados em cercas, observando o comboio como sentinelas imóveis. O sol irrompeu por fim, explodindo em tons alaranjados. Ian usava um boné puxado sobre os olhos e apenas soltava um ou outro resmungo conforme o astro se erguia, forte demais para quem estivera acordado a noite inteira, enquanto Daniel e Rômulo ainda conservavam a excitação com a qual haviam saído de BH. O arqueólogo tamborilava os dedos no volante, vez ou outra cantarolando alguma música baixinho, e o empresário se remexia no banco.

Entre uma remexida e outra, Daniel percebeu que às vezes Rômulo parecia inquieto.

— Algum problema? — Perguntou, só para quebrar o silêncio.

— Nada. Só repassando mentalmente o que faremos quando chegarmos à Bahia. — O empresário sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos — É que já venho alimentando esse desejo de conferir a veracidade do Manuscrito 512 a tanto tempo que não estou sabendo bem como reagir agora que estamos de fato indo a campo.

Daniel apenas torceu os lábios num gesto de entendimento silencioso.

Seguiram por mais umas três horas, cortando pequenas cidades com nomes miúdos pintados em placas enferrujadas, até chegarem a Bocaiúva, onde finalmente pararam num posto à beira da rodovia para tomar café da manhã. O cheiro inconfundível de pão de queijo recém-saído do forno se espalhava pelo pátio, misturado ao aroma amargo do café forte servido em copos grossos.

— Vamos dar uma esticada nas pernas. — Daniel anunciou em voz alta, descendo da caminhonete.

Lucas encostou o Journey logo atrás e desceu num pulo, estalando os joelhos.

— Ainda bem. Eu ia começar a dormir com o carro andando — brincou, espreguiçando-se — Já tem um bom tempo que não pego estrada.

Elena e Ebony também desceram do carro, sacudindo a sonolência, e Ian se juntou a eles logo. Rômulo chamou Daniel e Lucas com um gesto de mão, apontando para o restaurante do posto, e seguiram até lá. Os três se sentaram numa mesa próxima a uma das janelas, enquanto Ian, Ebony e Elena permaneceram apoiados no balcão. E enquanto o cartógrafo e a mateira confabulando sobre aventuras que já haviam tido no sertão mineiro, Ian permanecia calado, mexendo no celular.

— Seu Ian fala pouco, hein? — Daniel comentou com Rômulo, num tom casual, observando a cena discretamente.

— É o jeito dele. Prefere observar a falar. — Respondeu Rômulo, dando de ombros e cruzando as pernas — Mas é um bom rapaz.

Logo apareceu uma garçonete simpática para pegar os pedidos. Com tudo anotado, ela foi para a cozinha e voltou em poucos minutos, servindo a todos com generosas porções de pão de queijo, pão com linguiça ou pernil, queijo minas, broa de fubá e café com leite fresco. E apesar de tudo estar extremamente saboroso, tiveram que se conter e comer moderadamente, para evitar enjôos durante a viagem que ainda tinham pela frente. Mesmo assim, todo mundo pediu que uma porção ou outra fosse devidamente embalada para viagem para comerem mais tarde.

O relógio passava pouco das 10 horas da manhã quando finalmente terminaram o café e seguiram em frente. Dali em diante, a paisagem começava a adquirir ares mais áridos, deixando o verde para trás e se tingindo cada vez mais de laranja e bege, como uma lenta imersão no clima semiárido do Nordeste brasileiro.

Em ambos os carros acabavam passando a maior parte do tempo conversando amenidades como futebol, os desdobramentos de algum reality show fútil ou os novos modelos de carro lançados por uma ou outra marca, como se quisessem guardar todas as especulações e entusiasmo sobre a jornada envolvendo o Manuscrito 512 para serem discutidas in loco, potencializando assim o sabor de quaisquer possíveis descobertas. A única exceção foi quando estavam passando por Montes Claros e Rômulo passou um bom tempo falando sobre uma incursão sua no sítio arqueológico da Lapa Pintada para estudar um conjunto de conchas amazônicas que havia sido encontrado junto às pinturas rupestres da região, sugerindo uma incrível interação entre os povos originários do local com habitantes do Norte do país.

Acabaram também presos em um engarrafamento próximo ao trevo de Capitão Enéas devido a uma carreta cuja carga de carvão havia tombado na rodovia. E quando enfim liberaram a pista, todos se sentiam um pouco cozidos pelo sol quente. Seguiram pela BR-122, passando por Janaúba e subindo até Porteirinha, onde pararam para almoçar quando já passava das duas e meia da tarde. O calor nordestino se tornava cada vez mais presente conforme iam deixando Minas Gerais para trás.

— Eu confesso. Até agora acho incrível pensar que estamos mesmo indo pra Bahia atrás de uma possível cidade perdida. — Comentou Lucas, enquanto procurava seus óculos escuros no porta-luvas de seu SUV.

— Quase parece loucura. — Devolveu Daniel, rindo, escorado na lataria do carro — Mas não é a primeira vez que nos metemos em algo assim. E no fim das contas, não são loucuras assim que movem a arqueologia?

Lucas chegou a esboçar um sorriso para engatar uma resposta, mas foi aí que ouviram um baque metálico vindo da traseira da caminhonete de Daniel. O arqueólogo se virou rápido e viu Ian e Ebony ao lado do veículo, com a tampa da caçamba aberta e um dos caixotes de madeira caído ao chão.

— O que foi isso? — Ele questionou, se aproximando — Tá tudo certo com vocês?

Ian olhou para ele e apenas fez que sim com a cabeça.

— Tudo. Foi só um acidente.

Daniel assentiu e já ia se virando quando enfim notou. Ebony estava ajeitando a tampa do caixote quando entreabriu-a o suficiente para que seu conteúdo refletisse a luz do sol.

Mas que merda é essa? — Ele soltou, o rosto se contraindo enquanto ele impedia Ebony de fechar o engradado e puxava a tampa de volta, confirmando o que ele achava que tinha visto.

Armas.

Rifles, pistolas e várias cartelas de munição cuidadosamente empilhadas.

O arqueólogo encarou os outros dois com uma expressão aturdida e o rosto vermelho.

— Por que diabos tem um arsenal dentro do meu carro?

Ebony ergueu as mãos, quase em sinal de paz.

— Achei que o chefe tinha acertado essa parte com vocês. Só estamos seguindo as orientações dele.

Lucas chegou logo atrás, colocando os óculos escuros.

— O que tá acontecendo?

— Armas. O caixote tá cheio delas. — Daniel apontou com o queixo, o cenho ainda franzido de pura incredulidade.

O assistente ficou boquiaberto.

— Em que momento combinamos de trazer armas para a expedição?

— Não combinamos. — Daniel respondeu, com um tom frio, vendo Rômulo saindo do banheiro do restaurante.

Decidiram, então, resolver aquilo de forma direta. Caminharam até Rômulo e o chamaram de forma discreta para o lado do restaurante, onde uma cerca viva fazia uma pequena barreira sonora. O empresário nem teve tempo de perguntar o que estava acontecendo antes de Daniel disparar:

— Rômulo, você não nos disse nada sobre levarmos armas na expedição. — O olhar dele era intenso e enojado — Mas tem um caixote na traseira da caminhonete com armamento suficiente pra declarar guerra a um país pequeno. O que está acontecendo? Por que você não nos falou sobre isso?

Rômulo arqueou as sobrancelhas, como quem é pego de surpresa mas tenta manter o controle.

— Eu ia explicar quando chegássemos à Bahia. Não queria alarmar vocês antes da hora.

— Alarmar? Isso é coisa séria, porra! — Daniel estalou os dedos na lateral da coxa, inquieto.

— Escutem. — Rômulo baixou o tom e ergueu a mão, subitamente sério — A região para onde estamos indo não é exatamente segura. Há relatos de grupos armados atuando por lá, como se fosse um tipo de “cangaço moderno”. Têm dado muito trabalho à polícia baiana. — Ele olhou bem nos olhos dos outros dois — Espero do fundo do coração que não cruzemos o caminho de nenhum desses bandos, mas também não quero arriscar a vida de ninguém.

Lucas cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha e respirando fundo.

— Sei lá... Isso não me convence totalmente.

— Mas também não temos motivo para achar que ele mentiria para nós. — Murmurou Daniel, sem tirar os olhos de Rômulo — Temos?

O empresário fez que não com a cabeça, abrindo um discreto sorriso conciliador.

— Podem ficar tranquilos. Eu garanto que é só por precaução.

Voltaram para o restaurante e almoçaram em silêncio. Quando seguiram viagem, o humor estava estranhamente carregado, como se partilhassem algum tipo de segredo terrível, mas ninguém comentou nada a respeito.

Estando cada vez mais próximos da divisa com a Bahia, a paisagem ao longo da estrada mudava de forma cada vez mais visível: o cerrado dava lugar a uma vegetação mais rasteira e espaçada, o chão avermelhado surgia em trechos erodidos, e enormes formações rochosas despontavam aqui e ali como guardiões adormecidos. Quando enfim cruzaram de um estado para o outro e chegaram a Guanambi já era noite, e decidiram parar por ali mesmo. Encontraram um hotel no centro da cidade, simples e bem limpo, com varandas de ferro que rangiam sob o peso dos passos.

Daniel e Lucas dividiram um quarto de camas gêmeas. Assim que finalizaram o check-in e fecharam a porta, Lucas largou o corpo no colchão, exalando um suspiro longo.

— Que dia.

O arqueólogo sentou-se na beira da outra cama, tirando suas botas e suspirando também.

— Eu ainda não engoli a desculpa do Rômulo. — Comentou — Não estou feliz com esse monte de armas na traseira do meu carro.

— Você acha que ele mentiria pra gente? — Lucas indagou, sem se dar ao trabalho de levantar o corpo.

Daniel vinha pensando sobre isso desde a hora do almoço.

— Eu acho que não. — Respondeu, ainda relutante — O Rômulo tem uma reputação muito boa pra se meter com porcaria. Mas mesmo assim não acho que isso justifique carregar armamento tão pesado numa expedição tão pequena.

Lucas rolou na cama.

— E o Ian? O que você achou dele?

O arqueólogo deu de ombros.

— Veio calado praticamente a viagem inteira. Ou ele é muito tímido, ou muito prático no que faz. — Ele tirou o colete e a camisa, indo até a janela que dava para a avenida — E o Ebony e a Elena?

— O Ebony parece bem simpático. Até demais, eu diria. Não tira o sorriso do rosto pra nada. Rende qualquer assunto que você converse com ele. — Ele franziu a boca — E a Elena é bem mais seca. Ela até conversou um pouco com a gente, mas percebe-se que é mais por convenção social mesmo do que por estar a fim de conversar. Mas parece ser o tipo de pessoa que a gente ia querer ter ao nosso lado se nos perdêssemos no mato.

Daniel fez que sim com a cabeça, pensativo.

— Olha, Lucas… Eu ainda estou muito animado com a possibilidade de explorar a cidade do Manuscrito. Mas depois dessa última… — Ele encarou o amigo — Espero que a gente não esteja se metendo numa furada.

— Eu também. — Lucas tirou a camisa também, recostando-se sobre o travesseiro — Mas agora não temos muito o que fazer a não ser ficarmos em alerta.

— Ou isso, ou saímos na calada da noite, largamos eles aqui e voltamos pra BH. — Daniel provocou, jocoso.

— Não seria uma idéia tão ruim assim. — Ele deu uma risada baixinha, pondo-se de pé e tirando a bermuda — Eu vou tomar um banho. E já estou pensando seriamente em ir dormir.

— Eu também devo apagar logo. — O arqueólogo emendou — Vamos descansar bem essa noite porque amanhã a uma hora dessas já devemos estar nos preparando para caminhar mata adentro.

— E sabe lá Deus quando vamos tomar um banho quente de novo. — Gritou o outro lá do banheiro.



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Na manhã seguinte, o café foi servido numa varanda de ladrilhos coloniais, com cuscuz fumegante, potes de geleia caseira e garrafas térmicas rangendo ao serem abertas. Como este último trecho da viagem era bem mais curto, apenas pouco mais de 200 quilômetros, se deram ao luxo de não acordar tão cedo.

Quando o grupo se reuniu na varanda, Daniel e Lucas tentaram manter o clima leve, brincando sobre quem comeria mais pão. Em algum momento Ian apareceu com o celular na mão, mostrando a eles uma rota alternativa caso encontrassem trechos esburacados, e Rômulo parecia completamente relaxado, mexendo no café como se fosse um turista em férias.

Só voltaram para a estrada após o almoço, com aquela mesma ansiedade que sentiam ao sair de BH voltando a lhes causar um congelamento no estômago. A perspectiva de explorar o desconhecido. A esperança de desenterrar um pedaço inédito da história. Daniel respirou fundo, sentindo o calor seco que começava a dominar o interior da caminhonete. Manobrou o veículo e parou ao lado do SUV de Lucas.

— Pronto para essa última perna? — Perguntou, lançando um olhar rápido e cheio de significado para o amigo.

Lucas também respirou fundo, engatou a marcha do SUV e assentiu.

Bora.