A Chance for You
51 Save Me - Kariya Masaki
Notas iniciais
Um sono maravilhoso tomava conta de seu corpo cansado. Foi um dia cheio. É incrível a sensação de enfim deitar e relaxar os músculos. Dormir é realmente um dos prazeres da humanidade. Sua cama contribuía com aquela maciez e o clima noturno era prazeroso, nem congelante, nem abafado; temperatura ambiente. Porém infelizmente isso foi interrompido por uma chamada do toque barulhento de seu celular. Quem poderia ser em plena meia noite e quinze da madrugada? A contragosto, atende com sua voz embebecida de sono. Devia estar no estado mais profundo do mundo dos sonhos; é horrível despertar antes da hora.
— Alô... — Respondeu ainda retomando consciência.
— Você precisa vir aqui. — Ordenou o dito cujo do outro lado da linha parecendo emburrado.
— Ahn? Kariya? O que você quer? — Indagou ao melhor amigo.
— Só vem aqui logo! — Esbravejou e desligou.
Você tentou retornar a chamada e enviar mensagens, mas tudo o que ele escrevia era pra você ir até sua casa agora. Então não teve escolha se não abandonar sua cama confortável e caminhar até a moradia do azulado e ver o que parecia o deixar apavorado.
As ruas de Inazuma são tranquilas à noite. Apesar de existir crime, a bandidagem raramente aparecia, sem falar que Kariya mora perto de sua residência, portanto não há com o que se preocupar. Chegando lá, dá umas batidas na porta e uma cabeleira azul te chama do alto da janela do quarto. Kariya lhe joga uma corda feita de lençóis e pede que você a escale.
— Kariya, endoidou? — Você exclama para o amigo meio insano.
— Vem! Prometo que não te deixo cair. — Assegurou o azulado.
— Mas por quê? O que aconteceu? — Todo esse mistério estava te preocupando.
— Você só vai entender quando entrar!
Sendo assim, ele não te deu escolha a não ser fazer aquela coisa sem noção. O bom é que a janela não é muito alta. Com esforço, enfim entrou no quarto de Masaki.
— E então? — O incitou a falar, mas notou que ele parecia estático, suava muito e não queria mover um músculo ao mesmo tempo que também hesitava em responder envergonhado.
— T-tem... Tem... Uma cobra aqui. — Falou por fim.
— Serio?! Onde?! — Perguntou aflita. É um assunto sério. Kariya apontou para um canto onde uma coisa comprida e estranha se escondia na escuridão do cômodo. Você estreitou os olhos achando algo errado e ameaçou se aproximar.
— Não! T-tá maluca? — Kariya pegou seu pulso desesperado.
— Mas Kariya... — O Masaki te cortou.
— Eu quero que você tire ela daqui, mas não quer dizer que quero que seja morta! — Esbravejou. Você não o dá ouvidos e vai até o suposto animal. Kariya fica em pânico.
De repente, você consegue agarrar a cobra travessa e a joga perto do garoto.
— Kyaaaaaa! — O azulado grita feito uma garota de anime shoujo totalmente em choque.
— Kariya, isso é uma cobra. — O acalma, mostrando o fio preto e um pouco grosso que de fato, parece o réptil venenoso.
— Isso não tem graça. Sabe que tenho medo delas, baka! — Reclamou ele indignado consigo mesmo por agir assim perto de uma garota.
— Tem razão, me desculpe. — Acariciou seus cabelos carinhosamente, se sentindo culpada pela brincadeira. Kariya tem uma fobia absurda de cobras.
Após o susto, foram até a cozinha beber algo. Você e Masaki eram amigos desde o Jardim do Sol. Ninguém conseguia o fazer abrir seu coração. Com a aceitação no time da Raimon, a perspectiva de Masaki mudou muito. Ele passou a acreditar e conviver com as pessoas. Já vocês dois, têm uma convivência mais longa em torno de sua história passada. Seus pais faleceram num acidente de carro com a mesma idade dele, ou seja, onze anos, e por isso, se identificou com o garoto. Mas Kariya nunca te aceitou. Não importa o que dissesse ou fizesse e de qualquer maneira, sua gentileza era repelida bruscamente.
Agora essa relação mudou um pouco, mas ainda assim, sentia que o azulado não confiava em sua pessoa, o que te entristece às vezes. Contudo, acabaram ficando amigos. Você se prepara pra se despedir e voltar pra casa. Era quase uma da madrugada.
— Espera. — Kariya impediu com um olhar melancólico. — Pode... Pode ficar aqui?
— Ahn... Não tenho certeza... — Você corou com o pedido inusitado.
— Digo, está muito tarde. — Disfarçou a timidez desviando os olhos.
Você acabou por ficar e dormir no quarto dele enquanto Masaki descansou na sala. Mesmo sendo um rapaz e uma garota sozinhos numa casa, sabia que ele não era de más intenções. Seu sono rapidamente foi retomado, mas novamente interrompido no meio da noite por uns gemidos sofridos. Se levantando, foi até a sala e encontrou o azulado transpirando e se mexendo muito. Provavelmente tinha um pesadelo. Não queria acordá-lo.
— Pai. — Murmurou de forma sofrida chamando a figura paterna. — Pai... Me ajude, me salve.
Uma ideia atrevida invadiu sua mente. Se abaixou a seu lado no sofá e acariciou seus cabelos o confortando. O gesto surtiu efeito e o garoto se acalmou aos poucos. Devia ter sonhado com o passado na infância. Desconhecia outros detalhes da vida de Masaki, porém imaginava sua dor ao ver o pai falido e ter que morar num orfanato.
Sua expressão parecia amena e pacífica enquanto dormia, algo raro de se ver pois ele sempre tinha uma cara de travessura. Um sorriso surgiu em sua face ao analisá-lo.
— Bonito.
Seus lábios encostaram sua testa e você voltou ao quarto.
❣ ✿ ❣
Embargada de sono, você inalou a suave fragrância masculina e sentiu um toque umedecer sua testa e outro mexer em suas madeixas, mas ainda estava entre consciente e inconsciente; inebriada. Até perder os sentidos novamente.
Mais tarde, acordou com os raios da manhã incomodando seus olhos. Kariya parecia não estar e deixou um bilhete ao lado de seu travesseiro.
“Obrigado. Eu nunca tive a chance de te agradecer.”
Você riu. Parecia estar constrangido demais para falar isso pessoalmente. E então, você percebeu algo ali junto com o papel. Uma delicada gargantilha que você reconheceu de imediato. Foi um presente que seus pais lhe deram num de seus aniversários. Mas como fora parar nas mãos de Kariya?
Você inspecionou o bilhete e atrás também tem algo escrito.
“Encontrei esse colar num dia que Hitomiko-san recuperou alguns pertences de todo mundo, trazidos no orfanato. E o guardei comigo. Queria te entregar, mas você sabe, naquela época eu era um idiota que não acreditava em ninguém. Então acabei esquecendo isso durante vários anos. Me desculpe.”
Uma lágrima trouxe lembranças de seus pais de volta por um curto momento. Agora está tudo bem, já passou. E totalmente surpresa, acabou descobrindo, ou melhor, constatando algo.
Kariya sempre se preocupou com você.
“...Eu nunca tive a chance de te agradecer...”
Ele não se referiu só pela cena de ontem.
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