A Cidade de Prata
10 Capítulo IX
O dia ainda bocejava no horizonte quando Daniel acordou, os ombros ligeiramente doloridos pelo peso do sono mal dormido sobre o chão duro. O céu tingia-se de cores incertas, um roxo que se diluía num laranja pálido. Sobre as brasas quase mortas do acampamento, o ar ainda dançava em ondulações quentes.
Milagrosamente, Rômulo já estava de pé, aprontando um cappuccino e passando as mãos pelo rosto amarrotado. Daniel se aproximou com a cópia do manuscrito nas mãos.
— Quer repassar mais algum detalhe? — Perguntou, erguendo o caderno.
Rômulo respirou fundo, os olhos brilhando apesar do cansaço.
— Não precisa. — Respondeu — E eu nem consegui dormir essa noite, pensando em tudo que passamos até agora. Saímos de BH com a pretensão de apenas investigar a possibilidade de uma descoberta, e cá estamos nós com ela praticamente se materializando diante do nosso nariz. A parte do caminho calçado que o Ebony encontrou é o que mais me deixa arrepiado.
Daniel correu os olhos pelas páginas amareladas até encontrar o trecho que citara na noite anterior, uma transcrição quase poética:
“Sucedeu correr um negro e descobrir por este acaso o caminho entre duas serras, que pareciam cortadas por artifício, e não pela Natureza; com o alvoroço desta novidade principiamos a subir, achando muita pedra solta e amontoada por onde julgamos ser calçada desfeita pela continuação do tempo”.
— O caminho está aqui — Disse Daniel, batendo com o indicador na folha amarelada — E pensar que o Ebony literalmente tropeçou nele.
— Agora já temos o caminho certo a seguir. Só falta achar a cidade. — Rômulo sorriu largo, como um menino otimista — E isso, Daniel, vai nos tornar imortais. Pelo menos nos livros de história.
—X—X—X—
Logo o acampamento virou um formigueiro. Elena recolheu os restos da fogueira, garantindo que não deixassem rastros além dos inevitáveis. Ian desarmou as barracas do grupo de Rômulo, enquanto Lucas fazia o mesmo com a que havia dividido com Daniel. Ebony revisou o mapa que estavam usando, rabiscando nele a localização aproximada da estrada enquanto parecia conferir algo nas enormes mochilas de suprimentos que ele e Ian levariam.
Finalizados os preparativos, reuniram-se e tomaram um café em grupo. Quando enfim partiram, o sol subia veloz e os raios filtravam-se pelas copas das árvores em lanças douradas que faziam o ar parecer tecido. Neste primeiro trecho, deixaram Ebony guiar. Ele apontou a direção que havia seguido na noite anterior, quando avistara o veado branco, e os demais o seguiram. Só houve um pequeno momento de hesitação da parte do cartógrafo quando passaram pelo local onde ele vira o animal, já que ele prestara mais atenção ao bicho do que ao entorno, mas não demorou muito para que ele visse um caminho que lhe parecesse mais familiar entre a vegetação. Conforme iam andando o chão seco logo se tornava menos agressivo, as moitas se afastavam umas das outras, e então a viram: a estrada.
Era impossível confundir. As pedras cinzentas, cobertas de musgos ressecados, se alinhavam numa perfeição que a natureza sozinha jamais alcançaria. Mesmo as raízes grossas que se enroscavam sobre o caminho pareciam reverentes, contornando os blocos como serpentes tímidas. Pequenas touceiras de capim e algumas raras florezinhas amarelas brotavam nas fendas do que outrora havia sido uma espécie de meio-fio.
— Não dá para negar — Disse Ebony, com um sorriso contido. — Homem algum colocaria tanto esforço nisso apenas para perder-se na floresta.
Não teve resposta imediata, no entanto. Daniel, Lucas e Rômulo pareciam ter entrado em algum tipo de torpor. Contemplavam o calçamento da estrada como se estivessem diante de toda a reserva de ouro do Fort Knox, e vez ou outra alternavam olhares arregalados e expressões boquiabertas entre si. Mais atrás, Elena também observava a estrada e o caminho que ela abria entre as árvores com uma expressão respeitosa, reconhecendo o trabalho dos construtores, enquanto Ian parecia mais atento à vigilância da retaguarda do grupo, escaneando os arredores em busca de qualquer coisa que parecesse errada.
Visivelmente emocionado, Daniel agachou-se, passando a mão pelas pedras, quase um afago.
— Ela existe. De fato, ela existe… — Ele falou, para ninguém em particular — Séculos… Sabe lá Deus quantos anos... Essas pedras viram o Brasil nascer. Viram o Império cair… e continuam aqui.
— Esperando por nós. — Rômulo emendou, num tom clichê e carregado de orgulho.
Lucas, menos lírico, ainda demonstrava certa ansiedade, mas o fato de não precisarem abrir picada com o facão o deixava visivelmente aliviado. Passado o momento de contemplação inicial, Rômulo insistiu que se reunissem para tirar uma foto. Tirou uma câmera de sua mochila e a posicionou sobre um galho perpendicular de uma árvore mais afastada, acionando o timer e voltando depressa até o grupo. O empresário, bem como Daniel e Lucas, ostentavam um sorriso tão largo e sincero que mal lhes cabia no rosto. Feito o devido registro fotográfico, o grupo avançou por aquela artéria pavimentada esquecida no sertão, o som de seus passos parecendo ressoar pelas pedras e ecoar pela mata ao redor.
Seguindo pela estrada, a caminhada foi infinitamente mais fácil do que haviam imaginado. O caminho não era reto, mas serpenteava pelos flancos das elevações do terreno, vencendo o aclive aos poucos, em largas voltas. As árvores tornavam-se mais altas e delgadas conforme se aproximavam da montanha, filtrando a luz num verde fosco translúcido. O cheiro forte de terra seca e poeirenta foi dando lugar a um ar mais fresco, quase frio. O vento descia pelas encostas, trazendo um sussurro constante que parecia falar numa língua que nenhum deles compreendia, porém sentiam como um arrepio gelado em suas costas.
Passava de uma hora da tarde quando enfim chegaram à base da montanha de fato. A estrada, relativamente plana até então, subitamente inclinava-se e subia. A mata, que até então ladeava a caminhada alternando entre árvores altas, arbustos finos e touceiras de espinheiros, dava lugar a uma vegetação relativamente mais baixa e ordenada em ambos os lados, mas ainda assim ultrapassando com folga a altura de suas cabeças.
— Vamos almoçar aqui e descansar um pouco antes de subir. — Daniel anunciou — Assim temos o resto da tarde para caminhar com calma e, se tudo der certo, acampar lá em cima.
Os demais assentiram e se sentaram num gesto quase ensaiado. Ebony apareceu com a grelha e Ian com alguns pacotes de frango xadrez. E enquanto a refeição era preparada, Daniel, Lucas e Rômulo engataram uma animada conversa sobre as avançadas técnicas de calçamento da Roma antiga e como ali eles sentiam que estavam caminhando pela própria Via Ápia. Elena, sentindo-se avulsa, embrenhou-se momentaneamente na mata para procurar alguma fruta e voltou com uma boa quantidade de grumixamas pretas.
Almoçaram em silêncio, a ansiedade percorrendo seus corpos como eletricidade estática. Rômulo e Daniel tamborilavam os pés, enquanto Lucas ajeitava os óculos que parecia teimar em escorregar por seu nariz. Terminando o almoço, tiraram ainda um bom tempo para chupar as frutinhas que Elena havia encontrado. Ian e Ebony aproveitaram ainda para conferir seus mapas e GPS e confirmaram que aquela montanha se tratava, de fato, da mesma elevação que havia sido fotografada pela equipe da Fundação que estava a bordo do avião pego pela tempestade.
O relógio já passava das duas da tarde quando enfim decidiram continuar subindo. O almoço já havia assentado e todo mundo já havia recuperado o fôlego e se reidratado o suficiente para mais esta etapa do percurso. Rômulo caminhava um pouco à frente, quase apressado demais, como se temesse que a estrada evaporasse caso não a seguissem logo.
— Nunca pensei que fosse dizer isso, mas que bom que existiu Roma. — Murmurou ele, rindo sozinho — Se não fossem eles com suas manias de calçamento, teríamos levado pelo menos um dia inteiro só pra chegar até o pé da montanha.
— Sinceramente, eu estou agradecendo é ao Universo. — Emendou Daniel, mantendo o tom baixo, como se temesse quebrar o encanto do momento — Se o Ebony não tivesse tropeçado nessa estrada por acidente, estaríamos cortando picada pela mata no braço.
De onde estava, o negro abriu um sorriso e fez uma saudação com a mão direita. Elena, que mantinha o facão em punho só por precaução, olhava ao redor com uma expressão quase suave.
— Sabem o que é estranho? — Pontuou ela — A mata aqui é bonita… diferente. Menos opressiva. Parece até que respeita o caminho.
Lucas, logo à sua frente, respirou fundo e olhou em volta, parecendo finalmente absorver a beleza do lugar sem o medo imediato de felinos.
— Talvez eles a tenham moldado assim. — Comentou.
Lá da frente, Daniel fez que sim com a cabeça.
— É bem provável.
— Talvez esse lugar seja sagrado, de alguma forma. Chegaram a cogitar essa possibilidade? — Completou Ebony, sério — Alguns sítios têm uma energia que você sente nos ossos.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas não desagradável. Era como se todos ouvissem algo que não estava no ar, mas nas próprias pedras sob seus pés. Um chamado da própria História.
Após algumas horas de subida, o verde começou a rarear. As árvores antigas davam lugar a arbustos baixos e rochedos nus. O caminho de pedras continuava, embora mais irregular e com o calçamento se soltando em vários pontos. E então, quase sem aviso, terminou. Não em ruína ou desmoronamento, mas num portal natural. Ali, a estrada de blocos cessava diante da boca escura de uma caverna. Era larga o suficiente para passar uma carroça, com paredes altas onde o tempo e as intempéries haviam desenhado estranhos sulcos. Mas, olhando atentamente, notaram formas retilíneas, desgastadas demais para serem claras, mas sugestivas o bastante para congelar Daniel.
— Gente! Olhem isso aqui. São… colunas. — Disse ele, num sussurro quase religioso, mostrando formações em ambos os lados da entrada da caverna — Veja, Lucas… aqui e aqui. O capitel, se é que dá para chamar assim, está erodido, mas… é inconfundível.
Lucas passou a mão pela pedra. Ela estava fria e levemente úmida. Sentiu algo pulsar ali — talvez fosse só seu próprio sangue, acelerado demais pela adrenalina.
— Então… entramos? — Perguntou, num tom que era metade excitação, metade receio. Ou respeito. Ele não sabia dizer.
— Não viemos até aqui para parar na porta — Respondeu Rômulo, que parecia quase trêmulo.
Olharam ao redor e notaram que o sol já se aproximava do horizonte, sua luz já começando a adquirir o tom alaranjado do crepúsculo. Não teriam tempo de fazer a descida para o outro lado, mas tentariam pelo menos atravessar a caverna e dar uma olhada na vista enquanto ainda havia luz do dia. Todos empunharam suas lanternas e Elena ainda tirou um lampião de sua mochila, acendendo-o. Trocando olhares apreensivos e respirações profundas, o grupo seguiu em frente, com Rômulo à frente.
O interior da caverna não era o que esperavam. Não era escura e sufocante, nem parecia uma catacumba saída de um filme de terror. Pelo contrário, logo ao avançarem alguns metros, viram brilhos pálidos surgirem nas paredes, como se pequenos vaga-lumes estivessem ali incrustados. Aproximando-se, Daniel tocou e abriu um sorrisinho emocionado.
— Cristais… quartzo. — Direcionou o facho da lanterna para uma das paredes — Vejam como refletem a luz.
Elena segurou o lampião alto e o feixe amarelo dançou pelas paredes, revelando saliências cobertas de pontas translúcidas. Era como caminhar por dentro de um geodo colossal. A luz se multiplicava nos cristais, gerando pequenas auroras cintilantes que faziam o teto parecer um céu invertido, cheio de estrelas geladas.
— Isso explica tudo — Balbuciou Rômulo — Quando o raio atingiu a montanha, a equipe do avião disse que ela brilhou. Agora eu entendo o porquê.
— Pois é isso — Disse Daniel, apontando ao redor. — Toda essa formação deve ser um gigantesco corpo de quartzo branco. Do ângulo certo, sob o sol forte ou uma descarga elétrica, deve reluzir como se fosse de fato brilhante. — Ele procurou os olhos do empresário — A montanha de cristais citada no Manuscrito.
O arqueólogo empunhou a cópia do documento novamente e encontrou o trecho em questão, lendo-o para os colegas:
— “Depois de uma longa peregrinação, descobrimos uma cordilheira de montes elevados; o luzimento que de longe se admirava, principalmente quando o Sol fazia impressão ao cristal de que eram compostos, que ninguém daqueles reflexos podia afastar os olhos.”
— E que nos trouxeram até aqui. — Disse Rômulo, sorrindo com uma emoção quase infantil.
Trocaram um sorriso emocionado e satisfeito antes que o arqueólogo guardasse o Manuscrito e voltaram a seguir pela caverna, que em alguns momentos parecia não terminar nunca. A cada curva mais e mais cristais surgiam, formando câmaras naturais onde o som de suas vozes retornava distorcido. Em certos pontos, o teto abria-se em fendas por onde caíam fachos estreitos de luz, tocando o chão com dedos luminosos que faziam o quartzo brilhar ainda mais intensamente, como se passassem por um caleidoscópio de escuridão e cristais transparentes.
Por fim, depois de quase uma hora avançando, o túnel começou a descer, até se abrir numa nova boca. Ali, o ar mudou — ficou mais úmido, carregado de aromas verdes. Daniel foi o primeiro a chegar e parou à entrada, olhando para o vale que se abria após a montanha e ficando totalmente sem palavras. Os outros chegaram logo atrás, e um a um ficaram imóveis, como estátuas.
Diante deles estendia-se o vale profundo, completamente cercado por muralhas naturais de pedra. Era como um grande anfiteatro, só que em escala colossal. Lá embaixo, a vegetação crescia espessa e alta, uma tapeçaria viva de todos os verdes possíveis. Mas entre as copas, surgiam claramente estruturas retangulares, cobertas de trepadeiras e musgo, pedras alinhadas em ângulos retos que nenhuma floresta criaria. E, destacando-se no centro, erguia-se o estopim inicial daquela expedição: uma coluna altíssima de pedra escura que parecia apontar diretamente para o céu.
Ninguém ousou falar por longos instantes. Era como se tivessem violado algo sagrado, um segredo guardado pela própria Terra por eras.
Estavam diante da cidade perdida. Ela era real.
Foi Rômulo quem quebrou o silêncio, a voz rouca:
— Encontramos. Meu Deus… nós encontramos.
Daniel assentiu, o rosto tomado por um sorriso quase incrédulo. Sentiu uma pontada atrás dos olhos, percebendo que lágrimas estavam a caminho. Respirou fundo.
— A cidade perdida. Ela existe… sempre existiu.
Lucas, postado ao lado do amigo, estava tão embasbacado quanto. Ele deu um passo adiante, como para garantir que o vale não fosse um delírio.
— É mais linda do que imaginei. — Ele comentou, tirando os óculos para secar os olhos marejados — E tão grande…
— E isso aqui é só o começo. — Daniel anunciou — Amanhã… descemos.
Seguiu-se um breve momento de silêncio enquanto trocavam olhares entre si mais uma vez. E então, como uma explosão, o silêncio foi quebrado por uma enxurrada de gargalhadas. Risos comemorativos, apertos de mão e abraços apertados foram trocados pelo grupo. Lágrimas de emoção correram livremente e gestos de vitória foram feitos em direção ao céu.
Estavam diante da maior descoberta arqueológica das últimas décadas.
— Vamos acampar aqui por cima mesmo. — Sugeriu Daniel. — Quero olhar isso a noite toda, se puder. Quero que essa visão fique gravada até nos meus ossos.
E assim fizeram. Instalaram o acampamento num pequeno terraço rochoso à direita da entrada da caverna. Enquanto montavam as barracas, Daniel e Rômulo vez ou outra paravam e contemplavam a cidade novamente, como se dividissem um mesmo sonho.
Quando o sol começou a se pôr, a coluna lá embaixo pegou o último raio e brilhou como uma tocha de pedra. Foi um momento tão breve quanto eterno. Daniel inspirou fundo, fechou os olhos e pensou que nada do que vivera antes se comparava àquilo. E quando os abriu, teve certeza de que o mundo não seria mais o mesmo.
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