Passava pouco das 4 da tarde quando atravessaram o distrito de Bom Sucesso e se embrenharam no último trecho da viagem. O que deveria ser uma estrada era, na verdade, praticamente uma trilha acidentada parcamente aberta a facão no meio da mata que desembocava às margens de uma lagoa que os locais chamavam de Banhado da Onça. Não fosse a tração 4x4 dos veículos, jamais teriam chegado até ali com tantos equipamentos.

Contornando a lagoa até encontrar um descampado grande o suficiente para montarem um campo-base, Daniel e Lucas estacionaram a caminhonete e o SUV embaixo de uma árvore frondosa, deixando-os relativamente fora da vista de quem viesse pela estrada. Finalmente desligando os motores, todos puderam descer e esticar as pernas.

O clima entre Daniel e Rômulo ainda estava relativamente estranho e o arqueólogo ainda não havia comprado 100% a justificativa que o empresário lhe dera para o emprego de armas na expedição, mas ele também não protestou quando viu Ian e Ebony descarregando os caixotes da traseira da L200.

— Este lugar vai ser ótimo para passar a noite. — Rômulo esfregava as mãos de contentamento — Podemos descansar e organizar nossas coisas para partirmos amanhã bem cedo.

Elena, Ian e Ebony já estavam cuidando da montagem de suas barracas, e Daniel e Lucas se puseram a fazer o mesmo. Dado seu entrosamento e a experiência de ambos, em menos de uma hora já estavam com a barraca montada e suas mochilas organizadas. Feito isso, trataram de recolher galhos secos e algumas pedras maiores na beira da lagoa para montar uma fogueira. Cavaram um buraco circular raso num local mais limpo de vegetação e o cercaram com as pedras, dispondo alguns galhos mais finos no centro num formato de cone e logo os acendendo com um isqueiro. Também arrastaram dois troncos secos de buriti que encontraram próximos à lagoa para perto do fogo, a fim de servirem de banquinhos.

O pessoal de Rômulo, também finalizando a montagem de sua parte do acampamento, tratou de se dividir para ajudar no preparo do jantar. Ebony e Ian alimentaram a fogueira com mais lenha e logo apareceram com uma grelha, montando-a sobre o fogo e colocando uma panela com água para ferver, onde preparariam um macarrão instantâneo. Elena sumiu para dentro da mata por um tempo e logo voltou com várias frutas a tiracolo, como buriti, umbu e araticum. A contribuição de Rômulo foi um café passado no bule para tomarem mais tarde.

O sol já sumia por trás das serras que desenhavam o horizonte quando julgaram que os preparativos já haviam sido finalizados. Mesmo após dois dias de viagem, aquela movimentação para construir este primeiro campo-base havia servido como uma injeção extra de ânimo na equipe. Estavam de fato iniciando a expedição. E quando se sentaram em volta da fogueira e Ian finalmente serviu um bom prato de macarrão para cada um, as animosidades do dia anterior iam aos poucos dando lugar a um crescente entusiasmo para as próximas etapas da jornada.

E com a refeição generosa e a melhora no humor geral, acabaram se rendendo às conversas triviais de acampamento enquanto a noite reclamava seu lugar no céu e os sons dos animais noturnos começava a ecoar pela mata.

— Eu nunca consigo me acostumar. — Comentou Lucas, depondo a tigela em que havia comido aos seus pés e esticando as mãos para o fogo, fazendo um sinal com a cabeça para as árvores do entorno — Com esse isolamento, eu quero dizer. Saber que estamos tão longe de qualquer civilização, apenas com a natureza ao nosso redor.

Elena deu uma risadinha abafada.

— Se acha isso estranho, devia ter visto minha primeira expedição na Amazônia. — Ela mastigou algo fazendo barulho — Foi bem antes de eu vir trabalhar com o Rômulo. Tinha sido contratada para localizar rastros de uma tribo isolada, mas, do nada, fomos cercados por uma neblina tão densa que não dava pra ver um metro à frente do nariz. Nosso guia sumiu no meio da neblina e, por umas boas quatro ou cinco horas, eu jurei que ia ser comida por alguma coisa.

— E aí? — Lucas perguntou.

— O filha da puta apareceu do nada, dizendo que havia sido só um teste. Que se não conseguíssemos nos manter calmos, não valeríamos de nada na floresta. — Ela deu de ombros — Dei uma joelhada no saco dele e ficamos quites.

Risos nervosos e contrações involuntárias foram ouvidas.

— Foi um bom teste. — Rômulo soltou entre os dentes.

— Foi mesmo. — Ebony concordou, com o olhar fixo na fogueira — Mas sinceramente, não sei o que é pior: ficar perdido ou encontrar algo que não deveria.

Os demais o encararam.

— Como assim? — A pergunta foi de Daniel.

— Uns dois anos atrás, estava com uns amigos numa expedição na fronteira com a Bolívia, e um deles jurou ter encontrado uma tumba pré-colombiana intacta. A gente começou a cavar ao redor, tirando fotos e tudo mais. E quando finalmente abrimos, achando que encontraríamos um tesouro ou algo assim, encontramos apenas… ossos. E de uma pessoa bem menos antiga do que gostaríamos.

O silêncio reinou por breves instantes.

— E aí? — Ian indagou — Descobriram quem tinha feito isso?

— Ninguém quis descobrir. — O outro emendou — Voltamos para o nosso acampamento e desmontamos nossas coisas. Fomos embora na manhã seguinte. E não preciso nem dizer que aquele lugar nunca foi nem catalogado.

Rômulo, que também já havia acabado de comer, escorou os cotovelos nos joelhos num gesto pensativo.

— Algumas coisas devem permanecer enterradas para sempre. — Ele comentou, para ninguém em específico — Nem toda descoberta deve ser revelada ao mundo.

Daniel também largou seu prato e estreitou os olhos, achando o comentário do empresário um tanto intrigante.

— Você diz isso como alguém que já encontrou algo que preferia ter deixado escondido. — Pontuou.

— Digamos apenas que o mundo tem muitos segredos. — Rômulo devolveu, empertigando-se — E alguns deles podem ser perigosos.

O grupo ficou em silêncio por um instante, com apenas o crepitar do fogo preenchendo o ar e o clima de estranheza do dia anterior voltando a se fazer presente, mesmo que de forma sutil. O vento balançava as árvores e as chamas da fogueira numa dança suave e primordial.

— Tudo bem, eu não quero ir me deitar com esse climão. — Lucas comentou, jogando mais um galho no fogo e se virando para Rômulo — Pode pelo menos contextualizar seu comentário?

O empresário o encarou de volta, com um semblante misterioso. Pareceu avaliar por um momento se deveria compartilhar ou não com os outros o que se passava em sua cabeça, mas por fim suspirou e abaixou os olhos.

— Tudo bem. Vou contar a vocês algo que aconteceu há alguns anos.

— Lá vem causo… — Ebony soltou, jocoso.

— Não é causo. — Rômulo corrigiu sua postura, numa atitude firme — Foi algo real, que eu mesmo presenciei.

Os outros se ajeitaram em seus lugares, de repente curiosos com a seriedade que o empresário assumiu.

— Foi em uma expedição da Fundação no interior de Minas Gerais. — Ele balançou a cabeça — Estávamos mapeando alguns registros sobre quilombos antigos, buscando vestígios de comunidades de escravizados que fugiram e formaram seus próprios assentamentos na região de Diamantina.

Daniel e Lucas se entreolharam, particularmente interessados.

— E você encontrou algo? — O arqueólogo perguntou.

— Encontramos. — Rômulo assentiu — Mas não da maneira que esperávamos. Um velho pesquisador da região nos indicou mais ou menos uma área onde, segundo relatos passados de geração em geração, teria existido um quilombo escondido. A região era de mata fechada, muito difícil de alcançar. Seguimos por trilhas muito antigas e fechadas, e depois de dois ou três dias de busca finalmente encontramos as ruínas do quilombo.

Todos se inclinaram para frente.

— E…? — Foi Helena quem soltou.

— A princípio não parecia haver nada demais. Identificamos ruínas de casas de taipa e cercas de bambu e cipó, cacos de cerâmicas enterrados no solo, evidências de antigas plantações… Mas a coisa mais estranha foi o cemitério.

O silêncio era quase palpável, quebrado apenas pelo crepitar da fogueira.

— Cemitério? — Lucas, hesitante.

— Sim. Covas rasas sem nenhuma marcação espalhadas de maneira bastante desordenada. Parecia que tinham sido feitas às pressas. E após uma análise inicial, alguns dos restos mortais que encontramos estavam em posição incomum, como se tivessem morrido tentando fugir… ou se esconder.

Uma brisa fria soprou da lagoa, deixando o clima ainda mais sinistro.

— Teria sido algum ataque? — Daniel arriscou um palpite.

— Foi nossa primeira suposição. Alguns documentos em nossa posse falavam sobre uma expedição bandeirante que teria passado por aquela região. — Rômulo fez que sim com a cabeça, mas logo olhou para o céu, subitamente contemplativo — Mas o que nos deixou assustados mesmo foi o que aconteceu naquela noite.

Alguém engoliu em seco de forma ruidosa.

— Nosso acampamento havia sido montado próximo às ruínas do quilombo. Por volta das duas e meia da manhã, um dos nossos guardas nos acordou, apavorado, dizendo que tinha ouvido sussurros vindos da mata, e que não era o vento. — Rômulo olhou nos olhos de cada um — Ele jurou que diziam “Fujam! Eles estão vindo!”.

— E você ouviu também? — Ebony questionou.

O empresário suspirou fundo antes de responder.

— Sim. — Ele balançou a cabeça com pesar — E não foi só uma vez. Todos nós ouvimos. Eram como vozes baixinhas, desesperadas, que pareciam sair de trás das árvores em volta do acampamento. Parecia que queriam… sei lá, nos alertar.

O barulho de um galho seco se partindo na mata quase fez o grupo pular de susto. Risadinhas nervosas saíram da boca de alguns, mas Daniel permanecia atento à história de Rômulo.

— Continue.

— Bom… Saímos de lá na manhã seguinte. — O empresário seguiu — Mas antes de partirmos, um dos pesquisadores locais, um cara chamado Almeida, decidiu registrar o cemitério. Ele tirou várias fotos e coletou algumas cerâmicas para análise.

Rômulo olhou para o fogo com intensidade nos olhos, como se revivesse aquele momento.

— Quando voltamos para Diamantina, ele quis divulgar nossas descobertas. Dizia que tínhamos que tornar pública a localização daquele quilombo, dar reconhecimento para aquela gente. Mas o que aconteceu depois…

— O que aconteceu?

— Tudo desapareceu.

Foi como se todos levassem um tapa na cara. Se entreolharam, inquietos e confusos.

— Como assim, desapareceu?

— As fotos não estavam no cartão de memória da câmera. Como se nunca tivessem sido tiradas. E as cerâmicas que ele levou para análise simplesmente se esfarelaram assim que foram tiradas da mochila. E o Almeida… bom, ele ficou obcecado. Dizia que ainda ouvia os sussurros da floresta chamando por ele todas as noites. Cerca de um mês depois ele saiu sozinho para tentar voltar às ruínas… e simplesmente sumiu. Nunca encontraram nenhum rastro ou vestígio dele. — Rômulo suspirou fundo, voltando a olhar para a fogueira — Jamais cogitamos voltar naquele lugar.

A brisa fria que subiu da lagoa outra vez era o ponto final que o relato do empresário precisava.

— Bom… — Daniel se arriscou a dizer algo apenas para não deixar o clima pesado se instaurar — Talvez algumas coisas devam mesmo permanecer esquecidas.

— Exatamente. — Rômulo encarou o arqueólogo — Algumas histórias pertencem ao tempo, e mexer com elas pode trazer consequências que ninguém está preparado para enfrentar. Consequências que fogem à nossa explicação racional.

Houve uma concordância geral no grupo. Relatos como aquele não eram exatamente novidade para ninguém ali, e as últimas palavras do empresário haviam sido cirúrgicas. O crepitar da fogueira, antes um foco de calor acolhedor, agora soava como um atestado de realidade, como se endossasse a história de Rômulo como verídica.

Lucas foi o primeiro a demonstrar seu incômodo, jogando mais um pedaço de lenha na fogueira.

— Tudo bem, já entendemos, o mundo é cheio de mistérios. Agora alguém pode, por favor, contar uma história minimamente engraçada? Não quero dormir de olhos abertos essa noite.

—X—X—X—

O canto dos primeiros passarinhos se fez ouvir antes mesmo que os primeiros raios de sol atravessassem as ralas copas das árvores que cercavam o acampamento e dissolvessem a leve bruma que subia da lagoa, trazendo um clima pacífico que contrastava fortemente com o ambiente da noite anterior.

A equipe de Rômulo já estava de pé quando Daniel e Lucas saíram de sua barraca. Ebony e Elena já se encontravam ocupados, desmontando suas barracas e recolhendo equipamentos que levariam nas mochilas. Ian, que estava diante da fogueira tomando um café recém coado e examinando o mapa que os guiaria a partir dali, os cumprimentou.

— Bom dia.

— Bom dia. — Os dois amigos devolveram em uníssono.

— Café? — Ian ofereceu.

— Lógico. — Lucas aceitou — Nada melhor para espantar a lombeira depois de uma noite de sono atribulado.

— Eu que o diga. — Elena passou comentando por trás dele — Fui atacada por formigas a noite inteira, não consegui fechar os olhos nem por um minuto.

Os homens a encararam.

— Sério?

— Foi um pesadelo. — Ela confirmou — Tinha um trilho de formigas inteiro em cima do meu saco de dormir. Mas enfim. Pelo menos montei a guarda do acampamento.

— Bem, senhores, a diversão acabou. — A voz de Rômulo se fez ouvir em tom professoral, quando ele saiu de sua barraca usando um pijama flanelado xadrez e veio até o lado de Ian para espiar o mapa também — Temos um longo caminho a percorrer hoje. Se quisermos encontrar pelo menos o caminho até a montanha brilhante antes de anoitecer, melhor acelerarmos o passo.

Os demais assentiram.

— Bom dia, chefe. — Ian surgiu com outra caneca de café e entregou-a ao empresário — Conferi o GPS agora a pouco. Se não tivermos nenhum imprevisto pelo caminho, devemos encontrar algum vestígio da estrada antiga que leva ao topo da montanha ainda hoje.

— Se isso acontecer, nossa caminhada vai ser bem mais tranquila. — Rômulo emendou, dando uma bicada em sua caneca.

— Só espero que essa estrada seja menos traiçoeira do que as histórias de ontem à noite. — Daniel soltou, também se servindo de um pouco de café.

Rômulo deu uma risadinha prepotente.

— Relaxe, Daniel. Muito em breve todos nós teremos mais histórias interessantes para contar.

— Espero que não envolva ossos recentes. — Lucas cruzou os braços e se aproximou da fogueira — Ou ecos sombrios do passado.